Armindo Vaz, OCD

A Quaresma também tem uma dimensão baptismal. Convida os baptizados a redescobrirem e a aprofundarem durante esse “tempo favorável” (2Cor 6,2) o essencial no caminho da fé cristã, morrendo para o mal e crescendo na “vida nova” em Cristo Jesus (Rm 6,4), de modo a participarem mais intensamente no mistério da sua morte e ressurreição, celebrado no final da Quaresma. Por isso, neste mês de Quaresma meditamos sobre o baptismo.

Tradicionalmente é associado à doutrina dogmática do chamado “pecado original”; e a reflexão sobre ele foi, desde o séc. V, tributária dessa doutrina. O Catecismo da Igreja Católica, de 1992, diz, num enquadramento negativo, que ele “cancela o pecado original” (n.º 405). Mas, dissociando o baptismo dessa doutrina, qual seria então a função dele? Deixaria de ter sentido? De modo nenhum. Continuaria a ter o sentido positivo que lhe é próprio. Apareceria como o sacramento que introduz o ser humano na Igreja de Jesus, na comunidade dos seus discípulos, dos que são filhos de Deus pelo Filho de Deus.

Para a fé bíblica, o humano recém-nascido é criatura de Deus criador, “criado à Sua imagem e semelhança” (Gn 1,26); pelo baptismo torna-se filho de Deus Pai, ao participar da graça do Seu Filho pelo Seu Espírito. Esse é o ‘valor acrescentado’ pelo baptismo ao nascido que entra para a existência, não como concebido e manchado pelo pecado, mas em estado de estreita relação com Deus. O baptismo é um renascimento para Jesus (Jo 3,5), uma reorientação decisiva da própria vida para ele, seu salvador. É a celebração do mistério da vida recebida. O nascimento pelo amor dos pais dá o ser. O baptismo pelo amor de Jesus, como novo nascimento, dá o pertencer à comunidade dos salvados por ele. O baptizando, que dos pais recebe a vida, pelo baptismo recebe o sentido para a viver: o Espírito de Jesus ressuscitado. O baptismo mergulha o baptizado no círculo do amor de Deus manifestado para com ele em Jesus.

A graça do baptismo, que é o dom do Espírito de Deus, regenera eficazmente o baptizado: “O baptismo salva-vos: não o facto de tirar uma sujidade corporal mas o compromisso para com Deus de uma consciência honrada, fundado na ressurreição de Jesus Cristo” (1Ped 3,21); “Deus salvou-nos… segundo a sua misericórdia por meio do banho de regeneração e de renovação do Espírito Santo” (Tit 3,5). Não é, pois, uma simples limpeza ritual. E se é ministrado a um adulto com pecados, são perdoados (Ef 5,26; Heb 10,22; 1Cor 6,11).

Mesmo assim, justifica-se ministrar o baptismo às crianças, incorporando-as quanto antes na comunidade de salvação. O compromisso para com Deus, assumido pelos pais e padrinhos em representação da criança, será conscientemente cumprido por ela quando chegar ao uso da razão e da fé. Ao gozar desse dom, quando mais tarde cometer pecados, poderá ser perdoada por pertencer à Igreja dos redimidos: pelo sacramento é-lhe aplicado o amor gratuito de Deus em forma de perdão. Incorporando o baptizado no âmbito de influência da salvação realizada “em Cristo”, o símbolo do baptismo afasta-o da tendência espontânea para o “pecado do mundo”, que o recém-nascido já encontra. Nesse sentido, o baptismo é realmente um morrer ao pecado-realidade (no adulto) e ao pecado-possibilidade (na criança). A imersão/mergulho (sentido etimológico de baptismo) no banho de água pura sepulta o pecador e o seu passado (mesmo a criança pertence a uma comunidade de pecadores!) na morte de Jesus, da qual sai pela ressurreição com ele para uma “vida nova” como “nova criatura”, como “homem novo”: “Quem está em Cristo é uma nova criação” (2Cor 5,17; Rm 6,4; Col 2,12; Ef 2,15). O baptizado não está determinado pelo seu passado: abre-se por meio da fé à novidade que Deus realiza nele pela vida de Jesus. Ministrar o baptismo sugere que a graça/vida é mais forte do que o pecado/morte.

Martinho Lutero tinha gravada na sua escrivaninha a inscrição «sou baptizado». Ela inspirava o seu viver. Significava que Deus o tinha aceitado incondicionalmente, que o amava em Jesus e que a salvação vinha d’Ele e não do seu bom comportamento. Ser baptizado é decidir-se por Jesus, vivendo na fé sob influência da sua vida e do seu evangelho. É assumir que a fé cristã confere qualidade à vida.

O apócrifo Evangelho de Filipe, gnóstico, do séc. II, traz este dito (49): “Se tu dizes ‘eu sou judeu’, ninguém se preocupará. Se tu dizes ‘eu sou romano’, ninguém se sentirá abalado. Se tu dizes ‘eu sou grego, bárbaro, escravo, livre’, ninguém se perturbará. Se tu dizes ‘eu sou cristão’, todos se agitarão”. Esta afirmação, situada no cristianismo primitivo, sublinha que a identidade do baptizado, enquanto ligado a Jesus Cristo, é nova e poderosa: supera a biologia, transcende as etiquetas sociais (de judeu, grego, escravo…) e suscita reacções fortes, por apelar a uma transformação radical e a critérios de vida exigentes: “Se o mundo vos odeia, ficai a saber que, primeiro que a vós, me odiou a mim” (Jo 15,18-25). A identidade cristã provoca agitação, porque desafia a sociedade e a ordem social ao sugerir que ser baptizado não é uma pertença superficial terrena, mas supõe interioridade transformadora, como fermento na massa e pertença distintiva: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). Os baptizados que humildemente seguem Jesus são a consciência nova e a luz do mundo (Mt 5,13-16).