{"id":495,"date":"2017-06-18T14:13:36","date_gmt":"2017-06-18T14:13:36","guid":{"rendered":"http:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=495"},"modified":"2017-06-18T14:13:36","modified_gmt":"2017-06-18T14:13:36","slug":"a-catedral-da-esperanca-e-da-misericordia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-catedral-da-esperanca-e-da-misericordia\/","title":{"rendered":"A catedral da esperan\u00e7a e da miseric\u00f3rdia"},"content":{"rendered":"<p class=\"p2\"><em><span class=\"s2\">Avelino Fernandes Lopes<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p4\">\u201c<span class=\"s3\"><i>H\u00e1 momentos nos quais, seja qual for a posi\u00e7\u00e3o do corpo, a alma est\u00e1 de joelhos<\/i><\/span>\u201d, disse Victor Hugo, escritor franc\u00eas do s\u00e9c. XIX (1802-1885). S\u00e3o estes momentos que transformam a cama de um hospital num \u201ctemplo\u201d sempre que suporta um corpo em sofrimento.<\/p>\n<p class=\"p5\">Daniel, um jovem de 36 anos, forte e bem constitu\u00eddo, com um cancro nos pulm\u00f5es e met\u00e1stases \u00f3sseas, tenta ocultar o sofrimento e a tristeza que naturalmente lhe marcam o rosto. Cat\u00f3lico, praticante, pede a minha presen\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p5\">\u2013 Embora tenha f\u00e9 n\u00e3o quero morrer, tenho medo de morrer. Pode me chamar o sr. Padre do Hospital?, suplicou lacrimoso e com a voz debilitada \u00e0 enfermeira de servi\u00e7o.<\/p>\n<p class=\"p5\">Desde ent\u00e3o n\u00e3o prescindiu da minha visita di\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"p5\">Tem um filho com 10 anos, de quem me fala muitas vezes, tantas quantas se lembra que a morte est\u00e1 pr\u00f3xima. Tem tamb\u00e9m uma esposa magn\u00edfica, corajosa. Corajosa e com um cora\u00e7\u00e3o feito de generosidade, que o acompanha todo o tempo que lhe \u00e9 poss\u00edvel. Tem ainda muitos amigos, que lhe trazem os presentes mais preciosos da vida. Amizade, mem\u00f3rias, fraternidade, alegria\u2026 S\u00e3o momentos de pausa, em t\u00e3o tenebrosa doen\u00e7a que lhe vai consumindo e debilitando o corpo.<\/p>\n<p class=\"p5\">Apesar do medo de morrer, como dizia, a esperan\u00e7a de Daniel ultrapassava os limites das portas que via fecharem-se cada dia. Talvez cada hora. A caminho da morte, falava-me das maravilhas da vida. Das maravilhas com que Deus o brindara. Falava serenamente e com a naturalidade que o caraterizava, embora partilhasse a enfermaria com o vizinho \u201cagn\u00f3stico\u201d, o sr. Carlos, de 68 anos, que tinha dificuldade em compreender \u201cum Deus que permite doen\u00e7as, o sofrimento, a fome, a morte de crian\u00e7as, o tr\u00e1fico humano, agress\u00f5es de toda a esp\u00e9cie\u2026<\/p>\n<p class=\"p5\">\u2013 Amigo, Deus n\u00e3o tem nada a ver com isso. N\u00e3o acredito nesse Deus, sr. Carlos, Deus \u00e9 Amor e pede que o sejamos tamb\u00e9m. Somos n\u00f3s que permitimos e cometemos esses horrores. \u2013 E ent\u00e3o, as doen\u00e7as? Pergunta Carlos, em tom de desafio. \u2013 As doen\u00e7as\u2026 acha l\u00f3gico que Deus no-las d\u00ea para depois nos enviar o seu Filho como M\u00e9dico?<\/p>\n<p class=\"p5\">\u2013 Bem\u2026 ent\u00e3o, para que serve Deus?, continua Carlos. \u2013 Para nos ensinar a Amar, sr. Carlos! O homem de hoje ama menos, porque est\u00e1 mais distante de Deus. O mundo seria muito, muito melhor, se entendesse a linguagem deste Deus que \u00e9 Amor, que \u00e9 miseric\u00f3rdia. A fome, a viol\u00eancia, os maus tratos das crian\u00e7as e dos velhinhos, a droga, o \u00e1lcool, o sofrimento e at\u00e9 as doen\u00e7as, tudo isto tem mais a m\u00e3o do homem que a de Deus!&#8230;<\/p>\n<p class=\"p5\">De dia para dia, o corpo e a voz de Daniel definhavam, enquanto que o seu vizinho \u201cagn\u00f3stico\u201d se tornava um homem mais doce nos sentimentos, no trato e na linguagem.<\/p>\n<p class=\"p5\">Daniel pressentia a sua morte, era-lhe j\u00e1 familiar: sufocava-lhe o pouco que tinha para dizer: \u2013 Est\u00e1 tudo bem. Acredite que sinto muita paz\u2026, dizia-me.<\/p>\n<p class=\"p5\">Sim, e eu acreditava, porque tudo tinha mudado naquela enfermaria: uma verdadeira catarse! Daniel j\u00e1 n\u00e3o tinha medo de morrer, conforme exteriorizava quando entrou. Suas \u00faltimas palavras emergiam de uma espiritualidade que lhe vinha de dentro, das entranhas trespassadas pela doen\u00e7a tir\u00e2nica que o consumia lentamente.<\/p>\n<p class=\"p5\">O \u201cmeu menino\u201d, referindo-se ao filho, a esposa e os amigos, continuavam a ser o b\u00e1lsamo que lhe suavizava o sofrimento, a fraternidade que o ligava ao Amor, a luz que lhe adiava as trevas, mas\u2026 mas chegara a hora, aquela hora de que Daniel j\u00e1 n\u00e3o tinha medo, e que eu n\u00e3o presenciei.<\/p>\n<p class=\"p5\">Carlos, n\u00e3o era o mesmo. Conhecia apenas o deus feito \u00e0 fei\u00e7\u00e3o de cada um, o deus \u00e0 nossa imagem; conhecia o deus que diziam fazer milagres e que resolvia os conflitos e problemas de cada um\u2026<\/p>\n<p class=\"p5\">Tamb\u00e9m para ele, a cama em que se deitara foi o templo que o levou a olhar para dentro: ali \u201cajoelhou sua alma\u201d e compreendeu que existe o Deus \u00danico, o M\u00e9dico Misericordioso que cura com Amor. Compreendeu o Deus que pede insistentemente ao homem que seja solid\u00e1rio, amigo, fraterno para com os seus semelhantes. Compreendeu que todo o homem tem poder para o milagre, se \u00e9 Amor. Compreendeu Aquele Deus que o Daniel trazia dentro de si e lhe mostrou desde o seu \u201caltar\u201d vizinho, naquela \u201ccatedral da esperan\u00e7a e da miseric\u00f3rdia\u201d, onde ajoelhou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Avelino Fernandes Lopes \u201cH\u00e1 momentos nos quais, seja qual for a posi\u00e7\u00e3o do corpo, a alma est\u00e1 de joelhos\u201d, disse Victor Hugo, escritor franc\u00eas do s\u00e9c. XIX (1802-1885). 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