{"id":523,"date":"2017-06-18T14:25:29","date_gmt":"2017-06-18T14:25:29","guid":{"rendered":"http:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=523"},"modified":"2017-06-18T14:25:29","modified_gmt":"2017-06-18T14:25:29","slug":"o-deus-com-paixao-apaixonado-de-um-mundo-que-resiste-a-apaixonar-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-deus-com-paixao-apaixonado-de-um-mundo-que-resiste-a-apaixonar-se\/","title":{"rendered":"O Deus Com-Paix\u00e3o, apaixonado de um mundo que resiste a apaixonar-se"},"content":{"rendered":"<p class=\"p2\"><em><span class=\"s2\">Frei Carlos Gon\u00e7alves, OCD<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p4\">O nome que melhor designa o Deus revelado pelo Jesus Cristo \u00e9 o Deus <span class=\"s3\"><b><i>compaix\u00e3o e da miseric\u00f3rdia<\/i><\/b><\/span>: \u201c<span class=\"s3\"><i>contemplando, a multid\u00e3o, encheu-se de compaix\u00e3o por ela, pois estava cansada e batida, como ovelhas sem pastor<\/i><\/span>\u201d (Mat.9, 36). Esta apenas uma das in\u00fameras refer\u00eancias b\u00edblicas que nos revelam esta marca amorosa do Nosso Deus, que se vem repetindo ao longo deste ano jubilar da Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p class=\"p4\">Esta minha breve reflex\u00e3o com a fam\u00edlia do Carmelo, atrav\u00e9s do Boletim de Espiritualidade online, apenas visa partilhar alguns subs\u00eddios espont\u00e2neos, sem pretens\u00e3o de pesquisa cient\u00edfica, acerca desta realidade estruturante do Deus de Jesus Cristo de que me sinto agraciado por saber que est\u00e1 apaixonado pelo ser humano e que se compadece de cora\u00e7\u00e3o (<span class=\"s3\"><i>misereri-cordis<\/i><\/span>) pela causa humana.<\/p>\n<p class=\"p4\">Num contexto hist\u00f3rico e cultural das sociedades ocidentais, ditas desenvolvidas, onde o economicismo e as l\u00f3gicas do consumo e do possuir se imp\u00f5em como as grandes refer\u00eancias deste nosso \u201cadmir\u00e1vel mundo novo\u201d (Aldous Huxley, 2003); onde a grandes narrativas religiosas e ideol\u00f3gicas parecem ter entrado em colapso; onde se acede, atrav\u00e9s do espa\u00e7o cybernet, a m\u00faltiplas mensagens contradit\u00f3rias e igualmente v\u00e1lidas enredando-nos num relativismo vazio; onde as dimens\u00f5es da comunidade foram pulverizadas pelo imp\u00e9rio do individualismo narc\u00edsico; estas marcas culturais, entre outras, contribuem, de forma decisiva, para a emerg\u00eancia de um caldo cultural pantanoso que nos torna mais vulner\u00e1veis em termos pessoais e sociais, colocando em risco, a integra\u00e7\u00e3o mais profunda da nossa identidade como membros de uma cultura constru\u00edda a partir da mensagem crist\u00e3.<\/p>\n<p class=\"p4\">Esta cultura mediatizada por redes e com dimens\u00f5es pantanosas e l\u00edquidas, onde at\u00e9 o amor \u00e9 l\u00edquido (Bauman, 2006) n\u00e3o oferece os fundamentos\/cimentos que consolide a integra\u00e7\u00e3o pessoal, social e religiosa que foi garantida durante s\u00e9culos pelas grandes narrativas culturais e religiosas. Como a dimens\u00e3o do religioso, reduzida frequentemente \u00e0 esfera do privado e a meros rituais ou devo\u00e7\u00f5es sem sentido, corre-se o perigo de ser apenas mais uma proposta, e n\u00e3o se afirmar como uma mundivid\u00eancia integradora e veiculadora de sentidos plenos desde as grandes refer\u00eancias que nos v\u00eam do Evangelho de Jesus como Boa Not\u00edcia, correndo-se o risco de nos sentirmos privados da experi\u00eancia desta <span class=\"s3\"><b><i>com-<br \/>\n-paix\u00e3o<\/i><\/b><\/span> de Deus pela humanidade de hoje. Ele continua apaixonado de cora\u00e7\u00e3o, mas os humanos de hoje, inclusive os que se dizem crist\u00e3o, s\u00e3o evitantes a esta mensagem amorosa e complacente, porque mergulhados e ludibriados em paix\u00f5es ef\u00e9meras, intensas, l\u00edquidas e descart\u00e1veis, produtoras de vulnerabilidade e sofrimentos. Nem amamos nem nos deixamos amar!<\/p>\n<p class=\"p4\">Os saberes das ci\u00eancias sociais e humanas, mesmo <span class=\"s1\">sem assumirem explicitamente este Deus <\/span><span class=\"s4\"><b><i>com-paix\u00e3o<\/i><\/b><\/span><span class=\"s1\"> e <\/span><span class=\"s4\"><b><i>misericordioso,<\/i> <\/b><\/span><span class=\"s1\">denunciam claramente o <\/span>cen\u00e1rio alarmante e auto-destruidor das sociedades contempor\u00e2neas. Salman Rushdie (1991) para caracterizar o momento atual afirmava que o <span class=\"s3\"><i>self <\/i><\/span>atual \u00e9 \u201cum edif\u00edcio fragmentado, amb\u00edguo e inseguro constru\u00eddo a partir de retalhos, dogmas, inj\u00farias infantis, artigos sensacionalistas de opini\u00e3o, coment\u00e1rios casuais, pequenas e ef\u00e9meras vit\u00f3rias, gente que odiamos e amamos\u201d (p. 12). Para o autor, a narrativa pessoal e social constr\u00f3i-se a partir de uma fragmenta\u00e7\u00e3o acumulada de experi\u00eancias ef\u00e9meras feitas de sucessivos \u201cagoras\u201d e \u201crecome\u00e7os\u201d cont\u00ednuos.<\/p>\n<p class=\"p4\">Na mesma perspetiva, Antonny Giddens (1997) sublinhava: \u201cO <span class=\"s3\"><i>self <\/i><\/span>nas sociedades contempor\u00e2neas \u00e9 d\u00e9bil, quebradi\u00e7o, fraturado, fragmentado\u2026 tal como o mundo social se torna disperso, tamb\u00e9m o <span class=\"s3\"><i>self <\/i><\/span>deixa efetivamente de existir com um sentido de coer\u00eancia; o sujeito singular \u00e9 um sujeito descentrado que encontra a sua identidade nos fragmentos da linguagem e dos discursos ef\u00e9meros\u201d (p. 156). Neste sentido, o novo espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de sentidos para a experi\u00eancia humana situar-se-\u00e1 algures entre a liberdade e o risco, a imprevisibilidade e o caos, a seguran\u00e7a e o burlesco<span class=\"s5\">,<\/span> o progresso econ\u00f3mico sem limites e o seu pr\u00f3prio colapso, o relativismo em que estamos mergulhados e a dificuldade em encontrarmos refer\u00eancias \u00e9ticas criteriosas para nos posicionarmos de forma cr\u00edtica face \u00e0 realidade.<\/p>\n<p class=\"p4\">O homem comum, produto desta cultura \u201crecicl\u00e1vel\u201d, flex\u00edvel, polivalente e consumista, \u00e9 o homem ir\u00f3nico de R. Rorty: \u201cque nunca \u00e9 capaz de assumir-se a s\u00e9rio, porque \u00e9 sempre consciente de que os contornos em que se experiencia est\u00e3o sujeitos \u00e0 mudan\u00e7a, \u00e9 sempre consciente da conting\u00eancia e da fragilidade do seu vocabul\u00e1rio final, e, portanto, de si mesmo\u201d (<span class=\"s3\"><i>in<\/i><\/span> Sennet, 1998, p. 122). Ou ainda, com afirma Bauman (2006), nas sociedades l\u00edquidas, onde as aus\u00eancias de bases seguras se fazem sentir, at\u00e9 o pr\u00f3prio amor: \u00e9 um amor l\u00edquido, como consequ\u00eancia, a fam\u00edlia, a sociedade\u2026 s\u00e3o l\u00edquidas!<\/p>\n<p class=\"p4\">Estas an\u00e1lises macro psicossociais que caraterizam as sociedades contempor\u00e2neas ocidentais t\u00eam um impacto determinante na forma como os sujeitos constroem as suas vidas privadas e familiares com as mesmas marcas do ef\u00e9mero, do fragmentado, do fraturado, do individualismo insolid\u00e1rio e feroz com d\u00e9fices de dimens\u00e3o p\u00fablica e comunit\u00e1ria: o que se ganha em individualidade e privacidade perde-se em sentido de perten\u00e7a e identidade a uma comunidade de cultura e valores, de ser Igreja ao servi\u00e7o do an\u00fancio deste Deus que quer devolver \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana a sua identidade de ser construtora de uma cultura do Amor deixando-se apaixonar pelo Deus apaixonado de Cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p4\">Concluindo esta minha partilha despretensiosa: ningu\u00e9m constr\u00f3i rela\u00e7\u00f5es apaixonadas e amorosas consistentes com os outros se n\u00e3o se deixar apaixonar pelo Deus Amor. Isto \u00e9, ningu\u00e9m estar\u00e1 aberto \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus e dos irm\u00e3os se n\u00e3o se aceitar, de forma responsabilizante, nos seus limites e se deixar curar pela toler\u00e2ncia ilimitada da miseric\u00f3rdia, da <span class=\"s3\"><b><i>com-paix\u00e3o<\/i><\/b><\/span> de Deus e dos irm\u00e3os. A pessoa egocentrada, insegura, orgulhosa e desconfiada n\u00e3o apenas resiste ao perd\u00e3o do Outro e dos seus irm\u00e3os como se autoflagela nas suas obsess\u00f5es compulsivas de perfecionismo egoc\u00eantrico n\u00e3o reconhecendo as suas fragilidades e limites, mas confinando-se incontornavelmente a um mundo de puro narcisismo e sem perspetivas de abertura ao Futuro do Deus COMPAIX\u00c3O E MISERICORDIOSO.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Carlos Gon\u00e7alves, OCD O nome que melhor designa o Deus revelado pelo Jesus Cristo \u00e9 o Deus compaix\u00e3o e da miseric\u00f3rdia: \u201ccontemplando, a multid\u00e3o, encheu-se de compaix\u00e3o por ela, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-523","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","et-doesnt-have-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=523"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/523\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":524,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/523\/revisions\/524"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}