Frei João Costa, OCD
setembro 23, 2026
Ele há horas…
Depois dum longo interregno por causa de doença prolongada, um homem de 42 anos regressou ao trabalho. No primeiro quarto de hora do primeiro dia, entrou num terreno para, depois de muito tempo, cumprir a sua primeira empreitada. Vinha feliz, por regressar ao trabalho e poder levar – com honra, suor e justiça – o pão à mesa da sua família. Deu três passos e, ao terceiro, uma abelha pequenina e nervosa picou-o. Outras o perseguiram mas, correndo, ele refugiou-se dentro duma retroescavadora. E morreu ali. Mais tarde os médicos confirmaram: morrera vítima da picada duma pequenina abelha só!
Não existe hora feliz para se morrer, mas acontecer aos 42 anos e duma picada duma abelha nervosa… é inesperadamente triste.
Enquanto o Pároco celebrava as exéquias e abraçava a família eu recordava que, de facto, ninguém sabe a sua hora…
setembro 26, 2026
Exéquias de Maria Fernanda, oitenta e pico anos.
A uma fileira de vides, seguida de outra, e de outras e mais outras e muitas mais, a esse conjunto de fileiras chamamos vinha. As antigas que eu ainda conheci bem bordejavam as leiras e os campos, deixando o centro para o milho, a batata e o feijão crescerem. Era todo um poema.
Como digo, ainda lembro a vinha de enforcado, de arames certeiramente tensionados entre choupos e lódãos. E lembro das ramadas enormes, por vezes altíssimas, com seus travessões de madeira ou de ferro assentes em esteios, e estes presos e tensionados por arriostas à terra. Lembro bem que estas estruturas suportavam os longos braços das cepas que, no seu conjunto, por vezes davam uma pipa ou duas de vinho – uma fortuna, diga-se!
Perguntarás tu, leitor, leitora: todo este relambório, afinal, para quê? Bem, é fácil: pessoas existem entre nós, isto é, na comunidade, que são como esteios, outras como arriostas, outras como arames, enfim, como suporte sobre o qual muitos estendem os braços e dão depois abundantes frutos e vida. Sei que sabem do que falo: se existem uns que no pé da videira não passam de ladrões – de rebentos que chupam e comem, mas não dão fruto –, outros existem que são generosos e dão o que podem, animam, encorajam, empoderam e saciam a tantos! A tantos!
Eu conheci uma pessoa assim. Bem, verdade, verdadinha, não conheci, não, apenas presidi às suas exéquias. Chamava-se Maria Fernanda e morreu velhinha. Tinham-me dito que em vida fora laboriosa e forte como um esteio, valente como uma arriosta, arrojada como um arame que vai duma ponta a outra, disponível para acolher um estendal de braços e grandes cachos de uva. E não me haviam enganado.
No fim da eucaristia, as netas – alguma já com filhos – rodearam o caixão, e a quinta, entre lágrimas e soluços, leu um preito de gratidão à Vó Fernanda. Estas coisas ouvem-se com respeito, e eu ouvi, e chora-se e guarda-se no cofre da alma. E não há mais movimento. E eu não fiz mais movimento. Já no cemitério, antes de descermos o corpo à terra, lembrei que Santa Teresinha dissera que no céu trabalharia para colher rosas e lançar pétalas sobre a terra. É uma imagem bonita, porque existe céu e não é uma praia, nem um camarote donde se assista, impávido, ao que se passa na terra, ou se fique a contemplar um eterno jogo de futebol ou um qualquer concerto. Não, não é isso. Estar de céu – desculpem, não me sai termo melhor – tem o seu quê de laboriosidade intensa: lançar repetidas rosas sobre a terra! Rosas, não espinhos, nem bombas! Rosas!
E é assim como eu vejo aquela família: herdeiros duma mulher valente, peões ou soldados duma capitã indómita que, frente ao vento, ao sol ou a uma saraivada, suportava uma vinha, cuidava e alimentava uma tribo.
Sim, aprendi que certos homens – e também certas mulheres, já agora – são bons trabalhadores, não porque trabalhem muito, mas porque como bons mandadores valem por dez trabalhadores!
Exactamente nesta hora, precisamos de gente assim; por isso é que disse às netas (e aos bisnetos): bora lá, toca a fazer como a Vó Fernanda!
setembro 28, 2026
Diálogo matinal um:
– Ontem visitei o meu tio no hospital.
– Já consegue falar.
– Muito baixinho, mas é como se fosse alto.
– Ora, pois, se o ouvirem já não se perde tudo.
– Sabe que em menos de duas semanas fez três operações?
– Não sabia…
– A primeira durou doze horas! No total das três, foram mais de trinta horas…
– Valha-o Deus…
– Sabe como acordou da última?…
– Perdido e assarapantado?
– Não! A rezar. A rezar! Repare bem! E os médicos com ele!
Diálogo matinal dois:
– O Papa segue em França, verdade?
– Sim, segue. Lá vai caminhando como peregrino, levando-nos com ele.
– Um verdadeiro triunfo…
– Custa-me essa ideia de triunfo ligada a uma Peregrinação Apostólica.
– Sabe o que lhe digo: A França é cristã, a república é que é laica! Já viu?
– Não sei bem, mas haja esperança. Deixemos assentar a poeira.
Outubro 01, 2026
Pelas rosas e pelos araçás, o dia soube-me a céu. Os araçás são uns frutos pequeninos, avermelhados, levemente cítricos. Sorvo-os pela frescura da manhã; e fico em modo céu.
Outubro 02, 2026
Quando em peregrinação – de resto, como todos nós… – um Papa prolonga-se em salutares efeitos, bem para além dos dias de peregrinação. Com Leão XIV, em França, também; aí vai:
– Deus sonha-te melhor (Leão XIV).
– Na Vigília pascal deste ano baptizaram-se vinte mil jovens adultos só em França. Tal é, ali, o crescimento exponencial a ponto de muitos dizerem que a França é cristã, só a república é que é laica. Mas o que ninguém pode ignorar – e a presença do Papa evidenciou – é que no país das luzes, uma luz há que mais rebrilha: A Luz!
– Durante aquela Peregrinação Apostólica cantou-se muito em latim. Enfim, não é que o latim faça crescer o cristianismo, aqui ou em França, mas este ali cresce, e crescendo, cresce o gosto por cantá-lo.
Mas o que mais me surpreendeu foi a ladainha entoada por oitenta mil jovens (muitos dos quais baptizados apenas este ano!), na Vigília com o Papa. Não sou músico, mas pareceu-me cantada em modo marcha, por vezes intensa e vibrantemente acelerada, como se todos estivéssemos a caminhar apressadamente para a glória! Havia uma orquestra (onde sobressaía uma bateria, parece-me…), um grande coro e uma encenação simples e eficaz. Foi cantada em francês (para que melhor se compreendessem as invocações?…) e combinada com palmas, efeitos visuais e fogo de artifício. Rezar assim, como naquela vigília não custa – o pior é quando a orquestra mete a viola ao saco!
Por vezes, talvez por necessidade, talvez por deleite, talvez para me encorajar, volto a reouvir essa ladainha. O efeito é tal que logo me dá vontade de lá constar; quando mais não seja quando o coro entoa: – Santos e Santa de Deus, rogai por nós.
Outubro 04, 2026
Hoje, ainda manhãzinha, ainda na cama, descobri a canção com que a França se despediu do peregrino Leão XIV. Chama-se Quand tu t’en iras (Quando você for embora) é cantada por Eva Molenmaker, uma menina de 13 anos. Originalmente a canção é dirigida à Virgem Maria, mas foi dedicada ao Papa; diz assim:
Quando fores embora,
terás de nos deixar ternura.
Para não sentirmos frio
em nossas manhãs de fraqueza.
Quando fores embora,
terás de nos deixar amor
Quando fores embora…
Quando fores embora,
guardarei um doce sorriso.
Momentos de alegria à noite
antes de adormecer.
Quando fores embora,
se quiseres voltar para dar uma volta
estaremos sempre aqui…
Ó Maria, tem piedade
Ó Maria, tem piedade
Faz com que este mundo
Viva de amor
De alegria
De paz
Quando fores embora,
nunca esqueças que os teus filhos.
Precisam de ti
para aprender a crescer.
Quando fores embora,
terás de nos deixar paz.
Quando fores embora…
Quando fores embora,
terás de nos dar notícias.
Pouca coisa, não importa o quê,
um ruído que nos desperte.
Quando fores embora,
nunca nos deves esquecer
a todos nós aqui em baixo…
Ó Maria, tem piedade
Ó Maria, tem piedade
Faze com que este mundo
Viva de amor
De alegria
De paz.
Outubro 08, 2026
Concelebro com oito Irmãos, quatro deles alcançaram já o direito a serem nomeados anciãos. Depois de uns dias ligeiramente enevoados e frescos, poderoso o sol reluziu hoje de manhãzinha. Ao sair da oração de laudes, e a caminho da sacristia, sempre damos dez passos pelos claustros para nos revestirmos para a Missa. Hoje comos sempre. Enquanto arrastava pesados passos, diz-me um com certa alegria ingénua:
– Olha um pardal!
Ora, como a sua dicção é má e por eu não ter percebido prontamente a mensagem, devolvi meio desligado:
– Quê?!
– Ó tolo, increpou-me, olha ali um pardalito tão giro!
E enquanto me apontava com a bengala as cabriolas do pardalito; e por ali nos ficámos os dois, por uns instantes, a reaprender a ser meninos.
Outubro 10, 2026
Viagem de três horas em comboio. Há dois anos que por ali não me sentava. E há mais tempo ainda não fazia transbordo. De Viana ao Porto, viajei hora e meia. Do Porto a Marco de Canaveses, igual. Como se perceberá foi uma viagem no mesmo país, no norte de Portugal, na mesma empresa. Mas de todo em todo diferente.
A primeira parte foi muito melhor; que o comboio é melhor, sem dúvida. E o público também.
Eu que ainda me lembro de muito ter frequentado comboio senti falta, na Linha do Douro, dos açafates que levavam galinhas, num, e no outro, chouriço e uma fanega de pão de trigo que se cortava às rodelas e se distribuía pelos companheiros de banco como o padre ao pé do altar. Enfim, senti falta desses cheiros, agora substituídos por outros – intensos perfumes vários e charro. De resto, quase tudo era igual. Mas ficaram-me outras impressões:
1. Fora eu sociólogo ou político e viajaria muito mais de comboio. Aprende-se bem mais que no autocarro ou no estádio, ou nos fóruns das rádios. Ali está o povo cru e sem filtros que, com razão ou sem ela, não quer estrangeiros a comer-lhes os subsídios, e que por isso amua e explode de raiva.
2. Ali está uma mãe que trabalhou toda a vida, desde Lisboa a Vigo, e agora vem de buscar o filho quarentão a Barcelos, porque o quer junto de si (ainda que lhe venha a dar muito trabalho). Ao despedir-me deles, o André estendeu-me a mão ossuda e desejou-me boa sorte para o meu trabalho. Agradeci e retribui.
3. Ali vêm jovens namoricos sorvendo a vida, o sol, o dolce fare niente; turistas e também ciclistas vários que subiram o Monte Faro, em Valença, rezaram à Senhora do Faro e, depois, almoçaram avantajadamente. Um tão avantajadamente bebeu que, sentado, faz com a cabeça enormes elipses. Só não sei como, no Porto, vai montar a bicla até casa…
4. Dois rapazes, um no Minho, outro, no Douro, levantaram-se oportunamente, e insistindo, cederam os lugares para que dois anciãos se sentassem. A mim, foi um velho que me cedeu o seu. Como era mais velho que eu, declinei. Obviamente. Mas ele insistiu e insistiu. E eu sentei-me, claro. Tomei-o por míope. Ou estarei eu?
5. Em ambos entram negros bastantes e sul-americanos e asiáticos – meia carruagem, em cada uma das vias –, todos com seus fatos e botas de ofício: as obras. Olho-os discretamente: levam o olhar baixo, falam discretamente, ou não falam, as roupas trazem visíveis marcas de suor e pó e cimento. Nota-se que alimentam a família. E, cá para mim, concluo, não são estes que são frequentadores do turismo de saúde. Não são estes que comem as nossas reformas. Ou que nos tiram os lugares de trabalho. Ou o pão da mesa. E o que eu vi, outros viram este discurso calado e discreto. Mas a meu lado, à frente e atrás, as tugas velhas continuavam a propalar que os estrangeiros lhes comiam os direitos. Pensando bem, não sei quais: tinham batom e unhas de gel pelo que não as vejo a assentar tijolos…
6. Mais de meia carruagem entretém-se a ver vídeos nos smartphones. Afora, já poucos falam com poucos. E só uma pessoa em cada viagem lia um livro: pareciam professoras.
7. Cuidei que isso não existisse, mas existe. Ao chegar à Livração, elegante, uma anciã dirige-se-me perguntando se já tínhamos passado a estação de Caíde de Rei. Tínhamos, claro. Ai, meu Deus, que vou ter de regressar de táxi, respondeu apressada e saiu! Era a que viajava lendo.
Outubro 23, 2026
Perdi hoje uma varanda para o céu: papei os últimos três arançás.
Outubro 24, 2026
Por estes dias toca-me uma canção cantada em espanhol (juro que não sei se foi produzida pela inefável IA, que agora nem tudo é de fiar – o facto de a letra ter mais que uma versão, a isso me leva; mas sim, toca-me e ouço-a). Diz assim, em tradução apressada:
Ora, ainda que tenhas medo.
Ora, ainda que estejas chorando.
Se te tremem as mãos
Continua buscando.
Existem dias de joelhos
Com a fé desfiada.
Mesmo com a alma rasgada
A tua voz não fica calada.
Porque em cima te conhecem
Quando aqui ninguém te entende.
E ainda que o peito se quebre
O teu clamor se mantém.
Ora, ainda que tenhas medo.
Ora, ainda que chores.
Porque o céu escuta
Os corações quebrados.
Ora, ainda que tenhas medo.
Não soltes a esperança
Porque no céu te escutam
E o teu nome não se cansa.
Se a noite te acossa
E te vence o cansaço
Eleva a tua triste pena ao alto
Como oferenda em teus braços
Quanto te faltem as forças
E a dúvida te ronde
Há um pai olhando
Onde a dor se esconde.
Porque acima te conhece
Quando aqui nada te entende
E ainda que o peito se quebre
Teu clamor se mantém:
Ora, ainda que tenhas medo.
Ora, ainda que chores.
Porque o céu escuta
Os corações quebrados.
Se se quebra a tua voz
Que fale a tua ferida.
Se muito não podes dizer
Ele entende a ruína.
Traz o teu pão e o teu choro
Traz o teu medo também
Porque nas mãos do céu
Tudo volta a nascer.
OUTUbro 25, 2026
Aproximam-se os dias dos crisântemos. Oremos.










