Frei João Costa, OCD

A família Tavares tem um presépio grande, hoje, talvez, com mais de duas mil e quinhentas figuras. Além de colossal, o presépio tinha uma outra curiosidade — o seu princípio fundacional: a figuração deveria crescer de ano para ano. Tudo começara em torno às figuras centrais, em cerâmica Lladró. Nem tudo, por fim, ali era Lladró, claro. Havia, aliás, muito pechisbeque pelo meio; mas crescia, e isso importava e muito, pois se mantinha a intenção: acrescentar em cada Natal alguma figura nova — nem que fora o Darth Vader. Durante vários anos o presépio montou-se numa sala do Santuário do Menino Jesus de Praga, em Avessadas, e ali se revelou uma atracção muito estimada e concorrida pelos peregrinos daquele Santuário.

Neste Natal em que também a mim me recrudesce a nostalgia e encanto do presépio, veio-me à ideia a ousadia de acrescentar doze figuras ao presépio. Não aquele, mas o universal. Não são figuras felizes, diga-se, mas aquelas que as sucessivas ondas da covide tragicamente maculou e aproximou do horizonte do meu coração ao longo de 2021. Lembrei-me, pois, de também eu acrescer algo ao presépio; pelo menos uma coisa é certa: não excluo ninguém de se aproximar e de se abrigar junto do calor da Luz. Aliás, o que melhor combina com o meu ofício, é ajudar a aproximar da Luz.

Sentindo-me, pois, impelido a ajuntar novas personagens ao presépio, dei comigo a lembrar que os primeiros a ir ao primeiro presépio — os pastores — estavam bem longe de serem personagens fiáveis e credíveis, e nem creio, aliás, que tenham percebido o mistério que ali lhes foi dado contemplar — viram um menino numa manjedoira, e pronto. Saltava à vista que  era pobre, que os pais eram pobres ou não estariam ali.  E ali deixaram ficar algo da pobreza que com eles comungavam: um pedaço de queijo, uma pele de anho para aquecer o Infante, talvez, uma cabra leiteira; e parecendo que não, um cão e uma galinha também dariam o seu jeito.

Estas são, pois, as figuras que neste ano de 2021 acrescento ao presépio:

1. Professor Mário — É, de facto, professor, não estou nem preciso de inventar. Já o conheço há uns anos, mas só agora vai para o presépio. Se exerce não é na sala de aula, apenas com o exemplo de vida; o que não é pouco. Não dá é dinheiro para o sustento. É bom trabalhador, mas um trabalhador dispensável — o turismo está em dura crise, já se vê! Até há quase nada fazia de tudo um pouco numa unidade hoteleira, e vendia caquinhos santos; agora que o hotel e a loja fecharam caiu no desemprego. Não foi o único, mas foi o primeiro a ser despejado na rua. Depois de tudo dar, sentiu-se dispensável, sentiu-se nada, sentiu-se lixo desprezível. É, por muitos lados e razões, uma das vítimas da covide: agora que não tem emprego nem salário, cresceu-lhe a angústia e a depressão — que faço eu aqui, neste mundo frio, neste deserto por onde Deus não parece ter passado, apesar de que aqui venham regulamente todos os Papas, pergunta-se?

Ponho-o, por isso, de joelhos bem perto da manjedoira — de joelhos e cabeça baixa, porque sei que não consegue olhar de frente a Luz que ali brilha e aquece.

2. Eiró Ex-quase tudo — Vê-se bem que ainda é novo, mas já tem experiência de velho em demasiadas coisas. Ou me engano, ou vive só nalgum quartito pequeno ou nalguma casa sem conforto. Tem ar disso. Não é triste. É desleixado. Sabe bem que o amor vale mais que a justiça — isso mo garante uma vez por mês —, mas ateima-me, por último, que a justiça há que fazê-la e cumpri-la, e ai de quem insista no contrário, porque para ele a justiça suplante o amor como um indeclinável imperativo. Não gostou dos livros da escola, já passou pelo tráfico, pela toxicodependência e pela prisão. Por esta ordem. Dos primeiros livrou-se; da lacra da prisão, nem por isso. Aprendeu, porém, a lição e não quer voltar a um lugar em que se entra farrapo de gente e, se desprecavido, se sai pior, com a honra em farrapos. É o que acha. É o que me garante. Agora mata o tempo por aqui e por ali; compra raspadinhas, mas não a eito, que nisso esperto é ele. Mas remexe a horas certas e nos lugares certos escavando o seu El Dorado — os caixotes de lixo da cidade —, onde, garante-me, tem encontrado boletins de Raspadinhas abastadamente premiados. São pepitas que encontra quase a diário e lhe dão mais para a pinga de aguardente que para o pão e o arroz. Aliás, aquela não lhe pode faltar ou o dia arranca iracundo e a destempo.

Vou colocá-lo de pé, com rosto cheio, um sorriso e uma mão erguida, como quem saúda ou mostra estar alegre depois do feliz achado de uma boa nova qualquer. Ele gosta da Boa Nova. Aliás, nunca falha a ouvi-la.

3. Henriqueta Só — De cá não é, mas anichou-se cá. Veio para o frio sem gostar do frio. Mas foi ficando. Ao frio. É nobre, e não apenas de alma e coração. Já não é nova. É pequenina. Ficou ainda mais pequenina quando, há trinta anos, o pai morreu. Agora que a mãe também morreu, de velhinha, ela ficou muito mais pequenina, muito mais anã, mais só, mais pobre, mais órfã, mais solitária, mais sem mundo, sem raízes, sem asas, sem esperança, sem sorriso, sem lágrimas. Sem tudo. Só. Sabe o que é o Natal, claro, e se necessário, escreveria um tratado sobre o tema. É culta, portanto. Não suporta passá-lo numa terra com muitas torres e todas as torres com sinos, que a ideia de Natal não lhe faz qualquer sentido — por quê ouvir, portanto, hora a hora, ou ainda mais intermitentemente, o cantar feliz dos sinos das igrejas? Irá passá-lo — se é que o lugar existe — aonde não haja nem sinos nem símbolos natalícios cristãos. Sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem irmãs, sem asas, sem sonhos; como poderia sentir-se feliz e em paz onde quase tudo lhe fala de Natal? Qual alegria qual quê no Natal! Henriqueta Só decidiu começar mais cedo os seus exercícios quaresmais. E vai cumprir.

Vou colocá-la dentro da manjedoira, aconchegadinha, perto do coraçãozinho do Menino Jesus, e um cálice de fria solidão por perto. Pode que se dê uma transmutação.

4. Daniel Esperante — Chegou da gentil África com sabor a sal e a sol, já o inverno impusera seu frio chicote a Portugal. Vinha empolgado. Trazia na ideia que éramos uma grande nação, um povo admirável, um conquistador destemido, insiste-me. É grande na história, sim, e na verdade, em território é bem maior que o seu país. Mas é um país pequeno; talvez até amesquinhado; egoísta é-o de certeza; também nos sonhos e na esperança. Por mais que lho diga, ele não acredita. Custa-lhe perceber a ironia, o egoísmo e a frieza no trato, ele que vem dum povo que reparte fraternalmente o pão e a água que não há para que todos tenham menos fome e menos sede.

Daniel é um rapaz jovem muito jovem, intacto de sonhos, valente de coração, grandiloquente nas visões, virgem de esperança, audaz nas certezas de triunfo e engrandecimento da sua nação. Assim seja, meu Deus! Tem todo o caminho pela frente e a força indómita de quem ignora o que seja a traição. Vou colocá-lo entre os Magos com uma enorme esmeralda nas mãos.

5. Rainha Isabel — Ela existe, acreditem. Mas ninguém sabe ao certo o seu nome. Pode, por isso, não se chamar Isabel. Mas tem tudo para ser Casa de Deus — apetecia-me dizer barraca, mas estamos em tempo de Natal… Conhecemo-la, sobretudo, pela função: pedir. E isso é mais do que suficiente para a grande maioria que, ao depositar-lhe a moedita — não pode ser é das negras, que despreza! — lhe evita os olhos, e nem um bom dia lhe dá. Quer lhe deem ou não a moedita, nada em volta lhe escapa. Claro que sabe de toiletes das madamas e se são novas ou repetidas! Judicativa como é, nada lhe escapa, como digo.

Move-se como uma rainha, em torno ao trono, a esquina que lhe coube e ela defende a capa e espada. E, de ceptro na mão, sente-se outra egípcia, a todos sentenciando desde onde vê sem ser vista. Vou, porém, ajoelhá-la em frente ao presépio, de boné no chão, virado de boca para cima; afinal, diante de Deus, até os reis são pobres pedintes.

6. Zé Monge — Zé vive, por inconsciente opção, como um eremita antigo; não numa gruta, não distante do mundo, não recoberto de penitências e austeridades, mas num palácio cheio de arte antiga, conforto contemporâneo, piscina aquecida, jacuzzi, moto4, ah e de toda a parafernália da net que o liga a tudo e a nada, lhe virtualiza os sentimentos e as penas, os amores que não tem ou parece não ter. Joga online com amigos japoneses, croatas e russos (detesta os americanos!) e perdeu uma fortuna em bitcoins. Já não vive na real e, na verdade, rejeita todo o conforto que possa ter — prefere não tomar banho, não mudar nem a roupa nem a cama —, porque lhe falta abertura para quem poderia dar sentido a tudo isso — os confratelos. Apenas come pizza e bebe água e, ultimamente, rapou o cabelo por um voto, mas não sabe dizer por qual voto. Talvez até tenha sido por desespero, por denúncia ou apelo de salvação, ninguém sabe bem. Para este Natal tem como projecto passar as 24 horas do dia sem ver alguém, que isso de humanos já não é bem com ele. Vai, por isso, matar o tempo a jogar na net o Jogo da Cobrinha; mas há quem pense que é jogo mais violento que esse. A comunidade — imagino que da Cobrinha… — sussurra-lhe que dá dinheiro e reconhecimento por feitos nunca dantes vistos. Vou colocá-lo junto ao cajado firme de São José.

 7. Ângela Alterada — Tem vida de luzente e invejado sucesso, roupas permanentemente novas e lindas, felizmente combinadas. É gira. É jovem. É o centro. Onde quer que vá ou esteja é o centro das conversas, das invejas e das selfies. Não há quem se lhe compare, ou isso julga. Mora no Baile da Paróquia do Rui Veloso, embora seja mais em modo Não Há Estrelas no Céu. Vou coloca-la no presépio que ela arrenega por causa dos cheiros; vai ficar ao lado da silenciosa Maria, virgem e mãe.

8 e 9. VELHOS Irmãos Órfãos — Não são daqui, desta terra calorosamente fria; e talvez de lugar algum. Vivem reclusos numa bolha a que se renderam e afeiçoaram e de que não se querem ver livres — uma bela suíte de cinco estrelas, que a tanto dá a jubilação. Esfaimaram-se muito para a alcançar, está bem de ver. E agora que a alcançaram, agarrou-os o medo de morrerem felizes. São tão infelizes quanto pode ser quem vive rodeado de medo de morrer, apenas parlapateando com velhos livros de ciência cujo modelo não previu nem podia prever a covide. E também não sabem como sair do labirinto por ela gerado. Não têm amigos, vizinhos ou afectos — têm criados de luvas, máscara e viseira; e falam esoterismos entre si e com os livros antigos que trouxeram numa grande mala. Estes são amigos seguros, visto que não transmitem covide, dizem-me. Tiveram, mas já não têm vida social porque preferem a armadura e o casulo. De tão sós e tão sábios vou colocá-los no presépio junto ao anjo que anuncia o «Não temais!» e sob a luz da estrela, pois até para eles há luz e caminho!

10. MOISÉS MEDITERRÂNICO. Há perto de nós um cemitério com nome de mar — Mediterrâneo. É uma vergonha, mas é o que é. Por estes dias mais uma barcaça foi ao fundo: abriu-se-lhe repentinamente o chão, e o mar engoliu-a num instante. Iam quinze pessoas onde só deveriam caber cinco. Entre os passageiros navegava um rapaz de quinze anos e a mãe. O rapaz salvou-se, a mãe não. Aliás, ninguém mais se salvou. O rapaz fez tudo o que pôde para a salvar; o que pôde e o que não pôde: nadou, esbracejou, lutou como um Moisés contra o mar, gritou «não desistas, não desistas!», mas a mãe tinha cumprido a missão: apontar ao filho a terra prometida — a Europa. E foi-se.

E o rapaz ficou órfão. Supõe-se que já o era de pai. Uma outra barca de migrantes apercebeu-se da tragédia e misericordiou-se: resgatou-o e levou-o para terra. A nova terra é-lhe estranha, o que se compreende. Mas na terra estranha encontrou corações que se condoeram da sua história, do seu drama, dos seus sonhos rotos: se um dia tiver filhos eles não serão netos! Dói-lhe isso, isso e a falta de uma irmandade que o reconheça como irmão de ventre e de coração. A este Moisés vou colocá-lo no presépio a olhar para o sono sossegado de Jesus, para o seu manso respirar, o sereno e doce sussurrar do seu coração, silabando-lhe: MOI-SÉS, MOI-SÉS, MEU IR-MÃO, EU GOS-TO DE TI! GOS-TO MUI-TO DE TI!

11. MENINO DO MAR — A barcaça que recolheu Moisés partira, como aqueloutra, de algures das costas africanas, e trazia setenta e cinco negros homens. E atracou em Lampedusa com setenta e sete. A cifra inclui o tal Moisés salvo das águas frias do Mediterrâneo, e um bebé. A história do bebé é a seguinte — só os contornos, que o drama mais profundo é igual a todos e diferente de cada qual —: Na hora do embarque gerou-se uma confusão qualquer sem justificação. (Nem imagino o que este ambiente de máfias negreiras seja, mas o injustificado alarido foi por demais criminoso, como se verá.) A mãe do bebé é acicatada e mais uma vez espoliada. Impedida de subir, desde a imaculada areia da praia ergueu os braços e entregou o filho envolto em panos a um desconhecido que já embarcara, e prontificou-se a justificar-se a mais uma extorsão. «Segure-me o bebé, por favor. É só um instante; explico-me, pago e já subo para o barco». Engano. O abuso era abuso e pronto. E, ou veio um golpe de mar, ou o barco arrancou de um supetão previamente preparado e levou-lhe águas fora o filho bebé. E foi assim que ele chegou à Ilha de Lampedusa, ao colo de um estranho, protegido por aquele batalhão de infelizes, comovendo meio mundo, e as autoridades também que agora andam lá pela Líbia à procura da mãe. E esta é a razão por que este ano o meu presépio tem duas manjedoiras, uma com o Salvador, outra com o salvado das águas do mar!

12. OSEIAS E O CÃO — Quando subo a rua vejo-os sempre no mesmo lugar, sempre na mesma porta fechada. Do lado de fora, claro está. Hoje chovia — e se chovia água fria, meu Deus! — e lá estavam Oseias e o cão. A ler. Digo que era Oseias que lia. O cão parece sábio, sim. Ouve atentamente a leitura do dono que lê baixinho. Ler baixinho é uma das melhores maneiras de ler. Talvez Tobias não perceba o que o dono cicia, mas segue atento e à risca o que ele lê. Escutar atento é uma maneira de se ser sábio. Tomara muitos homens! Parece-me o bicho mais feliz do mundo. E quase adivinho que pensa ser o cão mais sortudo que existe banhado pela chuva fria. Dorme numa caminha nada improvisada. Tem manta ou mantas, de acordo com as ondas de frio que descem do Gerês. E em chovendo, socorre-o um guarda chuva que não livra da chuva, mas ele pensará que sim. E não se lamenta. Encolhe-se mas não se lamenta. Não sei que coisas leia o Oseias, sei que deve ser religioso, pois lê sempre à mesma hora, tal como frade piedoso, penitente e sério, recém-convertido à pausada récita das Horas. Claro que o cão deve perceber da récita porque, postado de frente, parece fazer coro. Bem, se não responde aos salmos, corresponde aos beijos que isso já eu vi suceder.

Há quatro anos que ali os vejo, mas não garanto que o livro seja o mesmo e não será, que até o breviário são quatro volumes. É óbvio que este ano também vão para o presépio. Oseias fica junto dos pastores, porque afeito ao relento. Tobias, pela primeira vez, separa-se do dono e vigiará o sono dos dois infantes, entre ambas manjedoiras.