Armindo Vaz, OCD

Os salmos são a oração do povo bíblico, expressão intensa da experiência do Deus transcendente. São palavra humana dirigida a Deus, desejo ardente de se suplantar e de fazer a experiência do divino. Os salmistas não queriam morrer. Rezando com os salmos, procuravam viver em Deus falando-lhe. A arte literária de uma cadeia anónima de poetas foi convertendo em oração a vida breve de cada um e a longa história do Israel antigo, que legou à humanidade a mais impressionante colectânea poética. Uma vez compostos, os salmos brindavam a palavra a novos orantes, para que também eles vertessem a sua vida diante do mesmo Deus. Não foram compostos para ser lidos. Querem ser rezados. E foi enquanto tal que fizeram história. Quem entra no seu espírito e na intenção para a qual foram compostos compreende-os melhor.

São oração em movimento, desde os gestos corporais a acompanharem a recitação até à dramatização da palavra e à exploração da sonoridade, da assonância, do paralelismo e do ritmo dos versos livres, que favorece a meditação e a memorização. Ignoramos todas as formas da sua execução. A dança daria brilho à recitação de alguns em ritos específicos. Outros supunham uma procissão litúrgica. Mas frequentemente seriam cantados, os solistas dialogando com um coro. Já S. Paulo o atesta: “De coração e com gratidão, cantai a Deus salmos, hinos e cânticos inspirados” (Cl 3,16; Ef 5,18-20). Cantá-los teria sido uma antiga prática corrente na sinagoga. A liturgia cristã, iniciada no canto e na salmodia das sinagogas, transportou para o novo culto melodias que foi aplicando à palavra dos salmos responsoriais. A partir do séc. IV nos mosteiros da Síria e, depois, do Ocidente difundiu-se a salmodia em coros alternados, até às assembleias cristãs de hoje.

Fora do espaço litúrgico, a palavra dos 150 salmos bíblicos tornou-se fonte fecunda de inspiração, oferecendo variedade inigualável e sugestivo material poético aos compositores de música clássica e de música erudita em geral, nos últimos cinco séculos. Prodigiosa florescência de composições deu-se no século de Santa Teresa de Ávila e de S. João da Cruz. Foi muito produtivo Pierluigi da Palestrina. No Seiscentos, século do máximo desabrochar da monódia – canto a uma só voz – acompanhada de instrumentos, Monteverdi continuou a musicar salmos em pura polifonia. Johann Sebastian Bach, inevitável num interminável rol de compositores, extraiu de fragmentos sálmicos numerosas cantatas e inumeráveis corais. A familiaridade com a Escritura descobria-lhe os mais secretos laços entre a arte musical e os níveis de significado humano e espiritual dos salmos. O seu contemporâneo Georg Friedrich Händel compôs várias antífonas a partir do saltério, sendo mais celebrado o seu Dixit Dominus, inundado de energia formidável e de vibrante dramatismo: graças à amplitude e agilidade vigorosa da composição, o salmo 110 liberta um brio e uma exuberância que nos deixam sem respiração. Mas também temos salmos musicados por Vivaldi e Mendelssohn Bartholdy, por Franz Liszt e Brahms, por Bruckner e César Franck. Liszt compô-los dialogando a solo com uma realidade viva e espiritual, que ele procurava encontrar e compreender. A Igor Strawinsky devemos a Sinfonia de salmos, “composta à glória de Deus”, que ilumina os céus da música contemporânea: está impregnada da espiritualidade total e hierática dos ícones bizantinos. É um quadro completo das tribulações da humanidade na sua peregrinação terrestre. Dando uma imagem sonora em que predomina a fé, termina com uma belíssima melodia quase imaterial.

Enlaçando com as interpretações musicais polifónicas – muitíssimas mais do que as mencionadas –, escutamos de coração as incontáveis e variegadas recitações dos salmos em todas as línguas da humanidade, no original e em traduções antigas e modernas, em todos os tempos e lugares da Terra, na sinfónica riqueza de execuções e de acentos, por solistas e multidões, em templos ou em celebrações campais. Confiados durante milénios à tradição oral e escrita, os salmos, na sua palavra nua inspirada e na sua poesia versátil, também já são grande música, saída de humanos e dirigida aos céus. Se a sua reinterpretação musical foi suscitando variedade de sentimentos pessoais e de emoções interiores, as diversas formas de rezá-los exprimiram horas de vida e de incalculável riqueza de conteúdos: de súplica e de louvor, de aceitação e de imprecação, de acção de graças e de dor pungente, por causa de histórias traumatizantes, por injustiças revoltantes, por guerras sacrílegas que profanam a dignidade humana, por provas superadas, por momentos de glória, pela contemplação do resplendor cintilante de quadros cósmicos majestosos. Quando uma assembleia litúrgica os recita ou canta sabe que milhões de assembleias e de pessoas estão em sintonia orante com ela, cantando uma melodia infinita que faz ecoar aspirações, sofrimentos e esperanças, que de toda a humanidade se elevam para o Alto.