{"id":4920,"date":"2026-10-31T02:26:00","date_gmt":"2026-10-31T02:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4920"},"modified":"2026-10-30T09:26:39","modified_gmt":"2026-10-30T09:26:39","slug":"aprender-a-calar-da-meditacao-ao-habito-contemplativo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/aprender-a-calar-da-meditacao-ao-habito-contemplativo\/","title":{"rendered":"Aprender a calar: da medita\u00e7\u00e3o ao h\u00e1bito contemplativo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Frei Marco Caldas, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nota de abertura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje vivemos num mundo que nos marca com o seu ru\u00eddo, a sua dispers\u00e3o e a sua pressa. O que mais escasseia nas cidades s\u00e3o lugares de pausa, de profundidade e de 6a pastoral urbana deveria assumir a forma de uma \u00abpastoral do sil\u00eancio\u00bb, entendida como um caminho \u00abde busca de interioridade de busca de sentido\u00bb, que nos disponha para acolher o dom da contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O m\u00edstico S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz ensina-nos que a contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fruto de uma t\u00e9cnica nem de um esfor\u00e7o meramente humano, mas uma gra\u00e7a pela qual Deus Se comunica \u00e0 alma de forma simples, amorosa e silenciosa. \u00c9 o que designa por \u00abnot\u00edcia amorosa de Deus\u00bb (Subida II 14,2): um conhecimento que ultrapassa os racioc\u00ednios, as imagens e as palavras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pastoral do sil\u00eancio n\u00e3o procura apenas ensinar m\u00e9todos de ora\u00e7\u00e3o, mas educar para uma disponibilidade interior que permita acolher a a\u00e7\u00e3o de Deus. O caminho come\u00e7a frequentemente pela medita\u00e7\u00e3o e pela reflex\u00e3o, mas tende para uma atitude mais profunda de escuta e recetividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na contempla\u00e7\u00e3o infusa, a alma acolhe um conhecimento amoroso que n\u00e3o pode produzir pelo seu pr\u00f3prio esfor\u00e7o. Como recorda S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: \u00abA contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais do que uma infus\u00e3o secreta, pac\u00edfica e amorosa de Deus [&#8230;].\u00bb (1 Noite Escura I, 10,6). Por isso, quando Deus introduz a alma nesta forma de ora\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio aprender a n\u00e3o for\u00e7ar a atividade discursiva das pot\u00eancias, permanecendo numa disponibilidade amorosa. (cf. Noite Escura I, 9\u201310 e Subida II, 13\u201314.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o coloca-se naturalmente: como aprender este sil\u00eancio? Antes de mais, deixando espa\u00e7o para Deus agir. Enquanto na medita\u00e7\u00e3o a iniciativa humana tem um papel importante, na contempla\u00e7\u00e3o infusa a iniciativa pertence sobretudo a Deus. Somos chamados a n\u00e3o preencher constantemente o sil\u00eancio com pensamentos ou palavras, mas a acolh\u00ea-lo como lugar de encontro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, o sil\u00eancio torna-se uma forma de consentimento e de abertura \u00e0 presen\u00e7a de Deus. \u00c0 luz da experi\u00eancia de Elias \u2013 cf. 1 Reis 19, 12 \u2013, podemos dizer: o sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia, mas presen\u00e7a acolhida na f\u00e9. Este poder\u00e1 ser o grande convite que oferecemos \u00e0 cidade: aprender a calar para escutar, escutar para acolher e acolher para contemplar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1. Contempla\u00e7\u00e3o, amor recebido<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz define a contempla\u00e7\u00e3o como uma \u00abinfus\u00e3o secreta, pac\u00edfica e amorosa de Deus\u00bb (1 Noite Escura I, 10,6). O essencial n\u00e3o \u00e9 sentir algo extraordin\u00e1rio, mas deixar-se tocar por uma Presen\u00e7a. Por isso, a contempla\u00e7\u00e3o aut\u00eantica caracteriza-se frequentemente por: simplicidade interior; paz profunda, ainda que sem consola\u00e7\u00f5es; desejo de permanecer com Deus; amor silencioso que n\u00e3o necessita de muitas palavras, apenas de transforma\u00e7\u00e3o. O h\u00e1bito contemplativo n\u00e3o \u00e9 um estado m\u00edstico extraordin\u00e1rio reservado a alguns, mas uma disposi\u00e7\u00e3o est\u00e1vel de abertura a Deus no quotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aprender a calar significa: escutar mais do que falar; acolher mais do que produzir; permanecer diante de Deus e amar para al\u00e9m do que se consegue compreender. A contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mede pela diminui\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o nem exclui o conhecimento. Pouco a pouco, a pessoa transporta este sil\u00eancio para toda a vida: para a ora\u00e7\u00e3o, para as rela\u00e7\u00f5es, para o trabalho e para as decis\u00f5es. O cora\u00e7\u00e3o torna-se um espa\u00e7o habitado. Para S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, aprender a calar \u00e9 permitir que Deus fa\u00e7a na alma aquilo que a alma n\u00e3o pode fazer por si mesma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando cessam as muitas palavras interiores, pode come\u00e7ar a escutar-se a Palavra. E \u00e9 nesse sil\u00eancio amoroso que nasce o verdadeiro h\u00e1bito contemplativo: viver na presen\u00e7a de Deus, deixando-se inflamar por aquele amor secreto. Como escreve o mestre da noite escura: \u00abquanto mais aumenta, mais a alma se vai sentindo afei\u00e7oada e inflamada pelo amor divino, sem que ela pr\u00f3pria saiba nem compreenda como e donde lhe vem t\u00e3o delicado amor e afecto. Por vezes sente crescer tanto essa chama e esse ardor dentro de si, que chega a desejar Deus com \u00e2nsias de amor.\u00bb (Noite Escura I, 11,1).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a contempla\u00e7\u00e3o come\u00e7a a transformar o modo de amar, j\u00e1 n\u00e3o se trata apenas de um sil\u00eancio interior, mas de uma a\u00e7\u00e3o secreta de Deus, que inflama o cora\u00e7\u00e3o sem que a pessoa consiga explicar a sua origem. A pessoa experimenta um amor novo, mais profundo e delicado, mas n\u00e3o sabe de onde vem nem como surgiu. N\u00e3o o produziu pela reflex\u00e3o, pela leitura ou pelo esfor\u00e7o asc\u00e9tico, \u00e9 um amor recebido. Na contempla\u00e7\u00e3o, o amor pode crescer sem que a pessoa consiga compreender discursivamente o que nela acontece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cora\u00e7\u00e3o inflama-se enquanto os sentidos empobrecem. \u00c0 primeira vista, parece uma contradi\u00e7\u00e3o. A comunica\u00e7\u00e3o de Deus pode aprofundar-se sem que aumentem as consola\u00e7\u00f5es sens\u00edveis. Acontece ent\u00e3o uma dupla experi\u00eancia: \u00abA porta estreita \u00e9 esta noite dos sentidos. Para entrar nela, a alma desembara\u00e7a-se e desprende-se deles. Apoiada na f\u00e9, que \u00e9 alheia aos sentidos, continua depois pelo caminho estreito, que \u00e9 a outra noite do esp\u00edrito. \u00c9 por a\u00ed que a alma entra at\u00e9 chegar a Deus em f\u00e9 pura, que \u00e9 o meio pelo qual a alma se une com Deus.\u00bb (Noite Escura I, 11,4).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquilo que antes satisfazia, j\u00e1 n\u00e3o satisfaz da mesma maneira. N\u00e3o porque as realidades criadas sejam m\u00e1s, mas porque o centro afetivo da pessoa est\u00e1 a ser deslocado para Deus. Como diz Jesus, \u00abonde estiver o teu tesouro, a\u00ed estar\u00e1 tamb\u00e9m o teu cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Mateus 6, 21). N\u00e3o deixamos de amar o mundo ou os outros, mas aprendamos a am\u00e1-los em Deus e a partir de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2. A porta estreita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atrav\u00e9s da imagem evang\u00e9lica da porta estreita e do caminho estreito, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz descreve o percurso para a uni\u00e3o com Deus A primeira etapa consiste em atravessar a \u201cnoite dos sentidos\u201d. A alma aprende a desapegar-se da necessidade de encontrar Deus atrav\u00e9s de gostos sens\u00edveis, consola\u00e7\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es ou satisfa\u00e7\u00f5es espirituais: \u00abal\u00e9m de se extinguirem os apetites, gostos e apoios sens\u00edveis, o entendimento fica limpo e livre para apreender a verdade, pois o gosto sens\u00edvel e o apetite, embora sejam de coisas espirituais, ofuscam e embara\u00e7am o esp\u00edrito. Tamb\u00e9m aquela ang\u00fastia e aridez dos sentidos, ilumina e aviva o entendimento, porque, como diz Isa\u00edas, a humilha\u00e7\u00e3o d\u00e1 li\u00e7\u00f5es (cf. Isa\u00edas 28, 19). Numa alma livre e desprendida, como se requer para receber o influxo divino, Deus vai comunicando sobrenaturalmente a sua divina Sabedoria nesta escura e \u00e1rida noite da contempla\u00e7\u00e3o, como dissemos, coisa que n\u00e3o faria nas consola\u00e7\u00f5es e alegrias anteriores.\u00bb (Noite Escura I, 12,4)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto n\u00e3o significa rejeitar os sentidos, mas deixar de depender das consola\u00e7\u00f5es sens\u00edveis na rela\u00e7\u00e3o com Deus. Muitas pessoas procuram Deus enquanto sentem fervor, paz ou entusiasmo. Quando essas consola\u00e7\u00f5es desaparecem, pensam que perderam Deus. Para S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz acontece, frequentemente, o contr\u00e1rio: Deus est\u00e1 a conduzi-las para uma rela\u00e7\u00e3o mais madura e mais livre. A porta \u00e9 estreita porque exige ren\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3. O caminho estreito<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois da purifica\u00e7\u00e3o dos sentidos, Deus pode introduzir a alma numa purifica\u00e7\u00e3o muito mais profunda: a noite do esp\u00edrito. O santo admite um intervalo de anos (cf. Noite Escura II, 1, 1.) Aqui j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o apenas os afetos sens\u00edveis que s\u00e3o purificados. S\u00e3o purificados os modos de pensar Deus, as imagens que a alma construiu sobre Deus, os seus ju\u00edzos espirituais, a confian\u00e7a nas pr\u00f3prias capacidades, a necessidade de compreender tudo. A alma experimenta uma obscuridade radical: n\u00e3o encontra apoio nem nos sentidos nem na intelig\u00eancia. \u00c9 por isso que S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz considera esta noite muito mais dolorosa e exigente do que a primeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A f\u00e9 \u00e9 caminho de uni\u00e3o e ensina a caminhar sem ver. Enquanto o cora\u00e7\u00e3o procura possuir, a f\u00e9 ensina a confiar. Para o nosso m\u00edstico, a f\u00e9 \u00e9 o meio pr\u00f3ximo e proporcionado de uni\u00e3o do entendimento com Deus (cf. Subida II, 9, 1.) Deus ultrapassa infinitamente tudo aquilo que podemos imaginar ou compreender. S\u00f3 a f\u00e9 permite caminhar para Ele sem reduzir o Mist\u00e9rio \u00e0s nossas medidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cantor do Amor Divino afirma que s\u00e3o poucos os que percorrem esta via porque ela exige um desprendimento total. Muitos aceitam seguir Deus enquanto encontram luz, entusiasmo ou resultados vis\u00edveis. Poucos perseveram quando tudo se torna escuro. Contudo, o santo acrescenta imediatamente que os frutos s\u00e3o \u00abincomparavelmente maiores\u00bb. A raz\u00e3o \u00e9 simples: na primeira noite, a alma \u00e9 libertada da depend\u00eancia dos gostos sens\u00edveis, na segunda, \u00e9 preparada para a uni\u00e3o transformante com o pr\u00f3prio Deus. Por vezes, quanto mais Deus Se aproxima, menos a pessoa compreende e menos apoios encontra; aprende, assim, a confiar e a viver da f\u00e9.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A porta estreita \u00e9 o desapego dos sentidos; o caminho estreito \u00e9 a purifica\u00e7\u00e3o profunda do esp\u00edrito; e a meta \u00e9 a uni\u00e3o com Deus na f\u00e9. Para o nosso m\u00edstico, o contemplativo \u00e9 aquele que aceita atravessar a noite sem procurar regressar \u00e0s antigas seguran\u00e7as, acreditando que a escurid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de Deus, mas sinal de uma presen\u00e7a demasiado grande para ser apreendida pelos sentidos ou pela raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4. Os gostos espirituais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz usa paradoxos, e um dos centrais da sua espiritualidade e um deles pode resumir-se assim: \u00aba aridez ilumina\u00bb. Aquilo que a alma geralmente interpreta como perda ou empobrecimento \u00e9, muitas vezes, o meio pelo qual Deus a prepara para uma sabedoria mais profunda. O santo n\u00e3o fala apenas dos prazeres sens\u00edveis comuns, mas tamb\u00e9m dos gostos espirituais. Uma pessoa pode apegar-se \u00e0s consola\u00e7\u00f5es da ora\u00e7\u00e3o, \u00e0s emo\u00e7\u00f5es religiosas ou ao fervor espiritual. Embora sejam dons, podem tornar-se um obst\u00e1culo quando a alma procura mais as consola\u00e7\u00f5es de Deus do que o pr\u00f3prio Deus. O desapego dessas consola\u00e7\u00f5es conduz progressivamente a uma pobreza interior na qual a alma aprende a procur\u00e1-Lo por Ele mesmo e n\u00e3o pelo que recebe d\u2019Ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A frase de Isa\u00edas citada pelo santo \u00e9 muito significativa: \u00abA humilha\u00e7\u00e3o d\u00e1 li\u00e7\u00f5es.\u00bb A alma julgava saber rezar, compreender a vida espiritual ou avan\u00e7ar pelos seus pr\u00f3prios meios. De repente, experimenta a incapacidade, a secura e a escurid\u00e3o. Esta experi\u00eancia gera uma profunda humildade. N\u00f3s descobrimos que a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 antes de tudo gra\u00e7a; o crescimento espiritual \u00e9 obra de Deus; a intelig\u00eancia humana n\u00e3o pode alcan\u00e7ar, por si s\u00f3, o Mist\u00e9rio divino. A humildade torna-se assim uma verdadeira escola de sabedoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5. O entendimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ru\u00eddo interior condiciona o entendimento que permanece ref\u00e9m dos pr\u00f3prios desejos e afei\u00e7\u00f5es. A noite contemplativa realiza uma purifica\u00e7\u00e3o profunda, nem sempre percet\u00edvel. A purifica\u00e7\u00e3o pode ser dolorosamente sentida, embora o seu fruto permane\u00e7a oculto: liberta das opini\u00f5es demasiado seguras; desfaz imagens inadequadas de Deus; cura a necessidade de controlar tudo; abre espa\u00e7o para uma verdade maior. Por isso, o Mestre da Contempla\u00e7\u00e3o afirma que o entendimento fica \u00ablimpo e livre para apreender a verdade\u00bb. N\u00e3o se trata de acumular mais conhecimentos, mas de adquirir uma capacidade nova de acolher a verdade de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Sabedoria de Deus comunica-se no sil\u00eancio. Esta sabedoria n\u00e3o \u00e9 fruto do estudo, embora este tenha o seu lugar. \u00c9 um conhecimento amoroso de Deus que nasce da comunh\u00e3o com Ele. A alma come\u00e7a a compreender certas realidades espirituais n\u00e3o porque as analisa, mas porque as experimenta interiormente. Como diria S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, trata-se mais de uma \u00abci\u00eancia de amor\u00bb do que de uma ci\u00eancia discursiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os per\u00edodos de secura espiritual exigem discernimento, pois nem toda a aridez \u00e9 sinal de contempla\u00e7\u00e3o (cf. Noite Escura I, 9, 1\u20133). Quando se trata da noite purificadora, mesmo no meio da aridez podem ocorrer comunica\u00e7\u00f5es de Deus. Neste momento, o importante n\u00e3o \u00e9 procurar recuperar antigas consola\u00e7\u00f5es, mas permanecer dispon\u00edvel. A noite deixa ent\u00e3o de ser apenas aus\u00eancia de luz e torna-se o lugar onde Deus instrui secretamente o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o te\u00f3logo da experi\u00eancia de Deus, os gostos espirituais podem ser uma prepara\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a meta. Na noite contemplativa, Deus conduz a alma pela aridez e pela humildade, libertando-a dos apoios a que se prende e comunicando-lhe a sua sabedoria. Quando as luzes humanas diminuem, come\u00e7a muitas vezes a brilhar uma luz mais alta, recebida n\u00e3o pelo racioc\u00ednio, mas pela contempla\u00e7\u00e3o amorosa. A alma aprende ent\u00e3o que o verdadeiro conhecimento de Deus nasce menos daquilo que ela ultrapassa aquilo que ela consegue compreender discursivamente e transforma-a pelo amor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>6. Deus comunica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, j\u00e1 a alma aprendeu a n\u00e3o procurar avidamente consola\u00e7\u00f5es nem experi\u00eancias espirituais. Deixou de medir a ora\u00e7\u00e3o pelo que sente. \u00c9 precisamente nesse desapego que Deus pode agir com maior liberdade. Estas gra\u00e7as n\u00e3o surgem como recompensa pelo esfor\u00e7o, nem como resultado de uma t\u00e9cnica espiritual. S\u00e3o dadas gratuitamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz distingue esta suavidade das consola\u00e7\u00f5es anteriores. N\u00e3o \u00e9 uma emo\u00e7\u00e3o intensa nem um entusiasmo passageiro. Trata-se muitas vezes de uma paz profunda, de um amor sereno, de uma certeza silenciosa da presen\u00e7a de Deus, de uma luz interior que orienta sem fazer ru\u00eddo. A alma percebe que Deus est\u00e1 pr\u00f3ximo, mas de um modo mais espiritual. Ao longo desta purifica\u00e7\u00e3o, a alma aprende a amar Deus por Ele mesmo, com um amor mais livre do interesse pr\u00f3prio. \u00c9 um amor mais simples, mais livre e mais verdadeiro. Por isso, uma pequena comunica\u00e7\u00e3o deste amor vale mais do que muitas consola\u00e7\u00f5es sens\u00edveis do passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na linguagem sanjuanista as \u00abnot\u00edcias espirituais\u00bb s\u00e3o conhecimentos interiores de Deus que n\u00e3o procedem do racioc\u00ednio. N\u00e3o s\u00e3o conceitos novos, mas compreens\u00f5es profundas recebidas na ora\u00e7\u00e3o. A alma \u00absabe\u00bb algo de Deus, sem ter chegado l\u00e1 por argumenta\u00e7\u00e3o, sem conseguir explic\u00e1-lo totalmente, mas com uma certeza \u00edntima que transforma a vida. \u00c9 a \u00absabedoria amorosa\u00bb pr\u00f3pria da contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ensinamento fundamental sanjuanista \u00e9 que nenhuma fidelidade na aridez \u00e9 est\u00e9ril. Enquanto a pessoa pensa que nada acontece, Deus trabalha silenciosamente no mais profundo da alma. E, em determinados momentos, permite que ela receba um vislumbre dos frutos desse trabalho escondido. Por isso, a noite n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de Deus. Ao descrever o per\u00edodo posterior \u00e0 noite dos sentidos, ainda anterior \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o mais profunda do esp\u00edrito, o santo escreve que a alma: \u00abcom muito mais liberdade e satisfa\u00e7\u00e3o interior, com maior e mais profunda alegria do que no princ\u00edpio, antes de entrar nessa noite. J\u00e1 n\u00e3o traz a imagina\u00e7\u00e3o e as pot\u00eancias atadas ao discurso e \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o espiritual como costumava trazer.\u00bb (Noite Escura II, 1,1).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, a alma que persevera humildemente na aridez acaba por descobrir que Deus nunca esteve ausente. Pelo contr\u00e1rio, era precisamente na obscuridade que Ele a estava purificando para poder comunicar-lhe um amor mais puro e uma sabedoria mais alta. As consola\u00e7\u00f5es anteriores eram boas, mas as gra\u00e7as que florescem depois da noite s\u00e3o mais profundas, porque j\u00e1 n\u00e3o alimentam apenas a sensibilidade, mas tocam diretamente o esp\u00edrito e conduzem a alma a uma uni\u00e3o mais verdadeira com Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Notas finais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de percorrermos algumas etapas da passagem da medita\u00e7\u00e3o ao h\u00e1bito contemplativo, \u00e0 luz da espiritualidade de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz desponta uma convic\u00e7\u00e3o fundamental: a contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma fuga do mundo nem a procura de experi\u00eancias extraordin\u00e1rias, mas uma transforma\u00e7\u00e3o progressiva da pessoa pelo amor de Deus. Trata-se de uma obra silenciosa, discreta e profunda, que acontece muitas vezes para al\u00e9m do que a intelig\u00eancia compreende e os sentidos percebem. A grande pedagogia do nosso M\u00edstico consiste precisamente em ensinar que o crescimento na vida de Deus nem sempre se manifesta atrav\u00e9s de luzes, entusiasmos ou consola\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio, muitas das etapas decisivas realizam-se na escurid\u00e3o da f\u00e9, na aridez da ora\u00e7\u00e3o e na pobreza interior. \u00c9 a\u00ed que Deus purifica os afetos, liberta das falsas seguran\u00e7as e conduz a alma a um amor mais puro e mais livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00abnoite\u00bb n\u00e3o \u00e9, portanto, sinal de abandono divino, mas frequentemente lugar de passagem e de amadurecimento. Quando os apoios humanos diminuem e as certezas parecem vacilar, a f\u00e9 \u00e9 chamada a tornar-se confian\u00e7a radical. E n\u00f3s aprendemos ent\u00e3o a permanecer diante de Deus, n\u00e3o pelo que sentimos, mas por amor, n\u00e3o pelo que compreendemos, mas pela fidelidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste caminho, os gostos espirituais deixam de ser o centro, e Deus torna-se o \u00fanico tesouro. A contempla\u00e7\u00e3o gera uma nova forma de conhecer, n\u00e3o baseada na acumula\u00e7\u00e3o de conceitos, mas numa \u00abci\u00eancia de amor\u00bb que nasce da comunh\u00e3o com o Senhor. A pessoa descobre que o verdadeiro conhecimento de Deus consiste menos em falar d\u2019Ele e mais em deixar-se transformar por Ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o homem e a mulher contempor\u00e2neos, frequentemente marcados pelo ru\u00eddo, pela dispers\u00e3o e pela necessidade constante de produzir resultados imediatos, a mensagem de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz conserva uma extraordin\u00e1ria atualidade. Ela recorda-nos que existe um espa\u00e7o interior onde Deus continua a falar em sil\u00eancio e onde o cora\u00e7\u00e3o encontra a sua verdadeira liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como escreveu S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: \u00abPara chegar a gostar tudo, \/ n\u00e3o queiras ter gosto em nada. \/ Para chegar a possuir tudo, \/ n\u00e3o queiras possuir algo em nada. \/ Para chegar a ser tudo, \/ n\u00e3o queiras ser algo em nada.\u00bb (Subida I, 13, 11).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Marco Caldas, OCD Nota de abertura Hoje vivemos num mundo que nos marca com o seu ru\u00eddo, a sua dispers\u00e3o e a sua pressa. 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