Frei João Costa, OCD

1.  Do nascimento de Jesus não existe registo algum no civil ou certidão de baptismo na Igreja. Nasceu Ele tão do lado de lá da história, que ninguém registou o principal de todos os nascimentos. Era tão pobre, tão pobre, que na escala social estava no degrau mais fundo e sem sol – quem quereria saber dele? Era, sim, da linhagem do grande rei David – mas quem, olhando para o pai José, o carpinteiro, o adivinharia?

Nasceu num buraco de animais perdido num monte, num daqueles covis em que até custa a crer que as alimárias ali parissem – quem o advertiria? Nascera Ele num palácio, filho duma família importante, viera destinado a comandar, e alguém haveria de ter celebrado o nascimento do herdeiro com belos charutos e uísques, publicitado nos jornais e têvês, postado no Facebook e no Instagram, ou registado em plaquinhas de argila. Mas não, ninguém nada registou, ninguém nada escreveu, ninguém nada relatou. E para cúmulo, dizem que no parto santo José se adormilou; ao invés, porém, Maria, todas as notícias do Filho guardou no seu coração, e delas algo falou, mas não muito. Já isso é algo, mas pouco.

2.  José e Maria, pais de Jesus, eram pobres, mas amavam-se. Mais que tudo, eles amavam-se – amor, esse fabuloso motor da vida que derrete e derrota montanhas! José amava-a mais que a si mesmo, mesmo se a não compreendia inteiramente, nem compreendia porque no corpo da sua Mulher – e não de outra mais senhoril e de nome mais encorpado – acontecia o maior dos milagres: a gestação do Filho de Deus!

Vai lá tu compreender!… Explicassem-lhe por onde lhe explicassem, ele, o homem justo, não entendia, pronto; mas estava ali, ao pé da Mulher, para o que desse e viesse. Não, dali ele não arredaria pé. Não arredaria, não arredou, não arredará.

– Se ela é o que é, a ele lho deve também… –

Como sabemos nós, hoje, Maria e José eram pobres demais para que alguém se incomodasse com o seu menino nascido naquele buraco achado às pressas; pobres demais para que alguém escrevesse sobre eles ou sobre o recém-nascido.

Sim, é verdade que o Império sabia o que precisava de saber da vida de José; e, ai dele se não tratasse de para ali se deslocar a fim de se recensear na terra da sua família! Ai dele, se andasse por aí a matraquilhar as ferramentas (que é donde os homens justos tiram o sustento para viver); ai dele, se girovagasse por aí sem prova de que pagava os impostos que só os homens casados pagavam (e ele era casado, e até ia ter um filho…)! Sim, o Império sabia tudo isso muito bem, mas não sabia de nada mais, porque o resto eram ninharias. E por isso nenhum escriba ou oficial nada registou. Para o Império o nascimento de um menino não contava para nada – talvez daí a dúzia e meia de anos, quando ele pudesse pegar em armas ou, casando, se obrigasse a pagar impostos. Não, o Império não advertira que o menino nascido no buraco era Deus, nem podia saber que ninguém lho dissera; e se alguém lho dissesse não acreditaria, porque os deuses nascem no Olimpo, em templos ou em palácios, não em buracos. E ainda que aceitasse que pudesse nascer num buraco de um monte, para que queria ele mais um deus, se já tinha tantos com que se ocupar? Que vinha cá fazer um mais? Que virtude ou que poder benfazejo acrescentaria à Humanidade um nascituro dado à luz na cova escura de um monte entre bichos? Sim, por que se haveria de aperceber do Santo Nascimento o poderoso Império dos deuses mais poderosos e avassaladores do momento? Não era ele o vencedor, aquele que esmagava os ratos que se lhe opunham? Para que quereria o Império mais um deus – e para mais um de carne frágil e a depender da mama da Mãe? Um Deus de carne pobre em breve deve morrer; por que hão-de dois pobres coitados esfalfar-se no cuidar de um Deus que não é necessário? Enfim, quem, pois, em boa verdade, ao longe ou ao perto, se haveria de incomodar com o nascimento de Deus sucedido às escuras numa lura?

3.  É sabido que os pastores não sabiam escrever. Contar, sim; porque é mais fácil contar ovelhas do que escrever-lhes contos! Logo, por que haveriam de ser eles a escrever algo sobre o nascimento do Deus tão esperado? E os primos dos pastores, igualmente pobres, também nada escreveram, ou poderiam escrever, pois também eles não sabiam o que Dele dizer. E se soubessem, que escreveriam eles – que numa noite nascera um menino e fora saudado por Anjos? Escrevessem isso e não faltaria quem dissesse que o vinho da taberna do lugar andava a escoar demasiado depressa goelas abaixo… Dois anos depois, José e Maria ainda se deixavam estar por Belém.  A José iam apreciando-lhe o jeito para adoçar a madeira; a Maria, o asseio dos paninhos sempre esplendendo no estendal. E o Garoto? o Garoto era um garoto mais, um párvulo entre os tantos que haveriam de ser da sua igualha nos banquinhos da sinagoga; era um de tantos que, como todos, abundantemente, profusamente, repetidamente, havia sujado os paninhos como… como os demais, como todos os bebés – aliás, a maioria até tinham sido oferecidos por esta ou aquela condoída mãe, pobre como eles, já depois de terem servido para alimpar outros rabos de meninos mais velhinhos…

Não, ninguém reparou no rapaz, para além de que nascera rapaz, e mamara, tivera as maleitas típicas da infância (não recebeu vacinas, atenção…), sujara fraldas, começou a andarilhar pelos nove meses, botou os dentes e choramingou quando um ou outro mais teimoso lhe rasgou as gengivas, ah… e foi visitado pelos Sábios do Oriente. Bem, isso foi festival que ninguém pôde ignorar porque a caravana armou nos arrabaldes da cidade três formosíssimas tendas, fazendo-se notar por alguns dias! Mas assim como vieram, assim se foram: numa inesperada noite, parecendo que a terra os engolira propositadamente, desapareceram; e depois desapareceram a Mãe, o pai e o Garoto! E o que ficou para trás foram boatos que rolavam da boca para o ouvido, como rolam pela poeira dos caminhos certas arbustos secos do deserto que se enovelam com o vento que os impele e os leva.

Não, em Belém nada ninguém escreveu sobre aquela família semi-sem-graça, nem sobre o filho que era Deus! E como seria Ele Deus, se era igual aos filhos das outras mulheres – não era isso que bem se via nas fraldas? Via-se, e via-se bem que Maria era pobre demais para albergar um ventre digno de rei, quanto mais de Deus! E José, mais para o calado e macambúzio que para o tagarela e basófias, com jeito para fazer um banco, mas mais propenso a sentar-se e a dormir no chão que a recostar-se numa cadeira, quem lhe daria crédito? Não, nem em Belém nem em Nazaré alguém lhes deu mais crédito que aquele que se empresta ao silêncio desconfiado.

4.  É, pois, um homem pobre – e para mais, Deus! — o que celebramos no Natal à roda da mesa farta e com belos hinos sagrados em torno ao altar e do presépio. É por isso que o Natal merece de ti, de nós, de mim, um silêncio respeitador e uma contemplação humilde que nos levem a reconhecer e nos façam saber que o nascer pobre de Deus representa para nós a maior e mais rica lição de vida!

Mas, afinal, que importam os pobres para a história, nomeadamente estes de que falo? Que pode um pobre contra as lanças de um poderoso exército, ou contra a força dos gonzos das fortalezas que resistem anos e anos a um cerco? Não sei. Algo, porém, pressinto, mas não sei bem o quê.

Em cada Natal sinto o mesmo: olho o meu prato largo e fundo e com azeite à espera do bacalhau, e entope-se-me a garganta com pensamentos sobre pobres que lá fora rapam frio, e não têm nem bacalhau nem azeite nem prato nem mesa… e são presépio.

Ainda não é Natal e há já bastos dias que se me vem enovelando o coração e turvando o olhar com a lembrança daquele escuro covil onde, fulgurante, numa noite, nos nasceu a luz do Salvador. E não é que vindo para os seus, eles Lhe fecharam a porta e trancaram o coração – que nascesse entre bichos, como entre bichos andaram e cirandaram Adão e Eva!

Ainda não é Natal, não, nem na igreja jaz ainda o presépio, mas já me enterneço com a lembrança do pimpolho ao colo do pai – ó carne bendita, em cuja fragilidade de criança mora ignorada a imensa plenitude de Deus! Como, pois, me haverei de calar, como não chorarei de admiração, como ousará fechar-se algum coração com algo de humano, diante de tão imenso, de tão intenso mistério? Aliás, ou melhor, como não me calarei eu em calado silêncio diante de Ti, ó Verbo eterno escondido na carne?

Ainda hoje não é Natal e sinto o longo desconforto que me incomoda por me caber trazer o passado para o presente – como celebrarei, como cantarei ou comerei, como rezarei ou agradecerei o mistério da ternura de Deus também por cada um de nós, os de hoje? Sem que insulte os pobres, os que rebuscam nas sobras dos ricos um futuro para as suas famílias, me pergunto: como se traz para o meio dos fartos de abundância, e dos enjoados de comida e oportunidades, como se traz para o meio de nós a memória desse Excluído de há dois séculos? Onde está a possibilidade de emprego justo para G., desempregado aos 58 anos, que só quer ganhar pão com o suor do seu rosto? Quem acolhe ou compreende e aceita como amigo a T., 35 anos, que não se aceita a si mesmo por sofrer de doença congénita? E quem abençoa ou recebe os votos de consagração de A., 42 anos, a quem, há poucos dias rasgaram as constituições? Quem abre uma porta, ou quem sabe, apenas um postigo, a M., 45 anos, vítima de um absurdo assédio moral no emprego? Neste Natal, que direi, ou como direi Deus a tantos excluídos que, por ironia, até conhecem, e dedicadamente servem, o Ex­cluído?

5.  E mais, o que entre tudo é, para mim, o mais difícil: como é que neste Natal semearei futuro; ou, como quem diz, como semearei esperança, como abrirei um carreiro ou uma clareira para os que na Noite Santa cantarão com os anjos, e comigo, o Gloria in excelsis Deo? Como é que a tantos de coração cansado e abatido que teimam em resistir para não desistir, como é que lhes direi que só o pobre triunfa, só o pobre importa e vence, no fim da história?