{"id":4924,"date":"2026-10-31T02:28:00","date_gmt":"2026-10-31T02:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4924"},"modified":"2026-10-30T09:30:34","modified_gmt":"2026-10-30T09:30:34","slug":"velhice-no-novo-testamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/velhice-no-novo-testamento\/","title":{"rendered":"Velhice no Novo Testamento"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Novo Testamento herda do Antigo a vis\u00e3o que este tinha da longevidade e da etapa final da vida humana, vivida de recorda\u00e7\u00e3o, de mem\u00f3ria, da tradi\u00e7\u00e3o que se projecta para o futuro. E oferece-lhe a espec\u00edfica mensagem de Jesus a abrir a pessoa ao presente e a libertar a longevidade de preocupa\u00e7\u00f5es, mesmo nos \u00eaxitos: \u201cQuem de v\u00f3s, por mais que se preocupe, \u00e9 capaz de acrescentar um c\u00f4vado \u00e0 dura\u00e7\u00e3o da sua vida?\u201d (Mt 6,27). \u00c0 medida que avan\u00e7a na idade, o crist\u00e3o vai fazendo a s\u00edntese da vida, centrando-se no essencial, at\u00e9 ao dia em que fica com o evangelho de Jo\u00e3o e com a carta aos Romanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lucas, no in\u00edcio do evangelho, ligando o Antigo com o Novo Testamento, apresenta quatro personagens emblem\u00e1ticas de idade bem avan\u00e7ada, em que se toca ao vivo o envelhecer com esplendor. S\u00e3o os anci\u00e3os Zacarias e Isabel, Sime\u00e3o e Ana. Aparecem pr\u00f3ximos do sagrado, o lugar em que tudo cobra sentido. Neles transparece a nobre velhice aben\u00e7oada por Deus. Estes guardi\u00e3es da tradi\u00e7\u00e3o t\u00eam uma fina percep\u00e7\u00e3o do des\u00edgnio de Deus para com a humanidade e remetem para o mais importante dele: a vinda do Filho, na pessoa do Messias, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. Tornam-se primeiras testemunhas dessa vinda esperada, agora realizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O s\u00e1bio Sime\u00e3o, pegando no menino, identificou-o com \u201ca tua salva\u00e7\u00e3o, Senhor\u201d. \u201cO Esp\u00edrito Santo estava nele\u201d (2,25). Viu os des\u00edgnios de Deus a realizarem-se nessa crian\u00e7a misteriosa. Ligando a ele os fragmentos da sua vida, penetrou no mist\u00e9rio que a valorizava, certo de que uma certa dose de mist\u00e9rio lhe d\u00e1 mais conforto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da\u00ed a exclama\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o de Sime\u00e3o: \u201cAgora, Senhor, podes deixar partir o teu servo em paz\u2026, porque os meus olhos viram [o dom d]a tua salva\u00e7\u00e3o\u201d. Era a satisfa\u00e7\u00e3o na despedida, pois n\u00e3o h\u00e1 prazer compar\u00e1vel \u00e0 alegria de ter servido o Amor. Sime\u00e3o j\u00e1 se exprimia ent\u00e3o como no s\u00e9c. XX o poeta checo Rainer Maria Rilke: que o ser humano est\u00e1 constantemente a despedir-se de tanta coisa, como que subindo ao cimo da colina da vida e a olhar para tr\u00e1s dizendo adeus antes de descer para a outra vertente, a da grande idade. O idoso Sime\u00e3o estava em flagrante situa\u00e7\u00e3o de despedida, dispondo-se \u00e0 ren\u00fancia e ao desapego que purifica, abrindo-se mais \u00e0 convers\u00e3o do passageiro para o Eterno: \u201cAgora, Senhor, podes deixar partir o teu servo em paz\u201d. Era a ora\u00e7\u00e3o da grande idade (cf. A. GR\u00dcN, <em>A sublime arte de envelhecer<\/em> [Cuidar &amp; curar; Paulinas; Prior Velho 2009] 11-39). Nela sentia que aquele era o momento pelo qual e para o qual tinha valido a pena viver. Tendo visto o menino Jesus, viu o que tantos desejaram ver e n\u00e3o viram (Lc 10,24). O Sime\u00e3o que tinha vivido na f\u00e9 em Deus sem fazer gest\u00e3o de risco fez um caminho sem defesas com um Deus que ao fim, no Filho, se ofereceu como companheiro de uma viagem sem fim. Com a releitura de toda a sua vida, o anci\u00e3o Sime\u00e3o sentia que, depois do encontro com Jesus, ela se tinha \u2018cumprido\u2019, dando-a por bem gasta. \u201cTomar o menino nos seus bra\u00e7os e bendizer Deus\u201d era uma met\u00e1fora aberta da presen\u00e7a de Deus, de Deus a aben\u00e7oar o seu povo, e elevava-se \u00e0 altura de um denso poema nos acontecimentos paradigm\u00e1ticos da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Shakespeare dividia a vida humana em sete idades, quais actos de um drama teatral. E rematava: \u201cA cena final que encerra esta hist\u00f3ria estranha e cheia de acontecimentos \u00e9 uma segunda meninice e completo esquecimento, sem dentes, sem vista, sem gosto\u2026\u201d (<em>As you like it<\/em>, Acto II, cena VII) e sem ouvido. Agora \u00e0 velhice chamam terceira idade e h\u00e1 quem fale de \u201cquarta idade\u201d ou \u201cgrande idade\u201d (a dos que sa\u00edram da vida activa com pens\u00e3o, reforma, sa\u00fade e vitalidade, a dos ultra-idosos, depois dos 80 anos). Sime\u00e3o, por\u00e9m, intuiu que a melhor idade come\u00e7a quando percebemos que s\u00f3 temos uma. Esta era a importante tarefa da grande idade: apontar a luz que brilha no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como bem se nota, estes quatro anci\u00e3os s\u00e3o transformados em porta-vozes do Esp\u00edrito de Deus, arautos do advento do Novo de Deus. T\u00eam Deus como horizonte de vida e s\u00e3o situados por Lucas em contexto de ora\u00e7\u00e3o, especialmente de louvor, porque sentiriam a falta d\u2019Ele, no sentido de que n\u00e3o prescindiam d\u2019Ele. A ora\u00e7\u00e3o era a atmosfera em que viviam os anci\u00e3os b\u00edblicos. Com ela faziam mem\u00f3ria do passado, unindo os acontecimentos uns com os outros, reconhecendo a exist\u00eancia de Deus. A profetisa Ana, \u201cmuito avan\u00e7ada nos dias\u201d, do alto dos seus \u201c84 anos nem se afastava do templo\u201d: \u201cdava testemunho de Deus e falava do menino a todos os que esperavam a reden\u00e7\u00e3o de Israel\u201d (Lc 2,36-38). Com a ora\u00e7\u00e3o, entregavam a Deus os seus muitos anos de vida. A ora\u00e7\u00e3o envolvia o seu corpo enrugado no novo tempo salv\u00edfico inaugurado por Jesus, colocando-os aos quatro no horizonte definitivo da vida para sempre com Deus. A ora\u00e7\u00e3o era o espa\u00e7o em que o idoso fazia o ensaio da definitiva \u201cvis\u00e3o face a face\u201d de Deus (1Cor 13,12). A percep\u00e7\u00e3o n\u00edtida da caducidade que a pele rugosa comportava fazia surgir, em quem a aceitava, a consci\u00eancia l\u00facida da diferen\u00e7a entre aquilo que passa e aquilo que permanece: \u201cA minha carne e o meu cora\u00e7\u00e3o desfalecem: rochedo para o meu cora\u00e7\u00e3o e minha heran\u00e7a \u00e9 Deus para sempre\u201d \u2013 rezava o velho salmista do salmo 73,26, dando-lhe uma sonoridade argentina. O anci\u00e3o b\u00edblico era uma pessoa de cora\u00e7\u00e3o aberto \u00e0 procura de um rosto invis\u00edvel: \u201c\u00c9 o teu rosto que eu procuro, Senhor; n\u00e3o escondas de mim o teu rosto\u201d (Sl 27,8-9). Os salmos ofereciam uma tonalidade de louvor \u00e0 sua ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A idade avan\u00e7ada n\u00e3o \u00e9 lugar de estacionamento mas a \u00faltima aula de crescimento da sabedoria e de educa\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito: \u00e9 a idade do esp\u00edrito por excel\u00eancia, n\u00e3o um castigo mas uma promessa (P. BRUCKNER, <em>Un instante eterno. Filosof\u00eda de la longevidad<\/em> [Siruela; Madrid 2021, cap\u00edtulo 2]). O crente tem diante de si, n\u00e3o o vazio de uma vida mas o encontro gozoso com o Deus transcendente, a quem pode dizer como o salmista: \u201cEu estarei sempre contigo\u201d (Sl 73,23-25). Se alguns de n\u00f3s j\u00e1 temos mais tempo vivido do que tempo por viver, salva-nos desse desconforto o pensamento de que o amor investido no passado e no futuro \u00e9 eterno, como as muralhas de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD O Novo Testamento herda do Antigo a vis\u00e3o que este tinha da longevidade e da etapa final da vida humana, vivida de recorda\u00e7\u00e3o, de mem\u00f3ria, da tradi\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4901,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4924","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4924","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4924"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4924\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4925,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4924\/revisions\/4925"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4901"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4924"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4924"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4924"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}