Irmã Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro
Querida Amiga
Fiquei contente por partilhares a tua oração comigo e me convidares a rezar a contigo o versículo de Isaías 41. Entendo que a palavra: «Eu estou contigo» tenha ressoado no teu coração como um sinal da presença de Jesus. Sim, de facto Ele está sempre contigo. Jesus é a oração de Deus em ti.
Como me convidavas a rezar contigo, fui rezando e senti no meu coração que o versículo de Isaías reclamava uma outra Palavra, uma palavra que nos sustente no caminho, que nos faça reconhecer, na fé, esta presença de Deus, no meio do turbilhão da vida. Fui rezando, fazendo silencio e escutando o murmúrio do Espírito Santo e Ele deu-me a Palavra que procurava: «Basta-te a minha graça». Agora a realidade estava completa, vê: «Eu estou contigo», «Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta» (2Cor 12,9).
Repara que isto é o mesmo que o anjo diz a Maria: «Cheia de graça o Senhor está contigo». Agradeço a Deus a graça que Ele derrama sobre cada uma de nós, sobre cada homem e mulher, porque é esta graça que faz de cada um de nós oração de Deus. Hoje, quero agradecer contigo, a Deus, a oração que cada pessoa é quando se abre à sua presença.
Agradeço a tua confiança e a abertura que sentiste para partilhar as tuas dúvidas na oração. E neste clima vou-te dizer algo do que para mim é ser oração de Deus.
A oração de Deus em nós é a palavra que Ele pronuncia sobre nós. Uma palavra criadora no amor. A oração é sempre nova criação no amor e se deixarmos que a oração de Deus em nós penetre o nosso coração, permitimos que Deus olhe para nós e contemple a obra das suas mãos, o excesso da Sua Bondade sobre nós e veja que: “Foi tudo muito bom”! A oração de Deus em nós é, na verdade, um acto de amorosa recriação de todo o nosso ser, o que significa que é expressão da bondade e do louvor. A oração de Deus em nós é exaltação da sua bondade e do seu Amor, porque só Ele é bom e só a Ele é devido o louvor! Ao rezar em nós Deus faz-nos participantes do seu Ser, faz-nos de novo, recria-nos tornando-nos mais transparência do seu Amor.
A palavra que Deus diz sobre nós é oração de Deus em nós. Deus pronuncia uma palavra sobre nós, com a qual nos dá a Sua Vida. Essa palavra é «viva, eficaz e mais afiada que uma espada de dois gumes; penetra até à divisão da alma e do corpo, das articulações e das medulas, e discerne os sentimentos e intenções do coração. Não há nenhuma criatura oculta diante Dele, mas todas as coisas estão a nu e a descoberto aos Seus olhos» Heb 4, 12-13. Assim é a oração de Deus em nós: viva, eficaz e penetrante.
A imagem da oração de Deus em nós é a da chuva – a chuva que cai serenamente e empapa a terra, transformando-a, tornando-a fecunda e enchendo-a de fruto.
O Profeta Isaías diz-nos isso mesmo acerca da forma como Deus se reza em nós. Escutemos de coração aberto:
«Como a chuva e a neve descem do céu
E não voltam para lá,
Sem terem regado a terra,
Tornando-a fecunda e fazendo-a germinar,Dando semente ao semeador e
Pão ao que come,
Tal ocorre com a palavra que sai da minha boca:
Ela não volta a mim sem dar fruto,
Sem cumprir a minha vontade,
Sem realizar a missão para a qual a enviei».
(Isaías 55, 10 -11)
O que faz Deus quando reza em nós?
Ama-nos, isto é, dá-nos o Seu Espírito. O Espírito que vivifica e inspira toda a palavra, que nos faz clamar Abbá-Pai. Na interioridade do nosso ser, no profundo da alma, o Espírito dá testemunho ao nosso espírito que nós somos filhos de Deus.
Ao rezar em nós, no nosso ser e na nossa vida, Deus está a fazer-nos entrar em comunhão com Ele e a receber em nós a sua própria vida, por isso, nós não acreditamos que Deus reza em nós porque nos dizem, mas porque pela fé o experimentamos.
Experimentamos a presença do Espírito que nos faz conhecer a acção de Deus em nós e reconhecer que Ele está em nós, como Aquele que nos dá a vida, como Aquele que é nosso Pai. E o nosso espírito, ao escutar a Palavra que o Pai pronuncia sobre nós, ao encontrar-se com a vida com que Ele nos sustenta e nos faz participar do Seu Ser, isto é, com que Ele se reza em nós, clama Abbá-Pai.
Nós reconhecemos a Deus como nosso Pai, porque o Espírito de Deus, o Espírito de Amor, no-lO faz reconhecer interiormente pelo amor com que somos amados. O Espírito toca o nosso espírito com este Amor que é Deus e ao tocar infunde em nós a certeza de que Deus é nosso Pai.
Deus ao rezar em nós faz sempre a mesma oração. No seu amor infinito, Ele diz-nos sempre a mesma coisa, porém de forma sempre nova. Ao entrar no santuário interior de cada homem e mulher, de cada um de nós, Deus reza assim: «Tu és meu filho eu hoje te gerei» (Sl 2,7). Esta oração de Deus, no nosso interior, é de sempre e para sempre, é eterna.
Deus sempre nos dirá: «Tu és meu Filho», a novidade estará na entrada da eternidade no tempo: «Eu hoje te gerei». É o eterno presente de Deus na nossa vida, a eterna presença de Deus na nossa história, a atuação divina de Deus no nosso coração e em todo o nosso ser.
«Tu és meu Filho Eu hoje te gerei»:
Eu hoje te torno mais semelhante a Cristo, o primogénito de muitos irmãos;
Eu hoje te «meto dentro» da comunhão de vida e amor que vivemos no Seio Trinitário;
Eu hoje te uno ao Verbo Eterno e tu és a minha Palavra em quem ponho as minhas complacências;
Eu hoje te configuro com Cristo e tu és o meu enviado, aquele a quem entrego por amor, para resgate de muitos;
Eu hoje amo-te e porque te amo transformo-te em amor, para seres a minha presença no meio do mundo.
O hoje de Deus é precisamente a novidade do amor com que cada dia nos faz novos. Novos no plano de sermos Seus filhos em Cristo, novos no plano de sermos «outros Cristos», outros filhos muito amados em quem o Pai põe as suas complacências.
O hoje de Deus é o ritmo da oração de Deus. A oração de Deus consiste sempre em dizer ao nosso coração, no segredo da interioridade e na profundidade da intimidade, «Tu és meu filho».
A expressão «Eu hoje te gerei» é para nos inserir na confiança e no abandono total à acção do seu amor. Para que Ele realize em nós a sua vontade, dê fecundidade divina à nossa vida, isto é, sejamos canais de graça e assegure o êxito da missão para a qual nos enviou.
A oração em Deus e de Deus em nós é este diálogo de coração a coração: Vida a vida; entrega a entrega; amor a amor, até Deus ser tudo em nós e nós sermos de todo em Deus.
Para sintetizar toda esta caminhada — a terra que recebe a chuva, a geração do Filho no silêncio e a eficácia da Palavra que transforma a alma em Deus — há uma citação de São João da Cruz que se encontra nos seus Avisos e Sentenças (Ditos de Amor e de Luz, 99), que diz tudo:
“Uma palavra falou o Pai, que foi seu Filho, e esta fala sempre em silêncio eterno, e em silêncio deve ser ouvida pela alma.”
Por que esta frase sintetiza tudo?
A Única Palavra (O Salmo 2): S. João da Cruz confirma que a oração de Deus em nós não são muitas frases, mas uma só: o Verbo, o Filho. É o “Tu és meu Filho, hoje te gerei” tornado substância em ti.
O Silêncio Eterno (Os Caminhos Altos): Esta palavra não pertence à lógica humana ruidosa; ela habita nos “pensamentos que estão acima dos nossos” (Isaías 55). Só se escuta quando a nossa terra silencia as suas próprias vozes.
A Eficácia (Isaías 55): Ao dizer que ela “fala sempre”, o Santo indica que a oração de Deus em ti é incessante e eficaz como a chuva. Ela não para, ela não volta vazia; ela está constantemente a gerar o Filho no teu centro profundo.
Ao guardares esta frase, guardas a chave da tua identidade: és o lugar onde o Pai nunca para de pronunciar o Filho. És oração de Deus.
Rezamos juntas: Obrigada, Senhor, porque hoje Tu voltas a dizer-nos: «Eu estou contigo. Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a minha força se manifesta».










