Frei João Costa, OCD
Eis-nos em Páscoa. Ainda não a definitiva, mas a sempre urgente e real passagem de bem a melhor; ou, de quase bem para melhor. Vamos passando, vamos indo, é o que por agora se me ocorre deste processo.
Cada novo ano nos traz, algures na Primavera, a grande festa da fé. Ora se por aqui a celebramos hoje, tal significa que ainda a não celebramos em plenitude, que se é páscoa não é de todo aquela Páscoa que inteira nos alumiará pela união plena ao Ressuscitado. De notar, também, que se para uns a Páscoa voltou, tal se deve apenas ao volver das procissões e compassos para o terreiro dos nossos dias! Não assim para nós, mesmo se, na verdade, as procissões e os compassos trouxeram à cidade a ebulição dos turistas! E também a nós nos impeliram a sair à rua! E é que vieram e é que saímos mesmo! Tanto assim foi que as actuais cifras de visitantes ultrapassaram, entre nós, as pré-pandémicas. Temo, porém, que tal páscoa seja um fenómeno demasiado à flor da pele. À flor da pele porque apenas visto e acompanhado, desde a bancada, e apenas celebrado na esplanada entre finos e gritos a saudar os golos. E isso é tão pouco e até tão nada para os discípulos Daquele que suspenderam na cruz!
Eis-nos em Páscoa, portanto. Liturgicamente falando, ao menos. Passado o Grande Dia – vai de domingo a domingo – eis-nos no segundo, o da Divina Misericórdia. Pousando o olhar sobre o evangelho (João 20:19-31) a cabeça concentra-se-me na figura principal – Tomé, gémeo nosso. Hesito, porém, na atribuição da primazia, e acabo, também eu, por me inclinar, sobre o lugar dos cravos. E que lugar!
E já que gémeo sou, fito e contemplo aquele locus. E que loca! Porque, afinal, ela não desapareceu quando o Ressuscitado se manifestou aos temerosos discípulos. Eis que me foco, sim, em tal lugar e naquele que exigiu ver o lugar – o discípulo sem fé.
Sem fé? Calma, calma, calma…
Tomé era, de longe, um homem de fé. Era determinado, corajoso, talvez desabrido; e parece ter sido, inclusive, dos discípulos, aquele que mais fé tinha. Talvez até mais que todos juntos; sei que isto é temerário de dizer-se, mas é o que me parece. Haja em conta um sucesso acontecido pouco antes da morte do Senhor. Conta-nos o evangelista João que antes da paixão e morte de Jesus, o próprio devolveu a vida a um morto – Lázaro. Era amigo seu. Tendo-lhe sido anunciado a sua doença, Jesus, que se encontrava em Jerusalém, demorara-se a ir vê-lo e o amigo morreu. A demora é intencional, porém. Para que Deus seja glorificado no sinal que está prestes a manifestar-se, diz o Evangelista. Acossado que era por toda a parte, os dias de Jesus não lhe vinham correndo nem levandeiros nem fáceis. E os discípulos sabiam-no. Experimentavam-no, quero dizer. Por isso, quando o Mestre lhes anuncia que empreenderiam a jornada para Betânia, na Judeia, eles tentaram evitar a viagem recordando-lhe o óbvio: ainda há pouco fora vítima de uma tentativa de apedrejamento por parte dos judeus. Jesus, porém, não se demove pelo que, decidido, Tomé retorque: «—Vamos nós também para morrermos com ele». Ou seja, envolvidos numa nebulosa de nada saber e sem ainda algo entender, pela voz de Tomé, os discípulos estão dispostos a morrer com Jesus! Que bravura! Que amizade pelo Mestre Bom!
É óbvio que isto não é tão pouca fé assim, embora, talvez, seja apenas uma fé impulsiva. Avalie e esquadrinhe quem for teólogo.
Ora e o que sucedeu a seguir? Aconteceu que em pouco tempo e em menos de um nada, como desde há tempos vinha sendo cozinhado na sombra, lhes mataram o Mestre. Como era de esperar — como, ironicamente, era de esperar — valia mais que um morresse por todos, que todos sofressem por um. E em vistas disso, o acabrunhamento e o medo apossaram-se de tal modo deles que, quando, como prometido, Ele ressuscitou ao terceiro dia, os foi visitar, por que amigos e discípulos. No alforge e à chegada não trazia nem chicote nem palavras de recriminação, apenas o lugar dos cravos e o lado aberto. Aberto chegava, pois. E eles fechados! Tão fechados que ao serem visitados pelo Ressuscitado todos se assustaram e Nele ninguém acreditou. Excepto Tomé, que não estava com eles. E onde estaria o homem, onde se teria encafuado? O evangelho de João não o diz; apenas nota que estava ausente do grupo. Tomarei, portanto, esta nota de ausência não como uma fuga ao grupo, mas um recuo para a rectaduarda, para casa, por causa de uma depressão tal, que bem pode corresponder ao inverso da impulsividade anteriormente assinalada e demonstrada. Fora da comunidade – em sua casa, talvez – Tomé nem forças tem para lamber as feridas! Amodorrado, angustiado e deprimido, roto por dentro e por fora, sem vontade de sair da cama nem de comer, vejo-o abatido, volvendo-se e revolvendo-se na dor, lamentando a traição própria: sim, desinteressava-se da sorte alheia, porque também ele fugira ao Mestre, e isso tinha de ser assumido. Creio, sinceramente, que remoendo a culpa, mais a própria, menos a alheia, Tomé não se atrevia a ver-se ao espelho nem a rever-se jamais no rosto dos companheiros. Fora como fora, é óbvio que não estava com eles na volta do Ressuscitado. Eis que, entretanto, e porque não, os companheiros o visitaram para lhe dar a feliz notícia. E ele que nada sabe de ressurreição, nem tem condições para tal, não acredita; sim, não acredita; não é que não acredite em Deus: não acredita no testemunho dos colegas, pelo que exige ver as provas do corpo Martirizado. Se ele próprio não acreditava em si mesmo, como poderia acreditar nos demais? Se aquele bando de incréus tinha provado ter menos fé que ele, como haveria de acreditar neles agora?
O certo é que, naqueles entrementes, e por uma razão qualquer – luziria ainda alguma luzinha mortiça em seu coração? – Tomé foi ter com eles à casa da comunidade. E assim, quando oito dias depois, reocupado ali o seu lugar, a comunidade que já vive da boa notícia continua a reunir-se de portas fechadas, isto é, com medo. Ou seja, ela sabe, sim, sabe tudo o que deve saber, pois já se encontrara com o Ressuscitado, mas não se transformara como deveria e, por isso, o seu testemunho não reencantara — nem podia reencantar! — o coração de Tomé.
E Tomé, o decepcionado e deprimido, tem razão: se tem de acreditar no que ninguém bem sabe dizer-lhe — a ressurreição —, como pode crer em tais testemunhas que nenhum mérito apresentam que credibilize tal anúncio? Como pode, hoje, crer quem não viu? Como chegar à fé na ressurreição se quem fala dela nada sabe, mal vive, pouco ou nada pode dizer? Se nem os que dizem ter visto o Ressuscitado – e comido com Ele! – se mostraram convincentes no seu testemunho de fé, como acreditar? Eles viram, sim, mas seguem na tristeza e com medo dos assassinos de Jesus, e por isso seguem aferrolhados e sem gosto de viver. Como poderiam, desse jeito, ser boas e avantajadas testemunhas duma notícia tão feliz? Sim, talvez Tomé tenha razão: ainda que afastado do grupo, talvez arda, indómita e rebelde, em seu coração, uma chamazinha de esperança que urge ser espevitada! Mas não pelos companheiros, parece-lhe.
Tomé tem fé como, aliás, sempre teve. Porém, na sua profunda decepção – prova de que se encontra em processo de maturação na fé… – exige ver as marcas da continuidade da identidade de Jesus, o Senhor. E quando alcança vê-las, logo exclamou em alta voz a mais alta profissão de fé de todos os evangelhos: «Meu Senhor e meu Deus!».
Estava conquistada e certificada a testemunha que os nossos tempos urgem.










