Armindo Vaz, OCD

Quem unilateralmente declara guerra a pessoas ou a um povo não é genial. Carecido da força da razão, só tem, para mostrar, a razão da força agressora. A sua força consiste em mandar para a guerra outros que a façam em seu nome, sem ele próprio se expor à violência dela. Cobardia inqualificável de quem não quer correr riscos, nem manchar as mãos de sangue, nem enfrentar os inocentes; manda outros matá-los! Nunca será herói, apoucado pela fantasia burlesca de engrandecer à custa de aniquilar milhares de pessoas. Não percebe em que sentido caminha a história humana, que só pode caminhar para a paz universal. Está ultrapassado pela história. Pretende fazê-la recuar aos tempos que não se podem repetir. Sim, ganhará mais uns quilómetros de território para a sua geoestratégia delirante. Mas “que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma/vida?” (Mc 8,36). Esse “homem” ganha também e atrai o ódio sem fim de todos aqueles a quem não tem escrúpulo de roubar a vida. Mais vantajoso lhe seria construir a paz e a prosperidade entre aqueles que depois o coroariam de glória. Se procura fama, a guerra monstruosa fará que seja recordado só pelo mal, mesmo que tenha feito algum bem. Procura estátuas e honrarias? Poderá levantá-las, ele ou os seus cúmplices apaniguados, que a história encarregar-se-á de as derrubar.

Nem lhe serviria citar a palavra de Jesus em apoio das suas declarações mortíferas: “Não vim trazer a paz mas a espada!” (Mt 10,34). De facto, ela não o favoreceria. Contextualizada, significa que a sua mensagem suscitava divisão, discussões, reacções antagónicas e ódios: entre familiares que eram por ele e familiares que o rejeitavam, entre os que se identificavam com ele e os que nele viam um perigo para os próprios projectos diabólicos, entre os que o recebiam como embaixador de Deus e os que pensavam que ele lhes retirava a legitimidade para violentarem e injustiçarem as pessoas que conseguiam dominar, entre aqueles que percebiam que o supremo critério de acção é o bem incondicional do ser humano e aqueles que se serviam do ser humano para se servirem a si próprios. Dizendo que não veio trazer a paz mas a espada, queria dizer que, ou estamos do lado dele, isto é, do lado do amor, ou estaremos divididos e em conflito; queria dizer que, ou aceitamos que “vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), ou então sempre encontraremos razões para nos guerrearmos. Jesus, sem querer, ocasionou tensões em virtude das escolhas que pede a quem quiser seguir o seu estilo de vida e o seu projecto de fraternidade universal. Mas é o mesmo Jesus que corrigiu o seguidor que tinha puxado da espada para o defender cortando a orelha a um funcionário do sumo-sacerdote: “Volta a pôr a tua espada no seu lugar, pois todos os que empunham a espada pela espada perecerão” (Mt 26,52). E é o mesmo Jesus que disse: “Deixo-vos a paz. Dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como a dá o mundo” (Jo 14,27). Ao declarar guerra à violência, à injustiça e ao abuso de poder contra o ser humano, granjeou ódios refinados, que atingiram desproporções assassinas: pagou na cruz pelos incómodos que causou aos políticos que estavam de turno.

Terá sido o maior estratega da história, preconizando uma história humana vencedora e sem perdedores, que oferece a felicidade a todos: “Felizes os mansos, porque herdarão a terra…; felizes os que fazem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,3-12). A sua poderosa e revolucionária geoestratégia não foi reconhecida pela maioria dos poderosos das nações desunidas: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei”, isto é, dando a vida para que todos a estimem (Jo 15,12). Não se ficou pela proposta de uma sociedade da não-violência. Ousou preconizar o amor fraterno para as relações humanas. Porque deu a vida e se pôs ao serviço de todos, merece ser seguido. Aceitou activamente sofrer a violência em excesso da morte cruenta que rouba a vida jovem e inocente no patíbulo de uma cruz, para que os que o matavam descarregassem – em real representação de todos os violentos – toda a violência sobre ele e assim, depois dele, já não ser necessária mais violência mortífera de humanos contra humanos. Foi na cruz de Jesus que o seu Deus rejeitou decisivamente a violência humana e se identificou com as vítimas dela. Todas as manifestações de violência se quebram na imagem de Jesus crucificado, precisamente porque na cruz está cravado um homem que é imagem visível do Deus invisível. Na verdade, quando a violência mortífera é praticada dentro duma ala do cristianismo, este dá a impressão de que está por cumprir: renega as bem-aventuranças. A guerra aguça e extrema os sentimentos humanos, também as escolhas. Para as fazer, o cristão parte duma certeza: “Tendo sido justificados pela fé, temos paz com Deus por obra de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5,1).