Armindo Vaz, OCD
Enquanto, em tempo de Natal, o presépio está exposto à contemplação, não só nas igrejas mas porventura nas nossas casas e praças, aproximamo-nos dele, agora dispostos a meditar, porque “o Presépio é como um evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura” (Papa FRANCISCO, Admirabile signum, 1). Cada uma das suas figuras emerge, com o próprio nome, do silêncio que liga as estrelas do céu infinito com a trama dos dias que passam lentos na terra.
De entre as ternurentas figuras, Maria é a que mais pensa: “Guardava todas aquelas palavras/acontecimentos [dois significados possíveis de rhémata na língua original, grega, que tem por trás a hebraica dabar] e ponderava-as no seu coração” (Lc 2,19.51). O coração é na Bíblia o órgão do discernimento, da compreensão e do amor à verdade (mais do que simples lugar dos afectos e das emoções). Maria, a intérprete, revolvia na memória – entre os fragmentos das palavras e o silêncio de Deus – o amor prometido de José, o parto desafiante e intensamente vivido, o menino-prodígio. Procurava a linha condutora que dava coerência e sentido profundo a tudo o que se centrava no menino, aquele que mais fazia pensar. Era remetida para o divino (simbolizado pelos anjos e pelos cantos celestiais) e atraída para todos os povos (simbolizados pelos magos) e para os pobres, abertos à transcendência (significados pelos pastores). Esta tarefa de interpretação própria do coração não se esgotaria em Maria até ao fim da vida terrena. Mas aqueles inícios relacionados com o Filho estavam a ser intensivos, levando-a constantemente ao espanto jubiloso e ao encantamento. Ela guardava: subtraía os acontecimentos ao esquecimento e multiplicava o sentido deles, fertilizando os do presente com os do passado no seu povo, porque foi precisamente a interligação das palavras com os respectivos acontecimentos que se tornou reveladora. Procurava fazer falar os silêncios entre as palavras e o silêncio dos acontecimentos, fugindo à leitura parcial. De facto, foi na interligação, na significação dinâmica e na globalidade destes acontecimentos que se foi fazendo e revelando a essência do movimento gerado por Jesus.
Sendo o menino Jesus o centro de toda a atenção das personagens do presépio, outra importante é José. Nos relatos da concepção e do nascimento de Jesus, em Mateus e Lucas, não fala (nem em todo o evangelho é posto a dizer alguma palavra). É a voz do silêncio, uma tonalidade em atitude de escuta de outros sons, como o próprio som do silêncio, o da noite, o da beleza, o da bondade. Num (pouco conhecido) ícone do fim do séc. X, para o imperador Basílio II, José é representado na periferia do presépio, pensativo, de costas voltadas a Maria e ao menino, com o olhar perdido no infinito, enquanto os anjos cantam com júbilo e anunciam o nascimento aos pastores. Parece que o pintor quis sugerir um José tocado pelo mistério que ele não atingia e pelo amor que estaria por trás do seu silêncio. José testemunha que não se pode viver bem sem alguma dose de mistério.
Ao aproximar-se a festa da Epifania, entram em cena os magos: “Ao ver a estrela, encheram-se de imensa alegria; entraram na casa; viram o menino com Maria, sua mãe e, prostrando-se, adoraram-no” (Mt 2,11). “Adoraram-no” quer dizer que o reconheceram como Deus. A mãe aparece como o altar em que o menino, “o rei dos judeus que tinha nascido” (Mt 2,2), estava exposto à adoração de todos os povos, simbolicamente representados nos magos. A mãe – que um dia receberá nos braços, com o coração rasgado de Pietà, o Jesus morto descido da cruz – no natal do filho mostrava-o enternecidamente extremosa, porventura com um traço de humildade. O menino adorável estremecido no presépio e o homem exangue desfalecido no Calvário recebem o mesmo amor da mãe, que nunca falha.
Perante a força e a intensidade arrebatadora destas cenas, a do nascimento e a da morte de Jesus, não há pecado que resista. É devorado no fogo incandescente do amor divino. Venham ao presépio os mendigos de perdão e misericórdia, venham os que se sentem marginalizados e abandonados, venham os perdidos peregrinos à procura da Verdade, venham os procuradores de Sentido para a vida, venham os sedentos de Transcendência, pois para todos resplandece a Palavra que enche de colorido e música a existência humana. Se alguém pôde dizer que “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), terá sido porque o viu no Jesus menino amado pela mãe, no Jesus adulto que multiplicava o pão da saúde e da liberdade, no Jesus crucificado que abraçava o mundo inteiro. Desde então, cada episódio de amor, cada pequena ou grande história de amor autêntico – que implica doação e partilha o bem, sem pedir ou exigir nada em troca – é um acontecimento que tem a bênção do céu. É um acontecimento que dá corpo ao divino. Jesus é o menino e o homem em quem convergem dois procuradores: nele, Deus procurou o homem; e ele é o ‘lugar’ em que o homem pode procurar e encontrar Deus.










