{"id":973,"date":"2017-10-02T07:31:16","date_gmt":"2017-10-02T07:31:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=973"},"modified":"2017-10-02T07:31:16","modified_gmt":"2017-10-02T07:31:16","slug":"a-palavra-e-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-e-a-vida\/","title":{"rendered":"A palavra e a vida"},"content":{"rendered":"<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 \u00abhomens de palavra\u00bb e os que honram a \u00abpalavra dada\u00bb; e mais houvera, melhor seria a sociedade. De qualquer modo, o ser humano \u00e9 um \u00abser de palavras\u00bb, n\u00e3o s\u00f3 da palavra oral e escrita mas tamb\u00e9m de todas as formas de express\u00e3o. A imensa rede de palavras inclui tudo o que o ser humano utiliza para se apresentar e representar diante dos outros. Para nos relacionarmos e compreendermos, para compreendermos as coisas, precisamos de as <em>verbal<\/em>izar, por meio de alus\u00f5es e ilus\u00f5es, met\u00e1foras e compara\u00e7\u00f5es, d\u00favidas e interroga\u00e7\u00f5es, admira\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o\u2026 feitas de <em>palavras<\/em>. A palavra \u00e9 habita\u00e7\u00e3o do ser humano e projecta-o para fora de si pr\u00f3prio, para o tornar maior. Para o bem e para o mal, \u00e9 ela que <em>faz<\/em> o ser humano <em>concreto<\/em>: gera amor e reaviva-o, suscita rancor e mata-o, d\u00e1 corpo \u00e0 esperan\u00e7a e torna presente o futuro distante. A palavra humana \u00e9 o elemento que mais conflitos e confrontos desencadeou, mas tamb\u00e9m \u00e9 a art\u00edfice das grandes fa\u00e7anhas humanas: ao lado da beleza da palavra po\u00e9tica, escondem-se os horrores e a ret\u00f3rica do \u00f3dio, bem como o discurso da demagogia que a palavra \u00e9tica pode evitar. Como bem demonstra a hist\u00f3ria da humanidade (tanto das guerras aviltantes como dos feitos gloriosos), a palavra revela o grau de humanidade que possu\u00edmos. Foi sempre assim e continuar\u00e1 a ser, porque, na sua polif\u00f3nica express\u00e3o, ela d\u00e1 voz ao que somos e pretendemos ser, \u00e0 generosidade enobrecedora e \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es degradantes, \u00e0 viol\u00eancia em nome de Deus.<\/p>\n<p>Fica claro que vida e palavra andam unidas. A pervers\u00e3o do ser humano segue a par da corrup\u00e7\u00e3o da sua palavra: a sua linguagem \u00e9 reflexo da sua qualidade moral, como a brejeirice nas palavras p\u00f5e a nu o seu estado de decad\u00eancia real. As consequ\u00eancias da liga\u00e7\u00e3o da palavra \u00e0 vida t\u00eam abrang\u00eancias inimagin\u00e1veis. Quando palavras de determinadas \u00e1reas do humano, como esp\u00edrito, alma das coisas, Deus da pessoa, transcend\u00eancia, fidelidade, bondade, miseric\u00f3rdia e compaix\u00e3o, ora\u00e7\u00e3o, salva\u00e7\u00e3o\u2026, v\u00e3o caindo em desuso numa sociedade \u2013 sob a convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o interessam ou pertencem ao \u00e2mbito do subjectivo e sentimental mas n\u00e3o do objectivo e cient\u00edfico \u2013 ent\u00e3o morre nela um mundo real. Caindo em extin\u00e7\u00e3o, extinguem-se os conte\u00fados que elevam a vida para o Alto. Incont\u00e1veis palavras das l\u00ednguas ocidentais \u2013 de cunho judeo-crist\u00e3o \u2013 est\u00e3o recheadas de remiss\u00f5es para o divino: por exemplo, <em>adeus<\/em>, <em>adi\u00f3s<\/em>, <em>adio<\/em>, <em>adieu<\/em>, <em>good-bye<\/em> (contrac\u00e7\u00e3o de <em>God be with you<\/em>)\u2026 Descristianizada a sociedade, elas foram perdendo a for\u00e7a evocadora do sublime, perdem a capacidade de transfigurar as realidades quotidianas, perdem as melodiosas resson\u00e2ncias e conota\u00e7\u00f5es que tinham at\u00e9 h\u00e1 pouco\u2026 A apraz\u00edvel polifonia dessas e outras <em>palavras<\/em> vai-se convertendo em som da voz sem sentido, em<em> palavreado<\/em> dispens\u00e1vel: \u00absenhor padre, porqu\u00ea menciona <em>Deus<\/em> tantas vezes? deixe-o l\u00e1 estar que Ele n\u00e3o \u00e9 c\u00e1 preciso\u00bb \u2013 queixava-se uma jovem. Dando morte a certas palavras, passa a faltar a epifania das grandes verdades da vida: v\u00e1rias dimens\u00f5es do ser humano deixam de ter voz. Ent\u00e3o procuram-se suced\u00e2neos em f\u00e1rmacos, em estupefacientes, nas ilus\u00f5es, nas sinuosidades dos calmantes, dos analg\u00e9sicos, dos antidepressivos, dos devaneios, do espiritismo, da cartomante.<\/p>\n<p>Nessa direc\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o s\u00f3) gritou o g\u00e9nio filos\u00f3fico de F. Nietzsche atrav\u00e9s do louco a quem deu voz: \u201cDeus morreu! Deus permanece morto! Fomos n\u00f3s que o mat\u00e1mos!&#8230; Aquilo que o mundo possu\u00eda de mais sagrado e poderoso at\u00e9 hoje ficou sem sangue sob as l\u00e2minas das nossas facas\u201d (<em>A gaia ci\u00eancia<\/em>, aforisma 125). N\u00f3s poder\u00edamos parafrasear: \u2026\u00abficou sem sangue\u00bb pelo uso sem vida ou pelo n\u00e3o-uso de palavras nossas sobre o divino. E, como n\u00e3o podemos viver sem um deus, elevamos ent\u00e3o um digno altar a deuses por n\u00f3s criados: ao deus do dinheiro, ao deus do <em>ter<\/em>, ao deus do poder, ao deus do progresso, ao deus da t\u00e9cnica\u2026 Curiosamente, outro fil\u00f3sofo, como que respondendo a Nietzsche, dizia que Deus n\u00e3o morreu: tornou-se dinheiro!<\/p>\n<p>Nietzsche n\u00e3o proclamava, em 1882, a (imposs\u00edvel) morte do Deus transcendente: declamava a morte de uma imagem de Deus contrafeita, que o foi desfigurando; declarava a morte de palavras que deveriam apontar para Deus e j\u00e1 n\u00e3o cumpriam apropriadamente a sua fun\u00e7\u00e3o, consequ\u00eancia directa do esvaziamento do seu valor supremo. O grito \u00abDeus morreu!\u00bb \u00e9 uma esp\u00e9cie de ora\u00e7\u00e3o a implorar que d\u00eamos vida \u00e0 Palavra viva que herd\u00e1mos na Escritura poderosa e que nos fala da incarna\u00e7\u00e3o do verdadeiro Deus na pessoa de Jesus: que n\u00e3o entendamos essa Palavra \u00e0 letra (com o qual matamos Deus) mas sim \u00abao sentido\u00bb: \u201cas palavras que eu proferi para v\u00f3s s\u00e3o esp\u00edrito e s\u00e3o vida\u201d (disse Jesus: Jo 6,63), isto \u00e9, falam-vos de realidades que s\u00e3o a alma da vida e que s\u00f3 o Esp\u00edrito faz compreender. Como com a corrup\u00e7\u00e3o da palavra come\u00e7a a destrui\u00e7\u00e3o do humano, a estima da Palavra transmitida na Escritura redunda na sa\u00fade do humano. Onde brota a palavra sincera <em>a<\/em> Deus, a\u00ed revela-se Ele atrav\u00e9s da sua palavra: \u201cA tua palavra \u00e9 lanterna para os meus passos \/e luz para os meus caminhos\u201d (Sl 119,105).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Ainda h\u00e1 \u00abhomens de palavra\u00bb e os que honram a \u00abpalavra dada\u00bb; e mais houvera, melhor seria a sociedade. 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