Frei João Costa, OCD
1. Celebrámos no passado dia 15 de outubro a Solenidade de Santa Teresa de Jesus. Nós, carmelitas descalços, tínhamos de celebrá-la, recordá-la, cantá-la e louvá-la e agradecê-la a Deus que no-la deu como mãe, irmã e companheira do caminho de perfeição. Teresa que só quis ser de Jesus empenhou-se ardentemente em tudo levar para Jesus. A sua oração e o seu coração ardente eram como torrente impetuosa: Tudo levavam consigo, senão à frente, pelo menos ao lado e trás si!
Que grande santa, foi Santa Teresa de Jesus! Que grande mulher! Tão grande que lhe chamam a Grande! E era-o. E é-o, claro. O seu nome e a sua santidade tanto brilham no horizonte da Igreja e no da humanidade que muitos a aclamam como a maior mulher depois da Mãe de Jesus! Se tivermos em conta que a ela também lhe chamamos Mãe de Deus, fica explicada a estatura de Santa Teresa!
Que mulher! Que santa! Mas não uma santa mais, que se ajunte sem mais ao rol dos santos! Não, não é santa de trazer por casa, mas uma santa descalça de percorrer e engrandecer o mundo! Dir-me-ão: — Ai! E a Teresinha e a Teresinha? — Sim, a Teresinha não cabe no mundo, não. Mas se o nome e a ternura do olhar de Teresinha estão em todo o mundo foi porque, primeiro, Teresa, a Grande, a mãe, a ensinou a caminhar, a amar e a rezar pelos missionários e missionárias de todo o mundo, sim. Tenhamos isto por certo: Não tivera sido antes criado, por Teresa e para Teresa, Deus criaria o mundo! Encontrou Deus em Teresa, a Grande, uma parceira de diálogo à Sua altura; por isso, para Teresa criaria Deus o mundo se já o não houvera, para que ambos, em diálogo de amigos, depois nele se deleitassem, como quem frequenta um belo jardim! E agora repare-se: só depois, muito depois, seguindo os passos da mãe Teresa, veio Teresinha.
2. Teresa nasceu há pouco mais de 500 anos, em 1515; e morreu em 1582. Viveu 67 anos — os últimos vinte como um imparável fogo ardendo em palha seca! Pode parecer distante de nós no tempo, mas não. Não mesmo, porque é vizinha de aqui ao lado. Afinal, passados estes séculos todos o seu nome brilha ainda intensamente entre nós, provavelmente mais intensamente que nunca; muitos a celebram no seu dia litúrgico – 15 de outubro –, e nós, Carmo de Braga, também neste domingo, dia 17 de outubro.
Mulher tão valente, tão santa e tão ardente, e tão incansável pela Igreja e por Cristo, não merece ser olvidada, não merece ser menosprezada ou subalternizada, menos ainda entre nós, comunidade do Carmo, seus filhos e filhas. Louvemo-la, portanto, com orgulho e júbilo por sermos de quem somos.
Ajuntemos um outro dado: alguns de nós sabemos que os santos da Igreja se agrupam por categorias; não são muitas: Apóstolos, Mártires, Doutores, Pastores, Virgens. O grupo mais pequenino (depois do dos 12 Apóstolos) é o grupo dos Doutores da Igreja que, até 1970, incluía apenas 30, e todos homens. (Actualmente são 36). Em vinte séculos a Igreja apenas reconheceu trinta e seis Doutores e, entre eles, apenas quatro mulheres – Teresa foi declarada como tal em 27 de setembro 1970, pelo Papa Paulo VI e, com a sua proclamação, quebrou-se a barreira que impedia as mulheres de ensinarem a Igreja Universal! Antes dela, portanto, nenhuma mulher fora reconhecida doutora da Igreja, por uma só razão – ser mulher!; de facto, São Paulo deixara escrito: «A mulher, quieta e dócil, escute o ensino. À mulher não lhe permito que ensine ou se imponha aos homens»…
E a coisa cumpria-se à risca. Mas não puderam com Teresa, pese embora ser «mulher ruim» — é ela que, matreira, mas não tonta, o diz de si mesma — !
(É certo que no séc. XIX, Santo Henrique de Ossó tinha reclamado o título de Doutora da Igreja para a sua amada mestra; mas o seu reclamo não surtira o efeito devido. É certo ainda que, no dia 4 de março de 1922, a universidade de Salamanca, pela mão sábia do seu vice-Reitor, D. Miguel de Unamuno, sob assinatura e reconhecimento do rei Afonso XIII, doutorara Santa Teresa como Doutora Honoris Causa. É certo isso, sim, mas a Igreja deixara-se ultrapassar pela universidade e, o que é pior, tardou cinquenta anos a imitá-la!)
3. Mas, enfim, perguntemo-nos: o que se deve fazer para se ser proclamado como Doutor da Igreja? Apenas isto: ser-se reconhecido como exemplo de «santidade de vida, recta doutrina e ciência sagrada»; ou seja — e esta é a verdade que há que reconhecer-se — através dos seus escritos, Teresa possuía estas três características, pois – e essa era a verdade que ninguém podia ocultar — nos últimos 500 anos, ensinara todos os grandes teólogos e os santos da Igreja Católica (sobretudo, os espirituais!) e, o que poucos saberão: através das suas obras fora mestra de dois Doutores da Igreja varões: São Francisco de Sales (1567-1622) e Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787); um e outro escreveram e guiaram a Igreja com obras espirituais inspiradas pela leitura dos seus livros! Ou seja: era óbvio e só não via quem não queria ver, que Santa Teresa tinha ocupado cátedra na Igreja e desde ali ensinava (e continua hoje a ensinar) santos e santas, teólogos e doutores, bispos e papas, mestres e mestras, pais e mães, gente simples, jovens e crianças… e não apenas dentro da Igreja Católica, mas também fora dela!
Estamos pois em presença de uma GRANDE mulher; mas o que faz dela uma mulher grande? Uma santa incomparável? E o que é que a torna um verdadeiro e sábio farol da humanidade, também hoje?
4. Contemos ou lembremos o seguinte: Nos seus dias, a Europa, já então velha, encontrava-se em ebulição por várias razões, uma das quais, e não a menor, tinha a ver com as Descobertas que Portugal e Espanha vinham fazendo do Mundo Novo. Por aqueles anos, ambos os países tinham-se empenhado em chegar a novos continentes, abrindo os olhos e a consciência para novíssimas realidades, espantando-se até à perplexidade, com o que os seus velhos olhos e ouvidos viam e ouviam.
Os relatos que por cá se liam e ouviam falavam de homens e mulheres de pele negra, vermelha e amarela, novas formas dos humanos se organizarem em sociedade, novas árvores e novos frutos, novos e belíssimos animais, nova luz e novos horizontes! Como espantados ficaram os europeus que alcançaram o Brasil, a Colômbia e o México, a costa africana, a Índia e o Japão! Que fantástico era tudo aquilo!
(Em boa verdade, não sei com que gigas de novidade teríamos hoje de ser surpreendidos para tocarmos o paroxismo que então se apossou dos povos europeus perante tanta novidade que os assaltava vinda do admirável mundo novo!)
5. Ora, pois, se a Europa se alegrava com todas essas descobertas (e as riquezas que daqueles longes trazíamos), imagine-se o que se passou com Santa Teresa Jesus, também ela testemunha desse paroxismo e que, ao experimentar outras novíssimas novidades bem maiores, terá dito algo parecido a isto: — Pois, muito bem, meus caríssimos! Óptimo que nos encantemos com tão grandes descobertas e triunfos que, vindas de tão longínquas paragens, maravilham o nosso olhar europeu! Que óptimo, sim! Mas, ó meus irmãos e irmãs que, de tanto olhar para fora, nos espantamos com tão maravilhosas maravilhas; reparai: Este é também o tempo de projectarmos o nosso olhar para o nosso interior. Olhemos para fora, sim, mas, sobretudo, volvamo-nos para dentro, caminhemos, naveguemos para dentro, pois aí, em nosso coração e consciência, habita o bom Deus! Deus é o nosso interior mais íntimo! Reparai bem: Vedes como na sua bondade Deus faz caber a sua imensa imensidão em nós? Alcançais perceber que somos casa de Deus? E onde está Deus, está a Virgem Maria! E onde está Deus, estão os anjos e os santos! Sim, irmãos, sim, irmãs, onde está Deus, a Virgem, os anjos e os santos, aí é o céu! Tendes, temos todos o céu dentro de nós! Vede bem se o céu não é maior que as maravilhas que os nossos descobridores andam agora a descobrir! Sejamos audazes! Sejamos valorosos! Ó espirituais: Vamos para dentro! Vamos para dentro! Paremos de nos surpreender com essas poeiras! Se vos quereis surpreender e maravilhar não precisais de cruzar oceanos! Tende coragem e adentrai-vos pelos oceanos infinitos do céu do vosso coração! Caminhemos, vamos até ao centro de nós mesmos, a esse lugar sem lugar, onde só Deus mora! Vamos ao centro, vamos ao seu encontro! Olhai, não vedes que Ele nos espera no mais profundo centro de nós mesmos? Não vedes mesmo?… Não vedes que cada um de nós é o céu preferido de Deus? Não percebeis que não percebemos como Deus nos prefere, ao ponto de fazer o céu, isto é, a sua morada, no coração de cada um e cada uma de nós? Não vedes que não existe maior triunfo, nem maior grandeza, do que poder olhar o Seu olhar, amar o Seu coração, e ver a glória daquele olhar que é todo doçura e misericórdia em nosso coração? Porque tendes de arriscar a vida em pequenas galeras cruzando os mares? Porque ousais descobrir mares e renuncias descobrir-vos a vós? Vamos, irmãos, vamos, irmãs, vamos descobrir; empreendamos o maior desafio posto ao alcance da inteligência do coração de cada um de nós: Busquemos a Deus em nosso coração com a intensidade dos amigos que se amam e se buscam, e se se buscam é porque não podem ficar privados de se verem e se amarem e se abraçarem! Vinde, vamos para o interior onde nada, só Deus, nos pode tanger!
6. Grande Santa Teresa, a Grande!
Quem, também hoje, se decida a como ela empreender a gesta da descoberta interior, demandando buscar aqueles ternos olhos divinos e a doçura e mansidão daquele divino coração que em nós mora, só pode ser grande. Não porque em si seja já grande, mas porque só pode sair engrandecido desse divino encontro!










