1. Na vida não dispensamos jamais os sinais, que eles, orientando-nos os passos, o olhar e o coração, iluminam e ajudam-nos a caminhar rumo a uma meta. Sejam quais forem os caminhos — da ciência, da política ou das artes, gastronómicos, desportivos ou das peregrinações a santuários mais próximos ou mais longínquos, para a cama de um hospital, uma sala de aula, um ginásio ou a cela de uma prisão — nós precisamos de sinais. Também na fé.
Tem a nossa fé cristã sinais maiores e menores; maiores ou sacramentos, menores ou sacramentais. E é óbvio que a peregrinação da fé os não pode dispensar. Entre os sinais menores podemos nomear as cruzes, escapulários, terços, medalhas, água benta, velas e, entre outros muitos, as cinzas. Todos estes sinaizinhos nos aproximam a Deus — estas, ademais, abrem-nos para o caminho quaresmal.
2. Sendo tão frágeis e tão nada dir-se-ia que as cinzas nada diriam; mas dizem e dizem muito. Na sua imperturbabilidade dizem que ali houve fogueira, cujo furor se alimentou do combustível que lhe foi fornecido. Sempre as cinzas são de algo que se reduziu; não importa de quê: se restos de ouro ou de lixo, de máscaras ou poemas de amor, se de manuais de instruções ou leis caducas. Não importa; o certo é que as cinzas são sinal de algo que terminou e que, enquanto durou, era importante para alguém. E agora, apesar de nada, são eloquentemente falantes de algo que foi importante (e já não o é mais!).
3. A cada início do trilho quaresmal a Igreja sempre propõe aos seus fiéis abaixarem a cabeça, húmiles, como cinza. Isto é, que recebam sobre si um sinal de nada, que lhes lembre — e ainda por cima alguém se encarrega de lho recordar em voz alta… — «que és pó e ao pó voltarás»!
4. Convirá lembrar que nisto, como em muitas outras coisas, nós, cristãos, não somos originais, pois não fomos nós quem começou por reconhecê-las como sinal de humildade, humilhação e penitência.
No Antigo Testamento, os judeus tinham por costume, quando necessário, cobrir-se de cinzas para significar uma mudança de orientação do coração. Quem se vestisse de «saco de cinza», isto é, mui grosseiramente, ou até mesmo literalmente de saco, quem se sentasse sobre cinzas e com elas cobrisse a sua própria cabeça, sinalizava-se publicamente em sofrido arrependimento do pecado pessoal e/ou tribal.
Não se julgue que fosse este um exercício só para a arraia miúda ou gente peã feita dos beatos de circunstância porque, na verdade, gente nobre (os anciãos de Jerusalém, Lamentações 2:10), profetas (Daniel, Daniel 9,3) e reis (Ezequias, Isaías 37,1; Eliaquim, 2 Reis 19,2; e Acab, 1 Reis 21,27) se cobriram frequentemente de saco e de cinza em sinal de reconhecimento do seu pecado e do pecado do povo. Dir-se-á que vestir-se de saco tinha o seu quê de espectacular, mas não era isso que mais valia, porque o que mais importava era que Deus visse que os corações mudavam volvendo-se humildes, abandonando a má condução da vida por troca de uma com Deus ao volante.
5. Jorge é homem cá da terra. Já recebeu todos os sacramentos, «menos o dos padres»! Não direi que os colecionou; simplesmente que as voltas da vida por aí o levaram. Andou, portanto, na catequese, mas isso já foi há tanto tempo que já não lembrava que «na Igreja, depois do carnaval, os padres põem cinza na cabeça das pessoas», disse-me, rindo, ao lembrar os dias da juventude, quando fora estudar para uma prestigiada universidade dos EUA, e ali, de repente, se apercebera que, «a certa altura do ano» alguns amigos «apareciam nas aulas, de garbosa cruz de cinza na testa»! O jovem católico tuga da viragem do século já não lembrava como é que tal cruz ali aparecia, pelo que na diáspora da fé infantil teve de re-aprender o valor dos sinais católicos!
É sina. E sinal.
6. A verdade é que foi com os nossos irmãos mais velhos, os judeus, que aprendemos, desde pequeninos, o valor das insignificantes cinzas.
A coisa começou assim: obviamente os primeiros discípulos de Cristo (que eram judeus) e os discípulos de Moisés partilharam duram algum tempo os mesmos ritos litúrgicos; sim, foi na sinagoga, no âmago da cultura judaica, que o Cristianismo aprendeu que, vestindo-se de cinza, melhor transpareceria o desejo de mudar de vida segundo o código de Deus.
E assim continua a ser, às portas de cada quaresma.
7. Sempre a Páscoa foi celebração maior, para a qual os cristãos se preparavam com três dias de antecedência, primeiro, com 40 dias, depois.
Foi por volta do ano de 350 que passou a ser de quarenta dias — pois já então urgia alargar o que pouco é. E a conversão, como se saberá, sempre é assunto demorado.
São ainda, hoje, as cinzas, porta para a rua, e falam como um sermão — Eu, pecador, me confesso: estou em penitência pelos meus pecados!
Parece que, á altura, tal como entre os judeus, o rito não era litúrgico; apenas doméstico. Não custa crer que, em casa, o pai se impusesse a si e aos seus as cinzas, que o pecado nunca é só pessoal. Mais tarde, o rito alargou-se a todos os fiéis — também aos que não eram de origem judaica — e passou a integrar a Missa. Tal entrada ocorre quando a preparação da paixão, morte e ressurreição de Jesus passou a ser de 40 dias. É que não se pode chegar à luz sem lavar o negro da alma — e isso sim, as cinzas, lavam mesmo.
Lavam e branqueiam!
8. Só uma vez vi um oásis. Confirmo: sabe a bênção refrescante. Aquele que vi não era muito verde, e talvez não houvera maneira que mais fosse, mas só de vê-lo alegrou-se-me a alma em hinos. Depois de horas de viagem em autocarro, por um calorento deserto de sal, como bem me soube chegar ao lugar de descanso. Sempre lembro essa bênção antiga quando, em cada ano, abençoo as cinzas, pois sempre me vem à memória que elas primeiro foram rebento, depois arbusto, por fim palmeiras altaneiras postadas como muralha defensiva diante de um deserto!
Não há como esconder: as cinzas primeiro são verde guerreiro frente ao pó ameaçador. Elas resistiram-lhe, sim, mas agora são pó que unge e lava pecados. Colocá-las sobre a cabeça lembra que o pó nos lembra o dever de enfrentar todo a desmemória de Deus que o pecado em nós urde. Logo para mim, jamais elas são lúgubres ou fúnebres, tão-só que somos passageiros como o pó.
Nada. Que passa.
E creio-as sãs, curativas e regenerativas.
Lembro sempre, por isso, a meu pobre tolo coração que, um dia, Jesus ungiu os olhos de um cego com lodo, servindo-se daquele pó que dos caminhos se alevanta, quando um pequeno sapo cambaleia por alhures ou depois do rastejo de uma sardanisca. E lembro-lhe que Ele lhe ajuntou da sua saliva, com o que fez o lodo bento.
— Passe-se o desigiénico gesto de Jesus que, hoje, seria desestimado, e valide-se a força que soma o nada ao sopro de Deus! E não é que ali, mais uma vez, o tudo precisou do nada?… —
Quando, pois, no umbral da quaresma, sobre mim e sobre os fiéis, aspirjo as cinzas, logo lembro que não passo de pó que passa de nada em nada; pó dos caminhos por onde o tempo passa como sapo sem repouso. Pó dispersivo e sem alento que o sopro do Criador pode unir para, a outros, dar saúde e vida.
9. Ah, que tão pouco e tão anda somos; tão nada. Tão nada que o tomamos para ungir como sinal do absoluto por alcançar. Tão nada, nada, nada; porém, mais uma vez os Anjos foram privados de tanto aspirar ser!










