{"id":4787,"date":"2026-07-31T02:29:00","date_gmt":"2026-07-31T02:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4787"},"modified":"2026-07-25T08:30:39","modified_gmt":"2026-07-25T08:30:39","slug":"ano-jubilar-de-sao-joao-da-cruz-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/ano-jubilar-de-sao-joao-da-cruz-2\/","title":{"rendered":"Ano Jubilar de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>Jo\u00e3o da Cruz, poeta \u00aba lo divino\u00bb<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Em que poeta, por original que seja, n\u00e3o concorrem v\u00e1rias influ\u00eancias liter\u00e1rias? Ele alimenta-se do que a vida lhe oferece (do que l\u00ea e do que medita, do livro que o acaso lhe p\u00f4s nas m\u00e3os, do passageiro e do permanente, do antigo e do contempor\u00e2neo), para o oferecer ao mundo convertido em obra de arte. Tudo deixa vest\u00edgios na sens\u00edvel e virginal nervura da sua alma. Mas a mat\u00e9ria recebida \u00e9 por ele fundida de maneira prodigiosa no pr\u00f3prio contributo, original: com a imagina\u00e7\u00e3o em flecha, com a fina sensibilidade, com as fibras que ao amor respondem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m assim foi com Jo\u00e3o da Cruz, padroeiro dos poetas espanh\u00f3is. Ora, uma das fontes da sua inspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica foi a poesia popular e tradicional que cantava o amor humano. No s\u00e9c. XVI, o s\u00e9culo de ouro espanhol e s\u00e9culo de Jo\u00e3o da Cruz, a poesia caracterizava-se por um fen\u00f3meno que penetrou no s\u00e9c. XVII e n\u00e3o era s\u00f3 espanhol: era o dos poetas \u00aba lo divino\u00bb. Faziam a convers\u00e3o de poemas de amor humano a um sentido religioso; vertiam-nos \u2018\u00e0 moda do divino\u2019, retocando ou mudando s\u00f3 poucas palavras do n\u00facleo inicial. Jo\u00e3o da Cruz, com especial predilec\u00e7\u00e3o pela poesia profana, usou abundantemente este recurso: cruzando e fecundando o poema humano com a simb\u00f3lica pr\u00f3pria da poesia, dava-lhe nova vida, reorientava-o \u2018para o divino\u2019: fazia-o parar no divino. A sua obra po\u00e9tica inseria-se nessa grande corrente de diviniza\u00e7\u00e3o do amor humano: \u00e9 resultado dela (\u00e9 significativo que tamb\u00e9m S. Teresa de Jesus, que tinha direc\u00e7\u00e3o espiritual do santo, adaptasse can\u00e7\u00f5es tradicionais ao plano divino). Dizem os estudiosos de Jo\u00e3o da Cruz que tudo o que na sua poesia n\u00e3o procede do b\u00edblico C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos prov\u00e9m da eleva\u00e7\u00e3o da poesia tradicional amat\u00f3ria profana ao n\u00edvel do divino. Poesias inteiras do santo respiravam pelos pulm\u00f5es de composi\u00e7\u00f5es profanas (algumas coplas, O pastorinho\u2026). Situado dentro desse grande movimento de diviniza\u00e7\u00e3o do sentido de poemas humanos e inflamado da viva experi\u00eancia de Deus, Jo\u00e3o da Cruz pegou no mais sublime poema de amor que a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica lhe oferecia (o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos) e cujo sentido a tradi\u00e7\u00e3o posterior j\u00e1 tinha divinizado e continuou o processo da diviniza\u00e7\u00e3o do seu sentido originariamente humano. Isto que ele fez com um poema da Humanidade (b\u00edblico) f\u00ea-lo igualmente com breves poemas espanh\u00f3is. Nessa refundi\u00e7\u00e3o da literatura profana ao plano religioso, o santo dinamizava \u2013 elevava ainda mais \u2013 o amor humano, mobilizando-o, numa tens\u00e3o positiva, para o amor divino. Com essa dinamiza\u00e7\u00e3o e transposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o beneficiava o divino; promovia o humano e o sentido do humano \u2013 tanto que, por exemplo no C\u00e2ntico Espiritual, n\u00e3o traduziu para o divino os nomes das personagens, n\u00e3o chamando Jesus ao Amado\u2026 Embora mantendo as mesmas palavras, o poema ficava carregado de espiritualidade e de m\u00edstica e de outros conte\u00fados: falava outra linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">A que se deve este fen\u00f3meno? Sendo inef\u00e1vel a experi\u00eancia m\u00edstica do amor de Deus para com os humanos, o m\u00edstico, para a comunicar, recorre a imagens, especialmente do amor humano. A poesia humana foi posta ao servi\u00e7o do amor divino: a partir do humano penetrava na esfera do divino, sem se fundir ou confundir com ela. Era remiss\u00e3o de tudo para Deus, visto pelo m\u00edstico a encher toda a vida humana; era tentativa de divinizar a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Nem vale a pena toldar este fen\u00f3meno liter\u00e1rio com a sombra do pl\u00e1gio. Na poesia \u00aba lo divino\u00bb, nos s\u00e9culos XV-XVII, n\u00e3o podia existir a no\u00e7\u00e3o de pl\u00e1gio: a inten\u00e7\u00e3o era a de oferecer mais um ramo de flores ao divino, pessoal. Se fosse pl\u00e1gio, o poeta plagiaria a partir de quem? \u00c9 que, pela mesma raz\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o existia propriedade liter\u00e1ria: o poema que se oferecia ao poeta dava-se como anterior a ele, inserido na vaga po\u00e9tica que se fundia no largo rio da an\u00f3nima tradi\u00e7\u00e3o e da espiritualidade, heran\u00e7a humana que corria para o mar do divino; era a f\u00e9 em onda de transmiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Em breve havemos de sentir o perfume de uma poesia \u00aba lo divino\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Jo\u00e3o da Cruz, poeta \u00aba lo divino\u00bb Em que poeta, por original que seja, n\u00e3o concorrem v\u00e1rias influ\u00eancias liter\u00e1rias? 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