Armindo Vaz, OCD
Maio florido é mariano, principalmente pelas celebrações em Fátima e pelas devoções marianas que enchem todo o mês. Mas é também porque várias Congregações e Ordens Religiosas veneram em Maio Nossa Senhora como padroeira: Nossa Senhora Mãe do Divino Pastor, Santa Maria Rainha e Mãe do «Rogate», Nossa Senhora dos Desamparados, Nossa Senhora Saúde dos Enfermos, Nossa Senhora Mãe da Misericórdia, Nossa Senhora Auxiliadora, Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos, Nossa Senhora da Estrada, Nossa Senhora do Sagrado Coração de Jesus, Nossa Senhora da Boa Nova e a Visitação da Virgem Santa Maria, a 31 de Maio. Tornemo-nos espectadores contemplativos da cena dessa Visita de Maria a Isabel.
Atenda aos pormenores do relato:
“Maria pôs-se a caminho e foi apressadamente para a montanha, a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Levantando então a voz, com um forte brado disse: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. Quem sou eu para que venha a mim a mãe do meu Senhor? Eis que, apenas chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu ventre. Feliz de ti que acreditaste que se cumprirão até ao fim as coisas que te foram ditas da parte do Senhor». Então Maria disse: «A minha alma proclama que o Senhor é grande e o meu espírito alegra-se em Deus, meu salvador…»” (Lc 1,42-45).
E continua o magnificat, que Lucas remata: “Maria permaneceu com ela cerca de três meses e voltou para sua casa”.
Que queria Lucas significar com esta magnífica cena evangélica do encontro das duas mães grávidas que culmina no magnificat de Maria em resposta ao louvor que Isabel lhe acabava de cantar? Costuma entender-se como fundamento da caridade cristã e da visita aos irmãos necessitados de ajuda, caridade que começaria na família; grata a Deus pelo que fez nela, Maria ter-se-ia desvelado no serviço à família, esquecendo-se de si mesma, porque quem está habitado por Jesus não pode adormecer na poltrona da indiferença e do comodismo. Mas esta interpretação moralizante pode deixar as pessoas insatisfeitas: teria sido para isso que Lucas contou o eloquente encontro de duas grávidas das duas personagens mais importantes que se situam na passagem do Antigo Testamento para o Novo? Procuremos a sua mensagem.
Depois de Lucas ter descrito a anunciação angélica da concepção e do nascimento de Jesus, Maria pôs-se a caminho, movida pela Palavra de Deus, simbolizada pelo anjo. Maria tinha-lhe respondido: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra”. E partiu para casa da sua parente Isabel. O encontro enternecedor das duas grávidas comoveu a Isabel que tinha sido estéril. Por isso, “tendo ficado cheia do Espírito Santo”, irrompe em palavras de louvor a Maria, que, como o magnificat, estão marcadas por várias reminiscências do Antigo Testamento, remetendo-nos para ele. A saudação “bendita és tu entre as mulheres” repete à letra o elogio feito a duas mulheres corajosas, Judite e Jael, que intervieram para salvar Israel em momentos difíceis da sua história: “Bendita sejas, filha do Deus Altíssimo, entre todas as mulheres da terra” (Jd 13,18 e Jz 5,24). Assim, Maria aparece aqui como a mulher corajosa que, dando plena colaboração ao plano salvador de Deus para a humanidade (“faça-se em mim segundo a tua Palavra”), vai à casa de Isabel mostrar que esse plano salvífico está em realização. Algumas expressões fazem lembrar a viagem da arca da aliança para Jerusalém (2Sm 6,1-19). A humildade de Isabel, expressa na pergunta “quem sou eu para que venha a mim a mãe do meu Senhor?”, evoca a mesma atitude de David que dizia: “como poderá vir a mim a arca do Senhor?” (2Sm 6,9). O júbilo do menino João a “saltar no ventre” de Isabel é uma referência à alegria de David a “saltar quando a arca do Senhor entrou na cidade de David” (2Sm 6,16). Maria “permaneceu três meses” em casa de Isabel, como “a arca do Senhor esteve três meses em casa de Obededón… e o Senhor abençoou a casa de Obededón e todas as suas coisas por causa da arca de Deus” (2Sm 6,11). Até esta bênção do Senhor à casa de Obededón ressoa na bênção de Isabel a Maria: “Bendita és tu entre as mulheres”.
O paralelismo inquestionável entre este relato que já se situa no Novo Testamento e temas do Antigo Testamento sugere que se trata de uma meditação espiritual em forma narrativa – qualquer que seja o grau de factualidade da narração. Lucas queria ligar o Novo ao Antigo e o Antigo ao Novo. Desde logo, o paralelismo sugere que se entenda Maria, grávida de Jesus, como arca da nova aliança, morada do Filho de Deus: como David se alegrou diante da arca, João alegrou-se diante de Maria, arca que trazia dentro de si o mediador da nova aliança. Como no Antigo Testamento a arca da aliança era símbolo da presença misteriosa de Deus no meio de Israel, Maria sentia trazer no seio o seu Filho para o seu povo. [continuará]
Palavras cruzadas na Visitação de Maria a Isabel – I










