Frei João Costa, OCD

  1. Quererei falar-vos neste texto dos irmãos leigos da nossa Ordem de carmelitas descalços; daqueles que em alguns Institutos Religiosos são nomeados como Irmãos Coadjutores, ou seja, aqueles que adjuvam, que ajudam. A um ou a outro, prefiro o nosso nome: irmãos leigos. Parece-me o nome mais acertado, porque irmãos, simplesmente irmãos, desde o início, somos todos: uns presbíteros, outros sem o serem, por isso se se lhes acresce o adjectivo leigo é só para dizer que não têm ordens sacras. No resto participam igualmente na missão da Ordem, não como adjuvantes, mas como intérpretes de primeira linha. Como todos. Com todos.
    Naturalmente que o que aqui mais quererei sublinhar é a relação entre eles e o padre João da Cruz, para uns, reformador – ou nem isso, apenas adjuvante de Santa Teresa… – para mim, co-fundador da nossa Descalcez.
  2. Entendo dever referir que na nossa Província conheci alguns, dois que, entretanto, se exclaustraram, e parece, já morreram, e dois que nela morreram como carmelitas descalços. E já depois de terem regressado à Província de Navarra conheci o irmão Matias Burguete (bascaíno mais português que muitos portugueses) e o irmão Luis Longo (apelido não familiar, mas assim conhecido por ser muitíssimo alto; também ele basco). Estes dois com quem me cruzei breve e circunstancialmente eram muito amáveis, muito simpáticos, muito alegres, muito carinhosos e acolhedores dos portugueses – creio até que no céu continuarão a preferir a língua portuguesa à vasca.
    Saberás, leitor, leitora, que o que frequentemente pensaram os fundadores não é o mesmo que os seus filhos sucessores. Regra geral ninguém os suplanta, pois são os carismáticos; por isso, o mais habitual é que decaia o espírito original. E acerca dos irmãos isso sucedeu, sim. Por isso, mesmo agora que entre nós, portugueses, já não existem irmãos leigos, ainda persiste o preconceito de que eram «o pião de todas as nicas» – a ideia de que o pião roda ou gira movido por braço alheio é o que mais me assusta, ainda que igualmente me assuste aqueloutra de insignificância sempre disponível para aguentar todos os sacrifícios. É talvez por essa razão que os irmãos leigos, digo, a sua missão, entre nós terminou.
    Em Avessadas, quando aos dez anos ali entrei no Seminário Menor, além dos padres – quase todos professores – conheci três irmãos leigos: O irmão Augusto Faria Ribeiro, o irmão Manuel Camacheiro e o irmão Francisco Grácia. Dos três só o irmão Augusto morreu na Ordem. Talvez não fosse muito idoso, mas era muito anafado. E por esse motivo, julgo, lento, vagaroso e cansado. Deve ter morrido durante as férias grandes, porque no regresso já nós, miúdos, o não vimos por lá. Era homem bom e sabia falar um português ao contrário – sentado numa pedra, lembro-me bem, fazia-nos rir falando fluentemente as palavras ao contrário; incluindo os nossos nomes! Era bom. Um dia, depois da viuvez, vendeu tudo o que tinha e entregou-o ao Padre Delegado Provincial e fundador do Santuário do Menino Jesus de Avessadas, frei Isidoro Maguna. Foi ainda em Avessadas que o conheci, portanto, dezasseis anos após a fundação daquele convento. Agora que penso um pouco, considero que depois de ter governado o que era seu, veio ele para a Ordem a fim de ser governado e gerido como «um pião das nicas». Infelizmente. Mas lá tem Deus os seus caminhos…
    Ao irmão Manuel e ao irmão Francisco conheci-os também em Avessadas e sei que eram dados às artes da decoração e da pintura, mais o segundo, a quem muito estimei, que o primeiro. Não davam aulas; soube que pintavam e também soube que trabalhavam na laboira, mas jamais o dia inteiro e, porque recentemente mo testemunhou, sei que o irmão Francisco trabalhara como peão na construção do convento e santuário de Avessadas – como os antigos irmãos leigos!
    Ao irmão Domingos Borlido conheci-o em Viana do Castelo, quando ali fui seminarista por quatro anos – a portaria era o seu reino. Depois conheci-o melhor quando para ali fui enviado como prior durante seis anos. Continuava rei, mas agora da sacristia – e ai do sacerdote que usasse casula ou sanguinho que ele não determinasse! Continuava a trabalhar a horta (pequenina) que ele a horas decidia como trabalhar, que semear e quem convocar para dela cuidar e recolher os frutos – era também ali rei. A pedido do Delegado Provincial, P. Vasco Dias Ribeiro, serviu a comunidade e o seminário também como cozinheiro – e cozinhou até ao fim, com bom gosto e aprumo. Cozinhou por tantos anos que ganhou autonomia e, cozinhando, guardou diligentemente a nossa fome de crescer. O fogão era o seu trono e das panelas enormes saía a sua lei – era rei, portanto, também ali. Era tão autónomo que por muitos anos decidira ele as ementas, até que algures nos anos de 1980 o retiraram da cozinha porque, julgo eu, já não havia necessidade das panelas mastodônticas. Como seminarista, conheci-o agreste, mas nós éramos perfiladamente muito ariscos; como prior dele, simpático e até doce o senti, embora sempre muito senhor do seu nariz. Era muito resistente à dor, como eu nunca vi igual. Um dia pediu-me que lhe cortasse uma unha do dedo grande do pé, já não sei qual. Quando retirou a meia propus-lhe levá-lo ao hospital, porque o encravamento me parecia urgir bisturi e mão segura de cirurgião. Negou-se e negou-se e negou-se – que tinha de ser eu, que era o prior. Fui. Vi-me sem faca nem alguidar, apenas com uma tesoura de cortar papel bastante romba e outra pequenina meia curva. Invoquei as horas da minha mãe quando nos cuidava das mazelas e, confiado, fiz como ela fazia. E cortei a unha, e desencravei-a sob um jorro de sangue. E limei-a procurando que não voltasse a encravar e curei-a o melhor que pude e soube e vigiei-a por semanas a fio. Durante a operação não disse nem ai nem ui, foi falando sem se queixar, sem retirar o pé, sem que a voz lhe tremesse ou sufocasse, mas obviamente eu magoava-o. Mas assim era ele.
    Assim, no meu tempo, eram os irmãos leigos: bastante humildes de condição, mesmo que porventura algo orgulhosos de fundo, forma e feitio. O último que conheci, o Domingos, também era do lado das nicas, mas em casa mandava mais que um Provincial, e não apenas na sua cela.
    Muito gostaria de aqui poder falar do Venerável irmão Lourenço da Ressurreição, francês, falecido em Paris, em 1661, com fama de santidade e de zeloso condutor de almas. Mas talvez não haja espaço.
    O que mais quererei aqui dizer, enunciei-o acima: falar dos irmãos leigos de ao tempo de São João da Cruz e de como eles foram fundamentais para o triunfo da vivência carismática da nossa Descalcez. A isso agora vou, visto encontrar toda a conveniência em evidenciar o trato do Santo Padre para com estas pessoas humildes. Olhando-os a eles, isto é, àqueles que conviveram com o padre João da Cruz, também veremos melhor quem ele era.
  3. Regra geral os irmãos leigos provinham de famílias e meios humildes. Mas não eram desprovidos nem tontos. Não estudavam teologia, é certo, nem eram ordenados sacerdotes. Mas necessário é dizer que o nosso nome oficial dentro da Igreja é de Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. Irmãos! Ordenados ou não, somos todos irmãos.
    Desde a primeira hora da nossa Descalcez, os irmãos vivem em comunidade com os padres e os estudantes, porque todos irmãos, afinal. No primeiro convento, o de Duruelo (finais de novembro de 1568), entre os dois padres, António e João, está o irmão leigo José. O padre João da Cruz beneficiará muito da sua presença e do seu carinho, muito para além do que representavam como força de mão de obra. Aliás, não conheço estudo, mas atrevo-me a redizê-lo, todas as primeiras fundações dos carmelitas descalços eram constituídas por irmãos leigos. Sim, a sua presença era valiosa enquanto força de trabalho, mas era mais que isso: era carismática. E que quero dizer com isto? Que a sua presença naquelas comunidades evidenciava a dimensão da pobreza, da simplicidade, do trabalho laborioso e da fraternidade que se estava em vias de restaurar – não vinham para um campo de férias, mas para viverem como irmãos de Cristo pobre! Ah, e se eram irmão de Cristo pobre, o padre João da Cruz tinha por eles uma proximidade e predilecção de eleição!
    Como não eram nem homens dos sacramentos, nem se dedicavam ao estudo teológico académico, ocupavam-se nos trabalhos, nos muitos ofícios manuais que um convento propõe e precisa – portaria, cozinha, sacristia, carpintaria, encadernação, agricultura, sapataria, barbearia… e outros tantos, como sair a pedir, construir ou reconstruir a casa! –, e alegravam a comunidade com a sua presença e idêntica consagração. E se espiritual e carismaticamente não eram mais que ninguém, também não eram menos – aliás, apesar de não pertencerem à sacra hierarquia, em nada saíam diminuídos na vida fraterna. De facto, ainda hoje, não são os estudos de filosofia e teologia que nos definem ou fazem melhores homens e melhores irmãos! Afinal, até Deus trabalhou como carpinteiro (alguns dizem que como catxarreiro, que é como quem diz: era homem de sete ofícios (outro pião das nicas!) – disso se haveriam de lembrar eles, quero eu pensar –.
    Reforço: desde o início da nossa fundação, entre nós, carmelitas descalços, os irmãos leigos não eram nem menos nem mais que ninguém. Eram irmãos, chamados como todos, à contemplação, como todos, à santidade pelo caminho da oração, da abnegação e da vida fraterna – oh, que belo modo de fazer santos!
    São João da Cruz amava os irmãos leigos! Como se verá. E não só os amava, caminhava lado a lado com eles, e com eles, descalço, trabalhava ombro com ombro.
    Quem algo já leu sobre a construção do convento de São João da Cruz, em Segóvia, que o próprio riscou, rasgou e assentou pedra em pós pedra, sabe que o padre João não tinha jeito de capataz, nem cruzava os braços ou metia as mãos nos bolsos. Não. Não, não! Os seus pés descalços pisavam o mesmo solo e cascalho que pisavam os pés descalços dos irmãos leigos. E as suas mãos de prior faziam tombar e cantar e erguer as mesmas pedras que eles – e é por isso que eu quando vou a Segóvia, jovioso vou visitar essas pedras gémeas, lavradas por mãos fraternas, sem punhos de renda!
    A alegria e empenho das comunidades do padre João da Cruz vinham daí: o prior era primus inter pares, o primeiro trabalhador entre tantos. Ele que era poeta, pregador, confessor e estudioso, era, enfim, também o primeiro trabalhador nos trabalhos humildes, fosse na cozinha, fosse nas obras. E é deste exemplar primeiriço serviço que nasce a sua autoridade, jamais do facto de ser sacerdote e prior!
    A verdade, é que para bem ver são precisos mais que dois olhos; e o padre João tinha esse olhar puro! Tanto respeitava ele os irmãos leigos que os tratava como iguais, e por nada mais, senão que eles significavam para si a verdadeira maestria da humildade, da mansidão e pobreza evangélicas, pois lhe recordavam eles a serena, confiada e humilde laboriosidade de São José na oficia de Nazaré. Por essa razão, quando nos nossos começos foi ele responsável de comunidades, cuidava com particular atenção destes irmãos mais simples: jamais os sobrecarregava, nunca lhes entregava trabalhos desnecessários, cuidava-lhes pessoalmente da saúde, e primeireava a harmonia entre trabalho manual e oração. O seu entendimento era este: jamais o trabalho se pode instaurar como obstáculo à oração e à contemplação; mas ao contrário: o trabalho obediente e amoroso decorre da oração contemplativa – eis quanto São João da Cruz propunha aos seus religiosos mais simples!
    A verdade é que a presença dos irmãos leigos recordava – e recorda; feliz, por isso, quem ainda os tem! – que a família dos carmelitas descalços não se sustenta sobre discursos intelectuais, mesmo os de primeira água espiritual, mas sobre a fidelidade diária às pequenas coisas, aos pequenos pormenores, inclusive às pequenas atenções e delicadezas. De facto, a presença dos irmãos leigos na comunidade recorda-nos – e nisso eles são modelos e mestres até dos doutores em teologia – essa inadiável e inultrapassável e sempre desejável fidelidade ao pequenino e esmiuçado da vida. E o que é mais, sem que me tome eu por doutor, a vida anónima e escondida dos pequeninos das comunidades volve-se e deve ser vista como o coração do Evangelho: Deus fez-se homem, porque ama e se compraz nos humildes e nos simples.
    Por conseguinte, o padre João da Cruz, enquanto prior, ele que é também poeta e mestre espiritual, sabia abaixar-se e adequar com maestria a sua linguagem teológica e espiritual à simplicidade daqueles irmãos pequeninos. Por isso, com frequência as suas exortações deitavam mão de belas imagens bíblicas, recorriam a comparações subtraídas da vida diária, da beleza da natureza e sempre, sempre, fazia apelo à pureza de intenção. Deste modo exemplar prova-nos – e quão necessário isso hoje é – que a experiência mística não se encontra reservada a um grupo de eleitos que sabe ler latim, grego e hebraico, mas que antes se encontra escancarada a quantos se deixam transformar pelo amor de Deus!
    Atrevo-me, pois, a dizer, em forma de síntese: felizes de nós, carmelitas descalços, que temos o pai que temos: poeta, irmão, sacerdote, missionário operário, tanto da pedra como da palavra escrita e falada. E santo. A verdade, é que assim costumam ser os pais! Mas também é verdade que: ou, gentil, ele soube aprender dos irmãos leigos, ou, perspicaz e sábio, soube dar-lhes lugar e voz, para que nos ensinassem a nós, os de hoje. (Ou as duas, o que bem pode e deve ser verdade!) Pelo que me pergunto: é ou não verdade que, ainda hoje, a simplicidade é um dos pilares mais estimados da nossa irmandade? E mais ouso: e quanto do caminho do «nada, nada, nada» joãocruciano, quanto daquele despojamento interior, como forma de liberdade perante tudo o que não seja Deus, aprendeu ele daqueles benditos irmãos pequeninos, como tanto aprendeu ele de sua mãe Catarina?
    Os pequeninos e os pobres são nossos mestres, lembremo-nos sempre.
  4. Como é de meu gosto, sempre que sei e posso, transporto para estes carreiros de linhas algumas estórias que comprovem a doutrina do que atrás fique dito.
    Por exemplo, no tempo da construção do convento de Segóvia existem vários episódios sobre o respeito que os irmãos pequeninos têm pelo seu prior, e outros que falam da ternura do padre João vertida em favor dos irmãos leigos. Existe um episódio que exemplifica bem isso: por certa altura vários dos pequenos irmãos que trabalhavam como peões e artistas da obra adoeceram; por indicação de frei João da Cruz, prior, o irmão Alberto da Mãe de Deus, cozinheiro, preparou-lhes uma refeição algo mais delicada – eles mereciam e a situação impunha. Porém, ao ser servida, querendo evitar murmurações e preconceitos, o prior explicou publicamente a toda a comunidade que o delicado repasto se justificava por ser um acto de justa e necessária caridade, pelo que ninguém – em tempos de tantas mortificações e austeridades – se deveria escandalizar ou mal-interpretar. E como devemos interpretar nós, então, este episódio? Diz-nos ele que se o Santo se preocupava com a dignidade espiritual dos irmãos leigos, não se esquecia de, se necessário, lhes restabelecer as forças físicas, mesmo recorrendo a mimos extraordinários!
    Creio que aqui bem se deve relevar a fidelidade – que para não cair em infravaloração, não direi que era canina… – dos irmãos leigos ao padre João da Cruz. Ele amava-os, certamente; e eu tenho por certo que eles o sabiam e lho devolviam com inteireza; veja-se:
    Frei Gaspar, mestre canteiro, e frei Alonso de Jesus, artista pedreiro de primeira, trabalharam na obra durante muitos anos, poupando, dessa forma, fartos ducados à comunidade. Como não haveria de os estimar, portanto?
    Já o irmão donado com o mesmo nome do prior, frei João da Cruz, ficou conhecido por amar tanto aquela construção que todos os dias se levantava ainda a madrugada ia alta; e a razão era uma só: antes que amanhecesse já ele dispusera todas as ferramentas, de modo que ao se achegarem os operários externos, já uma boa parte do seu trabalho fora adiantada. Era um trabalho discreto e silencioso como constante, mas o seu valor ficou memorável pelo que significava de virtude e de entrega total à causa! Quem, pois, seria o tonto, que desprezasse um colaborador destes? – O padre João da Cruz não, certamente.
    Vale bem a pena encerrar com estórias do irmão Martinho da Assunção, ele que, regalado, acompanhou o padre João da Cruz por milhares e milhares de quilómetros e com ele partilhou o silêncio do mesmo claustro em várias fundações. Frei Martinho é, por isso, uma testemunha de eleição. É um sabe tudo e, também, alguém que sabe calar-se e reservar-se. Afinal ele foi uma sombra fiel. Não foi jamais um coadjutor, mas um verdadeiro companheiro de vida e de missão, profundamente formatado pelo exemplo de vida santa do padre João da Cruz.
  5. – Conta-nos, pois, estórias, frei Martinho! – lhe roguei.
    – Aqui vão elas! – Apressado, logo ele me contestou.
    – Se eu puder dizer que amei um homem, direi que amei o padre João da Cruz. Digo-o sem medo, porque o amei no sentido em que o admirei em sua simplicidade, na sua alta sabedoria e confiança em Deus, na sua justiça verdadeira, jamais acomodada. Contarei aos teus leitores, frei João, um facto ou ordem com que, em certo dia, o padre João da Cruz me surpreendeu:
    Certa vez mandou-me conduzir, por muitas léguas, até Sevilha, sete noviços e um irmão donado. E sabes qual foi o meu espanto: e não é que me mandou partir sem dinheiro nem provisões? E olha que éramos nove bocas e dezoito pés a caminhar por muitas léguas, meu Deus do céu! E ainda levávamos uma alimária connosco!
    Quando lho fiz notar, colocou-me ele a mão direita sobre o ombro, e disse-me com uma tal serenidade, que eu jamais duvidei do Santo:
    – Irmão Martinho, me disse, confie apenas na providência de Deus! E se acaso vai mais confiante leve dois ou três fanicos de pão e algumas romãs. Mas verá que não precisarão deles!
    Pois fica sabendo uma coisa, frei João, ao longo do longo caminho a hospitalidade das pessoas manifestou-se-nos sempre de forma tão inesperada como eloquente, que em nós mais nos fez aumentar o fervor ao padre João da Cruz, e mais amar a vida de inteira pobreza dos carmelitas descalços!
  6. – E tenho outra mais, frei João.
    – Conta-ma, por favor, frei Martinho – ao instante lhe reclamei.
    – Em certa fundação, eu, os restantes irmãos leigos e alguns operários, seguindo instruções do padre João da Cruz, adaptávamos uma casa de família para nosso convento. Imaginarás que seguir tais indicações significa segui-las à risca!
    Segue-se: ora sucedeu que certa parede se apresentava mal projectada e erguida, pelo que oferecia uma inclinação assustadora. O padre João mandou derrubá-la, e nós, irmãos e alguns operários, logo ajustamos a melhor maneira de a deitar abaixo. Estávamos a ensaiar como fazer, quando, de surpresa, ela se despencou sem apelo nem notícia prévia, e sepultou o nosso padre João! Imaginarás o nosso medo, mas, sobretudo, a consternação de todos, ao ver que acabáramos de sepultar o Santo! E é que todos o dávamos por morto, de forma que não havia quem não o lamentasse, que muitos vi eu que choravam como meninos! Mas não ficámos parados! Logo deitámos mãos à obra: um retirou uma pedra; outro, outra; três ou quatro, um tabique; outros, outro; e retirou-se entulho daqui e dali, e ó sorte do céu, que quem anda com Deus até o vento lhe ajunta a lenha! E não é que o achámos ileso e sereno e a rir-se, acocorado sob aquele montalhão de entulheira?!
    – Tu não me digas isso, frei Martinho!
    – É o que te digo-te, é o que te digo, frei João! E olha mais isto: é que entre nós, os irmãos leigos, se pudéramos, preferiríamos todos trabalhar mais duas horas ao dia, a fim de dispensarmos da luta o nosso prior; e se necessário fora perderíamos mil vezes a nossa vida, a ter de lesar uma mão ou um dedo que fosse, ao nosso Santo Padre João da Cruz!
    A verdade é só uma, frei João, São João da Cruz partilhava os riscos e fadigas de cada um de nós, seus irmãos, até mesmo dos irmãos mais simples da comunidade; ora, pois, como não haveria ele de ser muito amado por nós? Pudera! Claro que era, porque ele era como nós!
  7. Deveras estes homens simples e trabalhadores têm de ser muito amados e reconhecidos, ainda hoje, por nós, descalços do século XXI. Eles foram os companheiros preferidos de São João da Cruz! Sem a sua lhaneza a fundação da nossa Ordem não seria igual! A sua simplicidade, laboriosidade, o seu silêncio e profunda oração, ainda hoje são oiro e tesoiro para nós, homens da tecnocracia e da internética. Tal como nossos avoengos de sangue, em seu discreto e silencioso labor, também eles nos ensinam o valor da palavra moderada, a afoiteza de sustentar de comunidades com muito pouco, o esmero do trabalho com alegria, do confiar na Providência, da fidelidade à oração – pois assim se singularizou também a nossa identidade e carisma, no contexto da Igreja universal.
  8. Muito há a aprender com São João da Cruz que tanto os estimava, a ponto de reconhecer naqueles pequenos irmãos a fecundidade e grandeza humana e, pelo seu denodado trabalhar e calar, o seu fiel e generoso contributo para a definição do nosso andamento comunitário pela história fora. Tratava-os ele como irmãos – desculpem se me repito –, porque o eram de facto, e porque lhe eram próximos; embora não se apresentassem com envergadura de sábios, eram zelosos e, sobretudo, humildemente comprometidos com a comunidade. Sem dúvida que sem eles a marcha da nossa história não seria igual. São João da Cruz sabia-o bem, pois com eles palmilhou e compartilhou riscos e sobressaltos por tantíssimos quilómetros à intempérie; com eles, sem se distinguir, partilhou a profunda austeridade da Descalcez; com eles sofreu inclemências e inseguranças e, sobretudo, as inquietações e desassossegos dos inícios, tão típicos de quem, ao fim do dia, apenas tem uma panela fanada e nada para lá meter.
    E ao revés, há que redizê-lo, mais que por outros, o Santo mais amado foi por esses homens humildes, que o souberam aceitar como um igual, e porque, sem filtros nem mediações, viram e testemunharam a fecundidade e as riquezas de seu paterno coração e o seu profundo amor a Cristo e à Igreja!
  9. Há umas linhas atrás evoquei a figura do pequenino irmão carmelita descalço francês, o Venerável Irmão Lourenço da Ressurreição. E apontei que lá mais para o final – algures por aqui onde agora estamos – algo poderia sobre ele dizer. Mas não direi, porque o que fica dito sobre os irmãos leigos já muito é. Porém, nem tudo deverei sonegar-te, leitor, leitora, porque nos inícios de dezembro de 2025, estando de regresso ao Vaticano, vindo da sua peregrinação ao país dos grandes cedros, o Líbano, o Papa Leão XIV, como que de improviso a ele se referiu, dizendo que «a sua forma simples de rezar me acompanhou nos meus anos mais difíceis, incluindo nos dias de missão no Peru, aos tempos do terrorismo»; e acrescentou: «pela leitura do livro Prática Da Presença de Deus do Venerável Lourenço da Ressurreição descobri Deus presente no meio das tarefas mais humildes e aparentemente menos espirituais, porque a sua ermida de oração não estava num retiro escondido, mas no interior do seu coração».
  10. Finalizando, parece-me oportuno concluir com o relato dum especial abraço de frei João da Cruz. Aceita-o, leitor, leitora, como se fosses tu o abraçado.
    Sem o suspeitar, está, frei João, em seus dias finais, e acaba de chegar ao eremitério de La Peñuela. Já conhece a comunidade desde há anos pelo que, à sua chegada, logo se apercebe que ali falta o irmão hortelão, frei João da Mãe de Deus. E pergunta por ele.
    – Levámo-lo para Baeza, gravemente doente e lá está, completamente desenganado dos médicos! – Lhe respondem.
    Frei João pede e insiste que o tragam de volta, convencido de que se curará em La Peñuela. E vão buscá-lo. Quando a Baeza chega o frade encarregado de o trazer, este diz-lhe:
    – Foi o padre João da Cruz que mandou chamá-lo e espera-o em La Peñuela!
    Ao ouvir isto, o doente arregala os olhos, recupera energias e responde:
    – Pois vamo-nos em muito boa hora!
    Põem-se a caminho e, à chegada, o padre João da Cruz dá-lhe um grande abraço e, como se neste abraço lhe tivesse dado a saúde, o irmão sente-se tão bem que, se o deixassem, iria naquele mesmo instante trabalhar para o quintal!
  11. E finco-me aqui. Querido amigo, querida amiga, recebe um abraço grande.