Frei João Costa, OCD
1. Não alcanço imaginar jardim de uma só flor, embora umas vezes muito m’espante e outras tanto m’admire com a que desponta por entre calhaus, alguns com olhos. Mas é óbvio que uma flor só não faz jardim. E também me parece óbvio que se a flor chegou a sê-lo, muitas forças se congeminaram para que o seja: a ousadia do sol e um nico de terra húmida; pelo menos estas três: sol, terra e humidade; ah, e muito é também de considerar que por ali não haja passado tesoura de rufia, pé de bárbaro, ou bocarra de caprino; que se focinho de um dos três por perto passar, a flor já era.
E considero também que flor alguma o seja, sem que alguém a reconheça e a nomeie como tal. Ora vejamos: que importa à flor ser flor, porventura a mais bela do mundo, se não existirem olhos que a apreciem, coração que a cheire, abelhas que a beijem? Sim, que importa? Cá para mim, uma flor assim não o é, e pronto. Entenda-se que se aprecio uma jarra de flores numa sala de jantar ou numa igreja, junto de uma imagem, de igual aprecio um prado esmaltado de pequeninas margaridas selvagens levemente acariciadas pelo sol e pela brisa suave! São coisas, que querem que lhes diga.
As flores falam comigo; falam e mexem muito comigo. Mesmo aquelas cuja existência é um instante pequenino, como a papoila crescendo despreocupada na rachadura de um velho muro antigo em derrocada. Em boa verdade, não é preciso ser-se muito sensível para perceber uma flor; basta, talvez, um pouco de luz no olhar. E isso até os cegos têm.
2. Com isto quero apenas dizer o seguinte: uma flor só é uma flor só; mas só é flor se for vista, que toda a flor para que o seja precisa da luz do olhar de alguém. De contrário, mirra antes de se realizar, bem antes de chegar a jardim, mesmo que dê fruto.
3. Conheço pessoas com nome de flores, sobretudo mulheres. – De facto, tirando Jacinto e Narciso, assim de repente, não lembro nenhum outro nome masculino que seja flor; porque será? – E também conheço mulheres de nome Flor, e outra que a si própria se apelidou de Florzinha Branca. E tenho por mui excelso que, ao despontar para o mundo, ressoando ainda lágrimas e dores, a mãe nomeie: És linda como uma Rosa! És belo como um Narciso!
Que uma flor se realize, tal é a beleza sem par. É verdadeira beleza. Isto é, que um gerânio se realize como sardinheira, eis a beleza! Ou que no outono um amor perfeito floresça em pleno, nisso está a sua completa formosura, mesmo que frágil!
4. Sei de ciência certa que as flores não possuem coração. Às vezes duvido, mas não possuem, não. Mas são sensíveis à delicada atenção que lhes prestamos, à doçura do nosso carinho e ao tempero do nosso tacto – é preciso conversar com elas!, ouço dizer; ou seja, muitas vezes são mais sensíveis que algumas que o têm! Sim, se as flores não têm coração, as Flores e as Florzinhas têm-no. Embora, como digo, às vezes tal não transpareça. Ora ter coração, ao menos para nós, europeus, é muito mais que ter uma bomba que irriga de vida as pontas dos dedos, o cérebro, os rins, a língua, e a raiz dos cabelos. Bem sabemos que se a bomba cessar de bombear, tudo o resto para. – E agora reparo na sábia resiliência da flor: não tem coração, logo não tem bomba; mas tal como nós, também ela subsiste dentro do tempo que o Criador lhe determinou, e cumpre-se! – .
O coração, porém, repare-se bem, é mais que um motor, porque para nós, humanos, ele é a sede dos sentimentos. E curioso é verificar que na linguagem comum dizemos bom coração e mau coração, significando com isso pessoa de bons e pessoa de maus sentimentos, porque é ali que residem os sentimentos, os de cote, os mais nobres e elevados, os mais vis e baixos.
Sim, o coração é mais que um motor-bomba que nos move e eleva, é também a sede dos sentimentos e, sobretudo, lugar de interioridade, santuário secreto, morada interior aonde só Deus cabe, entra e mora!
Sim, é isso que hoje aqui me traz à eira destas páginas: afirmar e declarar a serena certeza de que no mais profundo e puro centro do coração humano, tantas vezes vil, Deus mora! Deus mora, sim, em mim, em ti; senão no aposento maior – porque lho não cedeste – , pelo menos no mais esconso e ignorado dos arrumos da alma. Sim, sim, Deus mora e demora-se em mim, em ti. Se aqui ou ali, se no trono que só Dele é, ou se naquele lugar que nem para ti quererias, isso já é decisão tua. Mas que mora, mora. E se aqui ou ali, Ele ri, chora ou acabrunha-se; mas a verdade mais sincera é a de que Ele jamais desespera.
Mas que mora, mora. E demora-se.
5. O que aqui escrevinho, faço-o no dia de Santa Teresa, a Grande. Sim, a Grande; para desgosto de alguns, bem grande! Grande, sábia e santa. E mulher. Mulher tão sábia e tão santa, que alguns para a reconhecerem Magna tiveram de dizer que se parecia um homem! Pobre Teresa, pobre mulher – mulher e anjo, embora, dizem, mais anjo que mulher! E logo tu que te sabias bela! Então os varões no turno do mando para reconhecerem a tua elevação, espiritual e carismática, houveram de obrigar-se a dizer-te parecida a um homem e dos mui barbados? Valha-nos Deus, Nosso Senhor, sua Mãe Santíssima, a Virgem da Caridade, e as Almas que lá estão! Pois, agora, com os olhos nas mãos de Teresa, a Grande, digo: eu sou, e tu és, meu irmão e minha irmã, morada de Deus!
Sim, eu sou e tu também és morada de Deus!
Sim, és. Poderás negá-l’O, poderás manter cerrada a porta, poderás ignorá-l’O, poderás esquecê-l’O; poderás esconjurá-l’O, virtualizá-l’O ou obliterá-l’O, mas tu és morada de Deus! Poderás, distraída ou intencionalmente, malquerê-l’O, ostracizá-l’O, ou preencher o tal aposento interior de lixo fétido. Sim, poderás fazer tudo isso, ou pior, mas ainda assim, seguirás sendo morada de Deus. Poderás não ser a maior, a mais aconchegada e florida, ou a mais bela das moradas, mas é-lo. Isso é assim de inegociável e irrenunciável, porque não provém do veio ou do círculo da tua vontade, mas da de Deus; logo a tua interioridade é jardim de Deus! Será o que for e como for, nas condições que forem, mas a tua interioridade é, declaradamente, lugar de Deus e para Deus!
Nisto discorri durante a novena da Santa Madre: Como é isso de ser-se morada de Deus? E, como aceita Deus morar tão frequentemente em choupana tão ruim e tão inóspita? E se somos morada de Deus – e de facto, ou somos casas ou choupaninhas habitadas por Deus – como é que, tão frequentemente, encontramos pessoas sentindo-se tão sós, tão isoladas, tão sem jardim? E ainda: a quem farei eu companhia e com quem andarei eu, ou de Quem me desandarei eu, para me sentir tão só, tão em solidão?
6. Para mim, viver o dia de Santa Teresa de Jesus, e lembrá-la como minha mãe, impele-me obrigatoriamente a aprofundar o valor da amizade, e a consciência de ser lugar de e para Deus. E que bem me faz lembrar a mãe! Bem merce ser lembrada sobre muitos aspectos; lembrá-la-ei, agora, aqui, apenas sobre um: o da amizade. De facto, não se pode falar de Santa Teresa sem se falar de amizade. Ignorar ou não valorizar o valor que ela lhe atribuía é não a conhecer, visto ela tanto estimar e promover a relação e a comunicação entre duas pessoas, como forma de colaboração no mútuo bem, e como meio da mais autêntica realização como pessoa. Creio até ser impossível lembrar na história da Igreja quem tão bem tenha sabido fazer amigos, tão bem os tenha tratado e apreciado, e tanto deles tenha sabido precisar.
7. Na família nascemos, os amigos conquistámo-los.
De si, Teresa dizia que quem lhe desse meia sardinha ali acharia amiga para sempre! E parece que era verdade, pois o seu carácter gentil, empático e extrovertido sempre lhe foi propício para arregimentar amigos! Era bem popular, reconheça-se… Aliás, quando de si fala, não sabe não falar de amizade entre amigos e da amizade com o seu «amigo verdadeiro». Diz-nos, por exemplo, que na adolescência foi muitíssimo amiga de seus primos, e quase se perdeu porque a levaram a amar «as vaidades do mundo»! – Exagera! – . Teve também uma profunda amizade com uma criada, mas esta, sim, esta se revelou mais perniciosa que a dos primos. Em face destes perigos, don Alonso, seu pai, atento e cuidadoso, logo tratou de interná-la como donzela secular no vizinho mosteiro das Graças, donde, abrupta, regressará a casa, ano e meio depois, por questões de saúde. Granjeara, porém, naquele colégio, a estima e a amizade da Irmã Maria Briceño, e será graças a esta que a sua vida começará a mudar de rumo – dos amigos para o Amigo; de facto, o modo como aquela religiosa agostinha falava de Deus, e o testemunho da sua vivência pessoal, levou Teresa a ponderar tornar-se freira, ao menos «para não se condenar eternamente».
De novo em casa, reacende, por sua vez, a amizade com a Irmã Juana Suárez, carmelita do mosteiro da Encarnação, e decide ir-se de freira para aquela comunidade. Quando o comunicou a seu pai, pronto e veemente ele se lhe opôs – que fosse depois que fechasse os olhos! Ante a negativa paterna Teresa cala-se. Calada, mas não vencida, acabará entrando ali, aos vinte anos, aproveitando a madrugada do dia de Fiéis Defuntos para fugir da casa do velho don Alonso. E pela mão levará consigo a seu irmão António, cinco anos mais novo, largando-o na portaria do convento dos dominicanos…
8. E ei-la no Carmelo. Não é ali de todo uma freira imperfeita, mas longe está de ser um arauto da maior perfeição ou um galaaz dos «amigos fortes de Deus». Ali passará vinte e sete cómodos anos, resplandecendo jovialidade, prudência, amabilidade e caridade, virtudes que a todas e a todos, de dentro e de fora, conquistavam. Ah, e outra coisa tomará sempre a peito, durante aquele tempo: «prestar atenção aos sermões, por piores que fossem»!
Vivia ali havia 25 anos, quando numas tertúlias de amigas que tinham lugar na sua cela – tertúlias integradas por jovens monjas e jovens senhoras seculares de Ávila – a sua sobrinha Maria Ocampo, de dezassete anos, a desafiou a empreender a maior aventura da sua vida: a fundação do pequenino carmelo de São José, de Ávila – o mesmo é dizer, sabemos agora, a reforma da Ordem do Carmo! Embora a ideia lhe agradasse, Teresa resistiu o mais que pôde, até que um dia, depois de comungar, o seu bom Amigo Jesus a confirmou e animou a deitar mãos à fundação. Esta se fará, de facto; e de ora em diante, Teresa jamais fará algo sem bater à porta e entabular diálogo com o seu Bom Amigo que lhe habita o jardim do coração!
E despedindo-se do mosteiro da Encarnação, das mudas e bem amadas testemunhas da sua abençoada trajetória religiosa e espiritual – a porta pela qual ingressara no mosteiro, as sólidas paredes como um castelo, o locutório onde Nosso Senhor a repreendera por deter-se em conversas mundanas, a cela em que habitara e onde tantas vezes com Ele se entretivera em colóquios sobrenaturais, a escada onde certa vez encontrara um belíssimo Menino que lhe declarou ser «Jesus de Teresa» – ligeira e leda subiu ela a colina de Ávila, levando consigo «quatro pobres órfãs e grandes servas de Deus», e o indispensável para a sua fundação de mulheres «descalças».
E ei-la no Carmelo Descalço.
A inauguração da primeira fundação deu-se a 24 de agosto de 1562; e tão-só as portas se fecharam em pós si, tão-logo se alevantou enorme rebuliço na cidade. Nessa mesma tarde, os superiores chamaram-na à pedra e repreendem-na, mas não lhe coibiram a fundação, apesar do mosteiro ter estado a pontos de ser demolido pelas autoridades! Valer-lhe-ão no gume da tempestade os amigos; a saber: São Pedro de Alcântara, São Luis Beltrão, São Francisco de Borja, o bispo D. Alvaro Mendoza, o Cavaleiro Santo, o Padre Gaspar Daza, o Padre Domingo Bañez, doña Guiomar de Olloa.
9. Restam-lhe vinte anos de vida e Teresa ainda o não sabe nem pode saber. Naquele curto espaço de tempo fundará 17 mosteiros de freiras – 15 em pessoa; e dois de frades. Como é que tal se consegue? Pois, assim de fácil: animando jovens vocações a encher mosteiros de monjas e conventos de descalços contemplativos, apoiando-se nos amigos, rezando e confiando em Deus, e vivendo sem jamais perder a paz.
Nos seus empreendimentos e fundações foram-lhe imprescindíveis todas as amizades, de todas as classes sociais, sem, porém, jamais cair no erro de as adular: as seculares, homens e mulheres, monjas, bispos, padres e frades; gente de negócios, das universidades, da nobreza – incluindo o rei – , magistrados e escrivães, e outros muitos de nível mais humilde: lavradores, pedreiros, carroceiros, moços de recados, criadas; e também nobres falidos, crianças e pedintes! E se uns, com o tempo, se volveram seus inimigos, ou no mínimo, adversários, jamais ela, porém, perderá o pé; ao passo que outros, mesmo na miséria, a ajudarão a ser fundadora e santa, a avançar no caminho da perfeição e a dar o melhor de si. E teve um companheiro de alma que lha soube ler e clarear com a luz do fogo do Espírito Santo: São João da Cruz, o «pai da sua alma»! Ah, e sobretudo, confiou em Deus, porque: «ninguém tomou a Deus por amigo que Ele lhe não pagasse».
E isto, sim, isto ela, do início ao fim, nos insistiu e ensinou: a sermos «amigos fortes de Deus», e a sabermos estar com Ele a sós, e com muita frequência, porque aqui todos havemos de ser amigos, entre nós, e com Ele, mesmo que o mundo em volta se inunde ou se afunde!
10. Alguns dias há, fora de qualquer calendário, em que me vejo atirado para as bimilenares e gastas ruas de Braga. Quando por aí andarilho, uma há, para os lados dos Biscainhos, que me recebe com um dizer pinchado numa parede. Várias vezes por lá passei desarmado. Da última vez, não. Ao ver-me mais uma vez assaltado, logo saquei do telemóvel e zás-pás-traz, cliquei. A frase que cacei são duas. Aqui me explico: escrevendo-a de primeiro, alguém nos denunciou em uma mensagem. Porém, e isto é, creio eu, o diálogo no seu melhor, outrem acresceu algo à frase e lhe mudou o sentido. E agora melhor reparo, talvez a diferença esteja entre vivermos ou não em jardim…
Vejamos; a frase original anuncia: A VIDA NÃO VALE NADA.
Para mim, é como se uma flor me dissera: de que me vale sê-lo, se ninguém me cheira? Porém, a tão frio e cru pessimismo, alguém lhe ajuntou tão-só quatro letras e um ponto de exclamação, e tudo mudou ali; confira: NA VIDA NÃO VALE NADAR SÓ! Talvez este que por último nos interpela, viva em jardim, discorro eu. E por isso a segunda é, obviamente, mais calorosa e esperançosa.
Está bem visto, está bem visto: Jardim de uma só flor não existe. Ou dito em modo outro: As flores também sabem nadar, mas na vida não vale mesmo nadar só; vai que te dá a breca?










