Frei João Costa, OCD

1.           Parar. Contemplar. Caminhar.

Mora nos carmelitas um zelo de lento fogo feito e de veredas ágeis. Até ao fim do mundo, se necessário. Quando digo fogo, digo forno, proximidade ao calor de Deus que mais arde, mais aquece, alumia e queima se o corpo e o espírito mais se dão à calma.

Este jeito antigo é do profeta Elias que ora, no cimo do Carmelo, se aquecia ao lume da contemplação, ora, baixando, velozmente, à sua passagem, se incendiavam as margens dos caminhos.

Este jeito é tão antigo que tem para cima de vinte e cinco séculos. Credo, que digo? – Tem quase trinta! É eficaz e actual, mesmo em tempos de pressa, de velocidade e de vertigem loucas.

Parar para rezar, andar a apregoar e volver a parar e a serenar não é para fole furado, é uma via capaz, mais que bem testada e trilhada. Aliás, quando Jesus a preferiu não inventava nada. E quando São João da Cruz a usou, idem, aspas, aspas.

(Ninguém dá o que não tem; e até o que tem, sabe Deus… Ah, e desde o ângulo em que falo, o que importa mesmo é que dando, quem dá, dê Deus feito palavra de luz, palavra certeira, palavra que guie, que instaure, restaure, que jamais rasteire. É disso que aqui falo.)

Há quase trinta séculos, no cimo do monte, à serena boca duma cova, Elias passava longas temporadas dedicadas ao silêncio, a escutar a brisa suave, ruminando a Palavra, cutucando com o ombro o ombro de Jahvé; e só depois de bem esmoída, só depois de a fazer capa sua e de habitar dentro dela, se abalançava e se abandonava aos incansáveis caminhos, vertendo-a no coração ressequido do povo. E não foi isso, aliás, que depois Jesus fez nas suas longas jornadas de oração e de caminhada? Foi, sim. Idem para frei João da Cruz, que nada inventou, apenas seguiu.

2. São João da Cruz era homem de boa tempera. Não se assustava nem com a calma nem com o silêncio, nem com cobra nem com uivo de lobo rasgando a noite em duas, em quatro, em seis partes; aliás, amava-os, procurava-os; deleitava-se neles. Ensinava a amá-los, a abraçá-los, a comprazer-se, a sanar-se e a deliciar-se neles. Que sim, mais depressa puxava ele a capucha sobre calva e, de pés descalços, se cobria sob a sua capa branca, do que se contorcia ou se consumia em histerismos e lamentações inúteis e estéreis.

É homem dos caminhos. Dos cantinhos. Franzinos todos. Preferindo os dos arrieiros aos reais. Os precários aos muito seguros, brunidos e elaborados. Dum desnudo cantinho fazia um altar de eleição. Dum caminho, um claustro sereno. Eu gosto dessa ideia que na alma repetidamente ele nos inscreve como em branda cera; aliás, os seus confrades e companheiros de lide e de jorna, sabem-no apreciador do longo silêncio escalvado, sabem que jamais se assusta se tem de ficar no seu canto. Ou se diante duma empresa tem de arregaçar as mangas, ora pois. Jamais, porém, sôfrego tropeçava no corre-corre. Oh, como ele gostava do remanso desalumiado duma cueva ou dumas horas, mesmo se mortiças, diante do Sacrário!

3.           Amigo do seu cantinho ele era, mas não bicho do buraco. E que o mandassem a Lisboa ou ao México, a Los Mártires ou a Segóvia era igual. Ia. Vamos, por isso, com ele para o caminho, que sacrário viandante era!

4.           Alguém em nossos dias deitou contas aos seus passos – quero crer, dos de apenas como Descalço, isto é, entre os primeiriços de Duruelo e os postreiriços de Úbeda. Ora se o critério for esse, as balizas vão de meados de 1568 ao outono de 1591; uns vinte e três anos mais que incompletos, portanto. Ora, pois, nesse período de pouco mais de vinte anos palmilhou ele 27.000km – ou seja: mais de mil por ano! (Qualquer coisa como ir e vir de Braga a Faro uma vez ao ano!)

É obra, pois não os fez de mota, de carro ou de avião, mas a pé e, quando muito, revezadamente, ao lombo de mula. São muitos quilómetros, muitos mesmo, até para homem apostólico! Mas frei João era um contemplativo que gostava da sua cueva, da sua cela, do sossego do seu cantinho. De passar ali longas temporadas na solidão, a sós com seu Deus só, para só depois se atirar ao caminho; logo, portanto, a sua obra viandante é naturalmente bem mais significativa do que estamos habituados a reconhecer!

Tanto caminho não o palmilhou ele só, pelo que se o título deste texto fala de companheiros, a isso iremos, e ainda, ao de leve, ao seu jeito santo de caminhar.

Entre os Descalços sempre esteve proibido viajar sozinho. Aliás, não inventávamos nós nada, pois já os Evangelhos deixam nota de que os apóstolos eram enviados pelo Senhor a pregar dois a dois. Assim, se um se assustava, o outro o serenava. Se um desanimava, o outro o alentava. Se um adoecia, o outro o socorria. Se um descarrilava, o outro o punha em seus cabais.

Sim, frei João da Cruz viajava acompanhado, de preferência dum irmão; por vezes, dum sacerdote, e mais raramente dum sacerdote e dum irmão. Com dois irmãos também sucedia. Era, aliás, tão estimado pelos seus companheiros – ou seriam anjos? – que eles disputavam entre si o gozo de o acompanhar pelo alongar da lonjura e da dureza dos caminhos. Conhecemos alguns dos seus nomes, e sabemos que algum – não recordamos agora aqui, na ponta da caneta, o seu nome… – pediu e alcançou o singular privilégio de sempre mudar para o lugar e convento que, findo o triénio, frei João mudasse. E foi assim que o acompanhou por léguas e léguas infindas.

Haveria certamente outros, mas registemos os nomes dos seus principais companheiros que temos mais à mão, seus secretários pessoais ou não: Diego da Conceição, Gabriel da Mãe de Deus, Pedro de Santa Maria, João Evangelista. Os mais queridos, porém, foram o irmão Jerónimo da Cruz e, sobretudo, o irmão Martinho da Assunção – talvez aquele que alcançou a dita de mudar de conventualidade sempre que o padre João da Cruz mudasse.

5.           Alguns daqueles lanços de caminhada eram assaz longos – coisa para oitenta léguas ou mais! (Tenha-se em conta que uma légua rondaria os cinco quilómetros, talvez, até para mais!) Uma carreira dessas implicava caminhar bem para cima dum mês e até mais que dois – se é que nenhum dos dois caminheiros adoecia, ou não eclodia outra surpresa que os empaliasse.

Ora, e que faziam dois frades descalços e mendicantes durante um mês ou mais de caminho?

Bem, se o irmão Martinho tanto gostava de partilhar as longas e duríssimas viagens com o padre João da Cruz, de todo em todo, não era por inteira mortificação. Pelo contrário, era por bom gosto. Por puro desfrute e deleite. Enfim, eu creio que São João da Cruz era um homem temperado, agradável e sem receio de ser mimoso; paterno e carinhoso, digo. Não o pintem arisco ou urão que não o aceito. Nem danado, nem avinagrado, nem ácido. Nem bruto, nem brusco, nem chupa-limão. Austero, sim. Aprazível sempre, apesar das contrariedades, mesmo se uma urgência o obrigava a vadear um obstáculo por trinta léguas, mesmo se as vitualhas não passassem de miudezas e de côdeas duras que se houvessem de anediar na água fresca dalgum regato.

Certa vez, já quase noite, alcançaram três Descalços uma albergaria e não havia ali nada de comer ou beber; e por não existir, impossível procurar outra:

– Bem, irmãos – terá sussurrado o padre João – visto que por aqui nada há que nos conforte, consolemo-nos com o amor de Deus, que de comer não nos há-de faltar!

É verdade que barriga vazia não tem alegria nem dá bom repouso, mas vazios os três – o que não seria inédito! – lá se encaminharam para a porta de saída! Ao irmão e ao donado tocariam, como de costume, uma enxerga a cada qual. Ao padre, uma humilde esteira estendida no chão. Por manta, a capa do hábito.

Recebidas foram aquelas palavras do Santo Prior num tão breve entrementes que nenhum dos companheiros tempo teve para balbuciar: Deus nos dê paciência e um carro para a levar. Estavam, pois, postos nisto, quando, ensaiando cada um o conformado retiro para seu pouso, porta adentrou um cavalheiro que logo se apercebeu da penúria do lugar e da indigência dos três mendicantes, e lhes imperou:

– Senhores, hoje, ceiam comigo! E não há cá renúncias!

E os quatro jantaram a bem jantar, que de tudo vinha ele bem provido! Ah, e se o Santo jamais se lamentou, o irmão e o donado, esses, os dedos lamberam!

A cena passou-se e está relatada. O que, porém, nas entrelinhas melhor leio, é que nenhum dos mendicantes, em momento algum, rezingou. Sim, nem antes nem depois, jamais algum deu pela sua vida a andar para trás, por causa duma légua a mais ou duma malga de caldo a menos; e se jamais lamentaram as duras durezas que, circunstancialmente, a cada hora lhes cabiam, também não enjeitavam as branduras quando estas sucediam – ora pois, se naquela noite, de comer ou beber não havia, que mais fazer senão rezar o Salmo 30, o 129, o Nunc Dimitis, o Sub tuum praesidium, encomendar-se a São José, e ala que se faz tarde e amanhã outro dia será, que cada dia o seu cansaço traz?

Como admiro eu a serenidade daqueles pobres mendicantes a caminho, e a paz com que, hora a hora, sabem abrir-se à justiça da Providência! Sim, mas o que mais bem me cai é que os companheiros de São João da Cruz gostavam muito de caminhar com ele, mesmo se inapelavelmente o fim do dia vazio lhes mostrava o fundo da saca do pão!

Alguns biógrafos chamam-lhes companheiros – os que comem do mesmo pão; outros escudeiros – que protegem; outros, anjos – que guiam. Seriam tudo isso, e até sacristães e enfermeiros. E confessores, se eram sacerdotes. Tenho ainda, por isso, mais de duas estórias na taleiga.

6.           Nas viagens longas eram acompanhados por asnilho que, ora montava um, ora outro, e no outro terço, descansava a alimária. Lembram, por conseguinte, que eram famosas as quedas de frei João da montada. Não deveriam ser muito desabridas, porque mansa é a mula ou não aceita albarda; mas elas sucediam, sobretudo quando ele se embrenhava na leitura da Bíblia – não te encantará a ti, leitor, leitora, a imagem dum santo voando manso ao lombo de mula mansa, lendo e rezando a Sagrada Escritura? A mim, sim; e tenho por assente que a mula teria de ir a seu natural «passo de mula», isto é, dando conforto e firmeza, já que se fosse a trote, nem olho de águia haveria que acompanhasse a divina carreira das letras. Ora, pois, vê lá tu: ia o Santo a ler, quem sabe, aquele versículo do Cântico de Salomão que diz: «Eu durmo, mas meu coração vela. Eis a voz do meu amado, que bate». E era aquilo lido e sorvido com tal unção, com tal recolhimento, que até a mula entendia. E o Santo lia e a mula ouvia; e o Santo se recolhia e a mula meditava sem perder o pé; e em recolhendo-se profundamente o andarilho na cueva dum verso, como que escuitando o chamamento do Amado, sem saber como, despegava-se ele da albardilha e, pumba!, estatelava-se no chão! Sucedendo isso, nada burra, sustinha-se a mula, e o Santo, já mais que desperto, erguia-se rindo e, sacolejando-se, varejava o pó do hábito, para logo ver o afligido e prestimoso companheiro acercar-se para o ajudar; e enquanto um se saracoteia, o outro lhe aperta os ossos a ver se algum se quebrara como um chamiço! E não, não, desta vez mais, nenhum se quebrara. Felizmente.

Não julgues, leitor, leitora, que isto se passou uma vez apenas, mas várias e repetidas, visto que um mês ou dois de viagem de ida, e a mesma cifra para a volta, dão para muitos e deliciosos toques do Amado… E eram eles tão suficientemente frequentes que certo companheiro seu decidiu que, em tocando ao padre João a montar, caminharia ele nem adiante nem atrás, nem no seu mundo nem infirmando-se nas maravilhas da natureza, mas sempre, sempre, lado a lado de seu Prior, como fiel e atento escudeiro, sempre assaz pronto a ampará-lo quando, desenculatrado da albarda, um toque houvesse de o tombar para um lado.

Ah, a isso chama-se escudeiro fiel, sim, e anjo, que companheiro também o era.

7.           Sabedores fomos e em algum lugar já o deixamos escrito que os montes, os céus, os rios e os vales, e as searas, e mesmo um sino tocando ao longe encantavam e incendiavam o coração lírico e santo do Santo. Que jamais caminhava em esforço, mas em laudem gloriae, e em jubiloso júbilo. Que logo se desfraldava em cânticos e hinos a Nossa Senhora, trinando regalados salmos qual David com sua harpa. Que mesmo seguindo por caminhos de arrieiros – entendo que os mais duros e agrestes de ao tempo –, se dedicava também a cavaquear com seu companheiro, digo que dialogavam, como diria que ele os catequizava, lhes dava bons conselhos, ensinando-os a servir a Deus como Deus quer e ama ser servido e amado. Que lhes confidenciava estórias da sua vida pessoal e familiar, da sua oração e comunicação com Deus. Ah, e certamente que cantarolavam juntos sem ferir a modéstia, que juntos ajoelhavam e também erguiam as mãos, abrindo os braços para o alto tal como as águias reais alongam as asas ao levantar voo. E que diziam, rezavam e cantavam juntos a Fonte, o Pastorinho, os Romances, o Cântico, a Chama, a Noite; quem disso tem dúvidas? E, claro, que à beira dum regato – quase como se num recreio – lhes explicava, com tempo e com calma, um a um, os versos que escrevera e outros que pensava escrever (e até talvez tenha escrito, mas não chegaram até nós).

8.           Nem tudo, porém, foram andanças e melodias ternas. Algumas vezes existiram contrariedades sérias, lágrimas e até sangue.

Nalguma viagem o seu companheiro falou-lhe de certo palácio recém-inaugurado, cuja beleza arquitetónica anda nas bocas do mundo. E pronto lhe sugere que, como tantos, o visitem, até porque o desvio não excede a légua, légua e meia. Mas o Santo logo atalha: «nós não andamos aqui para ver, mas para não ver». E não viram.

A verdade é que aquelas viagens se não careciam de picaresca, também não lhes falhavam as dilações. Como se verá; ou porque frei João adoecia e, falho de forças e de alimento, demorava a recuperar, ou porque surpreendiam uma rixa, ou porque noutro lugar, o irmão Pedro, desembestado, se despenhou por um barranco abaixo. Iam três; o outro irmão, perante cena tão funambulária, escaqueirou-se a rir. Já o padre João, percebendo a coisa à beira da tragédia, retorque-lhe:

– Cale-se, tonto, que a coisa é mesmo séria!

E se era!; pelo que, temerosos e assustados, se aproximaram os dois. Desvelado e cuidadoso, logo o Santo socorre o sinistrado: aqui havia uma entorse, ali uns ossos desmanchados. Acolá umas feridas e rabunhadelas. Enfaixado o ferido, com suprema caridade e muito cuidado, alçam-no para a montada. E retomaram o caminho com tais cuidados, que o que se faria em bem menos se fez em muito mais. Achegados à estalagem prevista, recomenda o Padre ao doente que aguarde na montada, enquanto tudo ali aprontará para o bem receber e acomodar. Mas logo este responde que não, que não, pois se encontrava bem e mais que bem: – E vossa Paternidade verá que me encontro tão bem que dum salto me encontro no chão! E deu o salto e estava mesmo bom, pelo que a ceia melhor caiu aos três!

Noutra viagem, de surpresa e à má fila, o rugido de dois canzarrões rasgou o silêncio e a meditação dos Descalços. E logo os colossos se precipitam sobre ambos companheiros. Houvera por ali um pinheiro e logo verias o irmão no cocuruto da árvore. Mas como não havia, protegeu-se ele atrás do Padre. Este, parado, aguardou-os, sereno e firme. Acercam-se os dois mastins, com a lição bem estudada: – O terreno é deles, por ali ninguém passa sem pagar! O Santo, porém, jamais se intimida nem se mexe. Apenas lhes manda que se acalmem, se calem e se aproximem. E eles acalmam-se, calam-se e aproximam-se: cheiram-lhe as mãos, cheiram-lhe os pés descalços e, sossegados, quais bebés, deitam-se ali, como se o padre João fosse o seu dono. E ele lhes retribui a obediência e a mansidão com carícias e ternuras e, remansados, os envia de volta para a guarda do rebanho. Já os dois Descalços, livres e sãos, seguem em frente.

Noutro dia, achega-se o Santo a certa hospedagem de certo lugar. Vem ele em cima da mula, o que lhe dá bem noção do cenário que tem diante. E que vê? Piores que mastins, dois homens bulham ferozmente à navalha. Um deles, aliás, sangra abundantemente, o que encoraja e acrescenta a ferocidade do oponente. Tudo indica, este aponta já o afiado gume ao coração do exaurido. Por isso, ou o padre João age depressa, ou pronto temos confissão, encomendação da alma e funeral. E ao não ver mais saída, deita ele mão da solução que lhe resta e rápido atira o seu chapéu para o meio dos dois, imprecando-lhes que, como bons cristãos, e em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, parem a rixa. Apressado baixa da montada – recatado, o irmão Martinho fica segurando-a pela arreata – e à vista de todos os circunstantes, destemido, se aproxima de ambos contendores que, gelados e incréus, não param de se entreolhar. E tão pacífico e manso ele lhes fala que eles, mesmo se recidivos no duelo, abrem as mãos, deixam cair as navalhas, e caindo nos braços um do outro, beijam-se mutuamente os pés e ficam amigos!

E que ceia não foi a daquele dia, depois que o Santo curou aquela mão e, sobretudo, aqueles corações tão profundamente inimigos e rasgados.

9.           Terminemos que tudo tem um fim.

No fim da vida, desprezado e perseguido por uma pandilha arrivista e malcriada, amado de coração por discípulos leigos e pelo fiel grupo de perseguidos, foi enviado para o México como missionário. Não chegou a partir que o corpo cedeu a 14 de dezembro de 1591, tinha ele apenas 49 anos. Doente e acamado em convento pobríssimo, pedem-lhe, pelo muito que vale, que se dê a cuidados e se cure. Escolherá partir para o convento do Carmo da cidade de Úbeda, onde as gentes o não conhecem, e o prior lhe é adverso. Ali acabará morrendo vítima também dos seus maus humores e ingratidões.

Mas o que aqui mais interessará é esta sua última viagem, a que faz para ali chegar. Foi demorada, cansativa. O enfermo vai cansado e há quatro dias que não come algo de proveito. Mesmo agasalhado e acomodado em cima de cavalgadura capaz, as paragens são frequentes, demoradas – um desafio maior, mesmo para o pacientíssimo jovem criado que o acompanha. Quem, aliás, visse passar o pequeno cortejo diria que além do chão, até a montada se condói. A cada repetida pergunta sobre se alguma coisa lhe apetece, a resposta é sempre negativa. Não, nada.

Ia a tarde a mais de meio quando chegaram à ponte de Ariza, sobre o rio Guadalimar. Pede o enfermo, num discreto fio de voz, para descansar à sua sombra. E descansa, aproveitando a frescura das águas. E novamente perguntado sobre se lhe apeteceria comer, responde:

– «Uns espargos, se os houvesse».

Bem sabem, ele e o jovem criado, que os finais de setembro não são tempos de criar espargos. Mas logo o rapaz saltarica por aqui, saltarica por ali, corre acolá, ciranda por além e… e não é que encontra um molho de espargos trigueiros!

– Ide e apanhai-os – diz frei João, depois de o ter aconselhado a procurar o dono – e sobre a pedra em que se encontram deixai quatro maravedis, para que o possível dono não seja roubado!

Ah, São João, São João, São João da Cruz! Então, onde alguma vez vistes tu, onde já viu alguém, espargos em finais de setembro? E deixar quatro maravedis para que o dono não fosse roubado?!

O certo é que as moeditas lá ficaram sobre a mesma pedra em que foram encontrados. O certo é que, chegado a casa, o Santo conta o caso aos frades «em tom de risota». E certo é que, por não crerem, os frades os tomam nas mãos e veem nisso algo e até tudo de maravilhoso!

Cá por mim que nada sou, nada valho, mas às vezes entrevejo um lampejo, esse homem bendito, nosso pai, todo ele celestial e divino, esse peregrino de mil caminhos, que em vez de regalos apenas pediu para «padecer e ser desprezado por causa de Vós, Senhor», esse homem que além de padecimentos uma só vez desejou, e logo espargos, uns simples espargos – quem diria! – alcançou-os.

Como bem paga o nosso Deus a seus servos!