{"id":4800,"date":"2026-07-31T02:41:00","date_gmt":"2026-07-31T02:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4800"},"modified":"2026-07-25T08:43:29","modified_gmt":"2026-07-25T08:43:29","slug":"la-cueva-de-san-jvan-de-la-%e2%80%a0-maria-a-graciosa-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/la-cueva-de-san-jvan-de-la-%e2%80%a0-maria-a-graciosa-mae\/","title":{"rendered":"LA CUEVA DE SAN JVAN DE LA \u2020: Maria, a Graciosa M\u00e3e"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Homem e filho n\u00e3o h\u00e1 sem m\u00e3e. Tal como n\u00e3o h\u00e1 crist\u00e3o nem santo sem M\u00e3e. Assim como o bot\u00e3o da rosa sobressai, assim o crist\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pode uma m\u00e3e ser m\u00e3e de muitos filhos, muitos mesmo, mas o modo como ela ama cada um e a cada um cerca de amor \u00e9 sempre irrepet\u00edvel. Dizem que Deus criou as m\u00e3es quando quis prolongar os milagres. Concedo e convicto acedo: sem m\u00e3es acabavam-se os milagres no nosso mundo. Que milagre n\u00e3o \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o duma nova vida no secreto segredo do seio materno! Haja tumulto ou n\u00e3o no seu cora\u00e7\u00e3o, que milagre n\u00e3o \u00e9! Que milagre n\u00e3o \u00e9 cada nascimento, cada filho ou filha despertando para a vida, abrindo o olhar de espanto e balbuciando mam\u00e3, pap\u00e1! Que milagre n\u00e3o \u00e9 aprender a reconhecer a gra\u00e7a e os perigos pela m\u00e3o da m\u00e3e e da av\u00f3! Que milagre n\u00e3o \u00e9 os sonhos novos dos jovens, o despontar de novas mam\u00e3s e novos pap\u00e1s! Que milagre n\u00e3o \u00e9 que alguns, para alegria das gentes e j\u00fabilos dos anjos e santos, se instaurem como fonte de b\u00ean\u00e7\u00e3o eterna!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pode uma m\u00e3e ter muitos filhos, sim, mas um a um ela os foi vagarosamente tecendo em seu seio, cada um foi chamando \u00e0 vida, cada um saciando da abund\u00e2ncia do seu peito, cada um e cada uma, segundo as necessidades, pela m\u00e3o e com o olhar, ela os vai amparando pelos caminhos que levam ao rio e pelos trilhos de montanha. A m\u00e3e \u00e9 assim mesmo: ama o filho que tem na alcofa e o que a horas certas sai para trabalhar; ama o que est\u00e1 doente e ama o que est\u00e1 forte e \u00e9 ousado; ama e encoraja o que se atrasa e ama o que se adia em sonhas. Ama o que ainda n\u00e3o nasceu e ama aquele que a fez av\u00f3. Ama. Porque \u00e9 m\u00e3e e n\u00e3o tem outro of\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que tenha apenas um ou dois, ou v\u00e1rios, ou muitos, ou um rega\u00e7o mais que cheio, incluindo algum que n\u00e3o seja seu, a m\u00e3e ama, ampara e sonha os sonhos dos filhos e filhas. Com este nina, com outro canta, aquele anima e com aqueloutro chora, e com todos ri e dan\u00e7a. E a cada um d\u00e1 o seu amor que acalenta, encoraja e ampara como o sol de cada dia; se um precisa de muito d\u00e1-lhe muito, se outro de pouco, pouco d\u00e1 e \u00e9 muito tamb\u00e9m. E \u00e9 tudo. Se um tem uma ta\u00e7a grande, ou se pequena, ambas enche, ambas cumula de gra\u00e7a materna t\u00e3o importante e necess\u00e1ria para que cada um cres\u00e7a e d\u00ea frutos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A um conforta com o olhar, a outro com um abra\u00e7o; ao pequenino embala-o no colo, ao adolescente oferece-lhe uns t\u00e9nis. Ao empreendedor sugere prud\u00eancia. Ao maior aben\u00e7oa-lhe os filhos e ensina-o a aben\u00e7o\u00e1-los. A um oferece-lhe a fatia maior do bolo, ao outro a melhor pe\u00e7a de carne a seguir ao pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A m\u00e3e sabe amar o filho, ou filha, e o filho ou filha sabe que a m\u00e3e os ama com ternura. Sim, os filhos ou filhas podem ignorar os mais secretos sofrimentos das m\u00e3es, sobretudo as ang\u00fastias que se assomam ao limiar do seu nascimento e as tremuras nos primeiros meses de suas vidas. Sim, podem ignorar tudo isso. Podem ignorar todas as incertezas que serpenteiam o cora\u00e7\u00e3o da m\u00e3e \u00e0 hora de <em>dar luz<\/em> uma nova criatura. E mesmo que o parto tenha sido sereno e escorreito \u2013 e o <em>menino seja perfeitinho<\/em> \u2013 sempre existem correrias para os m\u00e9dicos, d\u00favidas sobre se tudo estava bem e no lugar, sobre o que aquele menino ou menina vir\u00e1 a ser, que g\u00e9nio traz \u2013 pac\u00edfico, rebelde, inconstante ou audaz. Sim, n\u00f3s, filhos ou filhas nunca inteiramente saberemos o que uma m\u00e3e passa por n\u00f3s, que <em>patio<\/em> \u2013 paix\u00e3o, quero dizer \u2013 passou e sofreu. Sabemos sim, e eu sei da minha, que a m\u00e3e pode ser pobrezinha, mas ainda assim n\u00e3o h\u00e1 melhor m\u00e3e no mundo. Que n\u00e3o quero ser amado por outra se n\u00e3o pela minha. A \u00fanica, a irrepet\u00edvel no seu amor por mim, irrepet\u00edvel no amor por cada um dos meus irm\u00e3os. Por cada um dos seus filhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o me vi jamais t\u00e3o bem cercado de amor, como quando os doces bra\u00e7os fortes de minha m\u00e3e me enla\u00e7aram, como quando comigo ela bailou, para eu adormecer em seu colo. E aposto (sem que algu\u00e9m comigo tenha de apostar) que ela inventou uma outra dan\u00e7a para dan\u00e7ar com cada um dos irm\u00e3os e irm\u00e3s que me seguiram. Ela que a cada um nos desenhou e teceu o cora\u00e7\u00e3o bem sabia que este ou aquele novo cora\u00e7\u00e3ozinho precisava de mais ou menos passinhos, se com a anca mais para cima ou mais para baixo, se mais r\u00e1pida ou mais lenta nos seus passos e no compasso do seu cora\u00e7\u00e3o. Porque a m\u00e3e sabe \u2013 e deve ser a primeira coisa que sobre n\u00f3s ela saber\u00e1 \u2013 qual o compasso a que obedece cada cora\u00e7\u00e3ozinho que ela <em>bota<\/em> ao mundo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada filho \u00e9 \u00fanico e cada dan\u00e7a com cada filho ou filha \u00fanica \u00e9 no mundo tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00f3s somos filhos da m\u00e3e \u2013 e mau sinal \u00e9 se isto vos souber a vern\u00e1culo. N\u00e3o somos da mam\u00e3, somos da M\u00e3e de Nazar\u00e9. Pobre, de avental e descal\u00e7a. Cada cora\u00e7\u00e3o das nossas m\u00e3es, ricas ou pobres, jovens ou maduras, abriga no seu cora\u00e7\u00e3o uma chispa do da Graciosa M\u00e3e. \u00c9 da\u00ed que nos vem a fonte de b\u00ean\u00e7\u00e3o do milagre maior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com minha m\u00e3e eu aprendi a amar a M\u00e3e Maria de Nazar\u00e9. N\u00e3o s\u00e3o muito diferentes, porque ambas pobres. Mas h\u00e1 diferen\u00e7as, claro. Uma \u00e9 a M\u00e3e Graciosa, a outra faz tudo para parecer-se com ela, com o seu cora\u00e7\u00e3o puro e santo, dedicado a Jesus, a Jos\u00e9, ao povo da aldeia, aos pobres e aos peregrinos dos caminhos que peregrinou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, eu conhe\u00e7o o milagre das m\u00e3es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um milagre que n\u00e3o cabe em discursos, mas brota em pequenos rebentos, em gestos simples. Em diminutos cuidados. Daqueles que, sem descanso, se repetem todos os dias. \u00c9 um milagre de confian\u00e7a e de exemplaridade. O milagre de minha m\u00e3e, das nossas m\u00e3es, \u00e9 a confian\u00e7a quase toda posta em Maria. \u00c9 devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Senhora que \u00e9 m\u00e3e como elas; \u00e9 di\u00e1logo com a M\u00e3e delas, M\u00e3e atenta, cuidadosa e pr\u00f3xima. Falam com Ela como falam com uma amiga ou vizinha \u2013 directamente e sem paninhos quentes. Em total confian\u00e7a pedem-lhe tudo, tudo para a sua casa, tudo para os filhos, para as galinhas ou o gato. Sem medo nem meias palavras. Pedem-lhe com a certeza que Ela acede e responde; n\u00e3o lhe dizem sim ou sopas, apenas lhe dizem que \u00e9 M\u00e3e e elas s\u00e3o filhas com crias. Se estudamos, dizem-lhe que andamos com dificuldades em tal mat\u00e9ria; se temos exames, lembram-Lhe que temos de passar de ano; se chove e o tr\u00e2nsito para a escola est\u00e1 complicado, pedem-lhe um helic\u00f3ptero; se vamos para um campo f\u00e9rias, pedem-Lhe que nos traga s\u00e3os de volta e sem rabunhadelas. Enfim, n\u00f3s, filhos, enquanto temos m\u00e3e temos a certeza que a nossa e a de Jesus s\u00e3o amigas ou comadres. Que se ajudam sempre, sempre, que se estimam uma \u00e0 outra porque s\u00e3o boas m\u00e3es. E acertamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu sou feliz porque vi muitas vezes a minha m\u00e3e falando com a M\u00e3e de Jesus, chamando-lhe, ora M\u00e3e, ora Senhora dos Imposs\u00edveis. Vi-a rezar-Lhe com firmeza, com certeza de que por Ela era ouvida. Vi-a fazer a paz como a Rainha da paz. Via tecer a alegria como a Senhora da alegria. Via amar o Amor como Maria amava a Jesus. Via pedir como filha pobre de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A minha m\u00e3e ama a M\u00e3e de Jesus e imita a M\u00e3e de Jesus n\u00e3o por medo nem como forma de retribui\u00e7\u00e3o, mas por que sabe, porque tem no cora\u00e7\u00e3o o sabor da presen\u00e7a de Jesus e a confian\u00e7a certa de que Maria ampara os seus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Ah! E agora esque\u00e7am que at\u00e9 aqui falei da pobre pecadora que \u00e9 a minha m\u00e3e, que o que aqui eu mais queria era falar de Catarina, n\u00e3o de Maria Rosa. Sim, de Catarina, a m\u00e3e de Jvanico de Yepes, o nosso San Jvan de la Crvz.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Frei Jo\u00e3o da Cruz, pequeno frade de corpo, mas gigante de esp\u00edrito, escreveu pouco sobre Nossa Senhora, mas nesse pouco disse muito. E como nele \u00e9 habitual s\u00f3 come\u00e7ou a escrever e a ensinar, e para n\u00e3o repetir, onde os outros haviam terminado. Logo, se \u00e9 certo que ele nunca fala em tom de piedade popular, de quanto sejam devo\u00e7\u00f5es e prociss\u00f5es, pr\u00f3prias da Ordem ou n\u00e3o, o certo \u00e9 que piedoso ele era e as assumiu e as seguiu, como cal\u00e7ada ligeira para o c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vincula\u00e7\u00e3o de Juanico \u00e0 Graciosa Virgem M\u00e3e de Deus \u00e9 precoce, e certamente inspirada no amor que tem \u00e0 sua querida m\u00e3e Catarina. Pudera! Sempre apoucado em falar de si, algo ele disse e confidenciou, e sim, bons testemunhos existem sobre o que declarou acerca da presen\u00e7a de Maria em sua vida. E eles falam e dizem que Juan de Yepes-frei Jo\u00e3o da Cruz foi profundamente de Maria, profundamente a Ela dedicado, constantemente por Ela favorecido. Testemunhas existem que, deliciosamente, nos falam da sua vida plenamente consagrada a Nossa Senhora, honrando-a e servindo-a sem que sobressa\u00edssem gestos ou obras exteriores de vulto, e com eles e por meio deles tamb\u00e9m, fazendo-se santo na sua Ordem, atrav\u00e9s do fiel cumprimento da sua Regra, habitando a sua casa e revestindo-se de seu h\u00e1bito. Claro que era homem de levar flores ao seu altar depositando-as aos p\u00e9s da sua imagem, de visitar os seus santu\u00e1rios, de a invocar com intenso amor, de lhe rezar devo\u00e7\u00f5es, presidir a novenas e prociss\u00f5es, e at\u00e9, de cora\u00e7\u00e3o a latir, invoc\u00e1-la com seus l\u00e1bios, tanto na sa\u00fade como na doen\u00e7a; por\u00e9m, eu me pergunto, e quero que o saibas, leitor, leitora, e n\u00e3o era isso normal num carmelita descal\u00e7o do s\u00e9culo XVI espanhol? Em qualquer carmelita de qualquer s\u00e9culo? Era sim; ora, se era, para qu\u00ea, na \u00f3ptica do Pobre de Fontiveros, referi-lo ou avent\u00e1-lo? Pois n\u00e3o o fazia, n\u00e3o o fez, ou quase n\u00e3o o fez; e eu, se o compreendo, tamb\u00e9m o repreendo. N\u00e3o se dir\u00e3o aqui, portanto, coisas muito espetaculares porque, se ele era por demais austero e enxuto, e n\u00e3o se vangloriava de exterioridades \u2013 ainda que lhes fosse afim e as praticasse e elas o tenham ajudado a constituir-se santo \u2013, antes sim, o direi como peixe de \u00e1guas profundas, dedicando-se e prestando aten\u00e7\u00e3o ao interior, ao mais profundo centro de si mesmo, onde s\u00f3 habita a gl\u00f3ria de Deus, ali mesmo onde sucedem as coisas mais secretas entre Deus e a alma!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que pequenito, Jvan de la Cruz foi homem fundo e profundo. E se todo ele era sereno e pac\u00edfico \u00e0 flor do olhar, tamb\u00e9m era visivelmente dedicad\u00edssimo a Nossa Senhora e seu filho terno, fiado, confiado e amant\u00edssimo. Ainda que o digam pequenito \u2013 coisa que n\u00e3o pode transtrocar-se \u2013 conv\u00e9m assinalar que algu\u00e9m o definiu, e bem, como \u00abum lindo fradinho de cora\u00e7\u00e3o incandescente\u00bb, ardendo de amor pela Sant\u00edssima Trindade, pela Virgem Santa Maria e por S\u00e3o Jos\u00e9 \u2013 acrescento eu, j\u00e1 agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sua exist\u00eancia, t\u00e3o igual \u00e0 de tantos do seu tempo e n\u00e3o s\u00f3 \u00e9, afinal, t\u00e3o \u00fanica e singular que a poder\u00edamos resumir assim: a presen\u00e7a constante de Maria na vida de Jvanico foi a de perfeito amor terno e materno; inteira ele lhe dedicou a vida e ao longo dos seus 49 anos nada quis fazer sem Ela. Bastar-nos-ia recordar que um dia diante duma bel\u00edssima imagem de Nossa Senhora, exclamou algo parecido como: <em>&nbsp;eu, esta imagem e um deserto, e seria o homem mais feliz do mundo!<\/em> (E \u00e9 que nem reclamava um peda\u00e7o de p\u00e3o ou meia vasilha de \u00e1gua \u2013 t\u00e3o s\u00f3, contemplar sem fim a beleza duma imagem de Nossa Senhora!);<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estas linhas, portanto, apenas desejam encarreirar-te o olhar, leitor, leitora, para a Virgem Maria, a Graciosa M\u00e3e de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz e, ao mesmo tempo, colocar diante do teu olhar a figura de um santo \u00edmpar, San Juan de la Cruz, todo ele diligente servi\u00e7al da Virgem Santa Maria. Saibamos, pois, e n\u00e3o ignoremos, que sendo ele menino de brincadeiras inocentes, mas ao mesmo tempo perigosas, Ela estava sempre presente a seu lado e tr\u00eas vezes o livrou das \u00e1guas trai\u00e7oeiras. E n\u00e3o ignoremos jamais que toda a sua inf\u00e2ncia, pelas m\u00e3os e pela devo\u00e7\u00e3o da m\u00e3e Catarina, a sua vida devota passava muito, mas t\u00e3o toda, claro, pela const\u00e2ncia do seu olhar fito no rosto e nas m\u00e3os da M\u00e3e de Jesus;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o ignoremos \u2013 ainda que totalmente n\u00e3o lobriguemos \u2013 como gentil e intensa deve ter sido a sua infantil piedade mariana, porque, afinal, no fim da adolesc\u00eancia, quando todos o queriam em seu claustro \u2013 sem mais mas nem meio mas \u2013 decidido, ele escolheu recluir-se com Ela no claustro da Sua Ordem: o Carmo;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o ignoremos que sendo ele jovem sacerdote, saboreando ainda as prim\u00edcias da un\u00e7\u00e3o sacerdotal, e j\u00e1 com um p\u00e9 fora do claustro, a perspicaz Madre Teresa de Jesus o reconquistou para a Ordem de Nossa Senhora;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o ignoremos, pois os testemunhos s\u00e3o muitos, que sendo j\u00e1 homem maduro, que estivesse onde estivesse \u2013 no claustro ou nos caminhos feitos claustros \u2013, a sua piedade era profundamente mariana, confiadamente mariana, e que a Virgem M\u00e3e de Deus o protegia e livrava de perigos;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o ignoremos tamb\u00e9m \u2013 por muito que alguns hoje se surpreendam e at\u00e9 se escandalizem \u2013 que algumas vezes o seu interior se extasiava com a formosa beleza da M\u00e3e de Deus e, depois, todo ele estremecia e transbordava de alegria e emo\u00e7\u00e3o;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o, n\u00e3o ignoremos ainda, nem jamais nos estranhemos, se dissermos que um dia, pelo menos um dia, frei Jo\u00e3o <em>roubou<\/em> a imagem do Menino Jesus, retirando-a do colo da M\u00e3e e, de rosto airoso e feliz, a portou durante toda uma prociss\u00e3o; acreditar\u00e1s tu nisso, leitor, leitora? E se te disser que outra vez, voltou a <em>furtar<\/em> a imagem do Menino do olhar da M\u00e3e e com ela, feliz, longamente bailou? \u2013 pobre M\u00e3e que ele tanto amava a ponto de, repetidamente, lhe <em>roubar<\/em> o Filho!;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem ignoremos, finalmente, que ao se achegar o fim dos seus dias a Virgem lhe confidenciou que morreria em dia de s\u00e1bado \u2013 o que no Carmo \u00e9 uma gl\u00f3ria. Nem ignoremos que ao longo dos \u00faltimos oito dias da sua vida, esta feliz promessa da Virgem o fez, insistentemente, perguntar qual fosse o dia em que estava, e qual fosse a hora \u2013 porque denodado queria ele chegar a s\u00e1bado;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem ignoremos, finalmente, que foi no s\u00e1bado da oitava da Imaculada que ele foi cantar Matinas para o c\u00e9u juntamente com Ela!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enfim, inteiro ele era e dela sempre foi; e inteiro Ela o recebeu no c\u00e9u em seu dia. Perfeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perguntar\u00e1s, leitor, leitora, como sei, como sabemos tudo isto. Levanto um pouco o v\u00e9u: tal como outros, mas sobretudo ele, o Irm\u00e3o Martinho da Assun\u00e7\u00e3o, companheiro de tantas correrias do Padre Jo\u00e3o declarou que, quer estando em casa, quer andando pelos caminhos, o Santo Padre costumava contar casos e coisas que se tinham passado na sua vida \u2013 e, apesar de t\u00e3o comedido \u2013 confidenciava tudo isso para afervorar e fazer aumentar nos seus companheiros de andan\u00e7as o amor a Nossa Senhora. Logo, portanto, tudo quanto aqui se conta, das duas uma: ou o Santo o contou, ou os seus companheiros o testemunharam. Eu simplesmente procurarei nada inventar nem nada aumentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; J\u00e1 atr\u00e1s dissemos n\u00e3o serem muitas as refer\u00eancias de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz a Nossa Senhora presentes em seus escritos espirituais; o que levou algum autor a conclamar que qualquer uma \u2013 embora haja umas mais que outras \u2013 \u00abvale por um tratado de mariologia\u00bb. Obrigat\u00f3rio ser\u00e1, por isso, que deitemos o olhar a alguns ensinamentos que encontramos nos seus textos; perdoar\u00e1s, leitor, leitora, que sejam apenas tr\u00eas:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Ora\u00e7\u00e3o da Alma Enamorada, o Santo dos Nadas escreveu (e rezou): <em>\u00abA M\u00e3e de Deus \u00e9 minha\u00bb<\/em>. Lendo ou rezando tal ora\u00e7\u00e3o ser\u00e1 imposs\u00edvel n\u00e3o repararmos na profus\u00e3o de pronomes possessivos esparzidos na leirinha daquele pequeno de texto \u2013 meu\/minha, meus\/minhas; e por maioria de raz\u00e3o tal exclama\u00e7\u00e3o muito nos surpreender\u00e1 por se tratar duma <em>tomada de posse \u2013 \u00ab\u00e9 minha\u00bb \u2013<\/em>, e logo por quem tanto se ocupou e ensinou a promover a desapossess\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A raz\u00e3o de t\u00e3o surpreendente ousadia \u00e9 s\u00f3 uma <em>\u00abporque Cristo \u00e9 meu\u00bb<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dizem que por estas duas afirma\u00e7\u00f5es S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz se revelou ao mundo como o homem mais ambicioso: Cristo \u00e9 meu, e em Cristo todas as coisas s\u00e3o minhas; todas as coisas e a M\u00e3e de Deus tamb\u00e9m! Desta forma, diz-se, nunca houve no mundo homem t\u00e3o rico \u2013 e de facto, tudo \u00e9 dele!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perdoar-me-\u00e1s, leitor, leitora, a insist\u00eancia: \u00e9 certo que tudo \u00e9 dele \u2013 \u00abtudo \u00e9 meu e para mim\u00bb \u2013 porque Cristo tamb\u00e9m \u00e9 dele; mas primeiro Cristo foi da M\u00e3e, a Escrava do Senhor, foi Ela que O concebeu, que O gerou, O deu \u00e0 luz, O cuidou, ajudou a crescer e depois n\u2019O-lo deu. E n\u2019O-lo continua a dar desde o c\u00e9u!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Cristo tudo se resume. Cristo \u00e9 da M\u00e3e. E Cristo, que \u00e9 Dela, no-l\u2019A ofereceu a n\u00f3s; e Nela O recebemos a Ele. Tudo \u00e9 nosso, portanto. Por\u00e9m, rezando e acompanhando a ora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, agradeceremos n\u00f3s, algumas vez, cabalmente, \u00e0 Virgem tal imensa d\u00e1diva? E ao Santo tal maravilhosa ora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa outra p\u00e1gina, no livro da Subida do Monte Carmelo; escreveu: <em>\u00abEram assim as da glorios\u00edssima Virgem Nossa Senhora, a qual, estando desde o princ\u00edpio elevada neste alto estado, nunca teve gravada na sua alma forma alguma de criatura, nem se moveu por ela, mas foi sempre movida pelo Esp\u00edrito Santo\u00bb<\/em> (3Subida 2:10). Que \u00e9 como quem diz: em sua vida, a Virgem M\u00e3e de Deus n\u00e3o foi apenas isenta de pecado, mesmo da falta mais m\u00ednima, mas tamb\u00e9m de toda a imperfei\u00e7\u00e3o, porque Ela apenas e sempre se deixou guiar pelo divino Esp\u00edrito de Deus. E a n\u00f3s que tendemos para tal alto estado, s\u00f3 nos cabe olhar \u2013 com docilidade e sem indecis\u00e3o \u2013 para o seu exemplo, por ser Ela o melhor modelo de pensamento, de afecto e de compromisso e de uni\u00e3o a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sua pedagogia espiritual parece que o Santo n\u00e3o ensina outra coisa que o esvaziamento: aqui neste particular sugere-nos que a mem\u00f3ria \u2013 esse \u00e9 o contexto das suas palavras \u2013 se h\u00e1-de esvaziar das not\u00edcias ou conte\u00fados que ali se preservam trazidos pelos sentidos corporais. Este esvaziamento \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio, sob pena de se tornar imposs\u00edvel a uni\u00e3o da mem\u00f3ria com Deus. E quando as pot\u00eancias da alma se transformam em Deus, ent\u00e3o as suas obras se tornam tamb\u00e9m divinas. Como as de Maria, de resto! Confiemo-nos, portanto, ao Esp\u00edrito Santo! Sem medo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tomemos a vida por subida. Imposs\u00edvel subi-la sozinho \u2013 reparar\u00e1s. Na vida de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, Maria foi alento na <em>Subida<\/em>; lua clara na <em>Noite Escura<\/em>. Foi a melodia do seu <em>C\u00e2ntico<\/em>; e o calor da sua <em>Chama<\/em>. Por isso, nunca jamais algum peregrino caminhe ou suba, cante ou se aque\u00e7a longe do cora\u00e7\u00e3o dessa Mulher que s\u00f3 se moveu por inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No livro Chama de Amor Viva, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz escreve: <em>\u00abConv\u00e9m reparar que a alma s\u00f3 trata de apresentar ao Amado as suas necessidades e penas, porque quem ama discretamente n\u00e3o se preocupa em pedir o que carece e deseja, antes apresenta as suas necessidades para que o Amado fa\u00e7a como for servido. Foi assim que procedeu a Virgem bendita com o seu amado Filho nas bodas de Can\u00e1 da Galileia: directamente n\u00e3o Lhe pediu o vinho, mas disse apenas: N\u00e3o t\u00eam vinho\u00bb<\/em> (Chama 2,8). Ao apontar mais uma vez para o modelo que \u00e9 a Virgem de Nazar\u00e9 \u2013 mulher fiada e confiada, discreta e atenta \u2013 talvez o Santo muito diga ali da sua ora\u00e7\u00e3o pessoal, oferecendo-no-la como s\u00famula de perfei\u00e7\u00e3o: aquela que s\u00f3 nasce da mo\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, pois s\u00f3 Ele sabe o que a cada momento nos conv\u00e9m (e para maior gl\u00f3ria de Deus tamb\u00e9m). E \u00e9 que no humilde pedir e falar com Deus, devemos aprender de Maria a rezar, porque nunca jamais nos cabe pedir a Deus exactamente isto ou aquilo, com esta medida ou aqueloutra forma, neste ou naquele tempo, mas apresentar-Lhe, apenas, a necessidade existente, isto \u00e9, dizer-Lhe como Ela disse a seu Filho: n\u00e3o t\u00eam vinho!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E Ele far\u00e1 o que entender deva ser feito!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o ser\u00e1 defeito teu, leitor, leitora, se naquele pequenino texto da <em>Chama<\/em> reparares na express\u00e3o: \u00ab<em>Virgem bendita com o seu amado Filho\u00bb<\/em>. \u00c9 que eu muito me engano, ou o que o Santo nos est\u00e1 a dizer \u00e9 que Jesus \u00e9 o verdadeiro amado da Virgem! E a ser assim, a efic\u00e1cia da ora\u00e7\u00e3o vem tamb\u00e9m desse amor (que une a Virgem ao Filho)! E isto \u00e9, pois, mui relevante para a ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3: <em>\u00abporque quando Deus \u00e9 amado, atende com grande facilidade \u00e0s preces de quem O ama\u00bb<\/em> (Chama B 1,13).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ah, como talvez se explique a inefic\u00e1cia de tanta ora\u00e7\u00e3o bendita: falamos de mais e amamos de menos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olha bem, leitor; olha bem o que aqui intuo: n\u00e3o querer\u00e1 o Santo com isto dizer-nos que ter o cora\u00e7\u00e3o inteiro em Deus; isto \u00e9, n\u00e3o partido e repartido entre Deus e o mundo, nos traz a n\u00f3s e, por n\u00f3s ao mundo, um mar de gra\u00e7as? Sim, nada, nenhum la\u00e7o \u00e9 t\u00e3o forte como o amor, para alcan\u00e7ar e trazer de Deus quanto no mundo da f\u00e9 precisamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Permite-me que, por \u00faltimo, falhe \u00e0 palavra dada, e te deixe aqui outros dois breves apontamentos marianos de San Jvan de la Crvz; um mais breve que o outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No livro da Chama de Amor Viva, vers\u00e3o B, encontramos o seguinte texto: <em>\u00abconv\u00e9m saber que cada coisa tem e faz sombra conforme o modo e propriedades dessa mesma coisa. Se \u00e9 opaca e escura, a sombra \u00e9 espessa; se \u00e9 menos densa, clara e subtil, tamb\u00e9m a sombra \u00e9 mais clara e subtil. Assim, a sombra de uma treva ser\u00e1 outra treva como a primeira, e a sombra <\/em>[&#8230;]<em> das sombras de Deus, h\u00e3o-de ser acesas e resplandecentes \u00e0 fei\u00e7\u00e3o das l\u00e2mpadas que as produzem; portanto, estas sombras ser\u00e3o tamb\u00e9m resplendores\u00bb <\/em>(Chama 3:13-14).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que neste contexto e no seguimento deste texto nos atreveremos a dizer \u00e9 que a Virgem Maria, M\u00e3e da Luz, ser\u00e1 algo como <em>Deus em sombra<\/em>. E por essa raz\u00e3o, um pouco mais \u00e0 frente, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz dir\u00e1: <em>\u00abSegundo isto, quais ser\u00e3o as sombras que o Esp\u00edrito Santo produzir\u00e1 nesta alma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s grandezas de suas virtudes e atributos? Estando t\u00e3o perto dela, n\u00e3o s\u00f3 a toca com a sombra, mas une-se com ela em sombras e resplendores; ent\u00e3o, como h\u00e1-de a alma entender e saborear Deus em cada uma delas, segundo a propriedade e fei\u00e7\u00e3o de Deus em cada uma delas?\u00bb<\/em> (Chama 3:15).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cremos que daqui se pode indiciar que, \u00e0 luz do Santo Poeta, a Virgem Maria, toda ela \u00e9 plena da sombra luminosa de Deus, \u00e9 <em>Deus por participa\u00e7\u00e3o de Deus<\/em>, isto \u00e9: \u00e9 imagem e revela\u00e7\u00e3o de Deus, a ponto de por Ela e Nela intuirmos um pouco mais e um pouco melhor do rosto terno de Deus. Afinal Nela se realizou o sonho de Deus, precisamente quando o poder de Deus se fez sombra sobre Ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enfim, n\u00e3o \u00e9 nada curto o alcance deste ensinamento de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Concluamos esta pequena incurs\u00e3o pelo marianismo de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, com uma breve invoca\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora que o Santo deixou escrita no seu Romance sobre o Nascimento de Cristo. Neste poema irmanam-se no cora\u00e7\u00e3o cantor do poeta a sensibilidade popular t\u00edpica do Natal e a profundidade t\u00edpica dum te\u00f3logo contemplativo e m\u00edstico. E ambas se conjugam muito bem. O poeta canta ali o mist\u00e9rio da Incarna\u00e7\u00e3o como um despos\u00f3rio celebrado na gruta de Bel\u00e9m entre a pessoa do Filho de Deus e a natureza humana; entre a natureza divina presente no Verbo de Deus e a humanidade, t\u00e3o especialmente celebrado e cantado por anjos e pastores com c\u00e2nticos e melodias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Especial destaque ali se d\u00e1 \u00e0 Virgem-M\u00e3e porque em seus bra\u00e7os Ela tomou os desposados que se haviam unido em seu seio \u2013 isto \u00e9, tomou Ela a Jesus-Deus-e-homem, sa\u00eddo de seu t\u00e1lamo, o seu ventre virginal, para remansadamente O depor sobre as palhas da manjedoira. A este sacr\u00e1rio alv\u00edssimo que \u00e9 Maria, neste poema, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz s\u00f3 encontrou um nome para lhe chamar: \u00abA graciosa M\u00e3e\u00bb! E por isso este apartado eu o termino assim:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 <em>Graciosa M\u00e3e de Deus humanado:<\/em> Rogai por n\u00f3s!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5.\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 J\u00e1 quase \u00e9 hora de terminar; n\u00e3o porque tudo fique dito, e menos ainda bem dito. Mas por ser meu desejo que estes textos n\u00e3o sejam demasiado grandes, a fim de que possam ser lidos por todos. Por isso o encerro com algumas pequenas margaridas marianas que ao longo da vida de San Jvan de la Crvz foram brotando do seu cora\u00e7\u00e3o santo. A elas vamos, pois, porque em muitos casos me enlevam mais que os tratados e s\u00famulas teol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Livre das \u00e1guas. J\u00e1 atr\u00e1s ficou dito que, por tr\u00eas vezes, a Virgem livrou Jvan das \u00e1guas trai\u00e7oeiras. Vale a pena contar os relatos, quer porque o s\u00e3o, e s\u00e3o curtos, quer porque eles nos falam muito e bem da sua alma e da sua ternura pela Graciosa M\u00e3e de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa lagoa de Fontiveros. Nos in\u00edcios de 1582 frei Jo\u00e3o da Cruz foi eleito prior de Granada; em 1583 foi reeleito. Num desses anos que ali passou, contou que sendo menino, em Fontiveros, sua terra natal, andava ele e outros meninos brincando junto a uma lagoa. N\u00e3o estou certo como seria a brincadeira, mas parece que consistia em atirar uma vara com toda a for\u00e7a para as profundidades da \u00e1gua da lagoa e depois recolh\u00ea-la, rapidamente, quando ela regressasse \u00e0 tona. Ing\u00e9nua brincadeira de meninos pobres, em tempos que ningu\u00e9m sonhava com as PlayStation de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhuma das narra\u00e7\u00f5es que existe diz quantos meninos fossem, nem quantas varas atirou cada um; apenas d\u00e3o a entender que aquela brincadeira os entretinha e os fazia felizes, pelo que com ela n\u00e3o se entretiveram apenas uma vez. Ora, pois: o que sucedeu ent\u00e3o, de t\u00e3o surpreendente? Sucedeu que de certa vez \u2013 talvez porque a vara de Jvanico n\u00e3o regressou \u00e0 flor da \u00e1gua com \u00edmpeto suficiente para que a agarrasse prontamente \u2013 o menino caiu dentro da lagoa barrenta. Talvez ele se tenha debru\u00e7ado em demasia e, desequilibrando-se, afundou-se na \u00e1gua lodosa. O susto foi grande para todos e o alarido das demais crian\u00e7as tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conta o Santo, e contou-o muitas vezes, que naquele entrementes em que se debatia com as \u00e1guas profundas e o lodo da lagoa, Nossa Senhora lhe apareceu e lhe pediu que lhe desse a m\u00e3o para o livrar das \u00e1guas; e o menino n\u00e3o dava a m\u00e3o \u00e0 Senhora porque \u00aba tinha suja de barro e n\u00e3o queria sujar a dela, que era t\u00e3o formosa e linda\u00bb. Sigamos ouvindo o Santo: \u00abestando assim nesta contenda [com a Senhora] apareceu, entretanto, um lavrador \u2013 alguns dizem que era S\u00e3o Jos\u00e9! \u2013 que lhe estendeu una vara que trazia; eu agarrei-me a ela e assim sa\u00ed da lagoa\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No po\u00e7o do hospital de Medina del Campo. J\u00e1 o sabemos menino ac\u00f3lito, esmoleiro e enfermeiro no Hospital das Bubas de Medina. N\u00e3o era certamente o \u00fanico, pois havia mais. Certo dia em que brincava com os companheiros no p\u00e1tio do hospital, um dos colegas empurrou-o e Jvanico caiu no po\u00e7o da nora. Susto, horror. N\u00e3o se sabe o m\u00eas, mas as \u00e1guas eram fundas, negras e frias. E foram tantos que o viram no fundo do po\u00e7o, que o assunto foi falado em toda a vila de Medina e arredores. E se assim foi, foi, que o Santo jamais o negou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns que contam este facto s\u00f3 o souberam pela boca do Santo \u2013 como foi o caso da Madre Francisca da M\u00e3e de Deus. Narrou ela que ele, ca\u00eddo no po\u00e7o, \u00abnunca se afundou nas \u00e1guas escuras, mas sempre esteve sobre elas, at\u00e9 que chegou quem lhe lan\u00e7asse uma corda e o retirasse\u00bb. Ah, pois, sim, dir\u00e1s tu, leitor, leitora, mas como \u00e9 que Jvanico se manteve \u00e0 flor da \u00e1gua tanto tempo? Manteve-se, segundo o que ele contou, porque \u00abNossa Senhora o sustinha pela m\u00e3o\u00bb; e como se sabe: quando a M\u00e3e p\u00f5e a m\u00e3o, tudo serena, tudo se sust\u00e9m!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num rio, algures entre Castilha e Andaluzia. Certo dia, j\u00e1 frei Jo\u00e3o era homem maduro e grave, indo de Manchuela para Jaen, o Santo deparou-se com um rio a transbordar. A subida das \u00e1guas deve ter sido repentina, raz\u00e3o pela qual na margem aguardam quatro arrieiros para fazer a travessia em seguran\u00e7a. Frei Jo\u00e3o chega em cima dum burrico. Imprevidente ele n\u00e3o \u00e9, mas contra todas as prudentes falas ele se atira \u00e0s \u00e1guas. Eis, sen\u00e3o quando, vindo pela correnteza abaixo um tronco se mete entre as patas da cavalgadura e derruba montada e cavalgador. E pugnando o Santo contra as \u00e1guas e o tronco, pareceu-lhe ver Nossa Senhora que o segurou pelas pontas da capa e o retirou para fora; e uma vez fora, apressado se encaminho para uma pousada onde jazia um homem ferido de morte, necessitado de confiss\u00e3o geral!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maria, o olhar e o cora\u00e7\u00e3o de Maria, Senhora das \u00e1guas bravias, estiveram sempre diante do cora\u00e7\u00e3o e do olhar de frei Jo\u00e3o da Cruz. Sempre, sempre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Op\u00e7\u00e3o de vida. Sabemos bem que na juventude, ao concluir os estudos secund\u00e1rios, houve, como todos, de escolher rumo para a sua vida. A verdade \u00e9 que se lhe ofereciam v\u00e1rios caminhos: ou sacerdote capel\u00e3o do Hospital da Concei\u00e7\u00e3o; ou religioso franciscano, ou at\u00e9 mesmo jesu\u00edta, entre os quais conclu\u00edra os estudos m\u00e9dios com um aproveitamento elevad\u00edssimo. Entre estas e outras consider\u00e1veis op\u00e7\u00f5es, inesperadamente Jo\u00e3o de Yepes escolheu entrar no claustro do convento do Carmo de Santa Ana de Medina. Muitos se perguntam o porqu\u00ea dessa elei\u00e7\u00e3o \u2013 j\u00e1 eu n\u00e3o duvido que era por ser o claustro mais pobre de todos; mas tamb\u00e9m estou com todos os que dizem que ele o elegeu por ser da Ordem do Carmo, a Ordem de Nossa Senhora. \u00c9 que desde menino todo ele Dela \u00e9, todo a Ela est\u00e1 devotado e consagrado; e se assim \u00e9, como tra\u00ed-la, dirigindo-se para outro claustro mais pomposo que a casinha de Nazar\u00e9? N\u00e3o, ele n\u00e3o podia revestir-se sen\u00e3o do h\u00e1bito de Nossa Senhora, e foi, pois, esse que escolheu para toda a vida!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Encontro definidor. Surpreendentemente, depois de ordenado sacerdote, frei Jo\u00e3o sofre um assustador torpel de d\u00favidas e ang\u00fastias terr\u00edveis. E tanto \u00e9 o que ele detidamente rumina no seu interior, que se decidiu a desvestir o h\u00e1bito da Senhora do Carmo para se revestir do de monge cartuxo. Anda nestas quando em Agosto de 1567 desceu a Medina del Campo para celebrar a primeira Missa. Ele n\u00e3o sabe, mas ali vive, desde h\u00e1 algum tempo, a Madre Teresa de Jesus. Encontram-se, por fim, os dois no locut\u00f3rio do Carmelo, num encontro mediado por um companheiro de estudos de frei Jo\u00e3o. A monja procura pedras para um convento de frades contemplativos e n\u00e3o as acha, pelo menos uma que seja inteira e cabal para a miss\u00e3o que o Esp\u00edrito Santo lhe inspira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa discreta tarde juntam-se os dois santos \u2013 e que santos! \u2013, um de cada lado da grossa grade de ferro. Desse encontro se diz que duas mulheres \u2013 Teresa e a Virgem Maria \u2013 se coligaram para definitivamente ganhar o fradinho pobre de Fontiveros, para a Ordem de Nossa Senhora, o Carmo. De facto, frei Jo\u00e3o n\u00e3o escondeu, jamais \u00e0 Madre que pretende ingressar na Cartuxa de Paular. J\u00e1 a Madre, perspicaz em reconhecer os anelos de perfei\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m, concorda com tais desejos, e informa-o que possui duas patentes do Padre Geral Rubeo, devot\u00edssimo de Nossa Senhora, para inaugurar dois conventos masculinos inteiramente a Ela dedicados. H\u00e1 at\u00e9 quem diga que foi Ela a verdadeira promotora deste encontro feliz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O certo \u00e9 que frei Jo\u00e3o apenas pediu uma coisa: que em nada a Madre se demorasse. E ela n\u00e3o se demorar\u00e1, n\u00e3o. Poucos dias depois, antes de Setembro, isto \u00e9, antes que frei Jo\u00e3o a acompanhasse na funda\u00e7\u00e3o do Carmelo de Valhadolide, a pedido da Santa Madre, aparece-lhes ele vestido de Descal\u00e7o, de p\u00e9s nus, h\u00e1bito curto e pobre, de estamenha de cor castanha, da mais ordin\u00e1ria que havia. O burel fora talhado pela pr\u00f3pria Madre Teresa e costurado por ela e suas monjas. E por sobre o saial marron uma grossa capa branca. Quando as monjitas o viram no locut\u00f3rio, viram o que nunca ningu\u00e9m antes tinha visto: um Carmelita Descal\u00e7o com um h\u00e1bito pobre como o avental da M\u00e3e de Nazar\u00e9&#8230; Eis ali o primeiro aparecendo no mundo, primeiro e viva imagem de homem contemplativo e penitente. Naquela hora, o mundo (representado pelas monjinhas), os anjos e os santos assistiram maravilhados e edificados a este espect\u00e1culo de pobreza ineg\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro de breves dias, o pequeno filho da Virgem Maria, descal\u00e7o e garboso, palmilhar\u00e1 revestido do pobre h\u00e1bito da M\u00e3e, os longos trilhos poeirentos de Castela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00d3 que belo \u00e9 o h\u00e1bito da Virgem!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Filho, tem paci\u00eancia. Entre o dia 28 de Novembro de 1568 e os in\u00edcios de Dezembro de 1577 a vida da Descalcez e a de frei Jo\u00e3o da Cruz \u00e9 um fervilhar em permanente corre-corre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(J\u00e1 sabes, leitor, leitora, que a primeira data corresponde \u00e0 funda\u00e7\u00e3o dos Carmelitas Descal\u00e7os \u2013 no primeiro domingo de Advento; e a segunda refere-se ao dia em que prenderam o pobre fradinho Santo e, raptado e vendado, o levaram para a pris\u00e3o conventual do Carmo de Toledo.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, pois, esses curtos anos voaram como um f\u00f3sforo aceso. N\u00e3o \u00e9 preciso descrever aqui como foi a vida daquelas primeiras comunidades, pois \u00e9 sabido como as dimens\u00f5es contemplativa, mariana e pastoral ou mission\u00e1ria estiveram mais que presentes e bem aparelhadas entre si. O que sim devemos sublinhar \u00e9 que o aparecimento e implanta\u00e7\u00e3o dos carmelitas descal\u00e7os foi t\u00e3o r\u00e1pida e bem-sucedida como fogo ardendo em palha seca. E poucos ou nenhuns estavam preparados para tal. Vai da\u00ed, raptaram aquele fradinho t\u00e3o Z\u00e9-ningu\u00e9m que custa a crer que afrontasse ou fizesse mal a algum instalado. Pronto, mas j\u00e1 \u00e9 sabido dos Evangelhos que a pedra preferida \u00e9 a enjeitada, n\u00e3o a aparelhada e luzente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E pois, raptaram-no, torturaram-no e martirizaram-no impiedosamente durante os nove meses que o aproximaram do dia 14 de Agosto de 1578. Na tarde desse dia deu-se o di\u00e1logo que j\u00e1 conheces, leitor, leitora. Entrando o prior padre Maldonado na enxovia em que o ret\u00eam prisioneiro, acha-o por terra e de costas para a porta. Jaz desvalido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Afrontando-o com o bico da sand\u00e1lia nas costas, pergunta o chefe da pris\u00e3o ao encarcerado:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Porque n\u00e3o vos levantais, se venho visitar-vos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Perdoe-me Vossa Rever\u00eancia, pois, fraco e absorto, n\u00e3o me apercebi da vossa chegada! \u2013 contestou, desculpando-se, enquanto cambaleando e a custo, procurava erguer-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 E em que pens\u00e1veis, agora mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Estou a pensar que amanh\u00e3 \u00e9 dia de Nossa Senhora e que muito eu gostava de rezar Missa!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(A narrativa n\u00e3o o diz nesta p\u00e1gina, mas sabido \u00e9 que o haviam privado de dizer Missa durante os pret\u00e9ritos nove meses!)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Nunca isso acontecer\u00e1 em meus dias de superior! \u2013 replica-lhe o cruel algoz, enquanto se vira, sai e bate a porta com estrondo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Anos depois, v\u00e1rias pessoas jurar\u00e3o declarando terem ouvido do Santo Padre que no dia seguinte \u00e0quela inj\u00faria \u2013 portanto, no dia solene da Assun\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora \u2013 Ela lhe apareceu na pris\u00e3o, pedindo-lhe que fosse paciente, e declarando-lhe que em breve o salvaria; e em prova disso lhe mostrou uma janela \u2013 por sinal, alt\u00edssima! \u2013 por onde ele haveria de fugir. E assim, como j\u00e1 deixei descrito noutro lugar: em uma noite escura, com \u00e2nsias em amores inflamado, miraculosamente, o fradinho pobre e m\u00e1rtir de amor da pris\u00e3o fugiu com sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E em pouco tempo os carmelitas reformados obtiveram licen\u00e7a para criarem uma prov\u00edncia separada \u2013 a primeira dos carmelitas descal\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A da capa branca. Narram ainda os anais do carmo descal\u00e7o outra maravilha de Nossa Senhora em favor de seu filho, o padre Jo\u00e3o. J\u00e1 maravilhado aqui a contei algures, mas esta \u00e9 tamb\u00e9m a hora de a recontar refor\u00e7ando a clave mariana. (Perdoar\u00e1s, leitor, leitora, se desemparelhar algum pormenor.) Quem no-la conta \u00e9 o Irm\u00e3o Martinho da Assun\u00e7\u00e3o, que participou no acontecimento: estando frei Jo\u00e3o da Cruz na funda\u00e7\u00e3o de C\u00f3rdova, derrubavam-se paredes para melhor aparelhar a casa e a igreja. Tendo cavado certa parede pela base, puxaram-na depois com sogas, a fim de a derrubarem por terra. Surpreendentemente esta acabou caindo n\u00e3o para onde era puxada, mas sobre a cela do Santo, soterrando-o. Literalmente. Logo ali acorreram pe\u00f5es, oper\u00e1rios e frades, em esfor\u00e7o, para retirar terra, pedra e tabiques; e quando o criam morto, acharam-no, rindo-se a um canto, embrulhado na capa branca, declarando:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Foram Voc\u00eas muito pontuais! E n\u00e3o fora <em>a da Capa Branca<\/em> \u2013 a Senhora do Carmo \u2013 e n\u00e3o estaria eu agora aqui, livre de perigos e sem nenhum arranh\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Celebrando as suas festas. Aquele homem e frade adusto e austero era, afinal, um ramalhete de finezas e delicadezas, mais ainda em tratando-se dos dias festivos da Virgem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Natal mandava p\u00f4r a Virgem num andor e levavam-na em prociss\u00e3o pelo claustro. N\u00e3o se tratava duma prociss\u00e3o penitencial, ainda que o fosse, mas duma prece em modo exalta\u00e7\u00e3o. Quando chegavam \u00e0 porta duma cela (ou quarto), cantavam versos do Santo, como este:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Del Verbo divino,<br>a Virgem pre\u00f1ada,<br>viene de caminho,<br><em>si le dais posada<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Por julgar desnecess\u00e1rio, isto \u00e9, por crer que qualquer portugu\u00eas saber\u00e1 ler e entender esta quadra em castelhano, n\u00e3o me urge traduzi-la, para que lendo-a deste modo, sintamos toda a ternura e candura da piedade dos versos marianos de San Jvan de la Crvz!)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E depois l\u00e1 seguiam, e em chegando a nova porta, e a outra, e a outra cantavam novamente estes e glosas destes versos que anunciavam a proximidade do parto da Virgem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa outra festa, no dia da Senhora das Candeias, presidindo o Santo, depois de benzidas as velas, isto \u00e9, ante de iniciada a prociss\u00e3o, mandou descer o andor da Senhora e retirou-lhe o Filho dos bra\u00e7os, e qual Santo Velho Sime\u00e3o, caminhou com Ele, afervorando muito as gentes da terra e os santos do c\u00e9u!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos outros relatos existem, migalhas uns e outros algo mais que isso. S\u00e3o <em>peque\u00f1eces<\/em>, pouquidades, direi, que \u00e9 bem mais que <em>piquinhidades<\/em> t\u00edpicas da piedade sens\u00edvel de filho por sua M\u00e3e. N\u00e3o as relato aqui, pois n\u00e3o acabar\u00edamos de as contar. Por isso, passo de imediato para as suas \u00faltimas horas de vida:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sua morte foi a de um m\u00edstico enamorado. E foi tamb\u00e9m uma morte anunciada oito dias antes, como j\u00e1 sabemos, pela <em>Bendita Senhora,<\/em> a <em>Graciosa M\u00e3e de Deus<\/em>. Ela que por ele em vida t\u00e3o amada foi, esteve presente como m\u00e3e e confidente em cada segundo da sua dolorosa agonia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No \u00faltimo dia, s\u00e1bado, 13 de dezembro de 1591. Quase de espa\u00e7o em espa\u00e7o, foi perguntando as horas ao seu enfermeiro. Tinha pressa de ir-se, como bem sabes, leitor, leitora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fernando D\u00edas, pai de Catarina de Cristo \u2013 uma das duas mulheres que lavaram as gazes que vendavam as feridas da perna do Santo \u2013 estava na cela de San Jvan de la Cruz nos \u00faltimos momentos da sua vida. Pela sua vida fora sempre lembrou a morte do Santo e nunca esqueceu que nos \u00faltimos momentos da sua agonia sustentou na m\u00e3o direita uma vela acesa. Conta, pois ele, e os frades da comunidade \u00dabeda o corroboram, que \u00e0s onze da noite o Santo perguntou que horas eram; e qual seria o dia seguinte. E quando lhe disseram que seria s\u00e1bado, respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 Oh que dia t\u00e3o feliz para mim, porque ao c\u00e9u tenho de ir rezar matinas com Nossa Senhora!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim foi como, na boa companhia de sempre, a de Jesus e de Maria, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz voando, entregou a sua alma a Deus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Homem e filho n\u00e3o h\u00e1 sem m\u00e3e. Tal como n\u00e3o h\u00e1 crist\u00e3o nem santo sem M\u00e3e. 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