Frei João Costa, OCD

1.           Homem e filho não há sem mãe. Tal como não há cristão nem santo sem Mãe. Assim como o botão da rosa sobressai, assim o cristão.

Pode uma mãe ser mãe de muitos filhos, muitos mesmo, mas o modo como ela ama cada um e a cada um cerca de amor é sempre irrepetível. Dizem que Deus criou as mães quando quis prolongar os milagres. Concedo e convicto acedo: sem mães acabavam-se os milagres no nosso mundo. Que milagre não é a geração duma nova vida no secreto segredo do seio materno! Haja tumulto ou não no seu coração, que milagre não é! Que milagre não é cada nascimento, cada filho ou filha despertando para a vida, abrindo o olhar de espanto e balbuciando mamã, papá! Que milagre não é aprender a reconhecer a graça e os perigos pela mão da mãe e da avó! Que milagre não é os sonhos novos dos jovens, o despontar de novas mamãs e novos papás! Que milagre não é que alguns, para alegria das gentes e júbilos dos anjos e santos, se instaurem como fonte de bênção eterna!

Pode uma mãe ter muitos filhos, sim, mas um a um ela os foi vagarosamente tecendo em seu seio, cada um foi chamando à vida, cada um saciando da abundância do seu peito, cada um e cada uma, segundo as necessidades, pela mão e com o olhar, ela os vai amparando pelos caminhos que levam ao rio e pelos trilhos de montanha. A mãe é assim mesmo: ama o filho que tem na alcofa e o que a horas certas sai para trabalhar; ama o que está doente e ama o que está forte e é ousado; ama e encoraja o que se atrasa e ama o que se adia em sonhas. Ama o que ainda não nasceu e ama aquele que a fez avó. Ama. Porque é mãe e não tem outro ofício.

Que tenha apenas um ou dois, ou vários, ou muitos, ou um regaço mais que cheio, incluindo algum que não seja seu, a mãe ama, ampara e sonha os sonhos dos filhos e filhas. Com este nina, com outro canta, aquele anima e com aqueloutro chora, e com todos ri e dança. E a cada um dá o seu amor que acalenta, encoraja e ampara como o sol de cada dia; se um precisa de muito dá-lhe muito, se outro de pouco, pouco dá e é muito também. E é tudo. Se um tem uma taça grande, ou se pequena, ambas enche, ambas cumula de graça materna tão importante e necessária para que cada um cresça e dê frutos.

A um conforta com o olhar, a outro com um abraço; ao pequenino embala-o no colo, ao adolescente oferece-lhe uns ténis. Ao empreendedor sugere prudência. Ao maior abençoa-lhe os filhos e ensina-o a abençoá-los. A um oferece-lhe a fatia maior do bolo, ao outro a melhor peça de carne a seguir ao pai.

A mãe sabe amar o filho, ou filha, e o filho ou filha sabe que a mãe os ama com ternura. Sim, os filhos ou filhas podem ignorar os mais secretos sofrimentos das mães, sobretudo as angústias que se assomam ao limiar do seu nascimento e as tremuras nos primeiros meses de suas vidas. Sim, podem ignorar tudo isso. Podem ignorar todas as incertezas que serpenteiam o coração da mãe à hora de dar luz uma nova criatura. E mesmo que o parto tenha sido sereno e escorreito – e o menino seja perfeitinho – sempre existem correrias para os médicos, dúvidas sobre se tudo estava bem e no lugar, sobre o que aquele menino ou menina virá a ser, que génio traz – pacífico, rebelde, inconstante ou audaz. Sim, nós, filhos ou filhas nunca inteiramente saberemos o que uma mãe passa por nós, que patio – paixão, quero dizer – passou e sofreu. Sabemos sim, e eu sei da minha, que a mãe pode ser pobrezinha, mas ainda assim não há melhor mãe no mundo. Que não quero ser amado por outra se não pela minha. A única, a irrepetível no seu amor por mim, irrepetível no amor por cada um dos meus irmãos. Por cada um dos seus filhos.

Eu não me vi jamais tão bem cercado de amor, como quando os doces braços fortes de minha mãe me enlaçaram, como quando comigo ela bailou, para eu adormecer em seu colo. E aposto (sem que alguém comigo tenha de apostar) que ela inventou uma outra dança para dançar com cada um dos irmãos e irmãs que me seguiram. Ela que a cada um nos desenhou e teceu o coração bem sabia que este ou aquele novo coraçãozinho precisava de mais ou menos passinhos, se com a anca mais para cima ou mais para baixo, se mais rápida ou mais lenta nos seus passos e no compasso do seu coração. Porque a mãe sabe – e deve ser a primeira coisa que sobre nós ela saberá – qual o compasso a que obedece cada coraçãozinho que ela bota ao mundo!

Cada filho é único e cada dança com cada filho ou filha única é no mundo também.

2.           Nós somos filhos da mãe – e mau sinal é se isto vos souber a vernáculo. Não somos da mamã, somos da Mãe de Nazaré. Pobre, de avental e descalça. Cada coração das nossas mães, ricas ou pobres, jovens ou maduras, abriga no seu coração uma chispa do da Graciosa Mãe. É daí que nos vem a fonte de bênção do milagre maior.

Com minha mãe eu aprendi a amar a Mãe Maria de Nazaré. Não são muito diferentes, porque ambas pobres. Mas há diferenças, claro. Uma é a Mãe Graciosa, a outra faz tudo para parecer-se com ela, com o seu coração puro e santo, dedicado a Jesus, a José, ao povo da aldeia, aos pobres e aos peregrinos dos caminhos que peregrinou.

Sim, eu conheço o milagre das mães.

É um milagre que não cabe em discursos, mas brota em pequenos rebentos, em gestos simples. Em diminutos cuidados. Daqueles que, sem descanso, se repetem todos os dias. É um milagre de confiança e de exemplaridade. O milagre de minha mãe, das nossas mães, é a confiança quase toda posta em Maria. É devoção à Senhora que é mãe como elas; é diálogo com a Mãe delas, Mãe atenta, cuidadosa e próxima. Falam com Ela como falam com uma amiga ou vizinha – directamente e sem paninhos quentes. Em total confiança pedem-lhe tudo, tudo para a sua casa, tudo para os filhos, para as galinhas ou o gato. Sem medo nem meias palavras. Pedem-lhe com a certeza que Ela acede e responde; não lhe dizem sim ou sopas, apenas lhe dizem que é Mãe e elas são filhas com crias. Se estudamos, dizem-lhe que andamos com dificuldades em tal matéria; se temos exames, lembram-Lhe que temos de passar de ano; se chove e o trânsito para a escola está complicado, pedem-lhe um helicóptero; se vamos para um campo férias, pedem-Lhe que nos traga sãos de volta e sem rabunhadelas. Enfim, nós, filhos, enquanto temos mãe temos a certeza que a nossa e a de Jesus são amigas ou comadres. Que se ajudam sempre, sempre, que se estimam uma à outra porque são boas mães. E acertamos.

Eu sou feliz porque vi muitas vezes a minha mãe falando com a Mãe de Jesus, chamando-lhe, ora Mãe, ora Senhora dos Impossíveis. Vi-a rezar-Lhe com firmeza, com certeza de que por Ela era ouvida. Vi-a fazer a paz como a Rainha da paz. Via tecer a alegria como a Senhora da alegria. Via amar o Amor como Maria amava a Jesus. Via pedir como filha pobre de Israel.

A minha mãe ama a Mãe de Jesus e imita a Mãe de Jesus não por medo nem como forma de retribuição, mas por que sabe, porque tem no coração o sabor da presença de Jesus e a confiança certa de que Maria ampara os seus.

(Ah! E agora esqueçam que até aqui falei da pobre pecadora que é a minha mãe, que o que aqui eu mais queria era falar de Catarina, não de Maria Rosa. Sim, de Catarina, a mãe de Jvanico de Yepes, o nosso San Jvan de la Crvz.)

3.           Frei João da Cruz, pequeno frade de corpo, mas gigante de espírito, escreveu pouco sobre Nossa Senhora, mas nesse pouco disse muito. E como nele é habitual só começou a escrever e a ensinar, e para não repetir, onde os outros haviam terminado. Logo, se é certo que ele nunca fala em tom de piedade popular, de quanto sejam devoções e procissões, próprias da Ordem ou não, o certo é que piedoso ele era e as assumiu e as seguiu, como calçada ligeira para o céu.

A vinculação de Juanico à Graciosa Virgem Mãe de Deus é precoce, e certamente inspirada no amor que tem à sua querida mãe Catarina. Pudera! Sempre apoucado em falar de si, algo ele disse e confidenciou, e sim, bons testemunhos existem sobre o que declarou acerca da presença de Maria em sua vida. E eles falam e dizem que Juan de Yepes-frei João da Cruz foi profundamente de Maria, profundamente a Ela dedicado, constantemente por Ela favorecido. Testemunhas existem que, deliciosamente, nos falam da sua vida plenamente consagrada a Nossa Senhora, honrando-a e servindo-a sem que sobressaíssem gestos ou obras exteriores de vulto, e com eles e por meio deles também, fazendo-se santo na sua Ordem, através do fiel cumprimento da sua Regra, habitando a sua casa e revestindo-se de seu hábito. Claro que era homem de levar flores ao seu altar depositando-as aos pés da sua imagem, de visitar os seus santuários, de a invocar com intenso amor, de lhe rezar devoções, presidir a novenas e procissões, e até, de coração a latir, invocá-la com seus lábios, tanto na saúde como na doença; porém, eu me pergunto, e quero que o saibas, leitor, leitora, e não era isso normal num carmelita descalço do século XVI espanhol? Em qualquer carmelita de qualquer século? Era sim; ora, se era, para quê, na óptica do Pobre de Fontiveros, referi-lo ou aventá-lo? Pois não o fazia, não o fez, ou quase não o fez; e eu, se o compreendo, também o repreendo. Não se dirão aqui, portanto, coisas muito espetaculares porque, se ele era por demais austero e enxuto, e não se vangloriava de exterioridades – ainda que lhes fosse afim e as praticasse e elas o tenham ajudado a constituir-se santo –, antes sim, o direi como peixe de águas profundas, dedicando-se e prestando atenção ao interior, ao mais profundo centro de si mesmo, onde só habita a glória de Deus, ali mesmo onde sucedem as coisas mais secretas entre Deus e a alma!

Ainda que pequenito, Jvan de la Cruz foi homem fundo e profundo. E se todo ele era sereno e pacífico à flor do olhar, também era visivelmente dedicadíssimo a Nossa Senhora e seu filho terno, fiado, confiado e amantíssimo. Ainda que o digam pequenito – coisa que não pode transtrocar-se – convém assinalar que alguém o definiu, e bem, como «um lindo fradinho de coração incandescente», ardendo de amor pela Santíssima Trindade, pela Virgem Santa Maria e por São José – acrescento eu, já agora.

A sua existência, tão igual à de tantos do seu tempo e não só é, afinal, tão única e singular que a poderíamos resumir assim: a presença constante de Maria na vida de Jvanico foi a de perfeito amor terno e materno; inteira ele lhe dedicou a vida e ao longo dos seus 49 anos nada quis fazer sem Ela. Bastar-nos-ia recordar que um dia diante duma belíssima imagem de Nossa Senhora, exclamou algo parecido como:  eu, esta imagem e um deserto, e seria o homem mais feliz do mundo! (E é que nem reclamava um pedaço de pão ou meia vasilha de água – tão só, contemplar sem fim a beleza duma imagem de Nossa Senhora!);

Estas linhas, portanto, apenas desejam encarreirar-te o olhar, leitor, leitora, para a Virgem Maria, a Graciosa Mãe de São João da Cruz e, ao mesmo tempo, colocar diante do teu olhar a figura de um santo ímpar, San Juan de la Cruz, todo ele diligente serviçal da Virgem Santa Maria. Saibamos, pois, e não ignoremos, que sendo ele menino de brincadeiras inocentes, mas ao mesmo tempo perigosas, Ela estava sempre presente a seu lado e três vezes o livrou das águas traiçoeiras. E não ignoremos jamais que toda a sua infância, pelas mãos e pela devoção da mãe Catarina, a sua vida devota passava muito, mas tão toda, claro, pela constância do seu olhar fito no rosto e nas mãos da Mãe de Jesus;

E não ignoremos – ainda que totalmente não lobriguemos – como gentil e intensa deve ter sido a sua infantil piedade mariana, porque, afinal, no fim da adolescência, quando todos o queriam em seu claustro – sem mais mas nem meio mas – decidido, ele escolheu recluir-se com Ela no claustro da Sua Ordem: o Carmo;

E não ignoremos que sendo ele jovem sacerdote, saboreando ainda as primícias da unção sacerdotal, e já com um pé fora do claustro, a perspicaz Madre Teresa de Jesus o reconquistou para a Ordem de Nossa Senhora;

E não ignoremos, pois os testemunhos são muitos, que sendo já homem maduro, que estivesse onde estivesse – no claustro ou nos caminhos feitos claustros –, a sua piedade era profundamente mariana, confiadamente mariana, e que a Virgem Mãe de Deus o protegia e livrava de perigos;

E não ignoremos também – por muito que alguns hoje se surpreendam e até se escandalizem – que algumas vezes o seu interior se extasiava com a formosa beleza da Mãe de Deus e, depois, todo ele estremecia e transbordava de alegria e emoção;

E não, não ignoremos ainda, nem jamais nos estranhemos, se dissermos que um dia, pelo menos um dia, frei João roubou a imagem do Menino Jesus, retirando-a do colo da Mãe e, de rosto airoso e feliz, a portou durante toda uma procissão; acreditarás tu nisso, leitor, leitora? E se te disser que outra vez, voltou a furtar a imagem do Menino do olhar da Mãe e com ela, feliz, longamente bailou? – pobre Mãe que ele tanto amava a ponto de, repetidamente, lhe roubar o Filho!;

Nem ignoremos, finalmente, que ao se achegar o fim dos seus dias a Virgem lhe confidenciou que morreria em dia de sábado – o que no Carmo é uma glória. Nem ignoremos que ao longo dos últimos oito dias da sua vida, esta feliz promessa da Virgem o fez, insistentemente, perguntar qual fosse o dia em que estava, e qual fosse a hora – porque denodado queria ele chegar a sábado;

Nem ignoremos, finalmente, que foi no sábado da oitava da Imaculada que ele foi cantar Matinas para o céu juntamente com Ela!

Enfim, inteiro ele era e dela sempre foi; e inteiro Ela o recebeu no céu em seu dia. Perfeito.

Perguntarás, leitor, leitora, como sei, como sabemos tudo isto. Levanto um pouco o véu: tal como outros, mas sobretudo ele, o Irmão Martinho da Assunção, companheiro de tantas correrias do Padre João declarou que, quer estando em casa, quer andando pelos caminhos, o Santo Padre costumava contar casos e coisas que se tinham passado na sua vida – e, apesar de tão comedido – confidenciava tudo isso para afervorar e fazer aumentar nos seus companheiros de andanças o amor a Nossa Senhora. Logo, portanto, tudo quanto aqui se conta, das duas uma: ou o Santo o contou, ou os seus companheiros o testemunharam. Eu simplesmente procurarei nada inventar nem nada aumentar.

4.           Já atrás dissemos não serem muitas as referências de São João da Cruz a Nossa Senhora presentes em seus escritos espirituais; o que levou algum autor a conclamar que qualquer uma – embora haja umas mais que outras – «vale por um tratado de mariologia». Obrigatório será, por isso, que deitemos o olhar a alguns ensinamentos que encontramos nos seus textos; perdoarás, leitor, leitora, que sejam apenas três:

Na Oração da Alma Enamorada, o Santo dos Nadas escreveu (e rezou): «A Mãe de Deus é minha». Lendo ou rezando tal oração será impossível não repararmos na profusão de pronomes possessivos esparzidos na leirinha daquele pequeno de texto – meu/minha, meus/minhas; e por maioria de razão tal exclamação muito nos surpreenderá por se tratar duma tomada de posse – «é minha» –, e logo por quem tanto se ocupou e ensinou a promover a desapossessão.

A razão de tão surpreendente ousadia é só uma «porque Cristo é meu»!

Dizem que por estas duas afirmações São João da Cruz se revelou ao mundo como o homem mais ambicioso: Cristo é meu, e em Cristo todas as coisas são minhas; todas as coisas e a Mãe de Deus também! Desta forma, diz-se, nunca houve no mundo homem tão rico – e de facto, tudo é dele!

Perdoar-me-ás, leitor, leitora, a insistência: é certo que tudo é dele – «tudo é meu e para mim» – porque Cristo também é dele; mas primeiro Cristo foi da Mãe, a Escrava do Senhor, foi Ela que O concebeu, que O gerou, O deu à luz, O cuidou, ajudou a crescer e depois n’O-lo deu. E n’O-lo continua a dar desde o céu!

Em Cristo tudo se resume. Cristo é da Mãe. E Cristo, que é Dela, no-l’A ofereceu a nós; e Nela O recebemos a Ele. Tudo é nosso, portanto. Porém, rezando e acompanhando a oração de São João da Cruz, agradeceremos nós, algumas vez, cabalmente, à Virgem tal imensa dádiva? E ao Santo tal maravilhosa oração?

Numa outra página, no livro da Subida do Monte Carmelo; escreveu: «Eram assim as da gloriosíssima Virgem Nossa Senhora, a qual, estando desde o princípio elevada neste alto estado, nunca teve gravada na sua alma forma alguma de criatura, nem se moveu por ela, mas foi sempre movida pelo Espírito Santo» (3Subida 2:10). Que é como quem diz: em sua vida, a Virgem Mãe de Deus não foi apenas isenta de pecado, mesmo da falta mais mínima, mas também de toda a imperfeição, porque Ela apenas e sempre se deixou guiar pelo divino Espírito de Deus. E a nós que tendemos para tal alto estado, só nos cabe olhar – com docilidade e sem indecisão – para o seu exemplo, por ser Ela o melhor modelo de pensamento, de afecto e de compromisso e de união a Deus.

Na sua pedagogia espiritual parece que o Santo não ensina outra coisa que o esvaziamento: aqui neste particular sugere-nos que a memória – esse é o contexto das suas palavras – se há-de esvaziar das notícias ou conteúdos que ali se preservam trazidos pelos sentidos corporais. Este esvaziamento é absolutamente necessário, sob pena de se tornar impossível a união da memória com Deus. E quando as potências da alma se transformam em Deus, então as suas obras se tornam também divinas. Como as de Maria, de resto! Confiemo-nos, portanto, ao Espírito Santo! Sem medo.

Tomemos a vida por subida. Impossível subi-la sozinho – repararás. Na vida de São João da Cruz, Maria foi alento na Subida; lua clara na Noite Escura. Foi a melodia do seu Cântico; e o calor da sua Chama. Por isso, nunca jamais algum peregrino caminhe ou suba, cante ou se aqueça longe do coração dessa Mulher que só se moveu por inspiração do Espírito Santo!

No livro Chama de Amor Viva, São João da Cruz escreve: «Convém reparar que a alma só trata de apresentar ao Amado as suas necessidades e penas, porque quem ama discretamente não se preocupa em pedir o que carece e deseja, antes apresenta as suas necessidades para que o Amado faça como for servido. Foi assim que procedeu a Virgem bendita com o seu amado Filho nas bodas de Caná da Galileia: directamente não Lhe pediu o vinho, mas disse apenas: Não têm vinho» (Chama 2,8). Ao apontar mais uma vez para o modelo que é a Virgem de Nazaré – mulher fiada e confiada, discreta e atenta – talvez o Santo muito diga ali da sua oração pessoal, oferecendo-no-la como súmula de perfeição: aquela que só nasce da moção do Espírito Santo, pois só Ele sabe o que a cada momento nos convém (e para maior glória de Deus também). E é que no humilde pedir e falar com Deus, devemos aprender de Maria a rezar, porque nunca jamais nos cabe pedir a Deus exactamente isto ou aquilo, com esta medida ou aqueloutra forma, neste ou naquele tempo, mas apresentar-Lhe, apenas, a necessidade existente, isto é, dizer-Lhe como Ela disse a seu Filho: não têm vinho!

E Ele fará o que entender deva ser feito!

Não será defeito teu, leitor, leitora, se naquele pequenino texto da Chama reparares na expressão: «Virgem bendita com o seu amado Filho». É que eu muito me engano, ou o que o Santo nos está a dizer é que Jesus é o verdadeiro amado da Virgem! E a ser assim, a eficácia da oração vem também desse amor (que une a Virgem ao Filho)! E isto é, pois, mui relevante para a oração cristã: «porque quando Deus é amado, atende com grande facilidade às preces de quem O ama» (Chama B 1,13).

Ah, como talvez se explique a ineficácia de tanta oração bendita: falamos de mais e amamos de menos.

Olha bem, leitor; olha bem o que aqui intuo: não quererá o Santo com isto dizer-nos que ter o coração inteiro em Deus; isto é, não partido e repartido entre Deus e o mundo, nos traz a nós e, por nós ao mundo, um mar de graças? Sim, nada, nenhum laço é tão forte como o amor, para alcançar e trazer de Deus quanto no mundo da fé precisamos.

Permite-me que, por último, falhe à palavra dada, e te deixe aqui outros dois breves apontamentos marianos de San Jvan de la Crvz; um mais breve que o outro.

No livro da Chama de Amor Viva, versão B, encontramos o seguinte texto: «convém saber que cada coisa tem e faz sombra conforme o modo e propriedades dessa mesma coisa. Se é opaca e escura, a sombra é espessa; se é menos densa, clara e subtil, também a sombra é mais clara e subtil. Assim, a sombra de uma treva será outra treva como a primeira, e a sombra […] das sombras de Deus, hão-de ser acesas e resplandecentes à feição das lâmpadas que as produzem; portanto, estas sombras serão também resplendores» (Chama 3:13-14).

O que neste contexto e no seguimento deste texto nos atreveremos a dizer é que a Virgem Maria, Mãe da Luz, será algo como Deus em sombra. E por essa razão, um pouco mais à frente, São João da Cruz dirá: «Segundo isto, quais serão as sombras que o Espírito Santo produzirá nesta alma em relação às grandezas de suas virtudes e atributos? Estando tão perto dela, não só a toca com a sombra, mas une-se com ela em sombras e resplendores; então, como há-de a alma entender e saborear Deus em cada uma delas, segundo a propriedade e feição de Deus em cada uma delas?» (Chama 3:15).

Cremos que daqui se pode indiciar que, à luz do Santo Poeta, a Virgem Maria, toda ela é plena da sombra luminosa de Deus, é Deus por participação de Deus, isto é: é imagem e revelação de Deus, a ponto de por Ela e Nela intuirmos um pouco mais e um pouco melhor do rosto terno de Deus. Afinal Nela se realizou o sonho de Deus, precisamente quando o poder de Deus se fez sombra sobre Ela.

Enfim, não é nada curto o alcance deste ensinamento de São João da Cruz!

Concluamos esta pequena incursão pelo marianismo de São João da Cruz, com uma breve invocação de Nossa Senhora que o Santo deixou escrita no seu Romance sobre o Nascimento de Cristo. Neste poema irmanam-se no coração cantor do poeta a sensibilidade popular típica do Natal e a profundidade típica dum teólogo contemplativo e místico. E ambas se conjugam muito bem. O poeta canta ali o mistério da Incarnação como um desposório celebrado na gruta de Belém entre a pessoa do Filho de Deus e a natureza humana; entre a natureza divina presente no Verbo de Deus e a humanidade, tão especialmente celebrado e cantado por anjos e pastores com cânticos e melodias.

Especial destaque ali se dá à Virgem-Mãe porque em seus braços Ela tomou os desposados que se haviam unido em seu seio – isto é, tomou Ela a Jesus-Deus-e-homem, saído de seu tálamo, o seu ventre virginal, para remansadamente O depor sobre as palhas da manjedoira. A este sacrário alvíssimo que é Maria, neste poema, São João da Cruz só encontrou um nome para lhe chamar: «A graciosa Mãe»! E por isso este apartado eu o termino assim:

Graciosa Mãe de Deus humanado: Rogai por nós!

5.           Já quase é hora de terminar; não porque tudo fique dito, e menos ainda bem dito. Mas por ser meu desejo que estes textos não sejam demasiado grandes, a fim de que possam ser lidos por todos. Por isso o encerro com algumas pequenas margaridas marianas que ao longo da vida de San Jvan de la Crvz foram brotando do seu coração santo. A elas vamos, pois, porque em muitos casos me enlevam mais que os tratados e súmulas teológicas.

Livre das águas. Já atrás ficou dito que, por três vezes, a Virgem livrou Jvan das águas traiçoeiras. Vale a pena contar os relatos, quer porque o são, e são curtos, quer porque eles nos falam muito e bem da sua alma e da sua ternura pela Graciosa Mãe de Deus.

Numa lagoa de Fontiveros. Nos inícios de 1582 frei João da Cruz foi eleito prior de Granada; em 1583 foi reeleito. Num desses anos que ali passou, contou que sendo menino, em Fontiveros, sua terra natal, andava ele e outros meninos brincando junto a uma lagoa. Não estou certo como seria a brincadeira, mas parece que consistia em atirar uma vara com toda a força para as profundidades da água da lagoa e depois recolhê-la, rapidamente, quando ela regressasse à tona. Ingénua brincadeira de meninos pobres, em tempos que ninguém sonhava com as PlayStation de hoje.

Nenhuma das narrações que existe diz quantos meninos fossem, nem quantas varas atirou cada um; apenas dão a entender que aquela brincadeira os entretinha e os fazia felizes, pelo que com ela não se entretiveram apenas uma vez. Ora, pois: o que sucedeu então, de tão surpreendente? Sucedeu que de certa vez – talvez porque a vara de Jvanico não regressou à flor da água com ímpeto suficiente para que a agarrasse prontamente – o menino caiu dentro da lagoa barrenta. Talvez ele se tenha debruçado em demasia e, desequilibrando-se, afundou-se na água lodosa. O susto foi grande para todos e o alarido das demais crianças também.

Conta o Santo, e contou-o muitas vezes, que naquele entrementes em que se debatia com as águas profundas e o lodo da lagoa, Nossa Senhora lhe apareceu e lhe pediu que lhe desse a mão para o livrar das águas; e o menino não dava a mão à Senhora porque «a tinha suja de barro e não queria sujar a dela, que era tão formosa e linda». Sigamos ouvindo o Santo: «estando assim nesta contenda [com a Senhora] apareceu, entretanto, um lavrador – alguns dizem que era São José! – que lhe estendeu una vara que trazia; eu agarrei-me a ela e assim saí da lagoa».

No poço do hospital de Medina del Campo. Já o sabemos menino acólito, esmoleiro e enfermeiro no Hospital das Bubas de Medina. Não era certamente o único, pois havia mais. Certo dia em que brincava com os companheiros no pátio do hospital, um dos colegas empurrou-o e Jvanico caiu no poço da nora. Susto, horror. Não se sabe o mês, mas as águas eram fundas, negras e frias. E foram tantos que o viram no fundo do poço, que o assunto foi falado em toda a vila de Medina e arredores. E se assim foi, foi, que o Santo jamais o negou.

Alguns que contam este facto só o souberam pela boca do Santo – como foi o caso da Madre Francisca da Mãe de Deus. Narrou ela que ele, caído no poço, «nunca se afundou nas águas escuras, mas sempre esteve sobre elas, até que chegou quem lhe lançasse uma corda e o retirasse». Ah, pois, sim, dirás tu, leitor, leitora, mas como é que Jvanico se manteve à flor da água tanto tempo? Manteve-se, segundo o que ele contou, porque «Nossa Senhora o sustinha pela mão»; e como se sabe: quando a Mãe põe a mão, tudo serena, tudo se sustém!

Num rio, algures entre Castilha e Andaluzia. Certo dia, já frei João era homem maduro e grave, indo de Manchuela para Jaen, o Santo deparou-se com um rio a transbordar. A subida das águas deve ter sido repentina, razão pela qual na margem aguardam quatro arrieiros para fazer a travessia em segurança. Frei João chega em cima dum burrico. Imprevidente ele não é, mas contra todas as prudentes falas ele se atira às águas. Eis, senão quando, vindo pela correnteza abaixo um tronco se mete entre as patas da cavalgadura e derruba montada e cavalgador. E pugnando o Santo contra as águas e o tronco, pareceu-lhe ver Nossa Senhora que o segurou pelas pontas da capa e o retirou para fora; e uma vez fora, apressado se encaminho para uma pousada onde jazia um homem ferido de morte, necessitado de confissão geral!

Maria, o olhar e o coração de Maria, Senhora das águas bravias, estiveram sempre diante do coração e do olhar de frei João da Cruz. Sempre, sempre.

Opção de vida. Sabemos bem que na juventude, ao concluir os estudos secundários, houve, como todos, de escolher rumo para a sua vida. A verdade é que se lhe ofereciam vários caminhos: ou sacerdote capelão do Hospital da Conceição; ou religioso franciscano, ou até mesmo jesuíta, entre os quais concluíra os estudos médios com um aproveitamento elevadíssimo. Entre estas e outras consideráveis opções, inesperadamente João de Yepes escolheu entrar no claustro do convento do Carmo de Santa Ana de Medina. Muitos se perguntam o porquê dessa eleição – já eu não duvido que era por ser o claustro mais pobre de todos; mas também estou com todos os que dizem que ele o elegeu por ser da Ordem do Carmo, a Ordem de Nossa Senhora. É que desde menino todo ele Dela é, todo a Ela está devotado e consagrado; e se assim é, como traí-la, dirigindo-se para outro claustro mais pomposo que a casinha de Nazaré? Não, ele não podia revestir-se senão do hábito de Nossa Senhora, e foi, pois, esse que escolheu para toda a vida!

Encontro definidor. Surpreendentemente, depois de ordenado sacerdote, frei João sofre um assustador torpel de dúvidas e angústias terríveis. E tanto é o que ele detidamente rumina no seu interior, que se decidiu a desvestir o hábito da Senhora do Carmo para se revestir do de monge cartuxo. Anda nestas quando em Agosto de 1567 desceu a Medina del Campo para celebrar a primeira Missa. Ele não sabe, mas ali vive, desde há algum tempo, a Madre Teresa de Jesus. Encontram-se, por fim, os dois no locutório do Carmelo, num encontro mediado por um companheiro de estudos de frei João. A monja procura pedras para um convento de frades contemplativos e não as acha, pelo menos uma que seja inteira e cabal para a missão que o Espírito Santo lhe inspira.

Numa discreta tarde juntam-se os dois santos – e que santos! –, um de cada lado da grossa grade de ferro. Desse encontro se diz que duas mulheres – Teresa e a Virgem Maria – se coligaram para definitivamente ganhar o fradinho pobre de Fontiveros, para a Ordem de Nossa Senhora, o Carmo. De facto, frei João não escondeu, jamais à Madre que pretende ingressar na Cartuxa de Paular. Já a Madre, perspicaz em reconhecer os anelos de perfeição de alguém, concorda com tais desejos, e informa-o que possui duas patentes do Padre Geral Rubeo, devotíssimo de Nossa Senhora, para inaugurar dois conventos masculinos inteiramente a Ela dedicados. Há até quem diga que foi Ela a verdadeira promotora deste encontro feliz.

O certo é que frei João apenas pediu uma coisa: que em nada a Madre se demorasse. E ela não se demorará, não. Poucos dias depois, antes de Setembro, isto é, antes que frei João a acompanhasse na fundação do Carmelo de Valhadolide, a pedido da Santa Madre, aparece-lhes ele vestido de Descalço, de pés nus, hábito curto e pobre, de estamenha de cor castanha, da mais ordinária que havia. O burel fora talhado pela própria Madre Teresa e costurado por ela e suas monjas. E por sobre o saial marron uma grossa capa branca. Quando as monjitas o viram no locutório, viram o que nunca ninguém antes tinha visto: um Carmelita Descalço com um hábito pobre como o avental da Mãe de Nazaré… Eis ali o primeiro aparecendo no mundo, primeiro e viva imagem de homem contemplativo e penitente. Naquela hora, o mundo (representado pelas monjinhas), os anjos e os santos assistiram maravilhados e edificados a este espectáculo de pobreza inegável.

Dentro de breves dias, o pequeno filho da Virgem Maria, descalço e garboso, palmilhará revestido do pobre hábito da Mãe, os longos trilhos poeirentos de Castela.

Ó que belo é o hábito da Virgem!

Filho, tem paciência. Entre o dia 28 de Novembro de 1568 e os inícios de Dezembro de 1577 a vida da Descalcez e a de frei João da Cruz é um fervilhar em permanente corre-corre.

(Já sabes, leitor, leitora, que a primeira data corresponde à fundação dos Carmelitas Descalços – no primeiro domingo de Advento; e a segunda refere-se ao dia em que prenderam o pobre fradinho Santo e, raptado e vendado, o levaram para a prisão conventual do Carmo de Toledo.)

Ora, pois, esses curtos anos voaram como um fósforo aceso. Não é preciso descrever aqui como foi a vida daquelas primeiras comunidades, pois é sabido como as dimensões contemplativa, mariana e pastoral ou missionária estiveram mais que presentes e bem aparelhadas entre si. O que sim devemos sublinhar é que o aparecimento e implantação dos carmelitas descalços foi tão rápida e bem-sucedida como fogo ardendo em palha seca. E poucos ou nenhuns estavam preparados para tal. Vai daí, raptaram aquele fradinho tão Zé-ninguém que custa a crer que afrontasse ou fizesse mal a algum instalado. Pronto, mas já é sabido dos Evangelhos que a pedra preferida é a enjeitada, não a aparelhada e luzente.

E pois, raptaram-no, torturaram-no e martirizaram-no impiedosamente durante os nove meses que o aproximaram do dia 14 de Agosto de 1578. Na tarde desse dia deu-se o diálogo que já conheces, leitor, leitora. Entrando o prior padre Maldonado na enxovia em que o retêm prisioneiro, acha-o por terra e de costas para a porta. Jaz desvalido.

Afrontando-o com o bico da sandália nas costas, pergunta o chefe da prisão ao encarcerado:

– Porque não vos levantais, se venho visitar-vos?

– Perdoe-me Vossa Reverência, pois, fraco e absorto, não me apercebi da vossa chegada! – contestou, desculpando-se, enquanto cambaleando e a custo, procurava erguer-se.

– E em que pensáveis, agora mesmo?

– Estou a pensar que amanhã é dia de Nossa Senhora e que muito eu gostava de rezar Missa!

(A narrativa não o diz nesta página, mas sabido é que o haviam privado de dizer Missa durante os pretéritos nove meses!)

– Nunca isso acontecerá em meus dias de superior! – replica-lhe o cruel algoz, enquanto se vira, sai e bate a porta com estrondo.

Anos depois, várias pessoas jurarão declarando terem ouvido do Santo Padre que no dia seguinte àquela injúria – portanto, no dia solene da Assunção de Nossa Senhora – Ela lhe apareceu na prisão, pedindo-lhe que fosse paciente, e declarando-lhe que em breve o salvaria; e em prova disso lhe mostrou uma janela – por sinal, altíssima! – por onde ele haveria de fugir. E assim, como já deixei descrito noutro lugar: em uma noite escura, com ânsias em amores inflamado, miraculosamente, o fradinho pobre e mártir de amor da prisão fugiu com sucesso.

E em pouco tempo os carmelitas reformados obtiveram licença para criarem uma província separada – a primeira dos carmelitas descalços.

A da capa branca. Narram ainda os anais do carmo descalço outra maravilha de Nossa Senhora em favor de seu filho, o padre João. Já maravilhado aqui a contei algures, mas esta é também a hora de a recontar reforçando a clave mariana. (Perdoarás, leitor, leitora, se desemparelhar algum pormenor.) Quem no-la conta é o Irmão Martinho da Assunção, que participou no acontecimento: estando frei João da Cruz na fundação de Córdova, derrubavam-se paredes para melhor aparelhar a casa e a igreja. Tendo cavado certa parede pela base, puxaram-na depois com sogas, a fim de a derrubarem por terra. Surpreendentemente esta acabou caindo não para onde era puxada, mas sobre a cela do Santo, soterrando-o. Literalmente. Logo ali acorreram peões, operários e frades, em esforço, para retirar terra, pedra e tabiques; e quando o criam morto, acharam-no, rindo-se a um canto, embrulhado na capa branca, declarando:

– Foram Vocês muito pontuais! E não fora a da Capa Branca – a Senhora do Carmo – e não estaria eu agora aqui, livre de perigos e sem nenhum arranhão!

Celebrando as suas festas. Aquele homem e frade adusto e austero era, afinal, um ramalhete de finezas e delicadezas, mais ainda em tratando-se dos dias festivos da Virgem.

No Natal mandava pôr a Virgem num andor e levavam-na em procissão pelo claustro. Não se tratava duma procissão penitencial, ainda que o fosse, mas duma prece em modo exaltação. Quando chegavam à porta duma cela (ou quarto), cantavam versos do Santo, como este:

Del Verbo divino,
a Virgem preñada,
viene de caminho,
si le dais posada.

(Por julgar desnecessário, isto é, por crer que qualquer português saberá ler e entender esta quadra em castelhano, não me urge traduzi-la, para que lendo-a deste modo, sintamos toda a ternura e candura da piedade dos versos marianos de San Jvan de la Crvz!)

E depois lá seguiam, e em chegando a nova porta, e a outra, e a outra cantavam novamente estes e glosas destes versos que anunciavam a proximidade do parto da Virgem.

Numa outra festa, no dia da Senhora das Candeias, presidindo o Santo, depois de benzidas as velas, isto é, ante de iniciada a procissão, mandou descer o andor da Senhora e retirou-lhe o Filho dos braços, e qual Santo Velho Simeão, caminhou com Ele, afervorando muito as gentes da terra e os santos do céu!

Muitos outros relatos existem, migalhas uns e outros algo mais que isso. São pequeñeces, pouquidades, direi, que é bem mais que piquinhidades típicas da piedade sensível de filho por sua Mãe. Não as relato aqui, pois não acabaríamos de as contar. Por isso, passo de imediato para as suas últimas horas de vida:

A sua morte foi a de um místico enamorado. E foi também uma morte anunciada oito dias antes, como já sabemos, pela Bendita Senhora, a Graciosa Mãe de Deus. Ela que por ele em vida tão amada foi, esteve presente como mãe e confidente em cada segundo da sua dolorosa agonia.

No último dia, sábado, 13 de dezembro de 1591. Quase de espaço em espaço, foi perguntando as horas ao seu enfermeiro. Tinha pressa de ir-se, como bem sabes, leitor, leitora.

Fernando Días, pai de Catarina de Cristo – uma das duas mulheres que lavaram as gazes que vendavam as feridas da perna do Santo – estava na cela de San Jvan de la Cruz nos últimos momentos da sua vida. Pela sua vida fora sempre lembrou a morte do Santo e nunca esqueceu que nos últimos momentos da sua agonia sustentou na mão direita uma vela acesa. Conta, pois ele, e os frades da comunidade Úbeda o corroboram, que às onze da noite o Santo perguntou que horas eram; e qual seria o dia seguinte. E quando lhe disseram que seria sábado, respondeu:

– Oh que dia tão feliz para mim, porque ao céu tenho de ir rezar matinas com Nossa Senhora!

E assim foi como, na boa companhia de sempre, a de Jesus e de Maria, São João da Cruz voando, entregou a sua alma a Deus.