Ano jubilar de S. João da Cruz

Armindo Vaz, OCD

As maiores descobertas na história do progresso não são as invenções científicas, por muito bem que digam do engenho humano; nem as viagens mais impressionantes são as que oferecem deslumbrantes paisagens. A melhor visão é o conhecimento da alma humana. O poeta e místico João da Cruz foi exímio conhecedor do humano, especialmente enquanto ‘ser para a transcendência’. Ora, esse conhecimento, ele afinou-o meditando assiduamente a Bíblia. Ela emprestou-lhe o olhar transformado e transformador que encara o mundo na perspectiva mais certa.

Sendo jovem estudante, frequentou quatro anos a célebre universidade de Salamanca, que o embrenhou nos segredos da palavra bíblica. Ao reitor da universidade já no séc. XX, Miguel de Unamuno, atribui-se a sentença: «Quod natura non dat Salmantica non praestat: O que a natureza não dá [dons inatos, talento, memória, aplicação, aprendizagem] a universidade de Salamanca não o empresta». No caso de Frei João da Cruz, aplicado, reconhecido como o melhor dos estudantes devido à sua inteligência e santidade, a sagrada Escritura, uma das cátedras mais frequentadas pelos estudantes, oferecia-lhe abertura aos mistérios do divino, iluminação dos caminhos da vida humana, palavra de Deus para subir ao monte da santidade na sua relação com os irmãos, impregnação da vida com uma boa dose de mistério. Lá assistiu às aulas de Sagrada Escritura do célebre agostiniano Frei Luís de León no curso de 1567-1568. Também estava ao corrente do ensino bíblico prestado na florescente universidade de Alcalá, pois foi lá director dos estudantes carmelitas dois anos. Portanto, adquiriu boas bases, as melhores que se podiam ter na altura em vista do domínio dos temas da sagrada Escritura, ligando com grande familiaridade passagens paralelas, que se explicavam mutuamente. Compreende-se assim que todo o seu edifício espiritual, a sua experiência de Deus e a direcção espiritual oferecida assentem na espiritualidade segura da palavra bíblica. A palavra de Cristo habitava-o com toda a sua riqueza. Também por isso a sua espiritualidade e mística resistiu ao teste do tempo e não envelheceu.