{"id":4857,"date":"2026-09-30T02:05:00","date_gmt":"2026-09-30T02:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4857"},"modified":"2026-09-28T10:26:23","modified_gmt":"2026-09-28T10:26:23","slug":"carta-dos-superiores-gerais-carmelitas-sobre-a-regra-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/carta-dos-superiores-gerais-carmelitas-sobre-a-regra-de-vida\/","title":{"rendered":"Carta dos Superiores Gerais Carmelitas sobre a Regra de Vida"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><br><br>CARTA CIRCULAR DOS SUPERIORES GERAIS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">P. Miguel Marquez Calle, O.C.D., e<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">P. Desiderio Garc\u00eda Mart\u00ednez, O.Carm,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">por ocasi\u00e3o do oitavo centen\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">da \u00abUt vivendi normam\u00bb de Hon\u00f3rio III (1226-2026)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">I. Fa\u00e7amos mem\u00f3ria<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um centen\u00e1rio a recordar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s, passaram 800 anos desde que, a 30 de janeiro de 1226, o Papa Hon\u00f3rio III entregou aos frades eremitas do Monte Carmelo a carta que come\u00e7a com as palavras Ut vivendi normam. Com ela, pela primeira vez, a Santa S\u00e9 reconhecia a exist\u00eancia daquela comunidade de eremitas. Desejamos, portanto, recordar e refletir convosco sobre este anivers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">2.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora, nas encostas do Carmelo, se tivessem estabelecido grupos de eremitas e mosteiros pelo menos desde o s\u00e9culo IV, sabemos que os eremitas latinos ali se instalaram no final do s\u00e9culo XII, depois de Ricardo Cora\u00e7\u00e3o de Le\u00e3o ter, em 1191, reconquistado para os crist\u00e3os a cidade de S\u00e3o Jo\u00e3o de Acre, que se tornou o centro militar, pol\u00edtico e religioso do reino latino de Jerusal\u00e9m. A certa altura, os eremitas do Carmelo solicitaram ao patriarca uma \u00abnorma de vida\u00bb (formula vitae), que n\u00e3o era uma Regra no sentido estrito, ou seja, destinada a disciplinar a vida de uma Ordem religiosa plenamente constitu\u00edda, como as de Santo Agostinho, S\u00e3o Bas\u00edlio ou S\u00e3o Bento, mas sim um texto mais simples, adequado a um grupo de eremitas, na sua maioria leigos, que viviam com grande austeridade, consagrados \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e ao servi\u00e7o dos peregrinos, e que solicitavam um reconhecimento jur\u00eddico no seio da Igreja Cat\u00f3lica. Para ser mais preciso, receberam algo semelhante a um typikon, como se chamavam no Oriente este tipo de estatutos destinados a organizar a vida de um grupo de crentes reunidos num determinado local para se dedicarem \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e \u00e0 penit\u00eancia. Entre 1206 e 1214, Santo Alberto entregou aos eremitas carmelitas um breve tratado sobre a vida espiritual, sob a forma de carta, no qual reunia o ideal que eles desejavam seguir e os meios necess\u00e1rios para o concretizar<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Desta forma, tornaram-se um grupo religioso reconhecido pela Igreja, com tudo o que isso implicava naquela \u00e9poca: a obriga\u00e7\u00e3o de usar um h\u00e1bito, de emitir o voto de obedi\u00eancia ao prior, de recitar os salmos (para aqueles que sabiam ler) e outras ora\u00e7\u00f5es (para aqueles que n\u00e3o sabiam ler), a isen\u00e7\u00e3o de alguns impostos, a possibilidade de recolher esmolas, de abrir a sua pr\u00f3pria capela e o seu pr\u00f3prio cemit\u00e9rio, bem como a inviolabilidade do espa\u00e7o por eles habitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">3.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta \u00abnorma de vida\u00bb resume o propositum dos eremitas carmelitas. O termo pode ser traduzido tanto por \u00abprop\u00f3sito\u00bb como por \u00abfinalidade\u00bb e indica o seu prop\u00f3sito de \u00abviver em obs\u00e9quio de Jesus Cristo e servi-l\u2019O fielmente com cora\u00e7\u00e3o puro e reta consci\u00eancia\u00bb (n.\u00ba 2). Santo Alberto especifica que este deve ser o motivo fundamental n\u00e3o s\u00f3 da vida dos carmelitas, mas tamb\u00e9m da vida de todos os consagrados e, em \u00faltima an\u00e1lise, de cada crist\u00e3o. A refer\u00eancia expl\u00edcita a Jesus Cristo \u00e9 muito significativa. Aqueles eremitas tinham-se retirado para a terra do Senhor para O servir \u00abcom cora\u00e7\u00e3o puro e reta consci\u00eancia\u00bb. Desejavam viver junto aos lugares santificados pela Sua presen\u00e7a, contemplar o Seu mist\u00e9rio e seguir mais de perto as Suas pegadas. Segundo alguns coment\u00e1rios \u00e0 Regra, o n.\u00ba 10 constitui um dos elementos fundamentais de toda a normativa: \u00abPermane\u00e7a cada um na sua cela, ou perto dela, meditando dia e noite na lei do Senhor e vigiando em ora\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser que se deva dedicar a outros justificados afazeres\u00bb. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o que orienta a nossa vida n\u00e3o \u00e9 um preceito disciplinar nem uma pr\u00e1tica asc\u00e9tica, mas a escuta perseverante da Palavra de Deus na ora\u00e7\u00e3o. Tudo o resto tem como objetivo tornar poss\u00edvel esta rela\u00e7\u00e3o viva com o Senhor. Seguindo o exemplo do profeta Elias e da Virgem Maria, n\u00f3s, carmelitas, somos chamados a empenhar-nos por viver sempre na presen\u00e7a de Deus, deixando que Ele preencha a nossa mente e o nosso cora\u00e7\u00e3o, vivendo com Ele uma rela\u00e7\u00e3o de amor na ora\u00e7\u00e3o e deixando-nos guiar e instruir pela sua Palavra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A carta do Papa Hon\u00f3rio III<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">4.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O IV Conc\u00edlio de Latr\u00e3o, celebrado em Roma em 1215, proibiu a cria\u00e7\u00e3o de novas ordens religiosas e obrigou os grupos j\u00e1 existentes a adotar uma das Regras reconhecidas pela Igreja. Os dominicanos e os merced\u00e1rios, por exemplo, adotaram a de Santo Agostinho. Alguns prelados pressionaram os carmelitas para que fizessem o mesmo. Estes, no entanto, j\u00e1 possu\u00edam um documento que lhes servia de Regra: a norma de vida de Santo Alberto, redigida antes do Conc\u00edlio. Os carmelitas procuraram o apoio do sucessor de Santo Alberto, mas este n\u00e3o soube como responder e aconselhou-os a dirigirem-se diretamente \u00e0 Santa S\u00e9. \u00c9 neste contexto que se insere a carta de Hon\u00f3rio III, um simples mandatum, que tamb\u00e9m pode ser definido como uma carta executiva em sentido lato, ou seja, n\u00e3o um documento solene, uma bula com selo suspenso por um fio de seda p\u00farpura e ouro, mas, ainda assim, um texto que, na sua simplicidade, oferecia aquele primeiro reconhecimento que o grupo desejara. Eis o teor da carta:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u00abAos amados filhos, o Prior e os Frades Eremitas do Monte Carmelo, sauda\u00e7\u00f5es e b\u00ean\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica. Ordenamos que v\u00f3s e os vossos sucessores, na medida do poss\u00edvel com a ajuda de Deus, observem, para a remiss\u00e3o dos vossos pecados, a norma de vida regular redigida pelo Patriarca de Jerusal\u00e9m, de boa mem\u00f3ria, que dizeis ter recebido humildemente antes do Conc\u00edlio Geral. Dado em Rieti, no d\u00e9cimo ano do nosso pontificado, dois dias antes das calendas de fevereiro (30 de janeiro de 1226)\u00bb.<\/em><a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje j\u00e1 n\u00e3o possu\u00edmos o texto original, que, ali\u00e1s, nem sequer se encontra nos Registos das cartas de Hon\u00f3rio III. A primeira vez que esta bula foi impressa foi no Speculum Carmelitanum, publicado em Veneza em 1507<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, de onde, muito provavelmente, o editor do Bullarium Carmelitanum a copiou. Por outros testemunhos, sabemos que deviam existir c\u00f3pias em Toulouse<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> e em Londres<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Mas as refer\u00eancias \u00e0 exist\u00eancia deste reconhecimento s\u00e3o cont\u00ednuas: j\u00e1 nas primeiras Constitui\u00e7\u00f5es que chegaram at\u00e9 n\u00f3s \u2013 as de Londres de 1281<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> \u2013 \u00e9 mencionada a interven\u00e7\u00e3o do Papa Hon\u00f3rio III e, como j\u00e1 foi referido, Siberto de Beka e John Baconthorp falam disso nos seus tratados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conte\u00fado da carta<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">5.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas o que nos diz o texto? Tratou-se de uma aprova\u00e7\u00e3o da Regra, tal como por vezes se escreveu? Existem outras obriga\u00e7\u00f5es? Vejamos com aten\u00e7\u00e3o. A carta, tal como nos chegou, carece da chamada arenga, ou seja, do resumo do pedido dirigido ao papa com as motiva\u00e7\u00f5es e o objeto do pedido. Portanto, n\u00e3o podemos saber efetivamente quem eram os requerentes nem o que tinham pedido. A partir do texto, podemos constatar que o papa reconhece a \u00abf\u00f3rmula de vida\u00bb albertina e obriga os frades a segui-la com fidelidade para obter a remiss\u00e3o dos pecados. Por outras palavras, a observ\u00e2ncia rigorosa da \u00abf\u00f3rmula de vida\u00bb constitui uma forma de penit\u00eancia ou satisfa\u00e7\u00e3o pelos pecados e o papa obriga (iniungimus) a essa observ\u00e2ncia. Podemos reconhecer que esta obriga\u00e7\u00e3o-concess\u00e3o se inscrevia na continuidade do propositum original dos primeiros peregrinos-eremitas: viver a vida erem\u00edtica em penit\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">6.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; H\u00e1 duas express\u00f5es interessantes de Hon\u00f3rio III. A primeira \u00e9 o termo regulariter, que remete para a regularidade da vida segundo uma norma. O termo antecipa, de certa forma, a ideia de que a observ\u00e2ncia da \u00abf\u00f3rmula de vida\u00bb se abre \u00e0 vida religiosa, ou precisamente regular, estabelecida por uma Regra. Isto aconteceria com a aprova\u00e7\u00e3o do texto alterado por Inoc\u00eancio IV em 1247, para adaptar \u00e0 realidade europeia a vida dos eremitas que tinham emigrado do Monte Carmelo<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. A outra frase interessante diz respeito ao pr\u00f3prio texto da \u00abf\u00f3rmula de vida\u00bb, sobre a qual se diz: \u00abque dizeis ter recebido humildemente antes do Conc\u00edlio Geral\u00bb. Nesta afirma\u00e7\u00e3o h\u00e1 dois aspetos: o primeiro diz respeito ao testemunho dos frades que relatam ter recebido a \u00abf\u00f3rmula\u00bb de Alberto, mas a Santa S\u00e9 n\u00e3o tem qualquer outra informa\u00e7\u00e3o sobre o assunto. O segundo espeto diz respeito \u00e0 altura em que Alberto escreveu aos frades: antes do Conc\u00edlio Geral de Latr\u00e3o, o quarto, realizado em 1215. Isto \u00e9 certamente verdade, uma vez que o santo patriarca morrera esfaqueado a 14 de setembro de 1214, antes de poder partir para Roma e participar no Conc\u00edlio. Al\u00e9m disso, o facto de terem recebido o texto de Alberto antes da celebra\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio protegia os carmelitas de contesta\u00e7\u00f5es decorrentes da proibi\u00e7\u00e3o de novas funda\u00e7\u00f5es estabelecida pelo 13.\u00ba c\u00e2none do pr\u00f3prio Conc\u00edlio de Latr\u00e3o IV. No entanto, nem mesmo Hon\u00f3rio III obrigou os eremitas a adotar una ex regulis approbatis, como ordenava o c\u00e2none conciliar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que concede o papa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">7.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, o papa reconhece a comunidade dos frades eremitas do Carmelo, considera autorit\u00e1ria a \u00abf\u00f3rmula de vida\u00bb e devolve-lha com a ordem \u2013 iniungimus, diz ele \u2013 de a observar, para que possam usufruir da remiss\u00e3o dos pecados. Este \u00faltimo ponto \u00e9 importante, porque, al\u00e9m de recordar a origem penitencial do grupo, reconhece-o precisamente como uma das muitas comunidades de eremitas penitentes que floresceram nas \u00faltimas d\u00e9cadas. N\u00e3o se trata de uma \u00abaprova\u00e7\u00e3o da Regra\u00bb, como por vezes foi afirmado precipitadamente, mas de um primeiro reconhecimento da comunidade e da sua \u00abnorma de vida\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">8.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De facto, o Bullarium faz seguir \u00e0 bula de Hon\u00f3rio o texto da \u00abf\u00f3rmula de vida\u00bb, tal como tamb\u00e9m \u00e9 reproduzido no oitavo livro dos Dez livros sobre a institui\u00e7\u00e3o dos primeiros monges, a cole\u00e7\u00e3o redigida por Felip Ribot por volta de 1380<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Evidentemente, algum texto da antiga f\u00f3rmula albertina tinha sobrevivido \u00e0 ordem de Inoc\u00eancio IV de destruir as suas c\u00f3pias, quando aprovou a Regra, conferindo-lhe o valor de Regula bullata. \u00c9, no entanto, interessante que no texto publicado no Bullarium conste a data de 1171 e n\u00e3o a data em que mais precisamente foi concedida por Alberto (entre 1206 e 1214). Talvez se trate de uma reminisc\u00eancia das lendas ligadas \u00e0 funda\u00e7\u00e3o da Ordem, que tendem a antecipar os seus in\u00edcios. Historicamente, \u00e9 dif\u00edcil imaginar que estes tenham ocorrido antes da batalha de Hattin (1187), ou seja, ter-se-\u00e3o dado, pelo menos, a partir de 1192 ou 1193, quando a situa\u00e7\u00e3o na Terra Santa se acalmou na sequ\u00eancia da reconquista de S\u00e3o Jo\u00e3o de Acre e de uma estreita faixa costeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">9.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A quest\u00e3o das datas e a tradi\u00e7\u00e3o dos relatos de funda\u00e7\u00e3o podem ajudar-nos a explicar tamb\u00e9m por que raz\u00e3o, por vezes, se falou de \u00abRegra primitiva\u00bb, confundindo, na realidade, o texto de Inoc\u00eancio IV com o de Alberto. A Regra, formalmente falando, \u00e9 apenas aquele texto aprovado e selado em bula por Inoc\u00eancio IV em 1247. Esta Regra introduziu, entre outras coisas, a possibilidade de os carmelitas abrirem casas em qualquer local que lhes fosse oferecido, e n\u00e3o apenas em locais desertos e afastados dos centros habitados; estabeleceu que professassem os tr\u00eas votos, j\u00e1 obrigat\u00f3rios para todos os religiosos; determinou que recitassem em conjunto as horas do Of\u00edcio Divino, enquanto anteriormente cada um recitava os salmos ou outras ora\u00e7\u00f5es na sua pr\u00f3pria cela; e prescreveu que comessem juntos, algo que at\u00e9 ent\u00e3o faziam apenas em ocasi\u00f5es especiais. A c\u00f3pia mais antiga da Regra de que temos conhecimento \u00e9 a conservada nos Arquivos do Vaticano, anexada a esta bula. Por isso, todas as reconstru\u00e7\u00f5es do texto anterior (a \u00abf\u00f3rmula de Vida\u00bb de Santo Alberto) s\u00e3o necessariamente hipot\u00e9ticas. Quando o beato Jo\u00e3o Soreth e santa Teresa de Jesus falam da \u00abRegra primitiva\u00bb referem-se ao texto de 1247. Na realidade, tratava-se de uma adapta\u00e7\u00e3o do documento de Santo Alberto, que n\u00e3o voltou a ser alterado. As \u00abmitiga\u00e7\u00f5es\u00bb subsequentes foram acrescentadas sob a forma de notas ou concess\u00f5es, mas sem alterar o texto, de forma an\u00e1loga \u00e0s emendas que s\u00e3o acrescentadas a uma constitui\u00e7\u00e3o sem alterar o seu corpo fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro passo de um longo caminho<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">10.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 ainda de referir que esta primeira interven\u00e7\u00e3o de Hon\u00f3rio III foi apenas a primeira pe\u00e7a de um mosaico de interven\u00e7\u00f5es pontif\u00edcias que se sucederam ao longo de todo o s\u00e9culo XIII e ainda nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIV. Para al\u00e9m da aprova\u00e7\u00e3o fundamental de Inoc\u00eancio IV, vale a pena recordar outra bula de Jo\u00e3o XXII, concedida a 21 de novembro de 1326 \u2013 portanto, h\u00e1 700 anos \u2013, atrav\u00e9s da qual o pont\u00edfice concedeu aos carmelitas todos os privil\u00e9gios j\u00e1 possu\u00eddos pelos dominicanos e pelos franciscanos<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>. Este documento marcou a integra\u00e7\u00e3o plena e definitiva da Ordem no grupo dos frades mendicantes. Foi necess\u00e1rio superar o momento cr\u00edtico provocado pelo Segundo Conc\u00edlio Geral de Lyon (1274), quando se decidiu suprimir todas as religiones novae, ou seja, as ordens fundadas ap\u00f3s o Conc\u00edlio de Latr\u00e3o IV, com exce\u00e7\u00e3o dos dominicanos e dos franciscanos, cuja utilitas para a Igreja j\u00e1 estava bem estabelecida. Os eremitas de Santo Agostinho e os carmelitas ficaram numa situa\u00e7\u00e3o de incerteza, at\u00e9 que a Santa S\u00e9 tomasse uma decis\u00e3o. Esse decreto conciliar provocou nessas Ordens um processo de renova\u00e7\u00e3o e crescimento, com vista a ver reconhecida a sua utilitas. Foram tomadas diversas medidas no que diz respeito ao apostolado, como uma maior integra\u00e7\u00e3o nas universidades, com a possibilidade de obter t\u00edtulos acad\u00e9micos e, consequentemente, a possibilidade de ensinar, pregar e confessar; al\u00e9m disso, foram assumidas algumas par\u00f3quias. Para os carmelitas, surgiu tamb\u00e9m a quest\u00e3o da mudan\u00e7a das capas, de listadas para brancas, decidida com a autoriza\u00e7\u00e3o do Papa Hon\u00f3rio IV no Cap\u00edtulo de Montpellier, em 1287; era uma forma de serem mais facilmente acolhidos nas dioceses, nas universidades e nas cidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">II. Reflitamos sobre o presente<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que raz\u00e3o recordar a carta?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">11.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chegados a este ponto, podemos perguntar-nos: que sentido faz recordar este documento hoje? Qual \u00e9, ent\u00e3o, a mensagem da interven\u00e7\u00e3o de Hon\u00f3rio III para n\u00f3s, mulheres e homens do s\u00e9culo XXI? Qual \u00e9 o impacto para os membros da grande e multiforme Fam\u00edlia Carmelita? Certamente n\u00e3o se trata de fazer arqueologia ou de uma celebra\u00e7\u00e3o puramente historicista. A carta de Hon\u00f3rio III, por si s\u00f3, para n\u00f3s, ap\u00f3s oitocentos anos de hist\u00f3ria com todos os acontecimentos que ocorreram, poderia n\u00e3o constituir um motivo de interesse. No entanto, olhando bem, ela oferece-nos v\u00e1rios pontos de reflex\u00e3o para a atualidade. Tentemos de refletir juntos e fa\u00e7amo-lo como se se tratasse de uma lectio divina. Releiamos com aten\u00e7\u00e3o o texto da carta:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">12.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00abOrdenamos que v\u00f3s e os vossos sucessores, na medida do poss\u00edvel com a ajuda de Deus\u2026\u00bb. Em primeiro lugar, devemos notar que estamos envolvidos em primeira pessoa: Hon\u00f3rio III fala dos \u00abvossos sucessores\u00bb: somos precisamente n\u00f3s. Portanto, o que se segue diz-nos diretamente respeito. Somos convidados a observar \u00abde forma regular\u00bb o que o patriarca Alberto nos escreveu, a \u00abf\u00f3rmula de vida\u00bb que se tornou, entretanto, a nossa Regra. N\u00e3o se trata de um compromisso espor\u00e1dico, quando nos apetece e nos conv\u00e9m, mas da pr\u00e1tica de uma decis\u00e3o cont\u00ednua, regular e regulada, precisamente de acordo com a Regra. Devemos faz\u00ea-lo \u00abna medida do poss\u00edvel, com a ajuda de Deus\u00bb; nesta express\u00e3o est\u00e1 todo o compromisso pessoal que assumimos com a profiss\u00e3o religiosa ou com as promessas na Ordem Terceira (OCarm) ou na Ordem Secular dos Carmelitas Descal\u00e7os (OCDS). Certamente, sempre com a ajuda de Deus, pois \u00absem mim nada podeis fazer\u00bb (Jo 15,5), adverte-nos Jesus. Esta flexibilidade \u00e9 necess\u00e1ria para viver de forma concreta a vida carmelita: fi\u00e9is ao essencial, os membros da Ordem s\u00e3o chamados a confrontar-se com a realidade circundante num di\u00e1logo cont\u00ednuo com as culturas, as mentalidades e os costumes das irm\u00e3s e dos irm\u00e3os com quem caminhamos e trabalhamos. Uma vida espiritual madura expressa-se tamb\u00e9m na capacidade de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">13.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00ab\u2026 observem, para a remiss\u00e3o dos vossos pecados, a norma de viver de forma regular\u2026\u00bb. O papa prossegue com uma f\u00f3rmula comum nos documentos da \u00e9poca, afirmando que tal observ\u00e2ncia \u00e9 \u00abpara a remiss\u00e3o dos pecados\u00bb, ou seja, \u00e9 um compromisso com a santidade e com a consecu\u00e7\u00e3o da plenitude da vida, da plena comunh\u00e3o com Deus. Em resumo, est\u00e1 a\u00ed tudo o que, nos oito s\u00e9culos seguintes, as carmelitas e os carmelitas de v\u00e1rias partes do mundo experimentaram e ensinaram a respeito da vida espiritual, do caminho de purifica\u00e7\u00e3o e da uni\u00e3o m\u00edstica com Deus. O carisma do Carmelo \u00e9, de certa forma, reconhecido, embora de modo embrion\u00e1rio, j\u00e1 por Hon\u00f3rio III. Neste sentido, a exorta\u00e7\u00e3o a seguir o que est\u00e1 escrito na \u00abf\u00f3rmula de vida\u00bb \u2013 que para n\u00f3s hoje \u00e9 a Regra \u2013 constitui um convite claro a prosseguir a santa peregrina\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 Terra Santa, rumo \u00e0 Jerusal\u00e9m celestial. Somos chamados a percorrer um caminho de transforma\u00e7\u00e3o interior estruturado no carisma da nossa Ordem: a dimens\u00e3o contemplativa fundamental, alimentada pela ora\u00e7\u00e3o e pelo servi\u00e7o na comunidade, permite-nos acolher o dom do Esp\u00edrito e deixar-nos, em conjunto, purificar e iluminar para podermos \u00abver a Deus\u00bb e deixar-nos unir a Ele pelo Esp\u00edrito, reconhecendo a Sua presen\u00e7a em n\u00f3s, nos irm\u00e3os, na natureza e na hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fazemos parte da Igreja e vivemos na hist\u00f3ria<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">14.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00ab\u2026 escrita pelo Patriarca de Jerusal\u00e9m, de boa mem\u00f3ria, que dizeis ter recebido humildemente antes do Conc\u00edlio Geral\u00bb. Mas h\u00e1 outra nota que podemos reconhecer nas breves palavras do papa: a dimens\u00e3o eclesial presente, pelo menos, em tr\u00eas aspetos. Em primeiro lugar, precisamente no facto de nos encontrarmos perante um documento papal; portanto, a m\u00e1xima autoridade da Igreja oferece-nos um documento da m\u00e1xima autoridade, onde se expressa o reconhecimento da nossa exist\u00eancia como carmelitas. O ato do Papa Hon\u00f3rio III foi um ato de discernimento, atrav\u00e9s do qual reconhecia a bondade e a verdade de uma experi\u00eancia destinada a desenvolver um carisma original. Em segundo lugar, s\u00e3o mencionados tanto o patriarca Alberto, autor da \u00abnorma de vida\u00bb, como o IV Conc\u00edlio Geral de Latr\u00e3o (1215), que tinha dado indica\u00e7\u00f5es precisas para a constitui\u00e7\u00e3o de novas comunidades regulares. Estes elementos s\u00e3o importantes, porque nos situam, como \u00e9 justo, no seio da estrutura eclesi\u00e1stica, o que nos leva ao terceiro elemento de reflex\u00e3o: somos membros da comunidade dos crentes em Jesus, o Senhor; somos pedras vivas para a constru\u00e7\u00e3o do templo (cf. 1 Pe 2, 5). Podemos contribuir com a nossa vida penitente e de ora\u00e7\u00e3o, com o empenho apost\u00f3lico e mission\u00e1rio, com a comunh\u00e3o fraterna, para oferecer um \u00absacrif\u00edcio vivo, santo e agrad\u00e1vel a Deus\u00bb (Rm 12,1). Somos carmelitas com, na e para a Igreja; n\u00e3o podemos fechar-nos nem retrair-nos sobre n\u00f3s mesmos, mas abrir-nos a um servi\u00e7o humilde e simples ao povo de Deus. Neste caminho, estamos em rela\u00e7\u00e3o com todos os membros da comunidade crist\u00e3, com os quais aprendemos, dialogamos e partilhamos a nossa experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">15. \u00abDado em Rieti, no d\u00e9cimo ano do nosso pontificado, dois dias antes das calendas de fevereiro (30 de janeiro de 1226)\u00bb. Podemos fazer uma \u00faltima reflex\u00e3o a partir da data. O per\u00edodo em que os eremitas do Carmelo receberam a carta foi rico em acontecimentos significativos. Nesse mesmo ano, a 3 de outubro, faleceu S\u00e3o Francisco de Assis, e o Papa Hon\u00f3rio apenas sobreviveu pouco mais de um ano, pois faleceu a 18 de mar\u00e7o de 1227. No trono imperial reinava Frederico II, conhecido como stupor mundi et immutatur mirabilium (espanto do mundo e inovador de coisas maravilhosas), que muito em breve entraria em conflito com o novo pont\u00edfice, Hugolino, dos condes de Segni, elevado ao trono papal com o nome de Greg\u00f3rio IX (1227-1241). Este \u00faltimo viria a conceder aos carmelitas outras cartas importantes, entre as quais aquela que impunha a pobreza, salvo a possibilidade de possuir cria\u00e7\u00f5es de animais de carga e de aves, que mais tarde foi incorporada no texto da Regra. Estes tempos n\u00e3o foram f\u00e1ceis: conflitos generalizados e cont\u00ednuos entre o papa e o imperador, entre cidades e senhores feudais, entre movimentos her\u00e9ticos e a Igreja, entre mu\u00e7ulmanos e crist\u00e3os na Terra Santa. Aquela \u00e9poca n\u00e3o foi melhor do que muitas outras, nem mesmo do que a nossa. Os nossos padres tinham-se retirado para o deserto do Carmelo para a\u00ed viver em santa penit\u00eancia, numa atitude de confronto prof\u00e9tico com a sociedade da \u00e9poca, propondo um caminho de vida de regresso ao essencial, num estilo simples, pac\u00edfico e fraterno, autenticamente humano porque evang\u00e9lico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chamados \u00e0 profecia evang\u00e9lica<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">16.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para o nosso tempo, atravessado por muitos desafios, a obedi\u00eancia \u00e0 Regra pode ser um testemunho humilde e forte de ades\u00e3o a Cristo e ao seu Evangelho. Todos, irm\u00e3os e irm\u00e3s das nossas Ordens O.Carm &#8211; OCD, assim como as mais diversas formas de vida carmelita, estamos chamados \u00e0 escuta silenciosa da Palavra, ao desapego do mundo e da sua mentalidade, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria, ao trabalho silencioso para o nosso sustento e para o bem do povo de Deus, \u00e0 fraternidade acolhedora e dispon\u00edvel, ao combate espiritual e ao discernimento comunit\u00e1rio. Tudo isto nos \u00e9 transmitido pela Regra e pela tradi\u00e7\u00e3o que dela brotou. O convite do Papa Hon\u00f3rio III para viver regulariter\u2026 in remissionem peccatorum continua a ser v\u00e1lido para n\u00f3s: encaminha-nos para o caminho da transforma\u00e7\u00e3o interior, para o qual somos chamados seguindo o exemplo da Virgem Maria e do profeta Elias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">17.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vivemos num clima de conflito generalizado e permanente, a \u00abguerra mundial em peda\u00e7os\u00bb, como a definiu o Papa Francisco<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>. Neste contexto, interpelam-nos as dram\u00e1ticas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, as diversas situa\u00e7\u00f5es de pobreza e explora\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es indefesas, v\u00edtimas da opress\u00e3o de multinacionais e pot\u00eancias pol\u00edticas, mais preocupadas com a acumula\u00e7\u00e3o de riqueza do que com a defesa da paz e do bem-estar das pessoas. Perante tudo isto, podemos opor uma escolha de vida simples, fundamentada no Evangelho, na obedi\u00eancia, na pobreza, no respeito e no amor fraterno, na generosidade no servi\u00e7o. Diante deste cen\u00e1rio, podemos propor a estas situa\u00e7\u00f5es de conflito a possibilidade do di\u00e1logo e da reconcilia\u00e7\u00e3o; assim como, perante as sedu\u00e7\u00f5es da intelig\u00eancia artificial, podemos manter viva a consci\u00eancia da nossa magnifica humanitas, capaz de agir em liberdade e responsabilidade<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>. Apenas a ora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e a uni\u00e3o com Deus nos podem permitir uma vida semelhante, como homens e mulheres capazes de reconhecer o absoluto de Deus e, ao mesmo tempo, a nossa pr\u00f3pria dignidade e a relatividade de todas as outras criaturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juntos, a caminho do futuro<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">18.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Muitas pessoas sentem-se hoje chamadas a viver segundo a Regra carmelita: todas assumem o compromisso de conhecer, apreciar e reinterpretar a tradi\u00e7\u00e3o antiga do Carmelo. Aos mais velhos cabe a tarefa de testemunhar e contar o que receberam, para que as pessoas chamadas, de longe ou de perto, possam realmente entrar em contacto com as origens da Ordem e apaixonar-se por ela. Jesus continua a chamar: tornemo-nos altifalantes da sua voz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">19.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A esperan\u00e7a, que desde sempre alimentou a espiritualidade do Carmelo, fundada na experi\u00eancia do sepulcro vazio e do encontro com Cristo, crucificado e ressuscitado, sustenta-nos e orienta-nos no caminho rumo \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria. Maria, nossa M\u00e3e e Irm\u00e3, acompanha-nos e precede-nos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 meta. A devo\u00e7\u00e3o \u00e0 M\u00e3e de Deus e nossa M\u00e3e n\u00e3o \u00e9 uma realidade sentimental e emotiva, mas nasce da consci\u00eancia de que n\u00e3o estamos sozinhos no caminho e, sobretudo, de que a cria\u00e7\u00e3o e cada pessoa n\u00e3o est\u00e3o destinadas \u00e0 perdi\u00e7\u00e3o e \u00e0 aniquila\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 plenitude da vida (cf. Rm 8,18-25).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">20.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Queridas irm\u00e3s e queridos irm\u00e3os, que este centen\u00e1rio seja uma ocasi\u00e3o de renova\u00e7\u00e3o e de novo impulso. Que cada um de n\u00f3s possa redescobrir a beleza da voca\u00e7\u00e3o carmelita e prosseguir o seu caminho num esp\u00edrito de verdadeira convers\u00e3o e compromisso com a vida fraterna e o servi\u00e7o nas suas mais diversas formas. Mas avancemos, sobretudo, como nos ensinam os nossos santos, alimentado pela ora\u00e7\u00e3o, que conduz \u00e0 uni\u00e3o perfeita com Deus. Encorajados pela sua experi\u00eancia e pelo seu magist\u00e9rio, vivamos no mundo sem lhe pertencermos (cf. Jo 17,14-19), mas oferecendo-lhe o testemunho desinteressado da vida crist\u00e3 segundo o estilo carmelita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">21.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Queremos concluir a nossa reflex\u00e3o com um texto de santa Teresa de Jesus, que nos convida a n\u00e3o nos limitarmos apenas \u00e0 recorda\u00e7\u00e3o de um passado glorioso, mas a atualiz\u00e1-lo no presente, para construir o futuro. Pode ser uma boa conclus\u00e3o de tudo o que vimos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u00abPor vezes ou\u00e7o dizer, a prop\u00f3sito das origens das Ordens religiosas, que o Senhor concedia gra\u00e7as maiores \u00e0queles santos nossos antepassados porque eram os alicerces. E \u00e9 verdade; mas dever\u00edamos ter sempre em conta que eles s\u00e3o os alicerces daqueles que est\u00e3o para vir. De facto, se os que vivemos agora, n\u00e3o tiv\u00e9ssemos desca\u00eddo em rela\u00e7\u00e3o aos antepassados, e se os que viessem depois de n\u00f3s fizessem o mesmo, o edif\u00edcio estaria sempre firme. Que me aproveita a mim que os Santos antepassados tenham sido tais, se, depois, eu sou t\u00e3o ruim e deixo estragar o edif\u00edcio com os maus costumes? \u00c9 evidente que aqueles que chegam n\u00e3o se lembram tanto dos que viveram h\u00e1 muitos anos como dos que est\u00e3o presentes. \u00c9 muito mau que eu me lamente em n\u00e3o ter sido das primeiras e n\u00e3o repare na diferen\u00e7a que h\u00e1 entre a minha vida e virtudes e a daqueles a quem Deus concedia gra\u00e7as t\u00e3o grandes.\u00bb (F 4,6).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">22.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Que Maria, Mater et Decor Carmeli, volte o seu olhar para cada um de n\u00f3s que guardamos a Regra do Carmelo como projeto de vida: a Ela confiamos toda a Fam\u00edlia Carmelita, para que possa \u00abviver em obs\u00e9quio de Jesus Cristo, servindo-O fielmente com cora\u00e7\u00e3o puro e boa consci\u00eancia\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dado em Roma, a 17 de setembro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Festa de Santo Alberto de Jerusal\u00e9m, bispo e legislador da nossa Ordem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Miguel M\u00e1rquez Calle, O.C.D.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Prep\u00f3sito Geral<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desiderio Garc\u00eda Mart\u00ednez, O.Carm.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Prior Geral<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Encontramos esta not\u00edcia em Siberto de Beka, Considerationes super regulam ordinis Carmelitarum, in Speculum Ordinis Fratrum Carmelitarum noviter impressum (de agora em diante Spec. Carm. 1507), Iohannes Baptista de Cathaneis (ed.), Veneza 1507, f. 31; Speculum Carmelitanum (de agora em diante Spec. Carm. 1680), Daniel a Virgine Maria (ed.), vol. I\/1, Antu\u00e9rpia 1680, 83 n.\u00ba 39.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Bullarium Carmelitanum (da ora Bull. Carm., I), Eliseus Monsignano (ed.), vol. I, Romae 1715, 1. Honorius Episcopus, Servus Servorum Dei, dilectis Filiis Priori et Fratribus Eremitis de Monte Carmelo salutem et apostolicam benedictionem. Ut vivendi normam regulariter, a bonae memoriae Hierosolymitano Patriarcha editam, quam ante Generale Concilium, vos dicitis humiliter suscepisse, in posterum vos et sucessores vestri, quantum cum Dei adjut\u00f3rio poteritis, observetis in remissionem vobis injungimos peccatorum. Datum Reate, 3 Kalendas Februarii, Pontificatus nostri anno decimo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Spec. Carm. 1507, ff. 29v-30r.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim consta em Spec. Carm. 1507, 29v.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cf. John Baconthorp, Compendium historiarium et iurium in Medieval Carmelite Heritage (de agora em diante MCH), Adrianus Staring (ed.), Roma 1989, 206.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cf. Rubrica prima (1281), in MCH, 41.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Inoc\u00eancio IV, Quae honorem Conditoris (1 de outubro de 1247), in Arquivo Apost\u00f3lico Vaticano, Registrum Vaticanum 21, ff. 465v-466r.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cf. Felip Ribot, Libri decem de institutione primorum monachorum, lib. VIII, Epistula Cyrilli, in Paris, Biblioth\u00e8que de l&#8217;Arsenal, Ms.778, ff. 57v-59r.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jo\u00e3o XXII, Inter coeteros (21 de novembro de 1326), em Bull. Carm., I. 66-67, com a qual extendia aos carmelitas a bula Super cathedram concedida aos dominicanos e aos franciscanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Papa Francisco proferiu esta frase pela primeira vez a 18 de agosto de 2014, durante a conversa com os jornalistas no voo de regresso da viagem apost\u00f3lica a Seul, na Coreia do Sul; a express\u00e3o foi repetida v\u00e1rias vezes durante o seu pontificado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cf. Le\u00e3o XIV, Enc\u00edclica Magnifica humanitas sobre a prote\u00e7\u00e3o da pessoa humana na era da intelig\u00eancia artificial (15 de maio de 2026), Cidade do Vaticano 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARTA CIRCULAR DOS SUPERIORES GERAIS P. 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