Armindo Vaz, OCD
A influência da Bíblia na cultura ocidental nota-se particularmente na imagem que temos de Deus. Pensem o que pensarem d’Ele, já faz parte integrante da história do Ocidente, que dificilmente será contada sem se cruzar com o cristianismo e com o seu Deus. Só desde há meio século boa parte dos ocidentais conta a sua história sem contar com Deus. A consciência de muita gente hoje mal tem em conta o facto de, até há sessenta anos, ser normal ver o divino a impregnar o humano, visão que não era fórmula cristalizada, mas respiração e inspiração viva que elevava a vida humana, a incendiava e a conduzia, com ecos nas artes e na literatura, e que fez nascer actividades essenciais como a filosofia e a ciência. Hoje, muita gente das sociedades ocidentais, desde o aldeão até aos ilustrados «prémio Nobel», prescinde do «factor Deus». Até se põe a questão do lugar de Deus na sociedade e da legitimidade de manifestações públicas em sua honra. As recentes dificuldades para introduzir no prólogo da Constituição europeia uma referência às raízes cristãs da Europa poderiam ver-se como consequência dessa conjuntura generalizada. Muita gente pensa que numa sociedade letrada, esclarecida e progressista não há lugar para Deus. E levantam-se outros altares a ídolos de diversa índole. Procurar Deus seria incómodo ou interessante?
Muito distante desta mentalidade estavam os sábios bíblicos. Com a sua reflexão contemplativa sobre a vida, as suas sentenças de experiência feitas são concentrados de vida vivida e experimentada, que se oferece e se dá gratuitamente para iluminar outras vidas. Tinham em comum com os profetas o seu olhar atento para o mundo e para a história humana. Pensando a vida sempre de novo através do filtro da tradição, das relações humanas e do meio ambiente em que se inseriam, os sábios tiravam lições da história passada para traçarem os caminhos do presente e do futuro. Sobretudo, concluíam e ensinavam que o agir e as atitudes humanas têm consequências na história, determinando-a para o bem ou para o mal, onde não são indiferentes as pequenas e as grandes escolhas.
A sabedoria era educação do olhar para a vida. Mas simultaneamente estava permeada de fé em Deus e dava-lhe o lugar essencial na história humana. Uma espiritualidade subliminar impregnava todo o viver e a reflexão sobre a experiência; e colhia os seus frutos: “Não faças o mal e não te acontecerá o mal… Não semeies nos sulcos da injustiça e não colherás sete vezes mais” (Si 7,1-3). Quem ama Deus (e não faz de conta que o ama) e é coerente consigo próprio não faz mal às pessoas que vai encontrando na vida e que também deve amar:
Como é grande aquele que encontrou a sabedoria!
Mas ninguém se avantaja àquele que teme o Senhor (Si 25,10).
Aos que amam a sabedoria ama-os o Senhor (Si 4,14).
O temor reverencial do Senhor é fonte de vida…
Quem oprime o pobre injuria o seu criador,
Honra-o aquele que se compadece do indigente (Pr 14,26-27.31).
Vivendo no âmbito da fé, os sábios de Israel só podiam encarar a história na perspectiva de Deus. Fundamental era orientarem a vida por caminhos rectos; e aí encontravam Deus. Porque Israel definia o ser humano em estreita relação com Deus e como criado por Ele, a reflexão sobre o humano implicava um discurso sobre o divino; e o discurso sobre o divino tinha repercussões no humano. Por isso, mesmo nas abordagens mais humanistas descobrem-se laivos de espiritualidade.
A sabedoria, que era verdadeiro amor à filosofia, implicava o encontro e o conhecimento do Absoluto, visto em Deus, que dava às coisas a sua medida e o seu valor. O sábio israelita não remetia Deus para o seu céu solitário e sublime: via-O presente no horizonte da vida quotidiana, como chave do edifício metafísico, garante do ser das coisas. Não conhecia a dicotomia moderna «natural – sobrenatural». Reconhecia o mundo e a história humana como lugar onde Deus se deixava encontrar. Deus era contemplado nos acontecimentos e na procura de soluções para os problemas humanos.
Lá pelo ano 180 a.C., Ben Sirá considera que a sabedoria oferece o nobre saber, filho do ócio e do maravilhoso: “A sabedoria do escritor adquire-se nos tempos favoráveis de ócio” (Si 38,24). “Em todas as tuas palavras e acções lembra-te do teu fim e então nunca te extraviarás da verdade” (Si 7,36). “Vinho novo é o amigo novo; deixa-o ganhar anos e então bebê-lo-ás com gosto” (Si 9,10). E, suma sabedoria: o mal, como o bem, volta sempre ao seu autor: “Não te deixes fascinar com o triunfo dos insolentes: recorda que não morrerão impunes” (Si 9,12). E não é Deus que castiga; é a lógica da vida que paga com a mesma moeda.










