(A um amigo em outono)

Frei João Costa, OCD

1. Passei por Roma. Digo «passei» sem presunção; indo ao que ia, isso faria ali, no interior de um deserto ou em Olivença. É um dizer, claro está. Mandassem aonde me mandassem, com os demais faria, o que houvera de se fazer e em Roma se fez.

O que em Roma vi, escreverei, se o caso pedir, noutra folha, que hoje narrarei outra coisa: No ledo fluir das horas livres que até as agendas mais cingidas sempre têm, foi ali que vi anunciar-se e depois chegar o mais quente e belo outono de sempre.  A horas sempre certas percorria eu o último tramo — menos de um quilómetro… — da Via Gregorio VII, aquele que antecede a viragem à esquerda e nos entrega ao abraço polido da colunata de São Pedro. Tinha aquele tramo vulgar dois tesoiros inesquecíveis: uma bica de água generosa e fresquíssima, e uns pequenos plátanos que nos ungiam de sombra e de folhas caíntes. Falarei das folhas, que é ao que venho.

(Como todos sabemos, nem todas as árvores se desvestem no outono, mas as que dispõem dessa graça são porventura mais graciosas.)

Passei por Roma e as folhas caíam. Caindo lentamente as vi e não me ocorreu perguntar-lhes se era por engano, desesperança ou força da lei da vida. Caíam, simplesmente. E reparei que de quatro em quatro metros, os sem-abrigo se afadigavam em varrer o metro quadrado que lhes cabia, depositando depois o punhado recolhido numa caixinha que elevavam sobre outra — como num altar, para que víssemos bem o bem que faziam — e, logo ao lado, numa credência, ofereciam-nos ao olhar uma caixinha de cartão, para que nós, turistas do eterno, reconhecidos, ali depositássemos o nosso óbolo, por tão desinteressado amanho.

(Ah, mas quer-me parecer que em passando a matutina e desprevenida leva de turistas, as folhas eram devolvidas ao chão e, na loja ao lado, as moeditas valeriam uma cervejola. Mas isso sou eu, tuga malvado, a pensar mal do próximo…)

O certo é que caem folhas em volta. E o seu natural cair traz-me mensagens ao coração: i) todo o órgão, mesmo o mais simples como uma folhinha, é fundamental para a saúde da árvore e a abundância de frutos: se cada árvore cumpre o seu fito, também o deve às folhas…; ii) cumprida a sua função, elas caem; chegada a hora em que já não é necessário que resgatem energia do sol, e tendo-se finado a estação dos frutos, a árvore ordena a sua queda, e elas despencam; iii) Tem sabedoria a decisão: poupa-se energia (já a folha mais não precisa de ser alimentada pela seiva da árvore) e a que resta canaliza-a a árvore para o cuidado de si mesma; iv) e cuidando de si, a árvore preserva-se, enfrentando melhor os rigores invernios, a violência das tempestades, porventura o peso das neves; e v) em chegando a primavera, pode a árvore reabrir de novo o coração para a vida nova.

2. Há quem, como eu, aprecie o outono. Não, talvez, tanto como eu: os rebanhos remoendo a passo lento o restolho alargam-me as aduelas do olhar, o cheiro dos marmelos a cozer em lume brando e o da terra seca abrindo-se às chuvadas revivem-me, os santieiros anunciando-se discretos por sobre a capa de húmus das folhas das vides são mistério a acontecer que ainda não alcancei compreender inteiramente. Ah, e a chegada do tempo fresco, da surpresa das uvas de rebusco, dos figos serôdios, das castanhas e das nozes, dos dióspiros, e do vinho das romãs… Só não troco o céu por isso!

E já nem falo do mel do vinho novo, que se é são, é vinho e te deum ao Criador! E já nem volto às folhas, melhor dito, à sinfonia das cores com que as árvores adornando-se, garbosas se engalanam e se revestem de jubilosa nobreza, um nada antes de se desvestirem para o inverno! Louve quem quiser as outras, que eu fico com a estação que me enche a alma!

Caro amigo, querido roble,

entenderás, certamente, o que digo, o que daqui te envio. (Sim, eu sei que isto lerás e saberás que é para ti, propositadamente, que o escrevo!) Vais sorrir, eu sei; sei que o Espírito te deu o dom de espairecer e fazer sorrir a alma e de iluminar o rosto dos outros, mas antes, o de sorrires, inclusive, de ti. Caro roble, (jamais julguei um dia chamar-te isso, acredita.) por muito que goste e muito me delicie até às cavernas mais secretas da alma, nem eu quereria viver sempre em outono; na verdade, só existe outono se antes a relva gentil nos cresceu aos pés e depois o sol nos beijou a careca e os braços. Alegra-te, que chegado é o tempo de depor os pés por sob o tampo da mesa, e de descansar o olhar junto da lareira, e dar graças a Deus. As tulhas estão cheias. As arcas estão cheias. As pipas estão cheias. Os espigueiros estão cheios. Os rebanhos cresceram. Lá fora, as folhas caem, é certo, e assim melhor te recordas que não é acertado cevar a alma, mas seguir lidando-a com esmero também nos dias pequeninos, porque no dia sem dia nem noite, agradecido e manco de misericórdia, a hás-de apresentar ao augusto altar do Altíssimo.

Caiam, pois, as folhas. As tuas e as minhas. E lembrarás, tal como lembro eu, que a sua queda gera vida e protege vida. Delas se libertando, a árvore descobre que se protege e, caindo, fertilizam as terras, crescem a erva, as árvores e os santieiros. E se sob a capa que geram, os porcos descobrem bolotas, nós, castanhas.

Até quando a perda é perda, nisso ganho há.

Desculpar-me-ás o destempero, eu que nada sei nem da vida, nem de folhas caídas, nem de bolotas. Um pouco mais perdido que tu, tacteando ando os carreiros lamacentos que levam à floresta; porém, apesar de vesgo e coxo, dei comigo neste quente outono a exaltar-me com a queda das folhas. Até poderia ser com a dos cabelos, mas não, foi das folhas, sim. E não estão elas, como eles, contadas e guardadas no coração silente do Criador? Estão. E a salvo, obviamente. E têm de cair as que são de cair. Para deslumbre meu.

A esta altura, mal seria, terás já reparado, que as folhas não serão apenas folhas, as castanhas apenas castanhas e as florinhas apenas pequenas margaridas. Foram também pretexto para te contar uma estória. (Eu sei que gostas de estórias, e se esta não te servir, enfiarei eu, clara e confiadamente, a carapuça.) Conta-se que um venerável abade de um célebre mosteiro deu a profissão a um jovem monge, que a poucos meses de vida monacal, murchou. Vendo o velho abade o lampo cair do juvenil não se sobressaltou, apenas cuidou de o respeitar, sem forçar. Um dia, perturbado e atormentado pelas pessoais dificuldades, erros, quedas e escrúpulos, o jovem monge bateu à porta da cela para consultar o sábio ancião. Querendo infundir-lhe confiança, contestou-lhe o venerável: — Tem calma, querido irmão, todos os teus limites e defeitos apenas te instauram como um monumento à misericórdia divina!

3. Caiam, pois, as folhas, que este é o tempo. E a mim, quando eu morrer, antes da viagem, serena e ocre, me coloquem uma sobre o calado coração.