Frei João Costa, OCD
1. Depois da festa do Corpo de Deus celebramos a do Coração de Jesus. Em épocas anteriores à nossa a devoção ao Sagrado Coração de Jesus foi de grande intensidade e com profundas marcas de gratidão no coração do povo católico!
Devotar-se significa dedicar-se ou entregar-se apaixonadamente a algo ou alguém; esse algo pode ser uma profissão ou um hobby; mas, normalmente, usa-se para dizer a afeição ou dedicação intensa a alguém, Deus ou um santo. Tal dedicação deve levar a imitar o devotado, o que, no caso, em tempos não muito recuados, levou a que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus fosse apreciada e cultivada na Igreja com profundos sentimentos de ternura e com a consciência de que o Amor nunca é verdadeiramente amado, nem mesmo pelos seus amigos.
2. De duas em duas semanas cabe-me erguer mais cedo da cama e abrir a porta da minha igreja. Foi o caso da semana finda. Num destes dias abri, pois, a porta como sempre faço: com o sentimento de que não passo de um servo que, pontualmente, a deve abrir a seus senhores que estão prestes a chegar e logo querem entrar em sua casa. Assim foi, mais uma vez, nesse dia; só que o fiz um bom par de minutos antes do habitual, isto é, muito antes das 07:00 da manhã! E não é que, ao abri-la, já ali se encontrava um dos meus mais habituais amos, de samarra pelas costas e bengala na mão? Pois é. Saudei-o na graça de Deus e cumprimentei-o delicadamente, apesar de, no momento, lhe não lembrar o nome, apenas o andar trôpego, a pronunciada curvatura das costas, a gaguez e o olhar cansado.
(Lembro-me bem que estava de camisa, pois dei comigo a estremecer e a dizer de mim para mim: como está fresca a manhã!…)
Ia, por isso, já a esgueirar-me, quando o homem me diz: «O Senhor Padre não era capaz de me confessar?». Lá estranhar, estranhei. E até tinha mil argumentos válidos para me negar, mas o homem logo acrescentou: «Pode ser aqui mesmo!». Foi, pois, ali mesmo. Até às 07:00 ninguém se achegou pelo que, foi ali, de pé, e diante do sofrido olhar do Senhor da Cana Verde que o confessei. Terminado o confesso, torna-me ele, talvez até com alguma ironia: «Olhe, vamos para dentro que junto do sacrário está mais quentinho!».
E estava, por isso, entrei, entramos, sem demora.
3. Ainda hoje não me sai da cabeça aquela frase trivial: «Junto do sacrário está mais quentinho!». Lá fora, às primeiras horas do dia, quando ainda a cidade mal despertara, estava frio; ainda a agitação do dia mal começara, sim, e já a cidade se apresentava fria, repensei comigo. E não, não era só o frio da madrugada, que não é esse o que mais me custa e mais me dói, mas aquele que sobe e se espalha desde os corações apressados e indiferentes, das bocas arrogantes e maldizentes, dos olhares furtivos e evitantes.
4. Como tanto anda frio o nosso mundo!
5. E como tanto andam frios os corações!
Sim, sim, lá fora faz muito frio; e já nem os corações amigos são calorosos e amigos, tantos são os que facilmente se desamigam no FB (e não só) porque, afinal, se não conhecem nem se estimam nem se sofrem de lado algum. E alguns que até se conhecem e se devotam, ferram-se e mordem-se como quem afiambra um bocado de pão faminto!
Como tanto por aí vai enregelado o mundo! Como dou razão ao velhote: «Senhor padre, junto do sacrário está quentinho, lá é que estamos bem!». Como lhe dou razão…
6. Quando se quer dizer que alguém é bom e nobre, dizemos: Tal pessoa tem coração. E isso é verdade. Também é verdade que pessoas existem que parecem ter nascido para serem pacíficas, bondosas, solícitas, ternas, consoladoras; tal como existem as que são bem ácidas e agres, talvez por, desde que nasceram, serem compelidas a cruzar a vida chupando limões, não sei.
(E há as que estão em patamares intermédios, claro…)
Ora, se existem pessoas boas, de coração bom, terno e doce, como mais bom, mais terno e mais doce deve ser o do nosso Deus, que é a fonte de calor e de amor, de ternura e de bondade! Como Deus é bom! E quão gentil, manso e terno é o Seu coração!
7. Sim, Deus tem coração, sim. O nosso Deus tem coração! Deus tem coração, sim!
Deus tem coração e eu gostaria de ter um coração capaz do Coração de Jesus, porque o Amor bem merece ser amado!
Por isso, ao Deus de coração, vou pedir-lhe um coração imenso como o mar, para o amar!
Vou pedir-lhe um coração ardente como uma fogueira, onde todos, sem distinção, encontrem um aconchego sereno e gentil, pacífico e quentinho.
Vou pedir-lhe um coração que chore com os que choram, que sofra com os que sofrem, que se alegre com os que se alegram, que espere com os que esperam, que acenda uma luz no desespero da noite, que ache os que se perderam no nevoeiro, que perdoe os que rasgaram corações.
Vou pedir-lhe um coração manso, um coração forte, um coração audaz e grato.
Vou pedir-lhe um coração capaz de incendiar os desanimados, sensível e consolador, com um paninho de linho alvo para enxugar as lágrimas arrependidas e as imerecidas.
Ao Coração de Jesus vou sempre pedir-lhe que o meu coração seja coração doce, suave e manso como o Dele!










