- Como é que este livro, que fala dum ícone, ajuda a rezar?
P. Agostinho Leal (PAL, tradutor) – O livro Aonde Te escondeste, Amado – que tem como subtítulo Ícones e palavras para o Cântico Espiritual de São João da Cruz –, pretende «ensaiar uma interpretação que sirva de meditação para um posterior encontro contemplativo com o ícone. Pretendemos recuperar a palavra e a mensagem sanjoanina por meio da imagem a fim de despertar nos outros o desejo de embarcar nesta emocionante aventura do amor». O ícone é descrito na tradição cristã como «uma janela para o divino». Os ícones são meios de comunicação que, através da beleza, conduzem à oração contemplativa. Concretamente este ícone, criação das carmelitas descalças de Harissa (Líbano), «revela o objeto e o fim de toda a contemplação. Sem palavras e numa surpreendente sanefa historiada, a imagem narra e evoca o diálogo de amor entre a alma e o seu Senhor». Se o ícone é «uma janela para o divino», a oração é uma porta para entrar no coração, no interior e mais profundo da alma. Por isso a oração diante de um ícone, muitas vezes, começa com o silêncio, a imobilidade e o olhar posto na figura representada. No entanto, é preciso ter em conta que este livro e este ícone nasceram da oração e da contemplação e só pretendem o mesmo: «motivar espaços de oração, ajudar a entrar, através da imagem e da palavra de São João da Cruz, na contemplação do Mistério de Deus a quem ele nos remete e ao qual nos conduz o itinerário místico do Cântico Espiritual» - Contemplar o ícone é já rezar. Ora, se é, porque precisamos das palavras deste livro?
PAL – Respondendo muito diretamente à pergunta colocada diria: nós precisamos das palavras deste livro porque elas «nasceram da oração e da contemplação». Estas palavras não são “parole, parole” ou retórica do mundo, mas produto crente do olhar, do silêncio e do coração; são palavras «banhadas em doçura e amor». No Prólogo dos Ditos de Luz e Amor, São João da Cruz escreve: «Arrede-se, pois, a retórica do mundo! Fiquem longe as palavras vãs e a eloquência árida da sabedoria humana, débil e engenhosa, das quais nunca gostais. Pelo contrário, falemos ao coração palavras banhadas em doçura e amor, que Vós muito gostais». Estas palavras, porém, têm como finalidade o calar, o silêncio, a contemplação ou “atenção amorosa”, de onde nasceram. Os ícones só podem ser lidos em silêncio, num verdadeiro estado de contemplação. Na verdade, o silêncio favorece o estado contemplativo e o som do silêncio empresta a voz de Deus para falar ao orante. Este livro aborda as canções do Cântico Espiritual de São João da Cruz «que falam do exercício de amor entre a alma e o seu Esposo Cristo», por isso, as palavras deste livro são também «palavras da alma que contêm a mesma riqueza e força do amor que a ensina e move». Na Carta às Carmelitas Descalças de Beas, de 22 de novembro de 1587, João da Cruz escreve: «A maior necessidade que temos diante deste grande Deus é de guardar silêncio no espírito e na língua, pois a linguagem que Ele ouve é só a do calado amor». No entanto, foram as palavras daquela carta que nos disseram esta verdade tão entranhável e profunda. - Podemos contemplar este ícone se Deus não nos ilumina (Cf. Chama 4, 9)?
PAL – Vale a pena transcrever a oração de Chama de Amor Viva 4,9: «Acorda-nos e ilumina-nos Tu, meu Senhor, para que possamos conhecer e amar os bens que sempre nos dais, e assim saberemos que Te moveste para nos conceder mercês e Te lembraste de nós!». Sem a luz de Deus, de facto, não podemos contemplar este ícone, não poderemos «conhecer e amar». A contemplação é o coração da teologia mística, «na qual se sabe por amor». Na contemplação «a alma só há de prestar atenção amorosa a Deus… sem qualquer diligência sua, em atenção amorosa simples e pura, como quem abre os olhos com atenção amorosa». Ao contemplar o ícone, do qual se ocupa o livro Aonde Te escondeste, Amado, há um cruzamento de olhares: o olhar do homem para Deus [a contemplação] e o olhar de Deus para o homem [a união]. E, como se sabe, «o olhar de Deus é amar» (C 31,8).
E… 4. O ícone que ali se desvela tem 25 pequenos ícones e muitos mais símbolos; e, ao centro, uma imagem de São João da Cruz: porque é que o Santo surge tão grande em sua imagem?
PAL_ Tenho a firme certeza que só me resta um “chumbo” perante as perguntas que o Frei João Costa me faz! Uma resposta hilariante: Segundo informações colhidas, o João da Cruz media 160cm de altura, e o ícone, feito pelas carmelitas descalças de Harissa, mede 155cm. Já agora, os pequenos ícones que rodeiam a imagem do Santo são de 14,5 cm x 10,5 cm. Mas os santos não se medem por centímetros, nem os homens aos palmos. Então, um grande místico, um grande doutor, um grande poeta, um grande santo, um grande escritor, um grande teólogo, não haveria de ser grande?
Três perguntas e… mais uma sobre o livro “Aonde Te escondeste, Amado”










