Frei João Costa, OCD
1. O «não tenhais medo!» que, por três vezes, soa no evangelho deste domingo XII do Tempo Comum, ciclo A (Mt 10, 26-33), sabe-me a uma quase intimação. Para mim, três vezes são vezes a mais para Jesus não ser levado a sério. Levemo-l’O, pois. Um pouco antes chamara Ele os Doze; agora adverte-os. Ah, e adverte-nos, obviamente, também a nós, pois todos somos, não importa a hora, chamados a ser missionários e testemunhas do Evangelho.
Só mais um pormenor: tendo em conta os versículos anteriores, todos, ainda que muitos, somos poucos, muito poucos trabalhadores para a imensidade da seara que urge recolher (em qualquer era da história).
2. No ano em que me ordenaram os Seminários não estavam cheios, mas também ainda não era inverno. Talvez apenas fim de verão. As igrejas estavam cheias, sim; nas grandes comunidades, aos domingos, celebrava-se quase de hora em hora; as catequeses tinham o seu quê de apetecível e encantador; a pastoral juvenil era como árvore frondosa cheia de frutos; os filhos bebiam a fé da boca fresca dos pais, e os netos da dos avós; e os miúdos em processo escolar passavam todos pelas aulas de EMRC. Questionava-se menos, cantava-se mais e caminhava-se mais, em grupo. Agora não. Agora grita-se, lancinantemente, como aquela mulher num recente encontro de agentes pastorais diocesanos com o seu bispo (sim, foi em Portugal, sim!): «Senhor bispo e caros padres, a minha paróquia morreu! Para quê tantos discursos e reuniões, se a minha paróquia, volto a dizer, está morta?».
Quando em 1992, soletrando, cheguei ao Carmo de Braga aqui celebravam-se cinco missas dominicais (seis, com a Vespertina), e todas estavam repletas de fiéis encantados e entusiasmados. Recordo-me: éramos quatro padres, e entre todas as responsabilidades pastorais da Comunidade, todos, menos um, celebrávamos três missas ao domingo!
Só mais um exemplo, para o qual, ao tempo, ninguém atempadamente me preveniu do susto: tenho bem gravada a Missa do Galo desse ano. Bem antes da hora a igreja apresentava-se abarrotadíssima! Na procissão de entrada mandaram-me à frente a abrir caminho, por entre os ombros do povo tão colados, e por entre cabeças tão duras e surdas, que só chegámos ao altar quando, cansado, o Coral parou de cantar! Só faltou – cruzes, credo! – que se sentassem em cima da mesa eucarística! Não, não sentaram, mas a assembleia invadiu todo o espaço livre, mesmo no presbitério! Inolvidável! (E mais: ainda por aqui há quem lembre que, um par de anos antes, pouco tempo antes do início daquela Missa, fora necessário retirar metade dos bancos da igreja por cima das cabeças da assembleia, e nem assim o povo coube no templo, que metade dele ficou pelos corredores e nas sacristias!)
3. Hoje já não é assim.
Afinal, o que ontem alguns viam acabar, agora, e sem querer ser derrotista, sente-se o frio invernio da fé. Treme-se de frio, quero dizer. Não o digo por clarividência nem por saudade, apenas testemunho o que vejo e sinto: o povo com quem rezo é povo velho, daquele que usa casaco em plena onda de calor e ainda assim tremelica de frio. Se isso me assusta? Assusta, claro. Com quem irei rezar, quando, verdadeiramente, chegar o pino do inverno que a todos há-de constipar? Não sei.
4. Não sei!
5. Foi este, confesso humildemente, o meu espírito, quando esta manhã, celebrando missa dominical, li por duas vezes o Evangelho a duas assembleias diferentes. Óbvio é que, em momento algum, me podia passar em claro a advertência de Jesus aos seus discípulos: «Não temais!». Não temais?, mas como não temer, se tudo parece que se acaba? Como não temer? Como confiar nessa palavra de Jesus, mesmo se Ele a disse direccionando-a para outro sentido: não temais as rejeições, malquerenças e perseguições de que sereis vítimas por causa de Mim e do meu Evangelho?
6. Óbvio é que o caminho que temos por diante de nossos lassos passos não será fácil. Nunca foi, aliás. Enfim, não será preciso dar muitos mais passos para bem percebê-lo. Na realidade, cada época tem desafios novos ao anúncio da Ressurreição de Jesus. Os nossos estão à vista; as soluções…
A solução é caminhar à intempérie, por entre raposas, pequenas margaridas, javalis ou lobos, como Pedro e Paulo, Inácio, Antão, Patrício, Bernardo, Hildegarda, Francisco e Domingos, Catarina, Teresa e João, João Bosco, Teresinha, Teresa Benedita e outros, e outros, e tantos outros: caminhar, caminhar com o Evangelho no coração, que esse é o seu melhor celeiro. Venha o que vier, caminhar sempre. Em frente. Venha o que vier, semear sempre. Sempre. Em frente e para os lados. Profusamente. Sem descanso.
7. Um plúmbeo véu escuro, porém, parece ter caído de vez sobre o coração da Humanidade (ao menos no Ocidente): Deus e a religião perderam sentido. É. É arrasador: Deus e as coisas de Deus já não têm leitura aos olhos e corações das gerações mais novas. Eles olham e não veem! Olham e não distinguem o sagrado do profano, uma igreja de um centro comercial, uma cruz no alto de um templo de uma haste de para-raios! E já não se trata de que o discurso sobre sagrado seja incompreensível, logo chato, não; simplesmente não o inteligem, pois não possuem grelha para o ouver e classificar, e em consequência não o compreendem! Bem, não é que o não compreendam, não: é pior, visto que já nem dele se apercebem – ele está ali e é como se não estivesse, pois não têm antenas para captá-lo! E assim sendo, que sentido faz incorporar-se nesta ou naquela religião, mormente a cristã, se já ninguém percebe ou precisa de sinais que apontem para o eterno? (E para quê pensar ou modular a vida com sentido de eternidade, se tudo termina aqui? – dizem como se fôramos criminosos.)
8. No próximo dia 9 de julho, pelas quatro da tarde, os nossos Irmãos André e Francisco Maria, serão ordenados sacerdotes do Altíssimo, na Sé do Porto. (Penso neles quando isto escrevo…)
Meus caros, benvindos!
E obrigado por terdes vindo!
Como sempre, como outrora também a mim, espera-vos uma ceifa abundante, e um tempo novo e desafiante. Mas não caleis, – não podereis calar – a novidade do Evangelho de Jesus. Nem passeis por alto – não podereis passar – as exigências do seguimento de Jesus, o Senhor que chama. Seguiu-O de olhos fitos no Seu coração, que outra luz não haja. Diante do pequenino e cansado rebanhinho que nos resta, não vos julgueis superiores, nem trateis de dizer como quem impõe. Não sejais fechados aos ventos da história, nem vos apresenteis de regra e esquadro na mão, isto é, uns frios moralistas, e menos ainda, uns antipáticos, como se fôsseis os azedos senhores da verdade. Não, nada disso.
E não vos assusteis com as incompreensões, as caras feias, as piadas, os silêncios improváveis ou fugidios – fazem parte do cardápio do anúncio do Evangelho. Aliás, assustai-vos, sim, quando todos vos sorrirem, todo vos tratarem nas palminhas das mãos, todos vos baterem nas costas. Esse todos é incompatível com o anúncio. Já São Paulo sentiu que tal não poderia acontecer, sob pena de traição a Cristo! E cravai os olhos no coração rasgado do Redentor, de contrário soçobrareis!
Não temais as inimizades, temei, sim, volverde-vos inimigos do Evangelho! E no restante, paciência, doçura, coragem e amor à verdade; quer agrade quer não, quer aceitem, quer não.
Sede servidores humildes da Verdade que é Cristo. E alicerces valorosos sem medo de o ser. Em comunhão com a Igreja proponde a Verdade ao mundo, nunca, porém, como donos que dela se bastam, e menos ainda como funâmbulos que A dominam na perfeição! Não, nada disso, que se A crucificaram, que havereis de esperar para vós?
9. A Verdade é Cristo; e até nós, ou melhor, primeiro nós, estamos a caminho dela! Na verdade, não somos mais que peregrinos. E, quem sabe, quase desistentes. (Peregrino é quem, afinal, mesmo cansado, caminha sabendo para onde vai, ainda que não conheça o fim.) Sim, caminhamos todos cansados e ainda sonhadores, levando-A no coração, tratando de nos aproximarmos mais e mais da Claridade! Sim, somos peregrinos que A dizem e cantam pelos caminhos, e à volta da lareira, enquanto se assa um peixe. Mas não, não temos a verdade toda, que os outros também Dela são caminheiros mesmo que o não saibam. Por isso, se houverdes de lhes falar, falai, mas com doçura e paciência, com inteireza e firmeza, que para isso fostes chamados. (Ah, e nesta hora em que nada tenho a ensinar, insisto nas palavras de envio de São Francisco: «…E se tiverdes de falar, falai!»).










