{"id":4832,"date":"2026-08-31T02:20:00","date_gmt":"2026-08-31T02:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4832"},"modified":"2026-08-28T07:52:41","modified_gmt":"2026-08-28T07:52:41","slug":"aprender-a-calar-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/aprender-a-calar-silencio\/","title":{"rendered":"Aprender a calar: sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Frei Marco Caldas, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O sil\u00eancio respira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sil\u00eancio \u00e9 uma das realidades mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundas da experi\u00eancia humana e espiritual. Atravessa a vida como aus\u00eancia ou plenitude, como amea\u00e7a ou promessa, como vazio ou revela\u00e7\u00e3o. No quotidiano, surge muitas vezes como intervalo, pausa ou suspens\u00e3o; mas, na vida interior, torna\u2011se lugar teol\u00f3gico, espa\u00e7o de encontro, morada do Verbo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A busca do reconhecimento do sil\u00eancio n\u00e3o apenas como uma pr\u00e1tica asc\u00e9tica, mas uma forma de presen\u00e7a \u2013 presen\u00e7a de Deus, presen\u00e7a da verdade, damos ao sil\u00eancio a sua espessura espiritual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pela voz de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, que nos ensina que o sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 mera t\u00e9cnica de recolhimento, mas din\u00e2mica de transforma\u00e7\u00e3o. Ele purifica, ilumina, unifica. Ele despoja a alma das distra\u00e7\u00f5es, das imagens e dos apetites que a dispersam, para que possa escutar a Palavra \u00fanica pronunciada na eternidade. O sil\u00eancio \u00e9, assim, caminho e morada, purifica\u00e7\u00e3o e revela\u00e7\u00e3o, noite e amanhecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje mais do que nunca h\u00e1 a necessidade contempor\u00e2nea de reencontrar um sil\u00eancio que n\u00e3o seja fuga, mas verdade; que n\u00e3o seja aus\u00eancia, mas presen\u00e7a; que n\u00e3o seja retraimento, mas abertura ao Mist\u00e9rio. Num tempo marcado pela vulnerabilidade, pela ansiedade e pela satura\u00e7\u00e3o de ru\u00eddo exterior e interior, o sil\u00eancio torna\u2011se uma urg\u00eancia espiritual e uma pedagogia da alma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sil\u00eancio ensina a esperar, a discernir, a acolher, a amar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atrav\u00e9s de experi\u00eancias e senten\u00e7as, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, ensina-nos que aprender a calar \u00e9 aprender a viver: \u00e9 regressar ao centro, ao fundamento, ao lugar onde Deus habita e onde a alma se reconhece. \u00c9 um itiner\u00e1rio que passa pelo sil\u00eancio sofrido e pelo sil\u00eancio alegre, pela noite e pela luz, pela purifica\u00e7\u00e3o e pela uni\u00e3o. \u00c9 um convite a entrar no espa\u00e7o interior onde o Verbo ressoa como brasa escondida \u2013 sem ru\u00eddo, sem pressa, sem defesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O eco das salas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certo dia, encontrando-me indisposto marquei uma consulta no Centro de Sa\u00fade.&nbsp; No dia marcado l\u00e1 vou eu a consulta. Encontro-me numa sala de espera de uma consulta m\u00e9dica: pessoas sentadas, im\u00f3veis, cada uma recolhida ao seu pequeno mundo. Nenhuma troca verdadeira. Apenas sil\u00eancio. Uma sala de concertos cheia: o maestro entra sob aplausos, avan\u00e7a at\u00e9 ao centro, ergue a batuta. E, de s\u00fabito, o sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sil\u00eancio da sala de espera \u00e9 um sil\u00eancio oco, quase um eco da ansiedade que ali se acumula. O sil\u00eancio da sala de concertos, esse instante suspenso entre o murm\u00fario do p\u00fablico e o primeiro acorde, \u00e9 um sil\u00eancio cheio \u2013 tecido de aten\u00e7\u00e3o, de expectativa, de promessa. Na sala de espera, bastariam algumas palavras para quebrar a rigidez: um \u00abbom dia\u00bb, um coment\u00e1rio sobre o tempo, um gesto simples que aliviasse a tens\u00e3o das entradas e sa\u00eddas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sala de concertos, por\u00e9m, imagina que a pessoa ao teu lado se vira e te pergunta se j\u00e1 decidiste o destino das pr\u00f3ximas f\u00e9rias de ver\u00e3o. Seria quase uma profana\u00e7\u00e3o. Ali, naquele segundo que antecede a m\u00fasica, o sil\u00eancio \u00e9 f\u00e9rtil, vivo, indispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sil\u00eancio pode ser aus\u00eancia ou plenitude. Pode ser um vazio aborrecido ou um espa\u00e7o cheio de sentido. Qual deles escolhemos ver?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temo o sil\u00eancio. Ou melhor: o sil\u00eancio exp\u00f5e os meus medos \u2013 o medo de n\u00e3o ser suficiente, de n\u00e3o ser querido, de n\u00e3o ser capaz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No sil\u00eancio, a culpa e a vergonha encontram espa\u00e7o para se erguerem dentro de mim. E ningu\u00e9m deseja isso; por isso, enche-se o vazio com ru\u00eddo, com movimento, com qualquer coisa que impe\u00e7a o confronto. O problema \u00e9 que, se paro, receio n\u00e3o voltar a levantar-me, n\u00e3o recuperar o ritmo. Receio ficar para tr\u00e1s. Por isso, sigo. Apenas sigo em frente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas como seria se, ao fazer sil\u00eancio \u2013 esse parar que tantas vezes temo \u2013 eu descobrisse que algu\u00e9m estava \u00e0 espera, ali, desde sempre? Algu\u00e9m no interior da minha culpa e da minha vergonha; algu\u00e9m que me olha com uma ternura inesperada, precisamente no centro das minhas pr\u00f3prias defesas. Um olhar que n\u00e3o julga, que n\u00e3o exige, que n\u00e3o pesa: <em>\u00abN\u00e3o se queixe de ningu\u00e9m. N\u00e3o pergunte nada; se tiver de o fazer, fa\u00e7a-o com poucas palavras.\u00bb (D 147)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um olhar que cura. Um olhar que ama. Um olhar que se alegra por eu finalmente ter parado. Desejo tudo isto. Desejo essa presen\u00e7a que n\u00e3o se imp\u00f5e, mas que permanece. Mas sei que n\u00e3o chego l\u00e1 sozinho. Para permitir este sil\u00eancio \u2013 esta tranquilidade cheia de presen\u00e7a \u2013 preciso de alento, de corre\u00e7\u00e3o, de dire\u00e7\u00e3o, de acompanhamento. Preciso de quem me ensine a permanecer, a respirar, a n\u00e3o fugir de mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O sil\u00eancio que conduz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nosso m\u00edstico, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz oferece-nos a possibilidade de um sil\u00eancio habitado, transformador, onde a alma se deixa conduzir por uma luz que n\u00e3o \u00e9 sua. N\u00e3o pretendo aqui uma explica\u00e7\u00e3o longa. O que procuro \u00e9 irriga\u00e7\u00e3o espiritual, \u00e1gua viva que penetre a terra endurecida, para que a transforma\u00e7\u00e3o seja verdadeira e n\u00e3o apenas desejada: <em>\u00abO que falta, se \u00e9 que falta, n\u00e3o \u00e9 escrever ou falar, porque normalmente \u00e9 o que sobra, mas calar e agir. Al\u00e9m do mais, o falar distrai, enquanto que o calar e agir recolhe e fortalece o esp\u00edrito. A partir do momento em que a pessoa sabe o que lhe aconselharam para seu proveito, j\u00e1 n\u00e3o precisa de ouvir nem falar mais, mas apenas p\u00f4-lo verdadeiramente em pr\u00e1tica, com dilig\u00eancia e em sil\u00eancio, atrav\u00e9s da sua humildade, caridade e desprezo de si mesma&#8230;\u00bb (Ct 8)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pequenos sinais que nos atraem: provoca\u00e7\u00f5es que despertam, evoca\u00e7\u00f5es que iluminam. E tudo isto h\u00e1-de conduzir-nos, serenando-nos, desafiando-nos, tal como a \u201cnoite escura\u201d conduz a alma: n\u00e3o pela for\u00e7a, mas pela purifica\u00e7\u00e3o silenciosa que abre espa\u00e7o para a Presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz lembra-nos que Deus age muitas vezes assim: em sinais m\u00ednimos, em lampejos que parecem nada, mas que s\u00e3o tudo. Pequenas gra\u00e7as que, gota a gota, v\u00e3o escavando dentro de n\u00f3s um lugar onde a luz pode finalmente repousar. Provoca\u00e7\u00f5es que nos arrancam ao ru\u00eddo. Evoca\u00e7\u00f5es que nos chamam ao interior. Movimentos que nos tranquilizam porque n\u00e3o s\u00e3o nossos \u2013 s\u00e3o dados, oferecidos e infundidos: <em>\u00abN\u00e3o fale daquilo que Deus lhe d\u00e1, e lembre-se daquelas palavras da Esposa: O meu segredo \u00e9 para mim (Is 24, 16).\u00bb (D 152)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como na subida ao Monte Carmelo, estes sinais n\u00e3o prometem facilidade, mas verdade: conduzem, pacificam, desafiam. S\u00e3o o in\u00edcio de uma transforma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se faz por esfor\u00e7o, mas por abandono confiante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 no deserto \u2013 nesse espa\u00e7o de quietude onde tudo o que \u00e9 sup\u00e9rfluo cai \u2013 que o Senhor fala ao cora\u00e7\u00e3o de Israel. No sil\u00eancio purificado, onde a alma j\u00e1 n\u00e3o tem onde se esconder, a Palavra encontra finalmente caminho. E \u00e9 tamb\u00e9m na imobilidade do primeiro amanhecer, quando a luz ainda hesita e o mundo permanece suspenso, que o Ressuscitado se revela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maria, junto \u00e0 sepultura, n\u00e3o faz nada: espera. E \u00e9 nessa espera silenciosa que Ele se entrega a si mesmo \u2013 n\u00e3o como mem\u00f3ria, mas como presen\u00e7a viva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O Verbo escondido<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Verbo fez-se carne. Somos seres anunciados, visitados em e por uma Palavra que se encarnou na nossa carne e na nossa hist\u00f3ria; uma Palavra que desceu at\u00e9 ao mais \u00edntimo da nossa pobreza. Vem do infinito sil\u00eancio \u2013 essa mudez enamorada onde Deus habita, segundo S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz \u2013 e, nesse sil\u00eancio, continua a ressoar como brasa escondida que arde sem ru\u00eddo: <em>\u00abQuem se queixa ou murmura n\u00e3o \u00e9 perfeito nem sequer bom crist\u00e3o.\u00bb (D 173).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda a linguagem humana, na verdade, n\u00e3o seria sen\u00e3o o af\u00e3 ou o extravio do Eterno Verbo encerrado na nossa finitude, enquanto tentamos decifr\u00e1-lo. Como o santo doutor ensina, o Verbo \u00e9 pronunciado uma s\u00f3 vez, na eternidade, e essa Palavra \u00fanica ecoa na alma em modos sempre novos, sempre pobres, sempre insuficientes. Tentamos dizer o que n\u00e3o cabe na voz, nomear o que excede o nome, traduzir o que s\u00f3 se compreende no sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, ainda assim, \u00e9 esse Verbo silencioso que nos visita, que nos fere suavemente, que nos atrai para dentro de n\u00f3s mesmos, para o lugar onde Ele mora. Porque, no Carmelo \u00abJardim Florido\u00bb, tudo se aprende assim: na quietude, na noite, na escuta enamorada. Por isso, o sil\u00eancio quer ser a nossa voca\u00e7\u00e3o de sentido: chamamento \u00e0 compaix\u00e3o por todas as criaturas da Palavra encarnada; invoca\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia da mesma Palavra glorificada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Arde o Amor numa chama inconsum\u00edvel \u2013 aquela que n\u00e3o se extingue, que n\u00e3o se gasta, que permanece como fogo suave e secreto, \u00e0 maneira da \u00abChama de amor viva\u00bb de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o fogo que ilumina sem devorar, que purifica sem destruir, que aquece sem consumir a madeira da alma. \u00c9 o fogo que permanece porque n\u00e3o \u00e9 nosso: \u00e9 dado, infundido, oferecido. \u00c9 ali onde o sil\u00eancio se descal\u00e7a, como Mois\u00e9s diante da sar\u00e7a ardente (Ex 3, 1\u20136); ou onde a noite repousa aos p\u00e9s do Amado, em sossego, como Rute (Rt 3, 3\u201318); ali se deita e vela o af\u00e3 do nosso desejo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A palavra trope\u00e7a e o sil\u00eancio guarda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todavia, s\u00e3o muitas as distra\u00e7\u00f5es, os ru\u00eddos e as imagens que amea\u00e7am a busca. E, no fundo, nem sempre a linguagem sabe expressar aquilo que a alma conhece e deseja. O cora\u00e7\u00e3o percebe; a palavra trope\u00e7a. O sil\u00eancio guarda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Palavras que sustentam o pulso do indiz\u00edvel, nascidas da precariedade da gram\u00e1tica e da teologia, e que, ao mesmo tempo, apontam com ousado brio para a majestosa desnudez do Verbo Divino, erguido acima de todo o entendimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz explorou como ningu\u00e9m a gesta\u00e7\u00e3o da palavra significante at\u00e9 ao desvelamento do Verbo pleno, no meio do deserto da noite. Construiu, a partir da hermen\u00eautica das suas pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es, um discurso que transcende l\u00ednguas e idades, \u00e9pocas e culturas: palavras doces ao cora\u00e7\u00e3o e r\u00e9cias ao esp\u00edrito que busca a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sentir da alma s\u00e3ojoanista, no que ao sil\u00eancio se refere \u2013 tal como em outras dimens\u00f5es da vida m\u00edstica \u2013 pode agrupar-se em diferentes categorias, segundo o grau de profundidade nos estratos do ser e do viver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 sil\u00eancios de superf\u00edcie e sil\u00eancios de abismo; sil\u00eancios que apenas acalmam e sil\u00eancios que transformam; sil\u00eancios que preparam e sil\u00eancios que consomem; sil\u00eancios que velam e sil\u00eancios que revelam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz reconhece que a palavra humana nasce sempre desta tens\u00e3o: entre o que a alma conhece e o que a linguagem n\u00e3o consegue dizer; entre o Verbo que arde no interior e a voz que trope\u00e7a ao tentar pronunci\u00e1-lo. Por isso, o sil\u00eancio \u2013 esse espa\u00e7o onde o Verbo revela \u2013 torna-se caminho, purifica\u00e7\u00e3o e morada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sil\u00eancio, o esquecimento, o escondimento do mundo v\u00e3o perfilando constela\u00e7\u00f5es de luz que gravitam sobre a intensidade das purifica\u00e7\u00f5es da noite. Assim, h\u00e1 um sil\u00eancio sofrido: trata-se de aprender a calar e a obrar, calar com o apetite e com a l\u00edngua, sossegar o bul\u00edcio das criaturas e as \u00e2nsias da alma. Neste per\u00edodo de mortifica\u00e7\u00e3o dos apetites \u2013 arco de tend\u00eancia distra\u00edda entre a lama e o mundo \u2013 \u00e9 preciso saber estar em nega\u00e7\u00e3o, priva\u00e7\u00e3o, nudez; exercitar-se no acalmar os fervores do sentido: <em>\u201cA alma que quiser chegar rapidamente ao santo recolhimento, ao sil\u00eancio espiritual, \u00e0 simplicidade \u2013 pobreza de esp\u00edrito \u2013, livra-se das amarras das criaturas deste mundo, defende-se das ast\u00facias e armadilhas do dem\u00f3nio e liberta-se de si mesma\u201d (Ct 1) e \u00abNo sil\u00eancio e na esperan\u00e7a est\u00e1 a nossa fortaleza (Is 30,15). (Ct 30)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nosso m\u00edstico, Jo\u00e3o da Cruz, apresenta tr\u00eas senten\u00e7as que funcionam como pedras de funda\u00e7\u00e3o da via asc\u00e9tica: <em>\u00abN\u00e3o reparar nos defeitos alheios, manter o sil\u00eancio e uma rela\u00e7\u00e3o cont\u00ednua com Deus arrancar\u00e1 da alma muitas imperfei\u00e7\u00f5es, tornando-a senhora de grandes virtudes\u00bb (D 117); \u00abA Sabedoria entra pelo amor, pelo sil\u00eancio e pela mortifica\u00e7\u00e3o. Grande sabedoria \u00e9 saber calar e n\u00e3o fazer caso aos ditos, casos e vidas alheias\u00bb (D 108); \u00abFoge do mal. Faz o bem. Procura a paz\u00bb (D 172).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas tr\u00eas guias formam uma pequena via, juntas, s\u00e3o uma coluna vertebral asc\u00e9tica perfeitamente alinhada com S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Purificar o olhar \u2013 n\u00e3o reparar nos defeitos alheios liberta a alma da dispers\u00e3o e abre espa\u00e7o para a rela\u00e7\u00e3o cont\u00ednua com Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Purificar a escuta \u2013 calar diante dos ditos e casos do mundo permite que a sabedoria entre pelo amor, pelo sil\u00eancio e pela mortifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Purificar a a\u00e7\u00e3o \u2013 fugir do mal, fazer o bem e procurar a paz \u00e9 a express\u00e3o exterior da alma pacificada e recolhida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A noite que ensina a ver<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos come\u00e7os da noite, o m\u00edstico constr\u00f3i toda a sua antropologia da cidade e da casa, como met\u00e1fora do habitar e interiorizar os espa\u00e7os mais rec\u00f4nditos e inexplorados do esp\u00edrito humano. \u00c9 preciso sossegar a casa, com os seus dom\u00e9sticos e solicita\u00e7\u00f5es: d\u00favidas, medos que n\u00e3o dormem, o af\u00e3 de querer saber e entender aquilo que ultrapassa o sentido comum. \u00c9 preciso esvaziar a morada interior, desembara\u00e7ar tudo o que obstaculiza a Visita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um sil\u00eancio alegre: a frui\u00e7\u00e3o da sabedoria secreta, a bodega interior, o horto perfumado, a fonte cristalina \u2013 outras tantas met\u00e1foras \u2013 onde a uni\u00e3o da alma com Deus n\u00e3o se consegue exprimir com propriedade. S\u00f3 o esquecimento, o estar alheado e estranho ao mundo, mas com as pot\u00eancias e capacidades edificadas numa paz inalter\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O maravilhoso e a inef\u00e1vel alegria calada e vivificante, em que a alma se sente recriada, chegam ao m\u00e1ximo esplendor no ardor da chama do Esp\u00edrito divino, onde respirar \u00e9 amar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre o sil\u00eancio sofrido e o sil\u00eancio alegre, que com certa frequ\u00eancia se sobrep\u00f5em \u2013 pois a vida m\u00edstica n\u00e3o \u00e9 linear, mas conc\u00eantrica \u2013 podemos rastrear, na sensibilidade das palavras, per\u00edodos de discernimento de estados e sinais. A import\u00e2ncia de um guia \u00e9 t\u00e3o elevada que traz consigo exig\u00eancias e contrapartidas para quem est\u00e1 disposto a arriscar no caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mundo pode deixar a pegada ou o rastro da Palavra, mas tamb\u00e9m o extravio, a confus\u00e3o e a ang\u00fastia. A pergunta \u00e0s criaturas, a resposta delas \u2013 que nem sempre a alma sabe decifrar \u2013 entardece o desejo e anima o gemido da aus\u00eancia. Acontece ent\u00e3o entender ao contr\u00e1rio, por n\u00e3o saber calar nem esperar o tempo e a raz\u00e3o em que se d\u00e1 a presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sacramentalidade do sinal, destinada a ser transcendente \u00e0 realidade da palavra plena e eficaz, por vezes perverte-se ao querer apropriar-se e manipular-se. Daqui nasce a necessidade da noite e do sil\u00eancio: processo despojamento, purifica\u00e7\u00e3o da palavra que possui, do Verbo que pretende submeter, para se deixar recriar na calada a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, que opera nas profundas cavernas do sentido, sem que a pr\u00f3pria alma saiba como: <em>\u00ab[\u2026] n\u00e3o h\u00e1 melhor rem\u00e9dio do que sofrer, agir e calar, guardando os sentidos com a pr\u00e1tica e o desejo da soledade, esquecendo-se de todas as criaturas e acontecimentos, mesmo que o mundo se acabe. N\u00e3o deixar nunca, por bem ou por mal, de pacificar o seu cora\u00e7\u00e3o com entranhas de amor, para padecer em todas as coisas que lhe surgirem.\u00bb (Ct 8)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Deus chega em sil\u00eancio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somos seres anunciados e visitados: Anuncia\u00e7\u00e3o no sil\u00eancio atento, Visita\u00e7\u00e3o no esvaziamento sofrido, Encarna\u00e7\u00e3o que se vai gerando no acolhimento das pot\u00eancias como passividade de uma alma que j\u00e1 se entrega ao Alto, sem reter coisas, e se perde para o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nestes tempos t\u00e3o necessitados de sil\u00eancio e discernimento, quando a nossa vulnerabilidade est\u00e1 a ser dolorosamente tocada, quando a fortaleza e a paci\u00eancia s\u00e3o postas \u00e0 prova, quer-se abocar uma espera que transcende esperan\u00e7as e expectativas superficiais. Calar e agir oferecem-se como convite a explorar os espa\u00e7os interiores da nossa alma, pois esta tem largura e altura, cantos e recantos escuros e tamb\u00e9m sacadas de luz, que nem sempre nos atrevemos a passar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o tempos de deserto interior, desorienta\u00e7\u00e3o exterior, crise e desencanto daquelas hist\u00f3rias que fundaram a nossa hist\u00f3ria \u2013 tamb\u00e9m espiritual e crente. Por tudo isso sentimos a necessidade de verdadeiros mestres, vozes que antes foram escutadas e que nos podem ensinar a ouvir de outro modo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A progress\u00e3o na vida m\u00edstica faz-se em espirais de intensidade de consci\u00eancia, em c\u00edrculos de significa\u00e7\u00e3o, numa experi\u00eancia conc\u00eantrica de aprofundamento no ser. Isto \u00e9, no seguimento da divis\u00e3o cl\u00e1ssica das vias (purgativa, iluminativa e unitiva), demasiado escol\u00e1stica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Concluindo, cada texto de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz pretende conduzir-nos a uma sensibilidade das palavras na consci\u00eancia do sil\u00eancio e do recolhimento, como uma pincelada de luz. Todo o fragmento do nosso m\u00edstico conserva a frescura e a gra\u00e7a do texto original, no sentido de nos atrair ao centro de uma experi\u00eancia singular do sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nascemos num grito \u2013 ferida imemorial, talvez nunca sarada de todo \u2013 gemido que ressoa na imensid\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o, como nas dores de luz de que fala o ap\u00f3stolo S\u00e3o Paulo: \u00abBem sabemos como toda a cria\u00e7\u00e3o geme e sofre as dores de parto at\u00e9 ao presente.\u00bb (Rm 8,22).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo a seguir v\u00eam os cantos dos cisnes que nos embalam, vozes que nos seduzem ou talvez nos espantam, ru\u00eddos que nos afogam, ecos que distraem e confundem.&nbsp;&nbsp; Mas, para regressarmos ao nosso ser, temos de aprender a calar, do mesmo modo que aprendemos as primeiras palavras, balbuciando torpemente enquanto inici\u00e1vamos os nossos primeiros passos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bom caminho!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Marco Caldas, OCD O sil\u00eancio respira O sil\u00eancio \u00e9 uma das realidades mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundas da experi\u00eancia humana e espiritual. 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