Armindo Vaz, OCD
João da Cruz, poeta «a lo divino»
Em que poeta, por original que seja, não concorrem várias influências literárias? Ele alimenta-se do que a vida lhe oferece (do que lê e do que medita, do livro que o acaso lhe pôs nas mãos, do passageiro e do permanente, do antigo e do contemporâneo), para o oferecer ao mundo convertido em obra de arte. Tudo deixa vestígios na sensível e virginal nervura da sua alma. Mas a matéria recebida é por ele fundida de maneira prodigiosa no próprio contributo, original: com a imaginação em flecha, com a fina sensibilidade, com as fibras que ao amor respondem.
Também assim foi com João da Cruz, padroeiro dos poetas espanhóis. Ora, uma das fontes da sua inspiração poética foi a poesia popular e tradicional que cantava o amor humano. No séc. XVI, o século de ouro espanhol e século de João da Cruz, a poesia caracterizava-se por um fenómeno que penetrou no séc. XVII e não era só espanhol: era o dos poetas «a lo divino». Faziam a conversão de poemas de amor humano a um sentido religioso; vertiam-nos ‘à moda do divino’, retocando ou mudando só poucas palavras do núcleo inicial. João da Cruz, com especial predilecção pela poesia profana, usou abundantemente este recurso: cruzando e fecundando o poema humano com a simbólica própria da poesia, dava-lhe nova vida, reorientava-o ‘para o divino’: fazia-o parar no divino. A sua obra poética inseria-se nessa grande corrente de divinização do amor humano: é resultado dela (é significativo que também S. Teresa de Jesus, que tinha direcção espiritual do santo, adaptasse canções tradicionais ao plano divino). Dizem os estudiosos de João da Cruz que tudo o que na sua poesia não procede do bíblico Cântico dos Cânticos provém da elevação da poesia tradicional amatória profana ao nível do divino. Poesias inteiras do santo respiravam pelos pulmões de composições profanas (algumas coplas, O pastorinho…). Situado dentro desse grande movimento de divinização do sentido de poemas humanos e inflamado da viva experiência de Deus, João da Cruz pegou no mais sublime poema de amor que a tradição bíblica lhe oferecia (o Cântico dos Cânticos) e cujo sentido a tradição posterior já tinha divinizado e continuou o processo da divinização do seu sentido originariamente humano. Isto que ele fez com um poema da Humanidade (bíblico) fê-lo igualmente com breves poemas espanhóis. Nessa refundição da literatura profana ao plano religioso, o santo dinamizava – elevava ainda mais – o amor humano, mobilizando-o, numa tensão positiva, para o amor divino. Com essa dinamização e transposição, não beneficiava o divino; promovia o humano e o sentido do humano – tanto que, por exemplo no Cântico Espiritual, não traduziu para o divino os nomes das personagens, não chamando Jesus ao Amado… Embora mantendo as mesmas palavras, o poema ficava carregado de espiritualidade e de mística e de outros conteúdos: falava outra linguagem.
A que se deve este fenómeno? Sendo inefável a experiência mística do amor de Deus para com os humanos, o místico, para a comunicar, recorre a imagens, especialmente do amor humano. A poesia humana foi posta ao serviço do amor divino: a partir do humano penetrava na esfera do divino, sem se fundir ou confundir com ela. Era remissão de tudo para Deus, visto pelo místico a encher toda a vida humana; era tentativa de divinizar a vida.
Nem vale a pena toldar este fenómeno literário com a sombra do plágio. Na poesia «a lo divino», nos séculos XV-XVII, não podia existir a noção de plágio: a intenção era a de oferecer mais um ramo de flores ao divino, pessoal. Se fosse plágio, o poeta plagiaria a partir de quem? É que, pela mesma razão, também não existia propriedade literária: o poema que se oferecia ao poeta dava-se como anterior a ele, inserido na vaga poética que se fundia no largo rio da anónima tradição e da espiritualidade, herança humana que corria para o mar do divino; era a fé em onda de transmissão.
Em breve havemos de sentir o perfume de uma poesia «a lo divino».










