{"id":560,"date":"2017-06-18T14:39:23","date_gmt":"2017-06-18T14:39:23","guid":{"rendered":"http:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=560"},"modified":"2017-06-18T14:39:23","modified_gmt":"2017-06-18T14:39:23","slug":"quem-foi-sao-joao-da-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/quem-foi-sao-joao-da-cruz\/","title":{"rendered":"Quem foi S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz?"},"content":{"rendered":"<p class=\"p2\"><em><span class=\"s2\">Jos\u00e9 Maria, OCD<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p4\">No dia 14 de Dezembro a Igreja celebra a festa lit\u00fargica de S. Jo\u00e3o da Cruz. Trata-se de \u201cum dos m\u00edsticos mais profundos de todos os tempos\u201d (G.M.) e, por ser ele o pioneiro da reforma teresiana do Carmelo masculino, merece um apontamento especial neste boletim informativo.<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\"><b>Entre luzes e sombras<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz nasceu e viveu no s\u00e9culo XVI, o s\u00e9culo de oiro espanhol. As suas origens foram humildes, como prec\u00e1ria foi a sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia no aspecto material. Dos nove aos treze anos, interno do col\u00e9gio de doutrina, em Medina del Campo, vemo-lo a pedir esmola para esta institui\u00e7\u00e3o pelas ruas da mesma cidade, terra afamada pelas suas feiras e para onde se tinha refugiado a sua fam\u00edlia constitu\u00edda apenas pela sua m\u00e3e, um irm\u00e3o e por si, evidentemente. O Seu pai j\u00e1 tinha falecido bem como um outro irm\u00e3o. Por ser pobre declarado, teve acesso \u00e0s letras, para as quais tinha uma singular queda em detrimento de alguns of\u00edcios manuais que experimentou. Do col\u00e9gio de Doutrina passa ao servi\u00e7o do hospital de bubas enquanto frequenta humanidades no col\u00e9gio dos jesu\u00edtas. A sua piedade not\u00f3ria e intelig\u00eancia avantajada despertaram a aten\u00e7\u00e3o do provedor do mesmo hospital que lhe prop\u00f4s os estudos eclesi\u00e1sticos no intuito de o tornar capel\u00e3o dessa institui\u00e7\u00e3o, possivelmente com algumas vantagens futuras para a sua fam\u00edlia. Recusou. Jo\u00e3o tinha outros horizontes.<\/p>\n<p class=\"p4\">Em 1563 entra no noviciado dos Carmelitas de Medina. Sente-se atra\u00eddo pelo Carmelo dado o seu esp\u00edrito contemplativo e piedade mariana. Professa no ano seguinte e \u00e9 enviado para o col\u00e9gio de Santo Andr\u00e9, em Salamanca, completando na universidade local, que se encontra no auge, as aulas que recebia em casa com os mestres da sua Ordem. Mostra-se um aluno com uma piedade exemplar e inteligente, cr\u00e9ditos que pesam sobre a sua nomea\u00e7\u00e3o como \u201cmestre de estudantes com a incumb\u00eancia de preparar os debates p\u00fablicos sobre um tema que se devia defender com argumentos s\u00f3lidos perante as objec\u00e7\u00f5es de um opositor\u201d (G.M.). Entra ent\u00e3o em crise vocacional, dado que, ocupado por m\u00faltiplas actividades acad\u00e9micas sente-se a atrai\u00e7oar o seu ideal contemplativo. Depois de uma s\u00e9ria reflex\u00e3o decide bater \u00e0s portas da Ordem S. Bruno.<\/p>\n<p class=\"p4\">Nessa altura, numa das suas idas a Medina para cantar a sua primeira missa, tem um encontro providencial com a Madre Teresa no locut\u00f3rio das Carmelitas, onde lhe confidencia o seu desejo de entrar na Cartuxa. A Santa sem mais rodeios diz: \u201cPorque \u00e9 que vai procurar fora o que pode encontrar na sua pr\u00f3pria ordem?\u201d. E convida-o a unir-se ao seu projecto. Frei Jo\u00e3o anui com a condi\u00e7\u00e3o de que se realizasse com a maior brevidade poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"p4\">Este encontro muda o rumo \u00e0 sua vida bem como \u00e0 daqueles que, no futuro, se v\u00e3o associar ao mesmo projecto que se torna realidade em 28 Novembro de 1568. Nesta data, Frei Jo\u00e3o inaugura com mais dois confrades a nova vida conventual preconizada pela Madre Teresa, em Duruelo, pequena localidade da Prov\u00edncia de \u00c1vila.<\/p>\n<p class=\"p4\">Os come\u00e7os s\u00e3o sempre prec\u00e1rios, mas auspiciosos. Frei Jo\u00e3o, dadas as solicita\u00e7\u00f5es de ingresso na nova vida agora iniciada vai desempenhar alguns of\u00edcios de formador at\u00e9 que em 1572 \u00e9 requisitado pela Madre Teresa para exercer o of\u00edcio de confessor no mosteiro da Encarna\u00e7\u00e3o de \u00c1vila, para onde ela tinha sido nomeada prioresa. Foram cinco anos de prof\u00edcuo apostolado na direc\u00e7\u00e3o espiritual das monjas, findos de forma violenta com a tempestade que desabou sobre a descalcez, originada pelos seus irm\u00e3os de h\u00e1bito contr\u00e1rios \u00e0 reforma iniciada. Estamos em Dezembro de 1577. Frei Jo\u00e3o foi sequestrado e reclu\u00eddo num pequeno cub\u00edculo no convento de Toledo onde, entre amea\u00e7as e promessas, disciplinas e exagerados jejuns, passou nove meses, conseguindo fugir, talvez com a anu\u00eancia dalgum apiedado carcereiro, em Agosto de 1578.<\/p>\n<p class=\"p4\">Dai para a frente a vida de Frei Jo\u00e3o desenrola-se na Andaluzia e em Castela exercendo v\u00e1rios cargos na sua Ordem, com prova\u00e7\u00f5es de toda a esp\u00e9cie que v\u00e3o amadurecendo a personalidade deste homem \u201ccelestial e divino\u201d, como o definiu a Madre Teresa (Cta 267-Obras Completas, 5\u00aa Edi\u00e7\u00e3o (2015) \u2013 Ed. Carmelo).<\/p>\n<p class=\"p4\">Por fim, foi desterrado para Pe\u00f1uela (Ja\u00e9n), onde recebe not\u00edcias alarmantes, pois denigria-se a sua pessoa e falava-se da sua expuls\u00e3o da Ordem. Frei Jo\u00e3o tudo suporta com imperturb\u00e1vel serenidade dado que j\u00e1 se encontra noutro patamar mais divino que humano e dedica-se \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e aos trabalhos do quintal \u201cpois \u00e9 mais bonito e melhor manusear estas criaturinhas mudas (gr\u00e3o de bico) do que ser manuseado pelas vivas\u201d ( Cta 28).<\/p>\n<p class=\"p4\">Sobreveio a enfermidade, pois o c\u00e1lice das prova\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o estava completo, e \u00e9 preciso recorrer ao apoio da medicina. Prop\u00f5e-lhe v\u00e1rias casas para essa finalidade e ele escolhe \u00dabeda onde \u00e9 menos conhecido. Suporta a doen\u00e7a com admir\u00e1vel paci\u00eancia e, morre, ali mesmo, em \u00dabeda, na primeira hora de 14 de Dezembro de 1591 porque desejava \u201cir cantar as matinas para o c\u00e9u\u201d (Cris\u00f3gono).<\/p>\n<p class=\"p5\"><span class=\"s3\"><b>Escritos<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">Arte dum poeta ou enlevos dum m\u00edstico?<\/p>\n<p class=\"p4\">Em S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz poesia e m\u00edstica andam lado a lado. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que o santo teve uma boa forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica na arte po\u00e9tica. Mais. Ele era um vate de gema. \u201c\u00c9 o maior poeta da l\u00edngua castelhana\u201d(G.M.). Mas consideremos, sobretudo, a sua estatura espiritual. Foi um homem que fez a experi\u00eancia de Deus e tamb\u00e9m recebeu a gra\u00e7a de a saber contar. \u00c9 aqui onde entra o artif\u00edcio liter\u00e1rio. No pr\u00f3logo do C\u00e2ntico Espiritual, ele pr\u00f3prio se pergunta: \u201cQuem poder\u00e1 exprimir o que Ele [Deus] transmite \u00e0s almas enamoradas em que habita? Quem poder\u00e1 dizer por palavras o que lhes faz sentir? [\u2026] Ningu\u00e9m certamente; nem as pr\u00f3prias almas onde isto se passa. \u00c9 por esta raz\u00e3o que deitamos m\u00e3o de imagens, compara\u00e7\u00f5es e exemplos, porque, melhor do que os argumentos, d\u00e3o a conhecer <span class=\"s3\"><i>algo<\/i><\/span> do que experimentam e da riqueza do esp\u00edrito derramam segredos e mist\u00e9rios\u201d (Prol. 1). O santo reconhece que, ao falar, fica muito aqu\u00e9m de transmitir a experi\u00eancia que viveu.<\/p>\n<p class=\"p4\">Para dizer alguma coisa sobre a sua obra escrita, recuo ao tempo em que esteve na pris\u00e3o conventual de Toledo. Puderam ali priv\u00e1-lo da liberdade naquele reduzido espa\u00e7o, mas n\u00e3o conseguiram encurralar-lhe a alma. Frei Jo\u00e3o pode sonhar e sonhou. Foi ali, no ventre daquele horroroso monstro, que se gerou a maior parte da sua poesia. A sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria consistiu pois, em primeiro lugar, na composi\u00e7\u00e3o de poemas, glosas ao divino e romances. Posteriormente, vieram os coment\u00e1rios a tr\u00eas dos seus poemas a pedido dos disc\u00edpulos e que deram origem \u00e0s suas grandes obras em prosa: Subida do Monte Carmelo, Noite Escura, C\u00e2ntico Espiritual e Chama de amor Viva. Al\u00e9m destas, temos que juntar um reduzido n\u00famero de cartas, que escaparam \u00e0 voragem dos seus exaltados perseguidores, as Cautelas e os Ditos de Luz e Amor. Aquelas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de avisos para fugir aos perigos mais frequentes na vida conventual e estes, pequenas m\u00e1ximas plenas de sabedoria, menu divino das suas filhas espirituais. Convido o leitor a passar os olhos pela \u00abOra\u00e7\u00e3o da alma enamorada\u00bb (Ditos n\u00ba 26 \u2013 Obras Completas \u2013 Ed. Carmelo 2005).<\/p>\n<p class=\"p4\">Os poemas s\u00e3o um encanto para os apreciadores de poesia. Destaco a Fonte, tamb\u00e9m denominado <span class=\"s3\"><i>credo de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz<\/i><\/span>, um poema composto na pris\u00e3o, ali mesmo nas margens do Tejo, em Toledo, onde se localizava o convento. Tem como t\u00edtulo: \u201cCantar da alma que folga em conhecer a Deus pela f\u00e9\u201d. \u00abDeus \u00e9 a fonte\u2026 \u2013 Confrontemos o texto com o in\u00edcio da segunda ora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica: \u2018V\u00f3s, Senhor, sois realmente Santo<span class=\"s3\"><i>, <\/i><\/span>sois<span class=\"s3\"><i> a fonte <\/i><\/span>de toda a santidade\u2026\u2019 \u2013 No poema, a noite diz respeito \u00e0 f\u00e9. Ele contempla nesta poesia o mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade e da Eucaristia \u00e0 luz da f\u00e9\u00bb (F. Ruiz). E concluo com esta linda estrofe do mesmo poema:<\/p>\n<p class=\"p6\">(Aqu)esta <span class=\"s3\"><i>eterna fonte<\/i><\/span> est\u00e1 escondida<\/p>\n<p class=\"p6\">Neste p\u00e3o <span class=\"s3\"><i>vivo<\/i><\/span> para dar-nos <span class=\"s3\"><i>vida<\/i><\/span>,<\/p>\n<p class=\"p6\">Embora seja noite.<\/p>\n<p class=\"p4\">Eloquente. S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz pretende avivar nos seus leitores o amor pela Eucaristia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Maria, OCD No dia 14 de Dezembro a Igreja celebra a festa lit\u00fargica de S. Jo\u00e3o da Cruz. 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