{"id":4922,"date":"2026-10-31T02:26:00","date_gmt":"2026-10-31T02:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4922"},"modified":"2026-10-30T09:28:32","modified_gmt":"2026-10-30T09:28:32","slug":"deus-sonha-te-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/deus-sonha-te-melhor\/","title":{"rendered":"Deus sonha-te melhor"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>setembro\u00a0 23, 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele h\u00e1 horas\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois dum longo interregno por causa de doen\u00e7a prolongada, um homem de 42 anos regressou ao trabalho. No primeiro quarto de hora do primeiro dia, entrou num terreno para, depois de muito tempo, cumprir a sua primeira empreitada. Vinha feliz, por regressar ao trabalho e poder levar \u2013 com honra, suor e justi\u00e7a \u2013 o p\u00e3o \u00e0 mesa da sua fam\u00edlia. Deu tr\u00eas passos e, ao terceiro, uma abelha pequenina e nervosa picou-o. Outras o perseguiram mas, correndo, ele refugiou-se dentro duma retroescavadora. E morreu ali. Mais tarde os m\u00e9dicos confirmaram: morrera v\u00edtima da picada duma pequenina abelha s\u00f3!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o existe hora feliz para se morrer, mas acontecer aos 42 anos e duma picada duma abelha nervosa\u2026 \u00e9 inesperadamente triste.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto o P\u00e1roco celebrava as ex\u00e9quias e abra\u00e7ava a fam\u00edlia eu recordava que, de facto, ningu\u00e9m sabe a sua hora\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>setembro 26, 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ex\u00e9quias de Maria Fernanda, oitenta e pico anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A uma fileira de vides, seguida de outra, e de outras e mais outras e muitas mais, a esse conjunto de fileiras chamamos vinha. As antigas que eu ainda conheci bem bordejavam as leiras e os campos, deixando o centro para o milho, a batata e o feij\u00e3o crescerem. Era todo um poema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como digo, ainda lembro a vinha de enforcado, de arames certeiramente tensionados entre choupos e l\u00f3d\u00e3os. E lembro das ramadas enormes, por vezes alt\u00edssimas, com seus travess\u00f5es de madeira ou de ferro assentes em esteios, e estes presos e tensionados por <em>arriostas<\/em> \u00e0 terra. Lembro bem que estas estruturas suportavam os longos bra\u00e7os das cepas que, no seu conjunto, por vezes davam uma pipa ou duas de vinho \u2013 uma fortuna, diga-se!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perguntar\u00e1s tu, leitor, leitora: todo este relamb\u00f3rio, afinal, para qu\u00ea? Bem, \u00e9 f\u00e1cil: pessoas existem entre n\u00f3s, isto \u00e9, na comunidade, que s\u00e3o como esteios, outras como <em>arriostas<\/em>, outras como arames, enfim, como suporte sobre o qual muitos estendem os bra\u00e7os e d\u00e3o depois abundantes frutos e vida. Sei que sabem do que falo: se existem uns que no p\u00e9 da videira n\u00e3o passam de ladr\u00f5es \u2013 de rebentos que chupam e comem, mas n\u00e3o d\u00e3o fruto \u2013, outros existem que s\u00e3o generosos e d\u00e3o o que podem, animam, encorajam, empoderam e saciam a tantos! A tantos!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu conheci uma pessoa assim. Bem, verdade, verdadinha, n\u00e3o conheci, n\u00e3o, apenas presidi \u00e0s suas ex\u00e9quias. Chamava-se Maria Fernanda e morreu velhinha. Tinham-me dito que em vida fora laboriosa e forte como um esteio, valente como uma <em>arriosta<\/em>, arrojada como um arame que vai duma ponta a outra, dispon\u00edvel para acolher um estendal de bra\u00e7os e grandes cachos de uva. E n\u00e3o me haviam enganado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim da eucaristia, as netas \u2013 alguma j\u00e1 com filhos \u2013 rodearam o caix\u00e3o, e a quinta, entre l\u00e1grimas e solu\u00e7os, leu um preito de gratid\u00e3o \u00e0 V\u00f3 Fernanda. Estas coisas ouvem-se com respeito, e eu ouvi, e chora-se e guarda-se no cofre da alma. E n\u00e3o h\u00e1 mais movimento. E eu n\u00e3o fiz mais movimento. J\u00e1 no cemit\u00e9rio, antes de descermos o corpo \u00e0 terra, lembrei que Santa Teresinha dissera que no c\u00e9u trabalharia para colher rosas e lan\u00e7ar p\u00e9talas sobre a terra. \u00c9 uma imagem bonita, porque existe c\u00e9u e n\u00e3o \u00e9 uma praia, nem um camarote donde se assista, imp\u00e1vido, ao que se passa na terra, ou se fique a contemplar um eterno jogo de futebol ou um qualquer concerto. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso. Estar de c\u00e9u \u2013 desculpem, n\u00e3o me sai termo melhor \u2013 tem o seu qu\u00ea de laboriosidade intensa: lan\u00e7ar repetidas rosas sobre a terra! Rosas, n\u00e3o espinhos, nem bombas! Rosas!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 assim como eu vejo aquela fam\u00edlia: herdeiros duma mulher valente, pe\u00f5es ou soldados duma capit\u00e3 ind\u00f3mita que, frente ao vento, ao sol ou a uma saraivada, suportava uma vinha, cuidava e alimentava uma tribo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, aprendi que certos homens \u2013 e tamb\u00e9m certas mulheres, j\u00e1 agora \u2013 s\u00e3o bons trabalhadores, n\u00e3o porque trabalhem muito, mas porque como bons mandadores valem por dez trabalhadores!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Exactamente nesta hora, precisamos de gente assim; por isso \u00e9 que disse \u00e0s netas (e aos bisnetos): bora l\u00e1, toca a fazer como a V\u00f3 Fernanda!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>setembro 28, 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Di\u00e1logo matinal um:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Ontem visitei o meu tio no hospital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 J\u00e1 consegue falar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Muito baixinho, mas \u00e9 como se fosse alto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Ora, pois, se o ouvirem j\u00e1 n\u00e3o se perde tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sabe que em menos de duas semanas fez tr\u00eas opera\u00e7\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 N\u00e3o sabia\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 A primeira durou doze horas! No total das tr\u00eas, foram mais de trinta horas\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Valha-o Deus\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sabe como acordou da \u00faltima?&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Perdido e assarapantado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 N\u00e3o! A rezar. A rezar! Repare bem! E os m\u00e9dicos com ele!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Di\u00e1logo matinal dois:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 O Papa segue em Fran\u00e7a, verdade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sim, segue. L\u00e1 vai caminhando como peregrino, levando-nos com ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Um verdadeiro triunfo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Custa-me essa ideia de triunfo ligada a uma Peregrina\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sabe o que lhe digo: A Fran\u00e7a \u00e9 crist\u00e3, a rep\u00fablica \u00e9 que \u00e9 laica! J\u00e1 viu?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 N\u00e3o sei bem, mas haja esperan\u00e7a. Deixemos assentar a poeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Outubro 01, 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelas rosas e pelos ara\u00e7\u00e1s, o dia soube-me a c\u00e9u. Os ara\u00e7\u00e1s s\u00e3o uns frutos pequeninos, avermelhados, levemente c\u00edtricos. Sorvo-os pela frescura da manh\u00e3; e fico em modo c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><strong>Outubro<\/strong><\/strong> <strong>02, 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando em peregrina\u00e7\u00e3o \u2013 de resto, como todos n\u00f3s\u2026 \u2013 um Papa prolonga-se em salutares efeitos, bem para al\u00e9m dos dias de peregrina\u00e7\u00e3o. Com Le\u00e3o XIV, em Fran\u00e7a, tamb\u00e9m; a\u00ed vai:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Deus sonha-te melhor (Le\u00e3o XIV).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Na Vig\u00edlia pascal deste ano baptizaram-se vinte mil jovens adultos s\u00f3 em Fran\u00e7a. Tal \u00e9, ali, o crescimento exponencial a ponto de muitos dizerem que a Fran\u00e7a \u00e9 crist\u00e3, s\u00f3 a rep\u00fablica \u00e9 que \u00e9 laica. Mas o que ningu\u00e9m pode ignorar \u2013 e a presen\u00e7a do Papa evidenciou \u2013 \u00e9 que no pa\u00eds das luzes, uma luz h\u00e1 que mais rebrilha: A Luz!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Durante aquela Peregrina\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica cantou-se muito em latim. Enfim, n\u00e3o \u00e9 que o latim fa\u00e7a crescer o cristianismo, aqui ou em Fran\u00e7a, mas este ali cresce, e crescendo, cresce o gosto por cant\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que mais me surpreendeu foi a ladainha entoada por oitenta mil jovens (muitos dos quais baptizados apenas este ano!), na Vig\u00edlia com o Papa. N\u00e3o sou m\u00fasico, mas pareceu-me cantada em modo marcha, por vezes intensa e vibrantemente acelerada, como se todos estiv\u00e9ssemos a caminhar apressadamente para a gl\u00f3ria! Havia uma orquestra (onde sobressa\u00eda uma bateria, parece-me\u2026), um grande coro e uma encena\u00e7\u00e3o simples e eficaz. Foi cantada em franc\u00eas (para que melhor se compreendessem as invoca\u00e7\u00f5es?&#8230;) e combinada com palmas, efeitos visuais e fogo de artif\u00edcio. Rezar assim, como naquela vig\u00edlia n\u00e3o custa \u2013 o pior \u00e9 quando a orquestra mete a viola ao saco!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por vezes, talvez por necessidade, talvez por deleite, talvez para me encorajar, volto a reouvir essa ladainha. O efeito \u00e9 tal que logo me d\u00e1 vontade de l\u00e1 constar; quando mais n\u00e3o seja quando o coro entoa: <em>\u2013 Santos e Santa de Deus, rogai por n\u00f3s<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><strong>Outubro<\/strong><\/strong> <strong>04, 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, ainda manh\u00e3zinha, ainda na cama, descobri a can\u00e7\u00e3o com que a Fran\u00e7a se despediu do peregrino Le\u00e3o XIV. Chama-se <em>Quand tu t\u2019en iras<\/em> (Quando voc\u00ea for embora) \u00e9 cantada por Eva Molenmaker, uma menina de 13 anos. Originalmente a can\u00e7\u00e3o \u00e9 dirigida \u00e0 Virgem Maria, mas foi dedicada ao Papa; diz assim:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando fores embora,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>ter\u00e1s de nos deixar ternura.<br>Para n\u00e3o sentirmos frio<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>em nossas manh\u00e3s de fraqueza.<br>Quando fores embora,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>ter\u00e1s de nos deixar amor<br>Quando fores embora&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando fores embora,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>guardarei um doce sorriso.<br>Momentos de alegria \u00e0 noite<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>antes de adormecer.<br>Quando fores embora,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>se quiseres voltar para dar uma volta<br>estaremos sempre aqui&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u00d3 Maria, tem piedade<br>\u00d3 Maria, tem piedade<br>Faz com que este mundo<br>Viva de amor<br>De alegria<br>De paz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando fores embora,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>nunca esque\u00e7as que os teus filhos.<br>Precisam de ti<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>para aprender a crescer.<br>Quando fores embora,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>ter\u00e1s de nos deixar paz.<br>Quando fores embora&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando fores embora,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>ter\u00e1s de nos dar not\u00edcias.<br>Pouca coisa, n\u00e3o importa o qu\u00ea,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>um ru\u00eddo que nos desperte.<br>Quando fores embora,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>nunca nos deves esquecer<br>a todos n\u00f3s aqui em baixo&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u00d3 Maria, tem piedade<br>\u00d3 Maria, tem piedade<br>Faze com que este mundo<br>Viva de amor<br>De alegria<br>De paz.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Outubro 08, 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Concelebro com oito Irm\u00e3os, quatro deles alcan\u00e7aram j\u00e1 o direito a serem nomeados anci\u00e3os. Depois de uns dias ligeiramente enevoados e frescos, poderoso o sol reluziu hoje de manh\u00e3zinha. Ao sair da ora\u00e7\u00e3o de laudes, e a caminho da sacristia, sempre damos dez passos pelos claustros para nos revestirmos para a Missa. Hoje comos sempre. Enquanto arrastava pesados passos, diz-me um com certa alegria ing\u00e9nua:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Olha um pardal!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, como a sua dic\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00e1 e por eu n\u00e3o ter percebido prontamente a mensagem, devolvi meio desligado:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Qu\u00ea?!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 \u00d3 tolo, increpou-me, olha ali um pardalito t\u00e3o giro!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E enquanto me apontava com a bengala as cabriolas do pardalito; e por ali nos fic\u00e1mos os dois, por uns instantes, a reaprender a ser meninos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Outubro 10, 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Viagem de tr\u00eas horas em comboio. H\u00e1 dois anos que por ali n\u00e3o me sentava. E h\u00e1 mais tempo ainda n\u00e3o fazia transbordo. De Viana ao Porto, viajei hora e meia. Do Porto a Marco de Canaveses, igual. Como se perceber\u00e1 foi uma viagem no mesmo pa\u00eds, no norte de Portugal, na mesma empresa. Mas de todo em todo diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira parte foi muito melhor; que o comboio \u00e9 melhor, sem d\u00favida. E o p\u00fablico tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu que ainda me lembro de muito ter frequentado comboio senti falta, na Linha do Douro, dos a\u00e7afates que levavam galinhas, num, e no outro, chouri\u00e7o e uma fanega de p\u00e3o de trigo que se cortava \u00e0s rodelas e se distribu\u00eda pelos companheiros de banco como o padre ao p\u00e9 do altar. Enfim, senti falta desses cheiros, agora substitu\u00eddos por outros \u2013 intensos perfumes v\u00e1rios e charro. De resto, quase tudo era igual. Mas ficaram-me outras impress\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1. Fora eu soci\u00f3logo ou pol\u00edtico e viajaria muito mais de comboio. Aprende-se bem mais que no autocarro ou no est\u00e1dio, ou nos f\u00f3runs das r\u00e1dios. Ali est\u00e1 o povo cru e sem filtros que, com raz\u00e3o ou sem ela, n\u00e3o quer estrangeiros a comer-lhes os subs\u00eddios, e que por isso amua e explode de raiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">2. Ali est\u00e1 uma m\u00e3e que trabalhou toda a vida, desde Lisboa a Vigo, e agora vem de buscar o filho quarent\u00e3o a Barcelos, porque o quer junto de si (ainda que lhe venha a dar muito trabalho). Ao despedir-me deles, o Andr\u00e9 estendeu-me a m\u00e3o ossuda e desejou-me boa sorte para o meu trabalho. Agradeci e retribui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">3. Ali v\u00eam jovens namoricos sorvendo a vida, o sol, o <em>dolce fare niente<\/em>; turistas e tamb\u00e9m ciclistas v\u00e1rios que subiram o Monte Faro, em Valen\u00e7a, rezaram \u00e0 Senhora do Faro e, depois, almo\u00e7aram avantajadamente. Um t\u00e3o avantajadamente bebeu que, sentado, faz com a cabe\u00e7a enormes elipses. S\u00f3 n\u00e3o sei como, no Porto, vai montar a bicla at\u00e9 casa\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">4. Dois rapazes, um no Minho, outro, no Douro, levantaram-se oportunamente, e insistindo, cederam os lugares para que dois anci\u00e3os se sentassem. A mim, foi um velho que me cedeu o seu. Como era mais velho que eu, declinei. Obviamente. Mas ele insistiu e insistiu. E eu sentei-me, claro. Tomei-o por m\u00edope. Ou estarei eu?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">5. Em ambos entram negros bastantes e sul-americanos e asi\u00e1ticos \u2013 meia carruagem, em cada uma das vias \u2013, todos com seus fatos e botas de of\u00edcio: as obras. Olho-os discretamente: levam o olhar baixo, falam discretamente, ou n\u00e3o falam, as roupas trazem vis\u00edveis marcas de suor e p\u00f3 e cimento. Nota-se que alimentam a fam\u00edlia. E, c\u00e1 para mim, concluo, n\u00e3o s\u00e3o estes que s\u00e3o frequentadores do turismo de sa\u00fade. N\u00e3o s\u00e3o estes que comem as nossas reformas. Ou que nos tiram os lugares de trabalho. Ou o p\u00e3o da mesa. E o que eu vi, outros viram este discurso calado e discreto. Mas a meu lado, \u00e0 frente e atr\u00e1s, as tugas velhas continuavam a propalar que os estrangeiros lhes comiam os direitos. Pensando bem, n\u00e3o sei quais: tinham batom e unhas de gel pelo que n\u00e3o as vejo a assentar tijolos\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">6. Mais de meia carruagem entret\u00e9m-se a ver v\u00eddeos nos smartphones. Afora, j\u00e1 poucos falam com poucos. E s\u00f3 uma pessoa em cada viagem lia um livro: pareciam professoras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">7. Cuidei que isso n\u00e3o existisse, mas existe. Ao chegar \u00e0 Livra\u00e7\u00e3o, elegante, uma anci\u00e3 dirige-se-me perguntando se j\u00e1 t\u00ednhamos passado a esta\u00e7\u00e3o de Ca\u00edde de Rei. T\u00ednhamos, claro. Ai, meu Deus, que vou ter de regressar de t\u00e1xi, respondeu apressada e saiu! Era a que viajava lendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Outubro 23, 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perdi hoje uma varanda para o c\u00e9u: papei os \u00faltimos tr\u00eas aran\u00e7\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Outubro 24, 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por estes dias toca-me uma can\u00e7\u00e3o cantada em espanhol (juro que n\u00e3o sei se foi produzida pela inef\u00e1vel IA, que agora nem tudo \u00e9 de fiar \u2013 o facto de a letra ter mais que uma vers\u00e3o, a isso me leva; mas sim, toca-me e ou\u00e7o-a). Diz assim, em tradu\u00e7\u00e3o apressada:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ora, ainda que tenhas medo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ora, ainda que estejas chorando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Se te tremem as m\u00e3os<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Continua buscando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Existem dias de joelhos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Com a f\u00e9 desfiada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Mesmo com a alma rasgada<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A tua voz n\u00e3o fica calada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Porque em cima te conhecem<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando aqui ningu\u00e9m te entende.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E ainda que o peito se quebre<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O teu clamor se mant\u00e9m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ora, ainda que tenhas medo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ora, ainda que chores.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Porque o c\u00e9u escuta<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Os cora\u00e7\u00f5es quebrados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ora, ainda que tenhas medo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o soltes a esperan\u00e7a<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Porque no c\u00e9u te escutam<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E o teu nome n\u00e3o se cansa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Se a noite te acossa<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E te vence o cansa\u00e7o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Eleva a tua triste pena ao alto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Como oferenda em teus bra\u00e7os<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quanto te faltem as for\u00e7as<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E a d\u00favida te ronde<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>H\u00e1 um pai olhando<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Onde a dor se esconde.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Porque acima te conhece<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando aqui nada te entende<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E ainda que o peito se quebre<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Teu clamor se mant\u00e9m:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ora, ainda que tenhas medo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ora, ainda que chores.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Porque o c\u00e9u escuta<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Os cora\u00e7\u00f5es quebrados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Se se quebra a tua voz<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Que fale a tua ferida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Se muito n\u00e3o podes dizer<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ele entende a ru\u00edna.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Traz o teu p\u00e3o e o teu choro<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Traz o teu medo tamb\u00e9m<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Porque nas m\u00e3os do c\u00e9u<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Tudo volta a nascer.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OUTUbro 25, 2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aproximam-se os dias dos cris\u00e2ntemos. Oremos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD setembro\u00a0 23, 2026 Ele h\u00e1 horas\u2026 Depois dum longo interregno por causa de doen\u00e7a prolongada, um homem de 42 anos regressou ao trabalho. 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