{"id":4802,"date":"2026-07-31T02:43:00","date_gmt":"2026-07-31T02:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4802"},"modified":"2026-07-25T08:46:04","modified_gmt":"2026-07-25T08:46:04","slug":"a-longevidade-como-bencao-na-biblia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-longevidade-como-bencao-na-biblia\/","title":{"rendered":"A longevidade como b\u00ean\u00e7\u00e3o na B\u00edblia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os anci\u00e3os b\u00edblicos ofereciam um aben\u00e7oado patamar de experi\u00eancia, donde se podia obter uma vista global com esperan\u00e7a. At\u00e9 o \u00abDeus dos pais\u00bb acreditado pelos anci\u00e3os contribu\u00eda para essa unidade. Porque o ser humano \u00e9 sempre <em>herdeiro<\/em> que pode dar por ter recebido\u2026; e porque muito do que \u00e9 tem um passado (especialmente porque os av\u00f3s e a fam\u00edlia lhe deram a exist\u00eancia), uma das maiores responsabilidades da fam\u00edlia (em que n\u00e3o faltavam os idosos) era a transmiss\u00e3o da f\u00e9 no \u00abDeus dos vossos pais\u00bb (Ex 3,16) para construir o futuro sempre interligado ao passado e ao presente. Esta transmiss\u00e3o era feita espontaneamente, na vida vivida. Mas, porque era t\u00e3o importante, era feita por meio da b\u00ean\u00e7\u00e3o, de forma mais solene imediatamente antes de o patriarca da tribo ou da fam\u00edlia morrer. A b\u00ean\u00e7\u00e3o (<em>berakh\u00e1<\/em>) era a for\u00e7a vital e o poder salvador que a f\u00e9 via a descer de Deus para as pessoas (e animais: Gn 1,22.28). Era o divino a fecundar o humano. Era sempre ac\u00e7\u00e3o, dom e gra\u00e7a de Deus que O tornava presente na vida e interpretava a experi\u00eancia crente. Mas podia ser ministrada pelas pessoas mais velhas, pelos av\u00f3s, pelo anci\u00e3o\u2026, que ent\u00e3o, por concess\u00e3o divina, transmitiam a for\u00e7a salvadora expressa numa vida longa e vigorosa, em numerosa descend\u00eancia, na paz, na seguran\u00e7a: nesse caso, a palavra e o gesto \u2018sacramental\u2019, de modo eficaz, comunicavam Deus aos humanos, o Deus que aben\u00e7oava a sua esperan\u00e7a. A b\u00ean\u00e7\u00e3o tinha sempre como fundamento a protec\u00e7\u00e3o de Deus. Por exemplo, o patriarcaJacob, ao aben\u00e7oar os doze filhos, os doze pilares do futuro povo de Israel, transmitia a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus, por incumb\u00eancia e pela grande idade; aparece agora num texto que reflecte a riqueza da futura tradi\u00e7\u00e3o do povo (Gn 49); neste caso \u00e9 particularmente aug\u00fario de coisas boas e favor\u00e1veis, desejo de prosperidade e bem-estar (cf. J. A. M. PALOS, \u201cA b\u00ean\u00e7\u00e3o na B\u00edblia e na liturgia judaica\u201d, <em>As b\u00ean\u00e7\u00e3os<\/em> [Secretariado Nacional de Liturgia; F\u00e1tima 1996] 11-34).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro da vis\u00e3o b\u00edblica que ligava os bens da vida a uma b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus, a velhice feliz do justo \u00abcheio de dias\u00bb era considerada, ela pr\u00f3pria, b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus (ser aben\u00e7oado equivalia a participar espiritualmente da vida de Deus): a velhice hoje em dia \u00e9 medicada, nos tempos b\u00edblicos era aben\u00e7oada. A vida longa e serena era considerada recompensa de Deus pelas boas ac\u00e7\u00f5es do justo: \u00abOs justos florescer\u00e3o como a palmeira\u2026 At\u00e9 na velhice continuar\u00e3o a dar frutos e h\u00e3o-de manter a seiva e o frescor\u00bb. A b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus aparece como a linfa vital do anci\u00e3o. Nela encontram-se e entrela\u00e7am-se a presen\u00e7a divina com a condi\u00e7\u00e3o humana. A b\u00ean\u00e7\u00e3o dava profundidade e altura \u00e0 longa par\u00e1bola da exist\u00eancia terrena do anci\u00e3o, que, precisamente por meio da b\u00ean\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se tornava par\u00e1bola para a comunidade: \u00abAben\u00e7oar-te-ei; engrandecerei o teu nome; e tu ser\u00e1s b\u00ean\u00e7\u00e3o\u2026 Por ti ser\u00e3o aben\u00e7oadas todas as fam\u00edlias da terra\u00bb \u2013 diz Deus ao velho Abra\u00e3o (Gn 12,2-3; 18,18; 22,18; 26,4; 28,14), significando que por interm\u00e9dio da sua pessoa, dos seus gestos e da sua palavra, qual sacramento, a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus chegaria a todas as pessoas que se acolhessem sob o seu nome. O anci\u00e3o justo era a encarna\u00e7\u00e3o do c\u00e9u nas tendas do homem b\u00edblico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta vis\u00e3o b\u00edblica, religiosa, tinha subjacente o suposto humano de que o bem e a justi\u00e7a t\u00eam sempre o aval e a suma aprova\u00e7\u00e3o de Deus. Longevidade e b\u00ean\u00e7\u00e3o divina estavam entretecidas. \u00abA longevidade n\u00e3o era considerada fruto de condi\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas, como a higiene e o exerc\u00edcio f\u00edsico, mas fruto de uma vida racional e razo\u00e1vel\u201d (L. ALONSO SCH\u00d6KEL \u2013 J. VILCHEZ, <em>I Proverbi<\/em>: citado por G. RAVASI, \u201cLa morte del vecchio sazio di giorni\u201d, <em>La morte e il morire<\/em> [PSV 32; EDB; Bolonha 1995] 31). Esta tese \u00e9 defendida no salmo sapiencial 91, que p\u00f5e Deus a assegurar protec\u00e7\u00e3o ao justo: \u201cHei-de saci\u00e1-lo com longos dias de vida\u201d (v. 16). J\u00e1 o dec\u00e1logo garantia que honrar os pais assegura que Deus \u00abprolongue os teus dias\u00bb (Ex 20,12). A escuta e a pr\u00e1tica da sabedoria, transmitida pelos pais e pelos s\u00e1bios \u00abacrescentam longos dias, anos de vida e prosperidade\u00bb (Pr 3,1-2; 4,10; 9,11). Essa tese tamb\u00e9m ficou formulada num prov\u00e9rbio: \u00abO temor reverencial do Senhor prolonga os dias\u00bb (Pr 10,27). O s\u00e1bio Ben Sira (chamado <em>Eclesi\u00e1stico<\/em> no cristianismo latino) reafirma a liga\u00e7\u00e3o entre alegria, paz, prosperidade e longevidade, numa ades\u00e3o pessoal a Deus, cheia de reconhecimento: \u201cQu\u00e3o bela \u00e9 a sabedoria nas pessoas de idade avan\u00e7ada!&#8230; A experi\u00eancia consumada \u00e9 coroa dos anci\u00e3os e o temor do Senhor \u00e9 a sua gl\u00f3ria\u201d (Sir 25,4-6). Nestas formula\u00e7\u00f5es proverbiais, que concentram a sapi\u00eancia multissecular e refinada de um povo, entram as met\u00e1foras: \u201cOs cabelos brancos s\u00e3o espl\u00eandida coroa que se encontra no caminho da justi\u00e7a\u201d (Pr 16,31). O anci\u00e3o Job afina pelo mesmo diapas\u00e3o: \u201cNos cabelos brancos est\u00e1 a sabedoria; e na longevidade est\u00e1 a intelig\u00eancia\u201d (12,12). Quem \u201codeia a avareza prolongar\u00e1 os dias\u201d (Pr 28,16).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Os anci\u00e3os b\u00edblicos ofereciam um aben\u00e7oado patamar de experi\u00eancia, donde se podia obter uma vista global com esperan\u00e7a. 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