No fim do ano passado foi publicado em espanhol o livro  de Armindo dos Santos VAZ, Criação divina sem pecado humano. Uma história com sentido: Génesis 2-3 (Paulinas Editora; Prior Velho, Fevereiro 2024) 270 páginas.

Aqui fica a Recensão da versão espanhola, feita pelo prestigiado teólogo Eloy Bueno de la Fuente:

Armindo dos Santos VAZ, Creación divina sin pecado humano. Una historia con sentido: Génesis 2-3, Fonte, Burgos 2024, 310 páginas.

O relato veterotestamentário chamado “história de Adão e Eva” constituiu-se como clave de toda uma civilização, tendo-a influenciado por diversas vias, de modo universal. No âmbito cristão marcou a compreensão e a recepção da mensagem evangélica e, consequentemente, a teologia e a espiritualidade cristã durante séculos. Basta pensar no papel que o pecado original desempenhou na forma mentis da tradição judeo-cristã, que ligava explicitamente o pecado à criação. Avaliado o relato em perspectiva histórica e tendo em conta os seus efeitos, descobrem-se algumas ambiguidades ou unilateralidades que suscitam reacções negativas a partir da sensibilidade actual. Por isso esteve exposto a rejeições e a críticas do ponto de vista filosófico e até teológico.

Torna-se necessário, por conseguinte, o esforço por fazer uma recepção conforme com essa sensibilidade contemporânea que ao mesmo tempo não atraiçoe o sentido original e genuíno do texto bíblico. Nesta direcção e a partir desta preocupação, deve-se agradecer o contributo do Professor Armindo dos Santos Vaz, Carmelita Descalço português, que foi docente na Universidade Católica de Portugal e primeiro presidente da Associação Bíblica Portuguesa. Depois de duas fases de compreensão desse texto do Génesis, leitura historicista e leitura concordista, abriu-se uma terceira fase, a de uma leitura crítica e contextualizada, a partir da qual se constata que tradicionalmente o sentido real do relato foi forçado, tendo sido descontextualizado.

O objectivo do livro está claramente expresso a partir do enquadramento e ao longo de todo o desenvolvimento: libertar os relatos do Génesis de uma leitura em perspectiva “moral”, porque esta gerou enormes doses de culpabilização nos crentes. Na raiz destes efeitos está o facto de se ter visto no relato do Génesis a origem de todo o mal que caiu sobre a família humana: um pecado moral dos primeiros humanos, a partir do qual surgiu a ideia de uma culpabilidade herdada, produzida por transmissão quase biológica e com uma culpa de carácter praticamente jurídico. A origem de todo o mal radicaria num pecado moral dos primeiros humanos.

Além disso, esta lógica teria a sua origem ou fundamento no próprio Deus. Essa fundamentação favoreceu uma imagem estranha de Deus, que o foi tornando um estranho na autoconsciência que a família humana ia adquirindo de si própria. Isso repercute-se de modo decisivo na avaliação do próprio cristianismo, com a sua repercussão negativa na história humana. Por isso é imprescindível uma purificação dessa imagem de Deus, como salvaguarda da própria mensagem cristã. No entanto, isso não será possível senão na medida em que se articule de modo diferente o relato de Gn 2-3 com a evolução (ou, mais precisamente, com o devir) da espécie humana.

Em nossa opinião, duas são as coordenadas da leitura que o autor do livro oferece. Por um lado (pars destruens) deve-se evitar a tendência para projectar no texto bíblico categorias surgidas de problemáticas teológicas posteriores; se, por exemplo, se ler o relato a partir da teologia agostiniana ou luterana da condição humana pecadora projectam-se no texto bíblico dimensões que na realidade não se encontram na intenção do hagiógrafo; igualmente, é preciso superar a concepção negativa de “mito”, pois nele encontra-se uma componente de verdade, enquanto exprime autenticamente um estado concreto da consciência humana.

Por outro lado (a pars construens, como opção metodológica de fundo) propõe-se uma leitura do relato do Génesis como mito de origem, que permite uma nova interpretação: à luz dos textos paralelos do seu meio cultural, pode ser lido como mito de origem e a partir deles pode-se captar o seu sentido original. Assume-se o mito juntamente com o lógos, irredutíveis mas sem se excluírem mutuamente; o próprio mito pode ser estímulo para o lógos, para ampliar a racionalidade humana.

Nesta perspectiva, pode dizer-se que o Antigo Testamento nunca caracterizou essa narrativa como queda. Em boa verdade, ela oferece uma apologia do humano (portanto, longe de qualquer atitude de condenação ou de castigo): ‘diz’ a verdade da condição humana, realmente bela mas ao mesmo tempo finita e sofredora. Tem a função de ser antídoto contra a angústia e os medos, pois contém simbolicamente uma presença do invisível; de facto, “imagina” Deus a criar, o qual implica acreditar no ser humano e no que ele faz; narra um acontecimento constitutivo inaugural, num tempo anterior à história e justifica assim a existência das coisas, de acordo com a complexidade do ser humano. Oferece assim um pressuposto para “dizer” as melhores possibilidades de ser e de existir, porque se lhe dá um significado incondicional, insuperável. A partir da sua experiência presente, o narrador bíblico descobre as raízes, o original, oferecendo assim uma terapia perante a experiência da fragilidade; e de algum modo restaura a perfeição e a beleza que o tempo cronológico faz murchar. A teologia da criação, podemos dizer, enriquece-se semanticamente ao incorporar-lhe uma teologia da Providência divina, superando assim a contaminação ou amálgama da criação divina com as (derivadas) criações humanas.

A partir destes pressupostos, e dentro da mesma lógica, o autor do livro enfrenta o ponto central que provocou a compreensão “culpabilizadora” e moral do relato do Génesis: “comer do fruto” proibido como acto que teria desencadeado a punição divina. Trata-se realmente de uma desobediência a Deus ou simplesmente de uma transgressão primordial, tal como aparece noutros mitos de origem? O autor opta claramente por esta segunda possibilidade, que oferece um paralelo significativo na hybris ou na figura de Prometeu, presentes na mitologia grega.

O que realmente está em jogo no relato bíblico é procurar uma ‘explicação’ para a situação real da existência humana na sua contingência. A raiz para essa situação foi imaginada pelo relato numa transgressão, cometida no excesso de ir mais além do que estava permitido no processo da criação em curso; o relato imagina uma infracção à necessária distinção entre a natureza humana e a natureza divina, ultrapassagem (inaceitável) do limite divinamente imposto (Gn 2,17) à condição dos seres humanos. A transgressão deve ser entendida como uma metáfora, linguagem figurativa e não descrição realista, pois nesse caso (como sucedeu na história da interpretação do relato) produzem-se falsidades (que foram o factor fundamental da culpabilização humana).

No seu núcleo e ponto de partida está a dificuldade de aceitar as radicais limitações da condição humana, que acompanham o devir e a evolução da autoconsciência humana. O conhecimento colocava o ser humano entre o mundo animal e o mundo divino, estabelecendo assim uma distinção nítida entre ambos. O “facto transgressor” quer ser um salto qualitativo, que permite aos humanos abrir os olhos àquilo que até então era desconhecido para eles; mais do que “queda”, algo negativo, é uma mudança positiva no processo de criação do ser humano completo. Este tende para a civilização e para a cultura, um elemento novo no processo de criação divina em curso, que lhe permite transcender-se e empreender uma vida nova.

Agora podemos dizer que este passo está marcado pela ambiguidade entre o positivo (o conhecimento, a civilização) e o doloroso da vida humana actual (a consciência de limitação, a experiência de contingência, a morte). O mito procura ‘explicar’ essa radical ambiguidade antropológica, dos bens e dos males da vida presente. A partir deste enquadramento, a serpente é equiparável a Prometeu, ao mesmo tempo benfeitor da humanidade e origem dos males humanos; e não deveria ser vista como uma força contrária a Deus, como uma anterioridade do mal prévia ao pecado humano. Deste modo, fica deslegitimada a compreensão da proibição divina como um estratagema para submeter à prova a obediência e a liberdade humanas.

Em síntese, portanto (e esta é, em nossa opinião, a tese fundamental do autor do livro), a transgressão mítica deve ser situada na dinâmica de uma criação divina em curso e não como pecado moral. É mito de origem, como se disse no início, não mito de queda nem pecado moral histórico. A sentença divina punitiva que o narrador situa na última fase da criação corresponde à fase de maturidade do ser humano. Isso permite purificar a imagem de Deus e do ser humano e do seu mundo: não é o Deus castigador do ser humano com todos os males da vida e com a morte; e o mundo deixa de aparecer como um mundo “caído” por causa de um pecado original. Portanto, a vida é um bem; e mesmo o mal que ela contém também é digno de ser vivido. O relato do Génesis ‘explica’, não culpabiliza. Reduzi-lo a uma mensagem moral seria destruí-lo ou, ao menos, empobrecê-lo; seria matar o seu conteúdo antropológico e religioso. Pelo contrario, o autor do livro, como alternativa a uma concepção tradicional e habitual, desvela uma visão positiva e optimista da vida, na perspectiva de Deus, do Deus criador e providente.

Eloy Bueno de la Fuente