Frei Francisco Maria Braguês, OCD
Quantas vezes, ao longo do dia, nos queixamos da falta de tempo? Quantas vezes nos lamentamos de que o dia correu e se esvaiu como areia entre os dedos da nossa mão?
Somos já conscientes de que vivemos num ritmo frenético. Tem de ser tudo feito “para ontem”. Não podemos parar, repousar, serenar… A pulsação da contemporaneidade obriga-nos a transpirar os minutos e os segundos do nosso existir em prol de tantas coisas que, afinal, não são importantes.
Atualmente parece que fazermos uma pausa, tirarmos um tempo para nós – e para Ele – é um luxo. Ou melhor, até é um pecado! Já não trabalhamos para viver, vivemos para trabalhar; a sociedade encarrega-se de nos entreter com a futilidade de tantos circos vazios e ocos para que cada minuto esteja ocupado em frivolidades. Os telemóveis e as redes sociais encarregam-se de nos hipnotizar, privando-nos de momentos de encontro uns com os outros, de reflexão, meditação ou oração. Facilmente somos envolvidos em tramas que nos privam de estarmos com atenção ao interior, como recomendava São João da Cruz.
O leitor poderá perguntar-se: “E que interessa tudo isto para esta tribuna dedicada a Santa Teresinha?” E eu respondo: “Interessa. E muito!”
Teresa de Lisieux foi uma carmelita descalça, ou seja, uma monja de clausura. É verdade que alguns já consideram estas mulheres como espécie em vias de extinção. Mas, graças a Deus, ainda temos entre nós testemunhos vivos de mulheres que optam por este estilo de vida radical. A arquidiocese de Braga não é exceção; aliás, é um exemplo privilegiado!
Como carmelita, a vida de Teresinha era marcada pelo silêncio, pela contemplação e pela vida fraterna com as suas irmãs. Um ritmo de vida totalmente distinto do nosso. Atenção: não caiamos no erro de acharmos que estas mulheres passam o dia sem fazer nada. O seu dia é bem preenchido, não sobrem dúvidas.
Pode parecer-nos, contudo, que Teresinha teria tempo para tudo e mais alguma coisa. Que viveria despreocupada e sem pressas. Não, não foi bem assim. Já fomos vendo, nos textos anteriores, que esta jovem francesa era enérgica e ativa!
Se, como dizia acima, algumas pessoas querem tudo “para ontem”, a Teresinha bastava-lhe o dia de hoje. Afinal, era consciente de que a nossa vida, de facto, nos escapa da mão como grãozinhos de areia; é um sopro, uma sombra que passa, como reza o salmista. No seu Canto de Hoje, escrito em 1894, confessa: «A minha vida é um só instante, uma hora passageira / A minha vida é um só dia que me escapa e me foge».
Uma das qualidades que mais aprecio em Teresa do Menino Jesus é o seu realismo e transparência. Teresinha é consciente da fugacidade da nossa vida; de que, nesta terra, não somos eternos. Por isso, para quê ocuparmo-nos e preocuparmo-nos com o ontem e com o amanhã? Tantos projetos que lançamos, sonhos e desejos que nos ocupam e que, tantas vezes, nos desviam de vivermos o dia de hoje com intensidade. Para não falar das tantas vezes em que estamos aprisionados ao passado…
Se só temos o dia de hoje, o tempo é curto e escapa-nos. Assim, em que é o devemos ocupar? Com quem? Deixemos falar Teresinha: «Tu sabes, ó meu Deus, para amar-Te na terra / Só tenho o dia de hoje!».
A urgência de amarmos Jesus! Amarmos a Deus que deseja ser amado! A única preocupação de Teresinha! Não adiemos esta decisão. Amemos, hoje! Que importa o futuro sombrio ou tudo o que passou? Só temos o dia de hoje!
Não desperdicemos este presente que Deus todos os dias nos oferece. A nossa vida é como uma ampulheta – objeto que Teresinha tanto estimava – que todos os dias viramos. O que temos é esse tempo, nada mais. Acolhê-lo como uma graça das mãos do Pai é o segredo da felicidade. Amemos, confiemos, acreditemos, lancemo-nos nos braços do Pai como crianças que se sabem amadas só por hoje. Afinal, a vida é tão simples. Aproximemo-nos – hoje – desse divino Coração, refugiemo-nos nessa fonte de amor: «Ah! Dá-me, Jesus, um lugar nesse Coração / Somente por hoje».
Façamos deste cântico de Teresinha o nosso hino de amor a Deus e aos irmãos. Para amar só temos o dia de hoje. Cantemos, pois, o seu Canto de Hoje [Mon chant d’aujourd’hui] com a melodia de J. de la Charie: https://www.youtube.com/watch?v=hi-I-CdE0VM.
- Publicado no jornal Diário do Minho de 2 junho 2023










