Irmã Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro
Querido irmão
Dou graças a Deus pelo dom da sua vocação sacerdotal.
A vida de cada um de nós é o espelho claríssimo da fidelidade de Deus a Si mesmo. Se não o conseguimos ver, não é porque Deus não seja fiel e deixe de se reflectir em nós, não, é porque a nossa falta de fé no-lo impede de ver.
A fidelidade de Deus a Si mesmo impregna a vida com os traços de uma beleza divina que é sinal da Sua presença, epifania do Seu próprio Ser, confirmação de que Ele é um Deus com cada um de nós, por cada um de nós e em cada um de nós. Ela é comunicação das perfeições divinas. É o abismo paradoxal que envolve cada ser humano e de forma mais intensa aqueles que Ele escolheu e chamou para participarem no Sacerdócio Eterno de Cristo, como seus ministros.
A fidelidade de Deus a Si próprio é a expressão mais bela da vida de cada sacerdote, porque é o próprio sacerdote que se converte na ‘pequenina hóstia’ que Deus consagra na ‘eucaristia da vida’, para a edificação do Corpo de Cristo. Deus torna o sacerdote ‘sagrado’ pela comunhão com Ele. Á luz da fé a ‘transubstanciação’ converte-se em ‘transfiguração’ da vida do sacerdote, do seu ser, do seu ministério, não como abstracção irreal, mas como “encarnação no real” do plano de amor que Deus tem para cada sacerdote – ‘ser Cristo, com Cristo e em Cristo’.
Deus é fiel à Sua Palavra, ao Seu Amor, ao Seu Ser, à Sua Vida, o que significa que Deus é fiel á vida de cada sacerdote, ao ser humano que é cada sacerdote, ao amor com que ama cada sacerdote e o sustém na sua vocação.
Tudo se torna tão simples e claro quando o amor de Deus penetra a existência humana! Como diz S. João: “Deus é luz e Nele não há trevas.” Tudo se torna luz na vida do sacerdote quando o exercício do seu ministério é expressão do amor com que é amado. E na sua vida não existe nada que esteja à margem deste amor, porque Cristo fez-se em “tudo igual a nós excepto no pecado” e porque “não temos um Sumo Sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas”. Não existe nada que o sacerdote não receba de Deus, se Dele se aproximar com confiança.
O grande desafio do dia a dia está em deixar-se amar. Três são os traços com que Deus consagra a existência do sacerdote: a fé, a esperança e a caridade.
Pela fé, o sacerdote manifesta a presença do Deus Vivo, que se inclinou sobre ele e o atraiu com laços humanos e vínculos de amor eterno. Acreditar-se chamado e viver o seu ministério como resposta ao chamamento que diariamente lhe é feito, é dinamismo gerador de fé. A “consagração na fé” não é senão o encontro entre o Ser Divino, que é Deus, e o ser humano que é o sacerdote. Este encontro chama-se oração. E orar para o sacerdote é deixar-se amar; deixar-se querer por Deus para querer em Deus. Aqui o sacerdote contempla a fidelidade de Deus ao seu projecto original de fazer dele um outro Cristo.
A esperança é o traço da vida do sacerdote que mais fascina, porque é aquele que mais o identifica com o Deus feito Menino. Coloca-o diante do Pai na disponibilidade do Verbo: “Eis que venho ó Pai para fazer a Tua vontade”,e, o Pai responde introduzindo-o no dinamismo vital do seu Ser Divino, no mistério da ‘re-criação’ sobrenatural: “Tu é meu Filho, Eu hoje te gerei.” A esperança manifesta-se no sacerdote como uma ‘re-criação para o alto’ no hoje de Deus. Reconhecer este acto amoroso com que é recriado espiritualmente é a confirmação da sua filiação divina e da Paternidade de Deus, através da manifestação das complacências do próprio Deus nele. A esperança é o ‘conhecimento’, na fé, da obra edificada pelo Espírito Santo no amoroso acto criador com que o Pai vai recriando o sacerdote.
A caridade pastoral é a expressão da fé e da esperança, isto é, é a expressão da oração de Deus no sacerdote. Deus reza na vida de cada sacerdote a sua própria vida e cada sacerdote participa na oração de Deus consentindo que a sua vida se converta em oração de Deus para o rebanho que Ele lhe confia. A caridade pastoral é o Ser de Deus em acção no ser do sacerdote, convertendo-o em confissão viva do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Este é o meio mais autêntico da realização da caridade de pastor, porque o que melhor responde à suplica de Cristo ao Pai: “…Que Ele dê a vida eterna a todos os que lhe entregaste. Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti único Deus verdadeiro e aquele que tu enviaste, Jesus, o Messias.” O desejo ardente do coração de pastor de cada sacerdote não pode brotar senão da sua intimidade com o Pai e não pode ser senão este: “Que eles sejam um, ó Pai, como nós somos um.”
Este amor que envolve o sacerdote é por nós contemplado sempre que ele sobe ao Altar. Ali vemos a Igreja, cuja Cabeça é Cristo e cujo corpo somos todos nós, dar-se de todo a ele pelo Corpo e Sangue de Cristo. Os gozos do Altar estão na união de amor entre o sacerdote e esta ‘filha de Deus’, que é a Igreja.
Acreditar na sua existência, descobrir a beleza misteriosa do seu rosto, escondida em Cristo, ter fé no amor com que ela o ama e entregar-se continuamente a esse amor é o encanto da vocação sacerdotal.
Encanto, que pela fidelidade de Deus a Si mesmo nunca se converte em desencanto mas em dom de Si ao sacerdote e pela fidelidade do sacerdote converte-se em contemplação e ‘posse’ do próprio de Deus. A fé nesta permuta inefável reveste o sacerdote de beleza divina e em nós desperta a alegria de sermos corpo de Cristo.
O Encanto da vocação sacerdotal é a nossa alegria!










