{"id":618,"date":"2017-06-18T19:52:21","date_gmt":"2017-06-18T19:52:21","guid":{"rendered":"http:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=618"},"modified":"2017-06-18T19:52:21","modified_gmt":"2017-06-18T19:52:21","slug":"tradicao-e-espiritualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/tradicao-e-espiritualidade\/","title":{"rendered":"Tradi\u00e7\u00e3o e espiritualidade"},"content":{"rendered":"<p class=\"p2\"><em><span class=\"s2\">Renato Pereira, OCD<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p4\">No \u00faltimo Boletim de Espiritualidade, centramo-nos na Palavra de Deus, contida nas Sagradas Escrituras, como fonte de vida espiritual. Mas, como chega at\u00e9 hoje, a cada mulher e homem, essa Palavra?<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\">\u00c9 necess\u00e1rio que nos recuemos ao acontecimento fundante, o Mist\u00e9rio Pascal. A\u00ed encontramos o mandato da prega\u00e7\u00e3o do Evangelho. A transmiss\u00e3o do Evangelho deu-se, ent\u00e3o, oralmente e por escrito, como nos relata de maneira bela a <\/span><i>Dei Verbum <\/i><span class=\"s3\">nos n\u00fameros 7 e 8: \u00ab<\/span><i>Isto foi realizado com fidelidade, <\/i><b><i>tanto pelos Ap\u00f3stolos<\/i><\/b><i> que, <\/i><b><i>na sua prega\u00e7\u00e3o oral, exemplos e institui\u00e7\u00f5es<\/i><\/b><i>, transmitiram aquilo que tinham recebido dos l\u00e1bios, trato e obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, <\/i><b><i>como por aqueles Ap\u00f3stolos e var\u00f5es apost\u00f3licos <\/i><\/b><i>que, sob a inspira\u00e7\u00e3o do mesmo Esp\u00edrito Santo, <\/i><b><i>escreveram a mensagem da salva\u00e7\u00e3o<\/i><\/b><i>. Por\u00e9m, para que o Evangelho fosse perenemente conservado integro e vivo na Igreja, os Ap\u00f3stolos deixaram os Bispos como seus sucessores, \u00abentregando-lhes o seu pr\u00f3prio of\u00edcio de magist\u00e9rio\u00bb. Portanto, esta sagrada Tradi\u00e7\u00e3o e a Sagrada Escritura dos dois Testamentos s\u00e3o como um espelho no qual a Igreja peregrina na terra contempla a Deus, de quem tudo recebe, at\u00e9 ser conduzida a v\u00ea-lo face a face tal qual Ele \u00e9 (<\/i><span class=\"s3\">cf.<\/span><i> 1 Jo 3,2). E assim, a prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, que se exprime de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se, por uma sucess\u00e3o cont\u00ednua, at\u00e9 \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o dos tempos.<\/i><span class=\"s3\">\u00bb Desta forma, intimamente unida \u00e0 Sagrada Escritura, aparece a Tradi\u00e7\u00e3o, ou seja, a transmiss\u00e3o viva que o Esp\u00edrito Santo realiza da prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica. Nela est\u00e1 contido o que contribui para que o povo de Deus viva uma vida de santidade e para que a f\u00e9 cres\u00e7a.\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">Em primeiro lugar, \u00e9 preciso distinguir a <span class=\"s4\"><i>Tradi\u00e7\u00e3o<\/i><\/span> das <span class=\"s4\"><i>tradi\u00e7\u00f5es<\/i><\/span>. Enquanto que a primeira \u00e9 a transmiss\u00e3o do que os Ap\u00f3stolos receberam de Jesus e aprenderam do Esp\u00edrito Santo, as segundas s\u00e3o formas particulares (de tipo teol\u00f3gico, disciplinar, lit\u00fargico ou devocional) nascidas nas Igrejas locais ao longo dos s\u00e9culos mediante as quais a Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 expressa de modo adaptado ao lugar e \u00e0 \u00e9poca. Em segundo lugar, \u00e9 importante notar que Sagrada Escritura e Tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o duas fontes, mas \u201c<span class=\"s4\"><i>ambas derivam da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa s\u00f3 e tendem ao mesmo fim<\/i><\/span>\u201d (DV 9); e, por isso, conclui a <span class=\"s4\"><i>Dei Verbum <\/i><\/span>(10): \u201c<span class=\"s4\"><i>ambas devem ser recebidas e veneradas com igual esp\u00edrito de piedade e rever\u00eancia<\/i><\/span>\u201d. Por fim, \u00e9 essencial assinalar tamb\u00e9m a progress\u00e3o desta Tradi\u00e7\u00e3o sob a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, como esclarece o n\u00famero 8 da <span class=\"s4\"><i>Dei Verbum<\/i><\/span>. O Conc\u00edlio Vaticano II explica tal progress\u00e3o em termos de perce\u00e7\u00e3o das coisas e das palavras transmitidas; e isso, atrav\u00e9s de v\u00e1rios modos: contempla\u00e7\u00e3o, estudo, \u00edntima intelig\u00eancia das coisas espirituais e prega\u00e7\u00e3o dos sucessores dos ap\u00f3stolos. O Papa Bento XVI, no t\u00edtulo da audi\u00eancia geral de 26 de Maio de 2006, qualifica a Tradi\u00e7\u00e3o como \u201ccomunh\u00e3o no tempo\u201d. Sendo a Igreja um mist\u00e9rio de comunh\u00e3o, o Papa referia que esta comunh\u00e3o tinha uma dimens\u00e3o sincr\u00f3nica (comunh\u00e3o com os crentes de todas as partes do mundo) e uma dimens\u00e3o diacr\u00f3nica (comunh\u00e3o com os crentes do passado e do futuro).<\/p>\n<p class=\"p4\">Partindo destas considera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desvalorizar a import\u00e2ncia da Tradi\u00e7\u00e3o para a vida espiritual. Sendo o ser humano dotado de mem\u00f3ria, \u00e9 capaz de esquecer-se. Por isso, a Tradi\u00e7\u00e3o, enquanto mem\u00f3ria, \u00e9 essencial. Como diz o Papa Francisco: \u201c<span class=\"s4\"><i>A mem\u00f3ria \u00e9 uma dimens\u00e3o da nossa f\u00e9<\/i><\/span>\u201d (EG 13). No entanto, a f\u00e9 n\u00e3o se faz de uma mem\u00f3ria de recorda\u00e7\u00f5es. A mem\u00f3ria, na vida de f\u00e9, \u00e9 memorial, \u00e9 anamn\u00e9sis, ou seja, \u00e9 um fazer-se presente; e n\u00e3o somos n\u00f3s que fazemos algo presente, mas sim Algo\/Algu\u00e9m que se nos faz presente. \u00c9 mediante a Tradi\u00e7\u00e3o que, pelo Esp\u00edrito Santo, Cristo se faz presente na vida da Igreja; mediante a Tradi\u00e7\u00e3o e a sucess\u00e3o apost\u00f3lica, podemos viver a mesma experi\u00eancia da primeira comunidade apost\u00f3lica, primordialmente na liturgia e nos sacramentos. A anamn\u00e9sis por excel\u00eancia \u00e9 a Eucaristia: a\u00ed cumpre-se o universalismo da salva\u00e7\u00e3o, pois vai-se realizando em cada tempo da hist\u00f3ria a celebra\u00e7\u00e3o do memorial da P\u00e1scoa.<\/p>\n<p class=\"p4\">A aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 um convite a que a experi\u00eancia espiritual n\u00e3o fique prisioneira do subjetivismo ou do individualismo, mas avance para uma experi\u00eancia de f\u00e9 eclesial, ou seja, comunit\u00e1ria. Este \u00eaxodo de si n\u00e3o dever\u00e1 ser encarado como uma obriga\u00e7\u00e3o, uma exig\u00eancia, uma tristeza; \u00e9 um dom, uma gra\u00e7a, uma garantia da verdade da experi\u00eancia espiritual. A tal sentir ajudar\u00e1 sempre ter presente que a Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 um dom radicado no desejo de Cristo. E o que se diz a n\u00edvel individual, pode aplicar-se ao n\u00edvel comunit\u00e1rio: qualquer grupo\/comunidade \u00e9 chamado pelo pr\u00f3prio Cristo ao \u00eaxodo para a experi\u00eancia de Igreja, sustentada pela Tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p4\">Por fim, e n\u00e3o menos importante, a Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma estrada de equil\u00edbrio e pluralidade. Equil\u00edbrio quanto a fundamentalismos\/tradicionalismos (que absolutizam uma forma hist\u00f3rica da \u00abfigura deste mundo que passa\u00bb) e quanto a progressismos (que, fazendo t\u00e1bua rasa de tudo o que seja anterior, acabam por autofundar-se \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem e semelhan\u00e7a). A Trdai\u00e7\u00e3o garante a pluralidade quanto a carismas e minist\u00e9rios, formas e tradi\u00e7\u00f5es, sensibilidades e possibilidades nos caminhos espirituais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato Pereira, OCD No \u00faltimo Boletim de Espiritualidade, centramo-nos na Palavra de Deus, contida nas Sagradas Escrituras, como fonte de vida espiritual. Mas, como chega at\u00e9 hoje, a cada mulher [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-618","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","et-doesnt-have-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=618"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/618\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":619,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/618\/revisions\/619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}