{"id":483,"date":"2017-06-18T14:09:07","date_gmt":"2017-06-18T14:09:07","guid":{"rendered":"http:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=483"},"modified":"2017-06-18T14:09:50","modified_gmt":"2017-06-18T14:09:50","slug":"deus-e-ciumento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/deus-e-ciumento\/","title":{"rendered":"Deus \u00e9 ciumento"},"content":{"rendered":"<p class=\"p2\"><b><i>Varia\u00e7\u00e3o sobre a miseric\u00f3rdia segundo S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz<\/i><\/b><\/p>\n<p class=\"p3\"><em><span class=\"s2\">Frei Jo\u00e3o Costa<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\"><b>1.<\/b><\/span> Quando luminosamente S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz ensina que \u00abonde n\u00e3o vires amor, p\u00f5e amor e encontrar\u00e1s amor\u00bb n\u00f3s dever\u00edamos escut\u00e1-lo. Seria melhor para todos, viver\u00edamos todos melhor, e o que \u00e9 mais: viver\u00edamos imitando a Deus. Que Deus \u00e9 amor sabemo-lo, porque o Evangelista Jo\u00e3o o perscrutou quando dormitou sobre o peito do Senhor, e nisso depois meditou durante quase cem anos antes de nos repetir o que ali tinha visto e <span class=\"s3\"><i>ouvisto<\/i><\/span>: a do\u00e7ura da miseric\u00f3rdia do amor de Deus em Jesus.<\/p>\n<p class=\"p4\">Jesus \u00e9 o rosto do amor, os olhos, as m\u00e3os e o cora\u00e7\u00e3o do amor. Quando a obra da cria\u00e7\u00e3o saiu de Deus, saiu-lhe cheia de beleza e amor: somos belos sempre que o nosso olhar exala o toque perfumado do Seu amor.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s2\">Ouso dizer toscamente aquilo que no inverno me aquece: Deus que tudo criou, criou-nos da altura do amor, capazes de amar, de corresponder com amor ao amor com que nos criou e que delicadamente esparziu em nossos cora\u00e7\u00f5es. Deus \u00e9 como um semeador, generoso e esperan\u00e7oso. Deus semeador parece-me uma imagem bela: Ele n\u00e3o apenas criou; tamb\u00e9m nos achou lavradio f\u00e9rtil onde semear o Seu amor. Deus criou-nos para amar, para O amar \u2013 n\u00e3o me ocorre defer\u00eancia maior. Amar quem parece n\u00e3o merec\u00ea-lo, \u00e9 algo que s\u00f3 Deus. Amar quem n\u00e3o guarda a frag\u00e2ncia do amor \u00e9 miseric\u00f3rdia incompar\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">Quando S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz nos ensina a semear o amor, est\u00e1-se mesmo a ver, ou ao menos vejo-o eu, que nos convida a ser semeadores de Deus \u2013 esbanjadores do amor. Convida-nos a esbanj\u00e1-lo ali, ali mesmo, ali sem mais ou maior considera\u00e7\u00e3o, ali onde Deus falha. Ali onde, afinal, Deus \u00e9 fr\u00e1gil, t\u00e3o fr\u00e1gil! Sim, ali onde houver falha de Deus, semeia tu, amor; inunda tu de amor fecundo os desertos cheios da sua falta! Somos para Deus, somos capazes de Deus, temos cora\u00e7\u00e3o semeador como o Dele, que o teceu de carne como o nosso!<\/p>\n<p class=\"p4\">O amor \u00e9 a nossa semeadura.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\"><b>2.<\/b><\/span> Ora ocorre-me ainda que Deus talvez seja ciumento. Sim, Deus \u00e9 ciumento. O Deus da B\u00edblia \u00e9 ciumento, ao menos aquele cujo rosto entrevemos no Antigo Testamento. Ali Deus \u00e9 cruamente ciumento. Em boa verdade, pode sem medo dizer-se que o amor \u00e9 ciumento e n\u00e3o tem como n\u00e3o s\u00ea-lo. Quem nos inundou de amor como pode ficar impass\u00edvel vendo que o cambiamos por migalhas? Quem nos criou para \u00e1guias como n\u00e3o desmaiar\u00e1 ouvindo-nos cacarejar? Quem se prendeu de n\u00f3s como aceitar\u00e1 que descansemos noutros olhos?<\/p>\n<p class=\"p4\">Sim, Deus tem de ser ciumento. Ou ent\u00e3o, n\u00e3o nos ama. N\u00e3o nos quer, e o seu amor semeado em n\u00f3s vale nada. Deus tem de querer-nos a todo o pre\u00e7o, um pre\u00e7o t\u00e3o alto t\u00e3o alto que seja sem pre\u00e7o. Tal como n\u00e3o tem pre\u00e7o a mangedoira ou a cruz! E Deus mais que tudo, porque ama \u2013 ama tudo, afinal.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s2\">Antes de tudo existir, Deus era feliz. Ou talvez n\u00e3o fosse feliz de todo, por n\u00e3o poder amar-nos ainda, e connosco e em n\u00f3s a tudo o que seria criado. Sim, n\u00e3o sei que digo. Sei que no amor de Deus n\u00e3o h\u00e1 sombra, a n\u00e3o ser talvez nas faldas do g\u00e9nesis quando o seu olhar ainda n\u00e3o criara, ainda n\u00e3o conhecera a esperan\u00e7a de Ad\u00e3o, dos Patriarcas, Profetas e justos, ainda n\u00e3o pudera amar Maria e os pastores, os pequeninos, as virgens e os santos. Deus era feliz, mas ainda a carne n\u00e3o fora criada, os p\u00e9s ainda n\u00e3o tinham pisado as plantinhas, o olfacto n\u00e3o saudara ainda a virgindade das rosas, nem ainda o Filho estremecera de frio! Deus n\u00e3o pudera conhecer nem amar plenamente por a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter tido ainda exist\u00eancia, mas amava j\u00e1, j\u00e1 nos amava de cora\u00e7\u00e3o cheio. Em espera. Aguardando-nos. Deus era feliz em amar-se amando-nos na esperan\u00e7a de beijar a carne que o Filho vestiria um dia. Ora, n\u00e3o me \u00e9 aceit\u00e1vel que o amor que assim se expande transbordando as margens de Deus para Deus e para Deus, e por fim para a cria\u00e7\u00e3o \u2013 m\u00e1xime para a humanidade \u2013, sim, n\u00e3o me \u00e9 aceit\u00e1vel que esse amor se tenha vertido para n\u00f3s sem ci\u00fame, tal era o risco de se perder!<\/span><\/p>\n<p class=\"p4\">Sim, sei. No amor perder \u00e9 tamb\u00e9m ganhar. Ver o Filho deposto na mangedoira \u00e9 perder, mas ganhamos n\u00f3s. Logo, Deus tamb\u00e9m. Na cruz, idem. Perde Deus, ganhamos n\u00f3s. Ganha Deus. Nas contas do amor, mesmo que em esperan\u00e7a, Quem perde ganha. Isso sim, mas n\u00e3o me parece que Deus se deite a perder, que o amor se possa deixar perder. N\u00e3o. Imposs\u00edvel. \u00c9 por isso que aceito que Deus seja ciumento. Que nos queira ao pre\u00e7o que seja, mesmo que o pre\u00e7o seja n\u00e3o quer\u00ea-l\u2019O! Que nos abrace, mesmo que lhe cheguemos a casa rotos e cansados. Que nos d\u00ea a Eucaristia, mesmo que o sabor se nos tenha aziumado.<\/p>\n<p class=\"p4\">Ai, meu Deus, que fazes subir t\u00e3o alto t\u00e3o alto, quanto mais abaixo \u2013 at\u00e9 ao ci\u00fame! \u2013 se perde o Teu amor sem sombra. Meu Deus, Tu n\u00e3o nos podes perder, porque \u00e9s Deus n\u00e3o nos pode perder. Tu perdes, mas n\u00e3o nos perdes. Creio que foi isso que mandaste Jesus dizer-nos; e depois do dito j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais para dizer. Apenas repetir: Deus ama-nos com um sol e uma lua de ternura no olhar, com l\u00e1grimas grandes e quentes rolando-lhe dos olhos pelas barbas! Deus asperge-nos o corpo e a alma com o seu olhar de miseric\u00f3rdia! \u00c9 um doce-triste olhar de amor feliz. Por n\u00f3s. Porque s\u00f3 nos pode amar.<\/p>\n<p class=\"p4\">Como um pastorinho ferido que viu nascer os cordeirinhos.<\/p>\n<p class=\"p4\"><span class=\"s3\"><b>3.<\/b><\/span> \u00d3 ovelhinha, olha Deus beijando-te os olhos com a do\u00e7ura do seu olhar de amor. Ele j\u00e1 sabe quanto vai render a tua seara regada pelo sangue do Filho. Por que haveria de ter ci\u00fame do que a sua miseric\u00f3rdia j\u00e1 comprou?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Varia\u00e7\u00e3o sobre a miseric\u00f3rdia segundo S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz Frei Jo\u00e3o Costa 1. 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