Armindo Vaz, OCD
Olhando para a vida das famílias que conhecemos e porventura para a nossa família, o panorama não é propriamente deslumbrante. Até ouvimos falar de famílias a desmoronarem-se ou a desfazerem-se, famílias desfeitas ou desestruturadas, onde os que pagam a factura dos desatinos cometidos são os mais frágeis, as crianças, os idosos, os doentes. Os filhos ficam baralhados, convivendo eventualmente com a mãe e não sabendo se passarão o fim de semana com o pai. O santuário da vida, a primeira estrutura de acolhimento, que deveria oferecer o aconchego propício para a partilha dos afectos, para o amadurecimento dos sentimentos, para dar e receber amor e para a realização da pessoa, está a falhar rotundamente nessa missão sagrada. Famílias que tinham começado num casal enamorado, cheio de entusiasmo e doação mútua, dissolveram-se porque os pais, românticos no dia de S. Valentim, perderam o fôlego logo na primeira curva, antes de chegarem ao dia do pai, estrelando-se contra o primeiro desafio à generosidade, à criatividade e à capacidade de compreensão mútua: nem um nem o outro teve magnanimidade para pensar que o caminho a dois teria muitas rectas e que todas as estradas têm curvas.
A palavra bíblica projecta luz a jorros nesse caminho da família humana. S. Paulo, realisticamente consciente de que as pessoas em família sempre encontram ou inventam, na imanência da vida, razões para se desentenderem, confrontarem, ofenderem, injustiçarem, fá-las subir para a transcendência, por meio da oração assídua e da leitura regular da palavra de Deus: “A palavra de Cristo permaneça em vós em toda a sua riqueza… Com agradecimento cantai louvores a Deus nos vossos corações com salmos, hinos e cânticos inspirados. E tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em honra do Senhor Jesus, dando graças por Ele a Deus Pai”. Aí, na transcendência, sentindo Deus como Pai comum, já não encontrariam razões para se digladiarem. Paulo mantinha-as elevadas, apelando à vivência das virtudes humanas: “Revesti-vos de sentimentos de misericórdia, benignidade, humildade, mansidão, tolerância, levando-vos ao colo uns aos outros e perdoando-vos mutuamente se alguém tem razão de queixa contra outro. Como o Senhor vos perdoou, perdoai também vós. Por cima de tudo isto, porém, cingi-vos com o amor mútuo, que é o cinto perfeito”. Nesta exortação em que o campo semântico é o de virtudes como peças de vestuário que podem ornar o cristão, o que aparece como toque final do vestido é o amor, o cinto da perfeição que ata as virtudes umas com as outras, coroando-as de beleza. Nas relações familiares, “a paz de Cristo tenha a última palavra nos vossos corações, para a qual fostes chamados, a fim de formar um só corpo. Sede também agradecidos” (Cl 3,12-17). De facto, a família é o ‘lugar’ privilegiado em que as pessoas estão em estado de constante doação umas às outras, de graça. Onde há dom gratuito há amor. E onde há amor reina a paz.
A sabedoria bíblica carrega com tintas fortes os valores humanos que constroem a grandeza da família. O sábio Ben Sirá, estudioso da Palavra das Escrituras, nas relações com o pai põe o filho a pensar no hoje e no amanhã: “Quem honra o pai encontrará alegria nos próprios filhos… Quem honra o pai gozará de longa vida… Filho, honra teu pai com palavras e acções, para que desça sobre ti a sua bênção… A glória de um homem vem da honra de seu pai… Filho, ampara o teu pai na velhice; não o desgostes durante a sua vida… Não o desprezes estando tu cheio de vigor” (3,5-13).
Eis aí a proposta de um presente original para o dia do pai, feito de «palavra de honra»! De facto, ser pai nasce de um acto de dar: dar o melhor de si próprio, a vida. Mesmo que manifeste alguma incompetência em exercer a função de pai, o filho não pode devolver-lhe a incompetência recusando-lhe a gratidão pelo dom fundador da sua existência: a voz do sangue deve gritar mais alto do que a voz da razão. Para o sábio bíblico, o pai tem de ser honrado porque deu e porque é, mais do que por aquilo que faz. Demitir-se do devido amor ao pai é o último acto da tragédia dos náufragos de si próprios. A tábua de salvação é chamar pelo Pai.
Num país oriental era (mau) hábito que o pai velhinho que já não podia trabalhar fosse levado pelo filho para a montanha, para lá morrer abandonado. Chegou a altura de um filho o fazer ao pai. Uma vez na montanha, deitou-o no chão e deu-lhe uma manta para que se abrigasse do frio até à morte. E começou a despedir-se. A intempérie, os animais selvagens e as aves de rapina fariam o resto. Mas aí ocorreu a surpresa. – «Filho, leva a metade da manta contigo e guarda-a para quando o teu filho te trouxer para este mesmo lugar». O filho captou imediatamente a mensagem. Banhado em lágrimas, pegou no pai ao colo e trouxe-o de volta para casa, aonde pertencia.
Hoje há filhos que levam os pais para várias ‘montanhas’, com outros nomes. Mas a sabedoria popular é pungente com o provérbio secular: «Filho és, pai serás: como fizeres assim acharás».










