Frei João Costa, OCD

1.   A primeira oração que – no segredo do coração – o sacerdote reza na Missa deste domingo IV da Quaresma começa assim: «Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos». Da primeira palavra desse convite sai o nome deste domingo: Domingo Laetare, Domingo Alegra-te.

Alegra-te porque já estamos às portas «das festas que se aproximam». Aliás, com o domingo de hoje inicia-se a segunda parte da Quaresma.

2.   O que por estes dias está no horizonte litúrgico da Igreja é, pois, a proximidade da Páscoa e, por essa razão, rejubilamos, porque os exercícios quaresmais estão a terminar. Páscoa é sinónimo de libertação – é júbilo, portanto.

Impossível, por exemplo, não dar nota aqui de uma conversa que ouço na esplanada:

– Felizmente que este ano há Páscoa!

– Eu também já tinha saudades, sim.

Apuro o ouvido e apercebo-me que a «páscoa» de que ali falam é a «Páscoa da Cónega», ou melhor, para quem não é de Braga: a tradicional, popular e especialmente festiva visita pascal que, no dia de Páscoa, percorre aquela velha rua cá do burgo.

A Páscoa está aí, no horizonte, e ainda que falhe o melhor e mais assertivo entendimento, o povo anda ansioso por festa e pela Páscoa – imagino que pelo que supõe de renovação. Por enquanto, porém, cabe-nos continuar a travessia quaresmal que, para os efeitos que a nós nos interessa, muda agora de tom. A partir de amanhã – sim, à semana a Igreja também escuta o Evangelho, e não apenas ao domingo… – quase todas as leituras evangélicas são retiradas do de São João, porque o Quarto Evangelho está escrito para nos dar conta da oposição entre os judeus e Jesus, num processo de violência em crescendo que levará Jesus a tribunal e à condenação. Deus, porém, concluirá o Evangelho, ressuscitando-O, absolvê-l’O-á.

Vemos, assim, que a Quaresma se parte em duas: a primeira é penitencial e clamor pela conversão, intensificação da oração e da esmola; a segunda centra-nos no mistério do mal que se traga a Cristo que, apesar da angústia da Paixão e Morte, se entrega por amor.

3.   Resumindo: a Quaresma nem é meta nem nos retém em si, conduz-nos, sim, à Páscoa. E assim como os israelitas abandonaram o Egipto e chegaram à Terra Prometida, assim também nós peregrinamos para a Terra Prometida que é Cristo, para a Páscoa do Ressuscitado!

4.   Estou, estamos, portanto, a meio caminhar quaresmal. E neste meio caminho o IV domingo aponta-nos ao coração, provavelmente, a mais célebre parábola de Jesus – a do pai e dois filhos. Digo bem, dois filhos, já que não irmãos. Parece-me.

Não recontarei aqui a parábola erroneamente conhecida por outro nome; não contarei, já que nada iguala o original.

A força das parábolas de Jesus vem-lhe do tecido múltiplo de sentidos e leituras que delas colhemos, sobremaneira desta. Habitualmente, nesta que hoje meditamos, o foco recai sobre o filho mais novo, e a conclusão é uma. Se, porém, nos focarmos no mais velho, evidenciam-se outros matizes. E se no velho pai, então as luzes são esplendentemente novas e renovadas.

Havia um pai com dois filhos. Só dois? Sim, só dois, sim. O mais novo e o mais velho. O mais novo agafanhou do pai a herança e partiu para longe; viveu ali à tripa forra, e depois de desbaratar honra, dinheiro e nome, regressou a casa apenas almejando salário de vassalo. Em casa ficara o mais velho com igual coração de vassalo que, ao ver o terno acolhimento do pai ao mais novo, se enciúma. E quem de nós, pobres criaturas, se não enciumaria?

Triste pai, o da parábola que Jesus hoje nos narra: não tem filhos, tem vassalos; de uma maneira ou de outra, ambos se comportam com ele como tais, jamais como filhos. Triste pai, tem amor de pai para dar a filhos e estes recusam viver de amor para bastar-se de salários e impostos. Triste pai de vassalos, ambos os filhos. Triste pai, não pai, mas chefe onzeneiro; tristes filhos, mas não irmãos.

Tristeza.

E para quando irmãos? Mas haverá irmãos neste mundo?

5.   A verdade é que, olhando o mundo à nossa volta, vemos que a família humana continua partida a meio. Vendo e olhando, verificamos como é tão desafiador construir família, como é difícil encontrar gente capaz de perdoar, acolher, esquecer, abraçar e confiar em relações fraternas, construtivas, generosas e altruístas. O que à nossa volta perdura e mais se impõe é um estilo de relações humanas que subsiste apoiado no proveito próprio, no conflito fratricida, no implosivo rancor mútuo.

(Naquela casa, um filho sai e esbanja tudo – como se a vida fosse só sorver e disfrutar, antes que a noite caia. E o outro fica; resta como servo melindrado e maldoso que se recusa a abrir os braços e o coração ao que, faminto, regressa só porque tem fome.)

Naquela casa nenhum filho soma, ambos dividem, ambos negam, ambos se excluem, ambos perdem. A regra é: quem mas faz, paga-as! E, de facto, no nosso mundo sempre existe alguém que não está disposto nem a perdoar nem a procurar compreender, que opte por punhos, braços e coração cerrados, e estique o dedo acusador como um punhal, pronto sempre a fazer da festa um permanente conflito, da mesa fraterna uma lide e um terçar de desrazões.

6.   Olhando para o pai e aqueles dois filhos – vassalos, não colegas, e menos ainda irmãos –, o que ali mais brilha mesmo é o imenso coração bom do velho pai, coração doce, coração dorido, coração esperançoso, coração cansado de desejar a harmonia familiar, e o único disponível a perdoar ambos os filhos, o prófugo e o invejoso.

7.   Magnifica lição de Pai Bom: o imenso amor seu tem para nós e em nosso favor a única proposta credível – a fraternidade se o é só tem um caminho válido: o da aceitação e perdão mútuos, o do acolhimento sem condições nem reservas.

8.   Sinto, porém, uma falha nesta parábola de Jesus. Não direi que o que direi acresça algo à dita, apenas que, à luz dos tempos nossos, a meu ver, ela poderia contemplar uma adenda que permita introduzir uma quarta personagem, de preferência, feminina. É óbvio que o Bom Pai está mal servido de filhos, ambos homens, que nem irmãos são! São filhos, sim, mas apostam em ser bem menos que isso. São filhos do mesmo pai, logo irmãos; mas nem um, ao partir, se despede do mais velho, nem o que fica em casa acolhe o que regressa. Jamais existe, entre um e o outro, um luminoso raio de calor humano ou de ternura fraterna. Jamais. Nenhum se condói do outro, que se algum coração sangra, por um ou pelo outro, é o do pobre pai. O que entre ambos há é um frio muro de indiferença e rancor, que o único de carne é o do pai.

9. Não sou quem para o dizer ou propor, mas há, notoriamente, uma ausência na parábola: falta ali um terceiro filho. Fora eu e colmataria a falha com uma filha. Falta ali a voz de uma menina de papá, que lhe diga:

– Papá, como sofro quando sofres, como estou feliz vendo-te feliz! Como sou feliz a teu lado! Como me fizeste feliz abrindo os braços para receber a meu irmão esbanjador! Como me fazes feliz, papá, com o beijo que deste a meu irmão! Nem imaginas a alegria que me deste! Como gosto de ser tua filha e de te ter por papá, tu, o melhor de todos!

Deus merece filhos assim, e quem dera os tenha. Ao menos um. Não, não digo que existam filhos perfeitos.  Digo que o Bom Pai bem merece filhos doces e ternos; daqueles que se lhe enroscam ao pescoço para O cobrir e afogar de beijos e carícias. Digo que merece filhos – mas de preferência, uma menina – de coração puro, terno, doce, dócil. Um coração manso que não se envinagra, um coração santo que não se perturba nem se envenena com conversas, nem se exalta com canções de bandidos. Deus bem merece uma menina que O ame sobre todas as coisas; uma que se chame, sei lá, Bia, de Beatitude. Uma Bia que lhe frague a mágoa do coração, que à noite, depois da ceia, lhe cante canções para lhe descansar os olhos e a alma.

Sim, falta ali uma menina que diga:

– Papá, nada mais importa senão meu irmão a salvo! Que bom que tenha voltado para nós! Fica feliz comigo, como eu o estou contigo! Meu irmão merece, porque tu mereces, a grande festa que lhe preparaste! Como eu me alegro com isso! Vamos fazer festa que eu bailarei para ele e com ele! Aceita, por isso, que reparta com ele metade da minha herança. Se ele não o merecer, mereces tu, que tu bem mereces um filho de pleno direito, pleno de direitos, e feliz por estar de novo nesta nobre casa! Tu mereces um filho nobre e, repartindo, eu não fico mais pobre! Não me digas que não, papá, que eu quero repartir com meu irmão mais novo pela metade do que é meu!

Digam-me lá se a parábola não merece uma personagem assim. E se não a parábola, o pai. Sim, merece. Merece uma menina que, não se calando, de novo volva:

– E agora, papá, confio-te que também meu coração se condói ao ver que o nosso irmão mais velho não quer fazer festa, que não comunga contigo, nem comigo, nem com meu irmão que regressou. Tenho pena desse coração mirrado e ciumento, tal como tenho pena de ti e do pródigo. Sem ele na sala, junto de nós, sentado à tua mesa, frente a frente ao pródigo, a festa não estará completa. Se o seu coração continuar magoado e desconfiado, se se mantiver rancoroso e de sobrancelhas franzidas, a festa sê-lo-á, mas aguada. Por isso, papá, permite-me que lhe fale, que lhe toque o coração, que o desperte e o traga para a vida, reconciliado com nosso irmão e contigo. Sim, papá, irei buscá-lo, irei beijá-lo com a ternura de meu coração que é o teu! Dir-lhe-ei palavras que o tragam para a festa e que com ele também dançarei, que para o seu olhar encantador bailarei, que com ele também farei festa! Hoje, papá, é dia de festa para o teu coração que mora e vive em nossos corações! Quero ver-te chorar de alegria completa quando os quatro nos abraçarmos no meio da sala, ao compasso da música, como se fôramos um só!

E sem se deter:

– Aceita, papá, todo o meu amor por ti, toda a minha ternura por ti, que a que tenho por ti é toda que tenho, a mesma que tu tens pelos meus dois irmãos e por mim! Aceita-me assim, papá, que eu sou feliz por ser tua filha, por estar sempre a teu lado, sentar-me do lado do teu coração à tua mesa! Como sou feliz, papá, a teu lado! Por te acompanhar quando colhes flores, semeias ou ceifas os nossos campos. Como sou feliz contigo, papá! Como sou feliz! Estar contigo é já ter o céu na terra! Obrigada, papá!