Armindo Vaz, OCD

É um dramático episódio da epopeia Eneida de Virgílio. Às mulheres troianas, cansadas de uma longa e acidentada viagem – que numa paragem na Sicília chegaram fogo às naves dos seus homens, para que estes desistissem do objectivo sagrado de fundar a cidade de Roma – Ascânio, o pequeno filho de Eneias pergunta: «Que súbito desvario é este? Para onde quereis ir agora, ah, tristes concidadãs? Não é o inimigo nem os campos inimigos dos Argivos[gregos] que queimais, mas a vossa esperança!» (I, 670-673). Nesse caso, era a esperança de chegar à terra prometida pelos deuses: à Itália. Queimar a esperança era queimar o futuro de um povo, os ancestrais dos romanos.

Este relato épico – como as epopeias em que se inspirava, a Ilíada e a Odisseia de Homero – está perpassado pela ideia subliminar da esperança. Não só aborda o tema da reconstrução depois da destruição. O protagonista é um herói vencido, agora sem pátria, que, fugindo das ruínas da sua cidade a arder, com o pai aos ombros, pondo-se sob a protecção dos deuses vai à procura de novos rumos e de um novo começo num mundo desconhecido.

A acidentada viagem de Tróia até ao Lácio é uma viagem ao interior do leitor que dá de beber à esperança com uma vida nova.