Irmã Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro
Há tempos recebi a visita dum amigo com o qual estudei. Começámos a conversar e a uma dada altura fomos ter ao assunto dos tempos de estudantes, a comunidade. Dizia-me ele, muito aborrecido, que um confrade seu lhe tinha estragado as férias, porque o tinha encarregado de fazer um estudo para um ciclo de conferências que estavam a preparar. Disse-lhe que se animasse que Deus queria fazer dele um santo. Ele respondeu-me, imediatamente, que Deus quer fazer de todos nós santos e que temos que ver as coisas à luz da razão. Continuou dizendo: “e se fosse eu não faria uma coisa destas. Isto não se faz e de mais a mais se fosse o ano passado eu não o poderia fazer…” Disse-lhe: Deus já sabia que o ano passado não lho podia pedir, por isso é que o está a pedir este ano. Dizia-me ele: nós somos livres e podemos sempre interferir nos planos de Deus. Perguntei-lhe: mas não acredita que é Deus que conduz a sua história e que é Ele que tem a última palavra sobre a sua vida? Sim, respondeu-me. Temos que deixar que a fé ilumine a razão, mas somos livres. E isto não tem nada de lógico… perguntei-lhe qual era o estudo e disse-lhe que Deus lhe queria dar muito com aquele estudo, (e a verdade é que Deus quer-Se dar a ele através daquele estudo). Ele respondeu-me que era mais fácil dar do que receber. Não tinha a certeza do que tinha escutado e pedi-lhe para repetir. Ele repetiu: É mais fácil dar a Deus do que receber de Deus. Disse-lhe que isso não era verdade, porque quando conhecemos a Deus não podemos fazer outra coisa senão estar diante Dele (quando digo diante dele não significa estar diante do sacrário, mas antes a consciência de que sempre e em todo o momento Deus está connosco e tem a nossa vida nas suas mãos e por isso nos pode pedir o que Ele quiser, através dos irmãos, das circunstâncias etc…) de mãos estendidas, como pobres, para receber tudo o que Ele nos quer dar, para depois de o termos recebido Lho darmos alegremente, através do serviço aos irmãos, ou da oração, ou do trabalho, como quem não tem nada mas sabe que tudo possui …Terminei dizendo-lhe que só dizemos que é mais fácil dar a Deus do que receber de Deus quando não conhecemos a Deus.
E esta é a nossa verdade, nós conhecemos a Deus, através duma fé limitada pela razão e pela lógica e depois temos um conhecimento de Deus, lógico e racional. Um conhecimento de Deus desde nós, dos nossos critérios e não desde o Deus que se nos revela no amor, na justiça, no direito, na ternura e na fidelidade. Do Deus que faz connosco uma aliança para se nos dar a conhecer…
“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim, foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar.” (Mt11, 25)
“Eis que vou, eu mesmo, seduzir-te,
Conduzir-te ao deserto e
Falar-te ao coração.
Aí me responderás como nos dias da tua juventude…
Eu farei contigo uma aliança para sempre,
Farei contigo uma aliança na justiça e no direito,
No amor e na ternura.
Eu farei contigo uma aliança na fidelidade
E tu conhecerás o teu Deus.” (Os 2,16-17.21-22)
Ao chamar-nos Deus não quer senão dar-se de todo a nós, por isso seduz-nos e enamora-nos para que também nós lhe respondamos com a mesma linguagem amorosa com que Ele nos fala. O seu amor em nós gera uma resposta de amor dada pelo Espírito de Amor e comunhão, que nos impele para fora de nós mesmos e dos nossos estreitos horizontes e nos lança na comunhão amorosa do Pai e o Filho, introduz-nos já no fim último para o qual estamos chamados a “participação na vida intratrinitária”, isto tendo em conta a nossa condição de criaturas num processo de continua recriação. (cf Jer 18, 1-6) Quando vamos dando o nosso todo de cada momento a Deus, Ele vai-Se dando a nós de todo, isto é, na plenitude da nossa capacidade de acolhimento. Esta entrega mutua dá origem a um movimento de continua comunhão, de continua presença, de continua pertença, de continua luz ainda que estejamos na escuridão, de continuo conhecimento, porque Deus é fiel e não pode negar-se a si mesmo e porque é pela fidelidade à aliança que Ele estabeleceu com cada uma das nossas vidas que nós o vamos conhecendo… «Verão a sua face, e o seu nome estará sobre as sua frontes. Já não haverá noite: nem precisarão da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e eles reinarão pelos séculos dos séculos» (Ap 22,5).
O conhecimento de Deus exige de nós uma constante opção existencial por Ele, isto é, exige que o reconheçamos como o Outro diferente de nós e lhe demos o lugar que nós próprios nos atribuímos, enquanto senhores da nossa vida, na prática exige que deixemos que Ele seja o nosso Centro, o nosso Eu e nós passemos para o lado, exige que não sejamos mais do que transparência de Deus. Quando O conhecemos esta exigência converte-se numa necessidade, porque o único sentido da nossa vida passa a estar em fazer a vontade de Deus, tal como o Mestre. «O meu alimento é fazer a vontade de meu Pai e consumar a obra que ele me mandou realizar. (Jo 4,34)» Isto é o único que é capaz de converter as nossas vidas em vida eterna, no sentido joanino: “A vida eterna consiste em que te conheçam a Ti como o único Deus verdadeiro e àquele que Tu enviaste, Jesus Cristo”(Jo 17,3). O conhecimento de Deus, “desde o próprio Deus”, ou seja, de como Ele se nos manifesta é o único capaz de converter a nossa história em história de salvação, dentro do grande marco da História amorosa de Deus com o Seu povo.
Reproduzimos em pequena escala, nas nossas vidas, aquilo que é a vida e a história do povo de Deus, por isso é fácil descobrirmos o rosto amoroso de Deus que se nos dá a conhecer do mesmo modo que se deu a conhecer a Abraão, a Isaac e a Jacob. É fácil reconhecermos que a força trinitária que a Palavra encerra renova em nós aquela aliança em que Deus se compromete a ser o nosso Deus e pede-nos apenas que sejamos Seus, de alma e coração. Daqui passamos o umbral da palavra para o encontro com o Espírito vivificador, que actualiza em nós o mistério da vida divina encerrada na palavra e sacramento da fidelidade de Deus para com as nossas vidas. É na Palavra feita carne que Deus cumpre todas as promessas feitas aos nossos pais na fé e a nós próprios. A nós cabe escutar e assumir as promessas que Deus foi fazendo ao longo da história, fazê-las nossas e deixar que Deus no-las cumpra, no nosso hoje, nas nossas circunstâncias, na nossa cultura, no nosso existir. Deus desposou-nos na fidelidade para que O conhecêssemos…
Sempre que, por algum instante, repasso algum momento da minha história acabo por descobrir uma presença de Deus mais intensa, uma mais abundante fidelidade de Deus ao Seu projecto de me fazer totalmente sua. Para dizer a verdade acho que a minha vida não é senão a história da fidelidade de Deus para comigo, talvez por isso O encontre tão próximo, talvez por isso a fé seja uma luz tão clara como o sol, talvez por isso tenha necessidade de cada vez mais procurar a sua vontade, para me tornar apenas transparência do Seu amor. Não que o seja, mas lanço-me cada vez mais n’Ele para que, perdendo – me de mim mesma, me possa encontrar cada vez mais n’Eles e Eles possam fazer em mim a Sua morada permanente.
«Considero tudo como perda, diante do conhecimento do bem supremo que é Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como lixo, para ganhar a Cristo e ser achado nele (…) para conhecê-lo» Flp 3,8.










