Armindo Vaz, OCD
O humano é ser de relação: ser de (nasce de outros), ser com e ser para o outro. O seu viver é com-viver, é uma teia, um tecido: é viver em rede, hoje mais do que nunca. A relação faz dele um ser de encontro: gera encontros e é feita de encontros (às vezes, desencontros). Como diria o filósofo judeu Martin Buber, “toda a verdadeira vida é encontro” (Eu e Tu [Paulinas; Prior Velho 2014] 15). Quando um eu se abre a um tu, funda um mundo de relações, sobretudo no sentido de elas ultrapassarem o campo da neutralidade e penetrarem no mundo da consciência e do mistério. A relação é doação mútua num encontro procurado ou fortuito. Então o encontro é imediato, isto é sem meios: tudo nele é presença e dom.
Serve este arrazoado para pensar a leitura da Bíblia. Com efeito, aí o mais importante é um encontro: do leitor com a página sagrada, mas sobretudo consigo mesmo e com Deus ou com Jesus ressuscitado através do Espírito de ambos, que está presente na Escritura que ele inspirou e no coração do leitor que nele crê. Pelo menos, o ideal é que a leitura crente da Escritura se torne encontro com o Senhor que é a Palavra incarnada. De facto, os grandes encontros com ele mudaram toda a vida de quem o encontrou. O que fez com que os experientes pescadores da Galileia naufragassem das suas pobres seguranças para aportarem a um Reino construído com o coração, com fios de esperança e de sentido para a vida não foi a sofisticada doutrina de um filósofo, nem a invencível potência de um conquistador de impérios: foi o encontro desarmante com o pescador de homens. Pensemos por momentos na “mulher pecadora pública” do evangelho (Lc 7,36-50). Sabia que não merecia nada de Jesus, mas confiava no amor que supera qualquer erro. O seu corpo – até então vendido e comprado como instrumento de desejo – teve finalmente um encontro com o amor autêntico, que “é a responsabilidade de um eu por um tu” (M. Buber, Eu e Tu, p. 19). Então tornou-se sujeito de amor e capaz de gratuidade. O que era a vida dela? Pergunta frágil e delicada que o seu coração sentiu respondida no encontro com o coração que lhe dizia: “A tua fé salvou-te: vai em paz” (Lc 7,50). No ponto definitivo da sua vida esteve o encontro com o Homem que lhe falou como mais nenhum homem. Percebeu da palavra dele que na vida apenas uma coisa importa: um grande amor.
Também os grandes chamados do evangelho responderam ao apelo do Mestre, porque sentiram a força irrecusável do amor num encontro inolvidável: os doze apóstolos, Nicodemos, a samaritana, um funcionário real, um doente junto a uma piscina, um cego, Zaqueu, Maria Madalena… Todos eles foram reabilitados pelo encontro com Jesus. Antes, cada um era um desgraçado distante da felicidade, um pecador, um procurador, um moribundo à margem da vida. Mas no olhar e no toque de Jesus e no encontro com ele nasceu o arder do coração, a esperança do amanhã que ilumina as epidemias de ontem e as pandemias de hoje e as cura: “Homem, os teus pecados estão perdoados” (Lc 5,20). Só os encontros vivos – não as obrigações, os bons propósitos ou as leis – mudam a vida, como a Abraão, a Moisés, a Samuel, a Isaías.
Se o definitivo lugar de encontro de Deus com os homens e dos homens com Deus é Jesus, a ele encontramo-Lo agora na palavra da Escritura, cuja leitura é um acto radical humano e um acto de fé que abre o leitor à regeneração, num frente-a-frente cujo efeito positivo é proporcional ao grau de exposição a ela e à abertura do espírito do leitor ao Espírito de Deus. O espírito/ruaḥ humano – a dimensão permeável que se abre a outro espírito e permite participar num fenómeno novo, que supera o físico, biológico e empírico – faculta um encontro com o Espírito/ruaḥ divino e comunga com ele. A Escritura guia o leitor a descobrir o próprio mistério, abrindo-lhe janelas onde não há paredes: “faz-te ao largo! (Lc 5,4); “procurai e encontrareis…, pois quem procura encontra” (Mt 7,7-8). Atesta que de um encontro marcante nasce a luz de uma sarça-ardente e brota a beleza da comunhão; ou desponta o chamamento para uma missão, como testemunha Isaías: “A voz do Senhor dizia: A quem enviarei?… Eu disse: Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8). Ela é a Palavra que se expande para além das palavras e soa mais viva na caixa-de-ressonância que a espessura da vida lhe oferece. O espírito que a perpassa afasta a cultura da intolerância, da pequena irritação ou zanga, gerando a cultura do encontro e da fraternidade, do diálogo e da compreensão mútua. O seu conteúdo é a vida humana salva. Questionando e sugerindo, mantém o leitor na interrogação e na escuta: “Quem é este a quem os ventos e o mar obedecem?” (Mt 8,27). “E vós, quem dizeis que Eu sou?” (Mc 8,29).










