{"id":4868,"date":"2026-09-30T02:10:00","date_gmt":"2026-09-30T02:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4868"},"modified":"2026-09-28T10:32:39","modified_gmt":"2026-09-28T10:32:39","slug":"sao-joao-da-cruz-poesia-e-mistica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/sao-joao-da-cruz-poesia-e-mistica\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: poesia e m\u00edstica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Ano Jubilar de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem desposa a espiritualidade de S. Jo\u00e3o da Cruz, de modo pessoal e n\u00e3o s\u00f3 por pertencer \u00e0 Ordem religiosa fundada por ele em colabora\u00e7\u00e3o com Teresa de \u00c1vila, ter\u00e3o de compreender um dia que ele \u00e9 padroeiro inflex\u00edvel da purifica\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito humano, com interroga\u00e7\u00f5es ao universo, agu\u00e7ando as suas respostas na forja da medita\u00e7\u00e3o e da ora\u00e7\u00e3o. Mas de seguida ter\u00e1 de aceitar que ele fez isso recorrendo \u00e0 poesia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dos espanh\u00f3is que o estudaram, s\u00f3 no s\u00e9c. XX adiantado descobriram que a sua poesia \u00e9 soberana. E ent\u00e3o at\u00e9 sentiram algum inc\u00f3modo, por pensarem que ela \u00e9 carnal (alguns qualificavam-na como \u00aber\u00f3tica\u00bb). Para o inc\u00f3modo contribu\u00eda o facto de n\u00e3o conseguirem explicar bem a sua genialidade po\u00e9tica, falando de \u2018inoc\u00eancia po\u00e9tica\u2019 \u2013 entendiam incompet\u00eancia t\u00e9cnica \u2013 e do car\u00e1cter ang\u00e9lico da sua poesia; com surpresa e admira\u00e7\u00e3o perante a sua obra, viam-na como \u00abum milagre\u00bb. At\u00e9 diziam que a sua poesia \u00e9 como o ar: apertando-o entre as m\u00e3os, escapa-se. Justificavam essa suposta incompet\u00eancia dizendo que a quem est\u00e1 cheio de Deus n\u00e3o resta espa\u00e7o para a arte. Mas logo a seguir arrependiam-se confessando que a poesia de S. Jo\u00e3o da Cruz n\u00e3o deveria ser comparada com a de nenhum poeta, dada a alta alegria dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje reconhecem que tamb\u00e9m em Jo\u00e3o da Cruz a poesia \u00e9 poesia e n\u00e3o outra coisa. Isso n\u00e3o significa que o \u2018dizer\u2019 m\u00edstico seja poesia sem mais. A escrita m\u00edstica \u00e9 poesia quando o m\u00edstico \u00e9 ao mesmo tempo um poeta e decide exprimir-se em poesia, transformando at\u00e9 a pr\u00f3pria t\u00e9cnica po\u00e9tica e alcan\u00e7ando um resultado art\u00edstico mais alto. Jo\u00e3o da Cruz consegue-o por ser um brilhante poeta do amor humano \u2013 reconhecem agora, sem se incomodarem com a \u2018carnalidade\u2019 dos versos do santo carmelita:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[Querido,] que manso e amoroso<br>Acordas no meu seio,<br>Onde, em segredo, sozinho moras!<br>E em teu aspirar saboroso,<br>De bem e gl\u00f3ria cheio,<br>Qu\u00e3o delicadamente me enamoras! (<em>Chama de amor viva<\/em>, 4).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nele, a alma enamorada exulta por ter entrado em comunh\u00e3o com o amado, numa ardente atmosfera de deslumbramento:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00d3 noite que guiaste,<br>\u00d3 noite am\u00e1vel mais do que a alvorada!<br>\u00d3 noite que juntaste<br>Amado com amada,<br>Amada no Amado transformada!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meu peito florido<br>Que todo s\u00f3 p\u2019ra ele se guardava,<br>Quedou-se adormecido<br>E eu o acariciava<br>E dos cedros o leque o refrescava (<em>Noite escura<\/em>, 5-6).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem s\u00e3o estes amantes inominados? Quem \u00e9 o <em>tu<\/em> e o <em>ele<\/em> do querido, do amado? \u2013 N\u00e3o \u00e9 preciso explicitar o que est\u00e1 claro no impl\u00edcito, na escrita m\u00edstica, que n\u00e3o \u00e9 um discurso l\u00f3gico, racional, conceptual. A express\u00e3o l\u00edrica e a beleza da poesia sugerem, conotam. E tornam imposs\u00edvel pensar no <em>tu<\/em> e no <em>ele<\/em> do amado como se fosse um ser humano. O Amado, a amada, vivem no poema, por entre os s\u00edmbolos e as met\u00e1foras, no jardim florido das palavras e das insinua\u00e7\u00f5es rezadas: n\u00e3o podem ser sen\u00e3o Jesus ressuscitado e o contemplativo, procurador procurado, tanto um como o outro. Nessa experi\u00eancia corp\u00f3rea, bem sentida, do Amor mais sublime, que \u00e9 a mais profunda e significativa das experi\u00eancias humanas, procura-se e revela-se Deus como Amor, num conhecimento que \u00e9 concedido pelo Deus que \u00e9. Essa uni\u00e3o amorosa viva, m\u00edstica (que n\u00e3o amores plat\u00f3nicos), Jo\u00e3o da Cruz encontrava-a na B\u00edblia, no C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. Amor expl\u00edcito, n\u00e3o aleg\u00f3rico, era em si revela\u00e7\u00e3o de um Amor superior: vislumbrava que deve haver um gozo e um Amor que est\u00e3o mais al\u00e9m, que se podem chamar divinos; na poesia m\u00edstica n\u00e3o se op\u00f5e amor divino e amor carnal. E nem \u00e9 necess\u00e1rio dizer que essa experi\u00eancia po\u00e9tica e m\u00edstica supera as car\u00edcias puramente humanas, er\u00f3ticas, embora se exprima na linguagem delas, porque o ser humano n\u00e3o pode amar de outro modo que n\u00e3o seja no corpo e com o corpo. Nem \u00e9 preciso redimir esse amor, pois n\u00e3o tem nada que possa ser redimido. O poeta Jo\u00e3o da Cruz faz deslizar o amor e o seu esp\u00edrito por entre os sentimentos da sua poesia que \u00e9 de gra\u00e7a, \u201csem porqu\u00ea\u201d, um presente para a humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano Jubilar de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz Armindo Vaz, OCD Quem desposa a espiritualidade de S. 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