Armindo Vaz, OCD

Na linguagem e cultura bíblica, a casa desdobra-se em várias significações e ramificações, segundo os contextos em que aparece. Sendo, em sentido próprio, um edifício para habitação, pode ser metáfora que aponta para realidades superiores: para o templo, “casa de Deus” (Mc 2,26; Mt 23,38), “casa de oração” (Mc 11,17) e “casa de meu Pai” (Lc 2,49; Jo 2,16), para uma dinastia (como na expressão «casa de David»), família, linhagem, tribo (“casa de Jacob”) e até indicando todo o povo israelita: “casa de Israel e casa de Judá”. “Casa de Deus” no cristianismo primitivo alargava o seu sentido metafórico até à comunidade dos crentes em Jesus (Ef 2,19; 1Ped 4,17; 1Tim 3,15). A carta aos Hebreus 3,1-6 usa a equação «comunidade = casa de Deus», vendo o “Cristo à frente da sua própria casa, que somos nós”. Ef 2,22 desenvolve a metáfora: “no Senhor também vós estais a ser edificados com eles [familiares de Deus] para ser morada de Deus no Espírito”. A comunidade cristã é chamada “casa espiritual, para um sacerdócio santo” (1Ped 2,5), ligada figurativamente ao templo de Jerusalém e remetendo como ele para a transcendência.

Expandindo a metáfora da casa, Jesus alargou as relações familiares e fraternas que começam a tornar-se reais em casa. Quando lhe falaram nos «irmãos» dentro do círculo da família, ele respondeu alargando-o para além da própria casa, “àqueles que fizerem a vontade de Deus: esse é meu irmão, minha irmã” (Mc 3,31-35). Insistiu na mesma ideia “falando às multidões e aos discípulos: vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Assim dava à casa a máxima extensão metafórica, fazendo da humanidade uma «casa comum», Fratelli tutti.

A abrangência metafórica que a Escritura dá à casa ilumina bem o caminho sinodal que a Igreja aponta a si própria sob a guia de Francisco. Dispõe-se a sair de casa, sem perdê-la, para ir ao encontro de todas as pessoas, num abraço universal. É a fé que põe a Igreja em movimento sob orientação da palavra de Deus. As primeiras comunidades que seguiam Jesus davam ao seu movimento para ele o nome de “Caminho”, também por ele se ter autodefinido como “Caminho” (Jo 14,6). Paulo, que perseguiu os “seguidores do Caminho” (Act 9,2) e teve como estratégia excluir todos os cristãos enquanto seita a riscar do livro da vida, fazendo o seu caminho para Jesus tornou-se o maior agente de expansão da fé e de inclusão das pessoas à volta dele. Como Jesus, abriu a casa do cristianismo para além do judaísmo, fazendo caber nela a humanidade inteira e anunciando-lhe a salvação que a “casa de Israel” julgava destinada a uma etnia. Alguns judeo-cristãos viam a Igreja nascente como a sua casa, deixando fora os que não cumprissem as leis judaicas. Foi pela lúcida visão dos apóstolos que a força do “Espírito que dá vida por Cristo Jesus” (Rm 8,2) desde as origens alargou os horizontes da evangelização aos chamados pagãos, isto é, aos não-judeus, “até aos confins da terra” (Act 1 e 15). A compreensão que a Igreja tinha de si própria sentia a responsabilidade da casa aberta, ventilado lugar de encontro de todos os humanos que procuram Deus e a felicidade.

Está na sua génese. Na caminhada sinodal, a Igreja escolherá sempre a inclusão e recusará a exclusão; escolhe a cultura da busca conjunta, que medita e formula as expressões da fé sob o signo do novo. Esta renovação não implica prescindir de riquezas reunidas e purificadas ao longo da grande Tradição. Mas os que se sentem fora da casa da Igreja podem contribuir, com as próprias intuições e procuras religiosas, para o alargamento da percepção eclesial do mistério de Deus. É insustentável ficarmos satisfeitos com a riqueza que fomos entesourando na nossa casa. Impõe-se abri-la bem para continuar a procura também fora de portas, entre os que se dizem descrentes. Sinceramente, a Igreja precisa deles. O que eles pensam de bom, verdadeiramente humano, nobre, justo, puro e amável (Fl 4,8), não é alheio à Igreja: fá-la crescer. O bem que está nos ‘outros’ não nos afasta do rumo do evangelho: dá espessura à sua leitura. Dialogar com esses filões de humanidade e de bondade oferecendo o que temos em casa e recebendo o que podemos integrar nela fertiliza e enaltece a necessidade de anunciar o amor de Jesus: “quem não é contra nós é por nós” (Mc 9,40).

De resto, também dentro de portas acontecem males à nossa casa; também dentro dela há noites, trovoadas, medos e escândalos. Estes geram desiludidos dentro e desencantados fora. Temos toda a compreensão pelos seus sentimentos de decepção, devida a uma instituição da qual esperariam só o bem. Se fosse possível deslindar a Igreja-instituição da Igreja querida por Jesus, aceitaríamos a crítica à casa pecadora (sem fugir dela). Mas as duas realidades sobrepõem-se. O próprio Jesus não conseguiu evitar o escândalo dado pelos do grupo que ele escolheu, que deveriam ser fiéis incondicionais: um saiu-lhe pusilânime, outro entregou-o às feras e dois cobiçavam honrarias. O cristianismo não é o império dos puros nem o clube dos bons. É o único abrigo dos que são considerados maus e a casa espaçosa que a todos apresenta Jesus e o evangelho da esperança, para procurarem o sentido último da própria vida.