Frei João Costa, OCD

  1. Não tão grande como uma migalha, este texto é um pequenino contributo para a celebração do Dia Mundial das Missões deste ano de 2025.

    Cada comemoração destas é, aliás, um convite a (re)descobrirmos o valor e a urgência da missão que também a nós, católicos do séc. XXI, foi entregue. Enfim, em cada momento da história – também hoje, portanto – deve ser nossa preocupação partir e ensinar e batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pois que o alheamento dos braços cruzados não é nunca assunto para nós.

    Pelas missões rezemos, particularmente, neste terceiro domingo de outubro e, pelo mês fora continuemos rezando pelos missionários que, ardentes de esperança, vão trabalhar para longe. E rezemos ainda por nós que ficamos por aqui, pois que também por estas praias onde restamos urge trabalhar pelo regresso à fecundidade das fontes do Evangelho.
  2. Segundo o último census a comunidade católica cresceu em todo o mundo, inclusive, espante-se, na velha Europa! Contudo, o papel que a nós, católicos, hoje e aqui nos cabe é o de devolvermos a esperança aos corações desanimados – que outra razão não há para termos sido incorporados ao rio da fé em Cristo.

    Eis, pois, sem mais, a razão pela qual trabalhamos e rezamos: para animar e fortalecer os vencidos e os desvalidos. Não, não fomos constituídos para sermos polícias de costumes ou coveiros do que quer que seja, mas missionários de esperança entre os povos, entre as gentes do nosso bairro, na nossa casa, no emprego, no estádio, no teatro, na esplanada.

    E para sermos mensageiros e artesãos de esperança pelo mundo fora deu-nos Deus as ferramentas urgentes e necessárias – isto é, dons e qualidades – para que, pondo-as em acção, sejamos tais quais. O que, pois, neste texto melhor gostaria de recordar-me a mim mesmo é que somos homens e mulheres de oração, porque a assumo como fonte de esperança e o primeiro passo em favor da missão.

    De oração nos fala Lucas 18:1-8, a página do Evangelho deste dia mundial das missões. Atrevo-me, portanto, a assumir esta parábola como uma síntese dos ensinamentos desse grande orante que foi Jesus.

    Que sentia, como vivia e rezava Jesus?

    São Lucas narrou-nos a oração intensa e frequente de Jesus, deixando várias vezes registado que Jesus rezava sempre e em todos os momentos da sua vida. Rezar era normal para Ele, não o extraordinário. A sua boca e o seu coração andavam sempre e só em Deus, Esse de quem não é possível jamais esconderemo-nos, seja nos líquidos abismos mais profundos, nas tocas mais quentes e fofas ou lá no alto onde profusamente as estrelas esparzem doirado pó! Envolvendo-Lhe o coração, Jesus tinha o Pai sempre presente e diante do olhar – ah, como eu gosto de pessoas que olham olhos nos olhos o pai! E o Pai! Como falam e os escutam, como os veem presentes em todas as coisas e como isso os faz felizes e os ajuda a dizer-lhes obrigado! Obrigado! Obrigado, Pai!

    Ora, se Jesus vivia caminhando olhos nos olhos com o Pai e com Ele em sintonia de palavra e coração; se para Ele o Pai estava sempre conSigo, porque não confiamos nós, hoje, que Deus está sempre a nosso lado? Porque não Lhe falamos como os amigos falam entre si? Em inteira confiança, como Jesus?
  3. Sim, Jesus confiava na oração, na conversa fiada com o Pai, e não menos na força da sua palavra e no esforço das suas humanas mãos. Sim, Ele orava (conversava) confiadamente ao Pai, mas jamais cruzava os braços, como se Lhe bastara esperar para ver acontecer. Confiava e trabalhava, com o Pai a seu lado, com o Pai nos olhos e no coração, porque Deus nunca joga à defesa, desentendido ou distante de nós. E Jesus sabia disso.

    Para este contexto nos puxa o evangelho de hoje.
  4. Haveremos de ter sempre presente que São Lucas escreveu o seu Evangelho cinquenta anos depois da ressurreição de Jesus, precisamente quando a comunidade cristã era violentamente perseguida, dizimada e votada ao desprezo, pelo que a preocupação do Evangelista foi a de animar e reavivar a fé dos primeiros cristãos, e dizer-lhes que o Pai de Jesus os amava e se preocupava intensamente por cada um deles.

    Os factos podiam indiciar que não, mas amava. E ama, e continua amando. Podia e pode-se suspeitar que tardava ou tarda, mas nem ontem nem hoje o tempo de Deus é bem o nosso. Não é, não, mas é sempre para nós tempo de salvação.
    De facto, naquela hora de grande angústia e perseguição a maior tentação dos cristãos foi a de se irem embora virando as costas ao caminho da fé, porque para eles Deus não intervinha nem os protegia como pediam! E se não intervinha, porque esperar?

    Por isso, melhor compreendemos agora que Lucas se dedique a chamar os cristãos à razão, a sarar-lhes as feridas provocadas pelas mordidelas dos lobos, a reforçar-lhes a fé em desânimo, a recordar-lhes que no caminho do seguimento de Jesus jamais Ele prometeu anular-nos o sofrimento, pelo que deviam/devemos confiar e rezar tal e como Ele confiava no Pai que nos ama e escuta (mesmo se não nos responde da maneira como Lhe pedimos e esperamos).
    Depois disto que tanto é contrário ao por nós desejado e esperado, o que nós, católicos de hoje, haveremos de fazer: ir embora? Ou, combatendo todo o desânimo, resistir e ficar? E ir para as missões?
  5. Sobre isto, Santo Agostinho costumava ensinar que a oração não deve ser abordada como forma de convencermos a Deus sobre qual assunto seja, mas para que, arregaçando as mangas, nos mobilizemos a trabalhar afincadamente; ou, como escreveu um poeta: dá-nos Deus o vento, para nós desfraldarmos as velas!

    Não, não, a oração não é uma conversa ao telefone com Deus para que O convençamos a remar e a nossa barquinha vença a regata, mas para que navegando na nossa traineira vá Ele connosco e connosco mergulhe nas durezas da faina. De facto, não é habitual que, por si só, Deus nos dê peixe quando Lho pedimos, já sim, que nos dê força, inteligência e capacidade para lutarmos contra as tempestades, lançarmos as redes ao mar bravio e pescarmos.

    Martin Luther King resumia tudo isto dizendo que Deus nos deu inteligência para pensarmos e corpo para trabalharmos, pelo que entendia ele ser uma traição a Deus alcançarmos pela oração o que fora de ganhar pela inteligência e pela força do trabalho!

    Dou-lhe razão.
  6. Mas então, porque haveremos de rezar, nós, os aprendizes de missionários?
    Sim, devíamos, devemos todos rezar todos os dias como Jesus, porque isso aprendemos do próprio Jesus. Devemos rezar continuamente para fazermos como Jesus que rezava sempre e também nas agruras e durezas da vida; devemos rezar continuamente para que andando com Jesus e fazendo como Jesus não baixarmos jamais as mãos, não desanimarmos tão rápido, sobretudo para não desanimarmos nos momentos difíceis.

    Rezando mantemos o vínculo relacional com Deus Pai, por isso: como desistir se Ele está connosco ou, o que é mais provável, se Ele nos tem ao seu colo?

    Nós rezamos e seguiremos rezando, mas não para informarmos o Pai das nossas dores, nem das dores do mundo, nem das injustiças que sobre ele recaem e o arrepanham. Não, Deus não precisa duma central de informações sobre a vida dura dos seus filhos e filhas! Mas sim, nós rezamos para nos inundarmos da presença do Pai que secretamente habita o nosso coração e nos dá o Seu amor. Nós rezamos a diário para nos envolvermos e nos submergirmos na luz e na força de Deus e não deixarmos jamais de sonhar e de trabalhar por um mundo mais justo e mais fraterno – como Ele sonhou! E isso faz de nós indesistentes missionários e artesãos de esperança, porque é impossível guardarmos só para nós a chama que nos alumia e, resguardada em nosso coração, ilumina os recantos sombrios do mundo.
  7. É isso que o Papa disse quando disse que a oração é o primeiro movimento missionário dum católico!