{"id":593,"date":"2017-06-18T19:44:47","date_gmt":"2017-06-18T19:44:47","guid":{"rendered":"http:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=593"},"modified":"2017-06-18T19:44:47","modified_gmt":"2017-06-18T19:44:47","slug":"antropologia-e-espiritualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/antropologia-e-espiritualidade\/","title":{"rendered":"Antropologia e espiritualidade"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\"><em>Reda\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00abA raz\u00e3o mais sublime da dignidade do homem consiste na sua voca\u00e7\u00e3o \u00e0 uni\u00e3o com Deus. \u00c9 desde o come\u00e7o da sua exist\u00eancia que o homem \u00e9 convidado a dialogar com Deus: pois, se existe, \u00e9 s\u00f3 porque, criado por Deus por amor, \u00e9 por Ele por amor constantemente conservado; nem pode viver plenamente segundo a verdade, se n\u00e3o reconhecer livremente esse amor e se entregar ao seu Criador.\u00bb<\/p>\n<p class=\"p3\">Com estas eloquentes palavras, o n\u00famero 19 da Constitui\u00e7\u00e3o Pastoral <span class=\"s1\"><i>Gaudium et Spes <\/i><\/span>do Conc\u00edlio Vaticano II define o ser humano desde a perspetiva crente. O Homem aparece totalmente referido a Deus, definido pelo e para o di\u00e1logo com Ele, chamado a unir-se a Ele. O Homem n\u00e3o \u00e9 alheio a esta voca\u00e7\u00e3o. Criado por Deus e para Deus, busca-O \u201cnaturalmente\u201d, de maneira vital, como apontava Santo Agostinho ao exclamar: \u201cCriastes-nos para V\u00f3s, Senhor, e o nosso cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o descansa enquanto n\u00e3o repousar em V\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\">Num primeiro momento, quem busca poder\u00e1 n\u00e3o definir tematicamente essa busca como procura de Deus. No entanto, \u00e9 imposs\u00edvel negar que o Homem se sinta sempre chamado a mais. O Homem vive em busca de algo ou algu\u00e9m que seja capaz de saciar a sua abertura a mais. Frequentemente, a experi\u00eancia de busca, quando encerrada em coordenadas simplesmente imanentes, \u00e9 frustrante. Insaciado com as oportunidades gozosas que a cria\u00e7\u00e3o lhe proporciona, experimenta o limite expressado na interroga\u00e7\u00e3o formulada por Jean-Yves Leloup: \u201cComo podes pedir o Infinito ao finito?\u201d Esta \u00e9 a experi\u00eancia da conting\u00eancia, a experi\u00eancia do Homem que se sente chamado a mais, capaz de mais, mas que n\u00e3o encontra esse mais na iman\u00eancia, na finitude, naquilo que acaba. Chegado a este ponto, o Homem s\u00f3 tem duas possibilidades: dar por conclu\u00edda a sua busca (com a afirma\u00e7\u00e3o do sem sentido do seu pr\u00f3prio ser ou simplesmente com a indiferen\u00e7a) ou, caso n\u00e3o aceite o sem sentido, elevar essa busca a n\u00edveis transcendentes, al\u00e9m do finito. Tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o carmelita experimentou esta conting\u00eancia; o famoso <span class=\"s1\"><i>Nada te turbe<\/i><\/span> expressa isso mesmo: \u00abTudo passa, s\u00f3 Deus n\u00e3o muda. (\u2026) S\u00f3 Deus basta\u00bb.<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00c9 importante sublinhar que o Deus encontrado pela tradi\u00e7\u00e3o carmelita n\u00e3o chega pela frieza da dedu\u00e7\u00e3o especulativa. Deus n\u00e3o \u00e9 uma ideia que os m\u00edsticos deduzem desde a conting\u00eancia: Deus \u00e9 a realidade que se experimenta em Jesus Cristo de maneira consciente, num encontro da iniciativa desse mesmo Deus que d\u00e1 um rumo novo \u00e0 vida. Bem o expressou o Papa Bento XVI: \u201cAo in\u00edcio do ser crist\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma decis\u00e3o \u00e9tica ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que d\u00e1 \u00e0 vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.\u201d (<span class=\"s1\"><i>Deus caritas est <\/i><\/span>1).<\/p>\n<p class=\"p3\">Na tradi\u00e7\u00e3o carmelita, o caminho para esse encontro \u00e9 a interioridade. Apoiando-se num dado dogm\u00e1tico fundamental, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz (<span class=\"s1\"><i>Subida do Monte Carmelo<\/i><\/span> 2, 5) fala de dois tipos de presen\u00e7a de Deus atrav\u00e9s da uni\u00e3o com Ele: a uni\u00e3o substancial\/essencial e a uni\u00e3o de semelhan\u00e7a pelo amor. A primeira, que \u00e9 natural porque j\u00e1 est\u00e1 feita, \u00e9 aquela mediante a qual Deus conserva o ser da criatura (como faz refer\u00eancia o texto da <span class=\"s1\"><i>Gaudium et Spes<\/i><\/span>). A segunda uni\u00e3o \u00e9 aquela que se vai verificando \u00e0 medida da conformidade das vontades de Deus e da pessoa, de modo que esta fica transformada em Deus por amor. Santa Teresa experimentou esta presen\u00e7a de maneira muito qualificada numa gra\u00e7a extraordin\u00e1ria por ela relatada no <span class=\"s1\"><i>Livro da Vida<\/i><\/span>: \u201cEstando uma vez a rezar a Liturgia das Horas com todas as outras Irm\u00e3s, a minha alma recolheu-se subitamente. Pareceu-me ficar toda cristalina como um espelho. Tudo nela era claridade: pela frente, por tr\u00e1s, pelos lados, por cima e por baixo; e, no centro, apareceu-me Cristo Nosso Senhor como O costumo ver. Tinha a impress\u00e3o de O ver em todas as partes da minha alma com tanta nitidez como num espelho; e, ao mesmo tempo, este espelho \u2013 n\u00e3o sei como o explicar \u2013 esculpia-se inteiramente no mesmo Senhor atrav\u00e9s de uma comunica\u00e7\u00e3o extremamente amorosa, que tamb\u00e9m n\u00e3o sei explicar.\u201d<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>(<span class=\"s1\"><i>Vida <\/i><\/span>40,5). Desta experi\u00eancia depende a inspira\u00e7\u00e3o para escrever, considerando a alma como um castelo interior habitado por Deus no livro das <span class=\"s1\"><i>Moradas do Castelo Interior.<\/i><\/span> \u00c9 nesta interioridade que \u00e9 feita a experi\u00eancia do Infinito, do mais que o Homem sempre busca. E esta experi\u00eancia \u00e9 feita na pr\u00f3pria conting\u00eancia, na impossibilidade de dar-se ser a si mesmo, mas de ser e saber-se totalmente dado a si mesmo.<\/p>\n<p class=\"p3\">Portanto, o Homem \u00e9 <span class=\"s1\"><i>capax Dei<\/i><\/span>, capaz de Deus, capaz de O experimentar. Criado \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a e por Ele sustentado no ser, o Homem tem como sua verdade a uni\u00e3o de amor com Deus. \u00c0 espiritualidade cabe conduzir o Homem a essa uni\u00e3o de amor com Deus pela semelhan\u00e7a do querer. A configura\u00e7\u00e3o com Cristo, paradigma de toda espiritualidade, \u00e9 alimentada pela Sagrada Escritura, est\u00e1 alicer\u00e7ada na Tradi\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o eclesial, tem umas consequ\u00eancias \u00e9ticas e morais, \u00e9 celebrada na Liturgia, \u00e9 discernida pelo Magist\u00e9rio e \u00e9 encarnada num conjunto de formas espec\u00edficas (espiritualidade laical, matrimonial, religiosa, sacerdotal, mission\u00e1ria, etc\u2026). \u00c9 da rela\u00e7\u00e3o da espiritualidade com estas vari\u00e1veis que falaremos nos pr\u00f3ximos n\u00fameros do nosso Boletim de Espiritualidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reda\u00e7\u00e3o \u00abA raz\u00e3o mais sublime da dignidade do homem consiste na sua voca\u00e7\u00e3o \u00e0 uni\u00e3o com Deus. \u00c9 desde o come\u00e7o da sua exist\u00eancia que o homem \u00e9 convidado a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-593","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","et-doesnt-have-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/593","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=593"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/593\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":594,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/593\/revisions\/594"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=593"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}