{"id":634,"date":"2017-06-18T19:58:25","date_gmt":"2017-06-18T19:58:25","guid":{"rendered":"http:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=634"},"modified":"2017-06-18T20:27:25","modified_gmt":"2017-06-18T20:27:25","slug":"fatima-local-e-historia-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/fatima-local-e-historia-mundial\/","title":{"rendered":"F\u00e1tima local e hist\u00f3ria mundial"},"content":{"rendered":"<p class=\"p2\"><em><span class=\"s1\">Armindo Vaz, OCD<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p4\">Nas celebra\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio dos acontecimentos de F\u00e1tima, a interpreta\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia dos pastorinhos abriu-se de novo ao debate. Fala-se de \u00abapari\u00e7\u00f5es\u00bb. S\u00e3o vis\u00f5es interiores, de ordem espiritual, da ordem do esp\u00edrito e n\u00e3o do f\u00edsico. Embora os videntes, como os m\u00edsticos, sentissem tend\u00eancia para dizer que a \u201cSenhora t\u00e3o linda\u201d estava na azinheira (\u00e9 isso de facto o que a-parece ao vidente e que, nessa medida, se pode chamar <i>a-pari\u00e7\u00e3o<\/i>), ela estava realmente no interior deles, numa experi\u00eancia m\u00edstico-religiosa. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o tira \u00e0 vis\u00e3o o car\u00e1cter de <i>real<\/i>. Nem \u00e9 inventada pela fantasia. Tem, inevitavelmente, uma carga de subjectividade, como tudo o que \u00e9 captado pelos humanos. Mas a sua ess\u00eancia est\u00e1 na for\u00e7a do Transcendente que se imp\u00f5e e se revela ao vidente, na medida da sua abertura ao divino na medita\u00e7\u00e3o-ora\u00e7\u00e3o-contempla\u00e7\u00e3o ass\u00eddua: o <i>Esp\u00edrito<\/i> divino comunicou-se ao <i>esp\u00edrito<\/i> humano. A percep\u00e7\u00e3o era interior, existencial, invis\u00edvel aos olhos da carne do comum mortal, mas cheia de verdade. A objectividade factual n\u00e3o det\u00e9m o monop\u00f3lio da realidade mais verdadeira. Quase se poderia chamar percep\u00e7\u00e3o <i>emp\u00edrica<\/i> (no sentido de experi\u00eancia <i>imediata<\/i>): mas \u00e9 <i>mediada<\/i> pela f\u00e9. Como dizia no ano 2000 o Cardeal Ratzinger, \u00ab\u00e9 claro que nas vis\u00f5es de Lourdes, F\u00e1tima, etc., n\u00e3o se trata da percep\u00e7\u00e3o externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas n\u00e3o se encontram exteriormente no espa\u00e7o circundante, como se encontram, por exemplo, uma \u00e1rvore ou uma casa. Isso \u00e9 totalmente evidente no que diz respeito \u00e0 vis\u00e3o do inferno (descrita na primeira parte do segredo de F\u00e1tima)\u2026 Trata-se de percep\u00e7\u00e3o interior, que certamente tem para o vidente uma for\u00e7a de presen\u00e7a, que para ele equivale \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o externa sens\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p class=\"p4\">O que os pastorinhos viam <i>mediante<\/i> a f\u00e9 era do g\u00e9nero das \u00abapari\u00e7\u00f5es\u00bb b\u00edblicas, que eram vis\u00f5es interiores,<b><i> <\/i><\/b><i>imag\u00e9ticas<\/i>, por meio de imagens: longe de serem fantasia, descreviam e transfiguravam (sem falsear) a realidade. S\u00e3o compar\u00e1veis \u00e0s vis\u00f5es tidas pelos profetas Ezequiel, Daniel, vidente do Apocalipse (que <i>falava em nome de<\/i> Deus das persegui\u00e7\u00f5es dos crist\u00e3os)&#8230; Daniel no cap\u00edtulo 7 pinta a realidade hist\u00f3rica (a que se percebe na \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o das vis\u00f5es\u201d: vers\u00edculos 15-27), mas por meio de imagens, que \u00e0 letra n\u00e3o correspondem a algo factual (a descri\u00e7\u00e3o da 3\u00aa parte do segredo pela Irm\u00e3 L\u00facia procede da mesma forma: conta a realidade hist\u00f3rica, mas por imagens: anjo, espada de fogo, \u00abluz imensa que \u00e9 Deus\u00bb, bispo vestido de branco e outros bispos a subirem uma montanha encimada por uma cruz, soldados a dispararem contra o Papa\u2026). Parte da credibilidade e da import\u00e2ncia das vis\u00f5es de F\u00e1tima est\u00e1 precisamente no facto de se colocarem em linha com as representa\u00e7\u00f5es e express\u00f5es da f\u00e9 b\u00edblica.<\/p>\n<p class=\"p4\">Mas o que mais prende a medita\u00e7\u00e3o sobre esta experi\u00eancia m\u00edstica<span class=\"s3\"> dos<\/span> pastorinhos<span class=\"s3\"> \u00e9 o facto de ela <\/span>surgir na hora certa da hist\u00f3ria, impregnada de esp\u00edrito <i>prof\u00e9tico<\/i>, imbu\u00edda do sentido de miss\u00e3o. Se o que importa em hist\u00f3ria \u00e9 a verdade global dos factos que a fazem e o sentido que os torna provocantes, F\u00e1tima situa-se nessa linha. Brota de uma experi\u00eancia real que mexe com os acontecimentos significativos da hist\u00f3ria mundial do tempo, no princ\u00edpio do s\u00e9c. XX. Estava em curso a trituradora viol\u00eancia da guerra mundial em que a R\u00fassia gerava particular preocupa\u00e7\u00e3o, pela onda de destrui\u00e7\u00e3o humana que desencadeava e pela expans\u00e3o das ideias bolcheviques que inquietavam os esp\u00edritos europeus com a revolu\u00e7\u00e3o de 1917. A Igreja era perseguida. A primeira grande trag\u00e9dia da hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX varria vidas humanas, consideradas dispens\u00e1veis. O materialismo exacerbado e a instabilidade da Primeira Rep\u00fablica completavam o contexto gerador de medos e de ang\u00fastia social.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s4\">Em tudo isto, o<\/span>s pastorinhos estavam do lado certo da vida, a gritar por humanidade e paz. As suas vis\u00f5es correspondiam bem \u00e0 vis\u00e3o que uma humanidade aut\u00eantica deveria ter \u00e0 luz da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica. O que escutavam da \u201cSenhora t\u00e3o linda\u2026, mais brilhante que o sol\u201d soava como grito de alerta aos respons\u00e1veis pela governa\u00e7\u00e3o do mundo e aos \u00absenhores da guerra\u00bb, para que parassem tanta irresponsabilidade e a ceifa brutal de tantas vidas humanas. Apelava \u00e0 consci\u00eancia da humanidade para perceber a gravidade da hora hist\u00f3rica que se vivia: era o grito dos pequenos inocentes de uma aldeia a pedir aos grandes da Terra que deixassem de ser insens\u00edveis ao mal, por eles banalizado. Perante tanta insensatez, \u00e0s crian\u00e7as restava a palavra e\u2026 a ora\u00e7\u00e3o: \u00abMeu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos\u00bb. A adora\u00e7\u00e3o respondia \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o da transcend\u00eancia, que, por meio do \u00abanjo da paz\u00bb e da m\u00e3e de Jesus, vinha visitar a iman\u00eancia hist\u00f3rica; comprometia a humanidade em guerra e apelava \u00e0 sua convers\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p4\">A incont\u00e1vel multid\u00e3o que por ocasi\u00e3o da canoniza\u00e7\u00e3o dos pastorinhos rezou com o Papa Francisco continuou o grito colectivo de todos os peregrinos a F\u00e1tima, a ser ouvido por Deus Todo-poderoso mas tamb\u00e9m pelos poderosos do mundo, para que estes actuem ao servi\u00e7o das pessoas e governem com um m\u00ednimo de decoro humano, evitando a vergonha de desvalorizar a dignidade humana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Nas celebra\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio dos acontecimentos de F\u00e1tima, a interpreta\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia dos pastorinhos abriu-se de novo ao debate. Fala-se de \u00abapari\u00e7\u00f5es\u00bb. 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